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terça-feira, 13 de junho de 2017

A descoberta de jazidas auríferas não enriqueceu os bandeirantes paulistas

Casa do ciclo bandeirante em Santana de Parnaíba (SP), localidade em que nasceu
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera

Pode parecer absurdo, mas é fato: bandeirantes paulistas, como regra geral, não enriqueceram com a descoberta de jazidas auríferas, e tampouco deixaram herança considerável para seus descendentes. Escrevendo em fins do Século XVIII (portanto, mais ou menos cem anos após os primeiros achados significativos), o astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida observou que os bandeirantes, “entranhando-se por aqueles imensos sertões sem outra bagagem mais que a pólvora e a bala, sem outro rumo mais que o do acaso, [descobriram] neles todas as minas de ouro e pedrarias que possuímos, e que tanto têm enriquecido aos seus posteriores, ficando eles e seus descendentes pobres". (¹)
Os paulistas descobridores de minas não recebiam qualquer ajuda da Coroa para seus empreendimentos; ao contrário, muitos deles consumiam o patrimônio em tentativas de atender às solicitações reais, cuja Real Fazenda se achava sempre em má situação. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, assinalou que "Fernão Dias Paes não teve um só real de ajuda de custo, como do mesmo modo não tiveram os mais paulistas descobridores das Minas Gerais, do Cuiabá e dos Goiases [...]." Esse fato, aliado às magras recompensas que recebiam pelos serviços prestados (²), explica, em parte, a razão pela qual os descobridores de ouro e pedras preciosas não se tornaram economicamente poderosos. Alguns chegaram a ter prejuízo considerável.
É possível, leitores, que o maior ícone bandeirante na procura do ouro seja Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, descobridor das minas de Goiás na primeira metade do Século XVIII. Pois bem, o brigadeiro Cunha Matos, que esteve em Goiás pouco depois da Independência (³), teve ocasião de encontrar descendentes do famoso explorador - um rapaz de quatorze anos e duas moças, uma com dezenove e outra com vinte e cinco anos - vivendo, os três, em uma modesta casinha nas proximidades do rio Corumbá. Sobre as moças, observou:
"Apareceram-me pobre mas decentemente vestidas, e ainda que mui acanhadas, inculcam nobreza de alma, sobretudo na resignação com que suportam a quase indigência em que se acham. Assim vivem os descendentes do ramo principal dos Anhangueras! [...] Assim vivem, faltas de todas as comodidades, as bisnetas do célebre Bartolomeu Bueno, conquistador e povoador de Goiás, que regurgitando em ouro, morreu em miséria, e cuja consorte foi obrigada a vender todas as suas joias e escravos para pagar vinte mil cruzados, que se lhe adiantaram pelo Cofre da Fazenda Real! Sic transit gloria mundi!" (⁴)
E quanto ao menino:
"O irmão é um galante moço sem educação: na sua quase miséria comporta-se como um plebeu honesto, sem, todavia, se esquecer de que é fidalgo, e príncipe dos fidalgos de Goiás." (⁵)
A riqueza do ouro fora passageira, tanto para indivíduos como para as localidades nascidas com a mineração. Aos leitores que se condoeram diante da pobreza da família Bueno, informo que, para remediar a situação, o presidente da Província de Goiás tornou-os administradores da passagem do rio Corumbá; por iniciativa do Brigadeiro Cunha Matos, o jovem Bueno foi admitido como tenente de Caçadores, posto que lhe assegurou um soldo.

(1) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 87.
(2) Quando chegava a haver alguma recompensa.
(3) Cerca de um século após os descobrimentos do Anhanguera.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás, Tomo I. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 114.
(5) Ibid., p. 115.


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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A lenda da Serra dos Martírios

É difícil determinar com exatidão quando nasceu a lenda relativa à "Serra dos Martírios", mas há quem defenda a ideia de que Bartolomeu Bueno da Silva, o famoso bandeirante conhecido como Anhanguera, afirmava tê-la avistado quando, ainda na infância, fizera parte de uma bandeira comandada por seu pai. Durante uma tempestade horrenda, os homens, apavorados, teriam encontrado abrigo em um lugar de onde se descortinava uma serra, no topo da qual, resplandecendo ao fulgor dos relâmpagos, podiam ser vistos, moldados no mais fino ouro, os instrumentos da crucifixão de Jesus: a coroa de espinhos, os pregos e, naturalmente, a própria cruz. Portanto, sob a perspectiva dessa lenda, as expedições que levaram Bartolomeu Bueno, já homem feito, a descobrir o ouro de Goiás, seriam apenas o resultado de sua obsessão por rever os Martírios e a serra riquíssima em metais preciosos que julgava estar em sua base. 
Ora, meus leitores, podemos já fazer algumas considerações. Primeiro, não é inconcebível que a gente religiosa (à própria moda, é certo) dos Séculos XVII e XVIII desse asas à imaginação, interpretando à luz de suas fantasias qualquer simulacro que avistasse à distância, mesmo que embaçado por uma chuva intensa. Quem conhece o relevo do Centro-Oeste brasileiro sabe muito bem da existência de formações que, à semelhança das figuras que supomos ver nas nuvens, podem ser comparadas àquilo que se quiser. Aqueles eram tempos de misticismo, e mesmo indivíduos com um currículo de maldades notável, como tinham quase todos os bandeirantes, achavam-se algo predestinados à descoberta de riquezas incalculáveis para si mesmos e para as cabeças coroadas do Reino. Fama, glória, honra, ouro, ouro, ouro... 
Demais disto, é inegável que na lenda dos Martírios há uns resquícios das lendas medievais relacionadas à procura do Santo Graal. Velhas tradições amalgamavam-se ao desejo irreprimível de encontrar metais preciosos.
O que teria feito Bartolomeu Bueno, ou qualquer outro bandeirante, com coroa de espinhos, pregos e cruz em ouro maciço se os houvessem encontrado? Bem, jamais saberemos a resposta, porque, como é óbvio, a lendária Serra dos Martírios nunca foi localizada. Curioso é que, mesmo no Século XIX, ainda houvesse gente à sua procura. Hércules Florence, desenhista francês que participou da Expedição Langsdorff (¹), escreveu em seus registros de viagem:
"Uns seis anos atrás subira um padre chamado Lopes esse rio (²) à procura de uma pretensa serra denominada Os Martírios, vista, por antigos sertanistas que a proclamavam a mais rica em ouro de todo o Brasil. Ora, se serra existe, de longe há de ser avistada e nessa ninguém pôs os olhos: o padre Lopes, intrépido explorador, debalde a procurou. [...] Depois de sofrer fome, perder gente em combate, de febres e por deserção de vários [...], teve que retrogradar." (³)
Com o tempo, até os mais crédulos entenderam que a existência da Serra dos Martírios não passava de uma lenda, que nem poderia ser rotulada de piedosa. Sim, na aparência tinha uns traços de religiosidade, mas quem arriscava a própria carcaça indo à sua procura, tinha, quase sempre, interesses bem pouco devotos.

(1) A viagem completa da Expedição ocorreu entre 1825 e 1829.
(2) Rio dos Peixes.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 221.


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