É difícil determinar com exatidão quando nasceu a lenda relativa à "Serra dos Martírios", mas há quem defenda a ideia de que Bartolomeu Bueno da Silva, o famoso bandeirante conhecido como Anhanguera, afirmava tê-la avistado quando, ainda na infância, fizera parte de uma bandeira comandada por seu pai. Durante uma tempestade horrenda, os homens, apavorados, teriam encontrado abrigo em um lugar de onde se descortinava uma serra, no topo da qual, resplandecendo ao fulgor dos relâmpagos, podiam ser vistos, moldados no mais fino ouro, os instrumentos da crucifixão de Jesus: a coroa de espinhos, os pregos e, naturalmente, a própria cruz. Portanto, sob a perspectiva dessa lenda, as expedições que levaram Bartolomeu Bueno, já homem feito, a descobrir o ouro de Goiás, seriam apenas o resultado de sua obsessão por rever os Martírios e a serra riquíssima em metais preciosos que julgava estar em sua base.
Ora, meus leitores, podemos já fazer algumas considerações. Primeiro, não é inconcebível que a gente religiosa (à própria moda, é certo) dos Séculos XVII e XVIII desse asas à imaginação, interpretando à luz de suas fantasias qualquer simulacro que avistasse à distância, mesmo que embaçado por uma chuva intensa. Quem conhece o relevo do Centro-Oeste brasileiro sabe muito bem da existência de formações que, à semelhança das figuras que supomos ver nas nuvens, podem ser comparadas àquilo que se quiser. Aqueles eram tempos de misticismo, e mesmo indivíduos com um currículo de maldades notável, como tinham quase todos os bandeirantes, achavam-se algo predestinados à descoberta de riquezas incalculáveis para si mesmos e para as cabeças coroadas do Reino. Fama, glória, honra, ouro, ouro, ouro...
Demais disto, é inegável que na lenda dos Martírios há uns resquícios das lendas medievais relacionadas à procura do Santo Graal. Velhas tradições amalgamavam-se ao desejo irreprimível de encontrar metais preciosos.
O que teria feito Bartolomeu Bueno, ou qualquer outro bandeirante, com coroa de espinhos, pregos e cruz em ouro maciço se os houvessem encontrado? Bem, jamais saberemos a resposta, porque, como é óbvio, a lendária Serra dos Martírios nunca foi localizada. Curioso é que, mesmo no Século XIX, ainda houvesse gente à sua procura. Hércules Florence, desenhista francês que participou da Expedição Langsdorff (¹), escreveu em seus registros de viagem:
"Uns seis anos atrás subira um padre chamado Lopes esse rio (²) à procura de uma pretensa serra denominada Os Martírios, vista, por antigos sertanistas que a proclamavam a mais rica em ouro de todo o Brasil. Ora, se serra existe, de longe há de ser avistada e nessa ninguém pôs os olhos: o padre Lopes, intrépido explorador, debalde a procurou. [...] Depois de sofrer fome, perder gente em combate, de febres e por deserção de vários [...], teve que retrogradar." (³)
Com o tempo, até os mais crédulos entenderam que a existência da Serra dos Martírios não passava de uma lenda, que nem poderia ser rotulada de piedosa. Sim, na aparência tinha uns traços de religiosidade, mas quem arriscava a própria carcaça indo à sua procura, tinha, quase sempre, interesses bem pouco devotos.
(1) A viagem completa da Expedição ocorreu entre 1825 e 1829.
(2) Rio dos Peixes.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 221.
Veja também: