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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Bem-te-vi!

Bem-te-vis, entre outras aves, em ilustração do final
do Século XIX, com desenhos de Ernesto Lohse (³)
Bem-te-vi é uma avezinha nativa do Continente Americano, cujo canto pode parecer alegre, até divertido, ou extremamente irritante - tudo depende do estado de espírito de quem o ouve. 
Nuno Marques Pereira, autor do primeiro best-seller brasileiro, o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, devia, pois, estar profundamente feliz quando escreveu:

"Despertando o pitauá,
Com impulsos de rigor, 
Disse logo: bem te vi,
Deste lugar em que estou."
(¹)

Outro que se lembrou das façanhas do cantar do bem-te-vi foi Castro Alves (²), poeta cuja obra está bastante ligada às questões abolicionistas. Estes versos pertencem ao poema A Cachoeira de Paulo Afonso:

"Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!"

Já Lima Barreto, desta vez em prosa, escreveu, em O Triste Fim de Policarpo Quaresma:

"O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi!"

Resta observar que a impressão de que o pássaro seja algo dado à intriga e à fofoca é coisa de humanos, não de aves - só diz "bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi", porque assim nos parece ou queremos entender. Podia ser outra palavra ou expressão que soasse, aos nossos ouvidos, como coisa conhecida. Afinal, bem-te-vis não falam português.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 48.
(2) Castro Alves morreu muito jovem, coisa que em seu tempo não era incomum. Nascido em 1847, faleceu em 1871. Envolvido com a campanha abolicionista, acabou conhecido como "o poeta dos escravos". 
(3) GOELDI, Emílio A. (org.). Álbum de Aves Amazônicas. Rio de Janeiro: Livraria Clássica de Alves e Cie., 1900, p. 34.


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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Dias de folga para os escravos

Senhores deviam, obrigatoriamente, dispensar os escravos do trabalho aos domingos e dias que, segundo a Igreja, eram considerados "santos" (¹). Ao menos nos tempos coloniais, a obrigatoriedade ficava apenas no papel. Não que houvesse muita preocupação em dar descanso aos escravos - a ideia, formalmente, é que as folgas servissem para práticas religiosas. Entretanto, colonizadores do Brasil, como regra geral, só eram muito devotos na aparênciaNo Compêndio Narrativo do Peregrino da América (²) encontramos um incidente (fictício, ao que parece, mas verossímil), que ilustra muito bem a questão de que estamos tratando:
"[...] Avistei doze escravos, entre machos e fêmeas, todos trabalhando em uma lavoura, na ocupação de cavar. Cheguei, saudei-os e lhes perguntei se era dia santo, ao que me responderam que bem sabiam que não era dia de trabalho, porém que seu senhor os mandara para aquele serviço, e lhes dizia que se comiam naqueles dias, também haviam de trabalhar; e se algum o repugnava fazer, o castigava, e porque eram cativos, não queriam experimentar maior rigor, por serem pretos, pobres, humildes e desamparados por sua grande miséria [sic]." (³)
Deixando de lado o conselho dado aos escravos pelo Peregrino da América, de que parassem de trabalhar, ainda que sob o chicote do feitor ou do senhor, porque isso lhes daria maior mérito diante de Deus (!!!), passemos da literatura para casos concretos, preservados no registro de confissões feitas durante a  Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil. Por esses registros é fácil verificar que deixar de dar folga aos escravos nas ocasiões estipuladas pela Igreja era hábito corrente entre os senhores de engenho. Em 23 de janeiro de 1592, Antônio de Meira, do Recôncavo, "confessou que as negras de sua casa, cristãs Margarida e Antônia, brasílias, (⁴) alguns domingos e dias santos trabalham fiando e fazendo anastros, não lho estorvando ele" (⁵). Seria mais honesto, talvez, se admitisse que não era por vontade própria que as escravas trabalhavam, sendo, antes, obrigadas a isso.
Outro, também do Recôncavo, que apareceu diante do inquisidor para confissão, foi João Remirão, senhor de engenho, que "confessou que haverá seis anos que reside e governa [...] seu engenho, e sempre em todos os domingos e [dias] santos, moendo o engenho depois do sol posto, mandou e consente mandarem seus feitores lançar a moer o engenho e carretar carradas de lenha e canas, e fazer o mais serviço pertencente à moenda nos ditos domingos e [dias] santos, como se foram dias de semana, e também nos ditos domingos e [dias] santos, ainda pelas manhãs ante missa, manda carretar carradas de açúcar ao porto, e isto mesmo de moer e carretar nos ditos dias vê ele que usam e costumam geralmente nesta capitania todos os senhores e feitores de engenhos, sem exceção, e também muitos lavradores" (⁶).
Fica evidente, portanto, um conflito de interesses: de um lado a Igreja, através de seu representante, o inquisidor, insiste em disciplinar a vida quotidiana na Colônia, sob as mesmas normas que regem a conduta de quem vive no Reino; de outra parte, a exploração colonial, cuja lucratividade, que tanto interessa à Metrópole, não tolera suscetibilidades religiosas, que se entremetam na rotina de um engenho, no qual qualquer interrupção do trabalho resulta em redução nos ganhos. Não é difícil imaginar que, tão pronto a Inquisição virou as costas, tudo voltou a ser como sempre fora nos engenhos, ainda que, por medo ou respeito, alguma mudança, apenas temporária, tenha se efetuado, enquanto a incômoda Visitação não se punha a caminho.
Mais uma confissão, apenas para confirmar tudo o que já foi dito. Outro senhor de engenho, Nuno Fernandes, que se declarou cristão-novo, compareceu diante do visitador em 9 de fevereiro de 1592, e disse que, à semelhança de muitos outros, também mandava os escravos ao trabalho, sem qualquer interrupção nas tarefas: "manda também aos domingos e [dias] santos trabalhar aos seus a cortar embira para atar a cana e a carregar a barca, nos tempos de necessidade, porque vê que assim o costumam fazer geralmente nesta terra" (⁷). A responsabilidade era posta sobre o coletivo, enquanto o indivíduo tentava se safar.
Com o passar do tempo, os costumes, para bem ou para mal, sofreram mudanças. Sabe-se que em áreas de mineração era comum que fosse atribuída uma tarefa aos escravos que, se cumprida com antecedência, possibilitava algum tempo livre. Além disso, a mineração levou à formação de uma sociedade urbana, na qual a vida diária passava por maior vigilância. Escravos ainda eram escravos, mas podiam ter suas próprias confrarias e, em consequência, igrejas e capelas também próprias. Quanto aos que eram escravos em fazendas no Século XIX, particularmente nas Províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo, tornou-se um hábito respeitar "religiosamente" a folga semanal dos escravos aos domingos. O motivo é que nada tinha de piedoso: neste dia os escravos trabalhavam "livremente" em pequenos lotes, nos quais cultivavam gêneros alimentícios para consumo próprio e, em caso de excedente, para venda. Esses magros recursos eram, quase sempre, usados na compra de alguma peça de vestuário. Tudo muito interessante para os senhores, é claro.

(1) Como era o caso da Sexta-feira Santa e do Natal, por exemplo.
(2) Um clássico da literatura colonial, mesmo que pareça estranho haver tal coisa em um país em que quase toda a população era formada por analfabetos convictos.
(3) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 151.
(4) Neste caso, a palavra "negras" é usada como sinônimo de escravas, visto que as pessoas mencionadas são descritas como "brasílias", ou seja, indígenas.
(5) MENDONÇA, Heitor Furtado de. Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil. São Paulo: _____, 1922, p. 154.
(6) Ibid., p. 190.

sexta-feira, 20 de março de 2015

A catequese como justificativa para a escravidão no Brasil Colonial

Um argumento recorrente para justificar a escravidão de africanos no Brasil Colonial era de que, vindo à América, os escravizados seriam mais facilmente doutrinados na fé cristã (!!!). Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra de grande sucesso no Século XVIII, declarou, sem rodeios:
"E também permite sua divina misericórdia que muitos destes gentios sejam trazidos às terras dos católicos para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais." (¹) 
Essa ideia, hoje, pode parecer absurda - colocava-se em Deus a responsabilidade pela escravidão - mas é fato que foi amplamente empregada, até mesmo por religiosos, e, portanto, não era coisa apenas de escravocratas que queriam acalmar a consciência, até porque os proprietários de escravos não tinham por costume ver algo de errado na apropriação do trabalho de um ser humano por outro. Para eles, escravos eram sua propriedade, e nada mais. 
Era obrigação dos senhores providenciar assistência religiosa para seus escravos, mas a maioria não tomava qualquer atitude nesse sentido. Até mesmo o dever (imposto pela Igreja) de conceder descanso aos escravos nos domingos e feriados religiosos era desconsiderado. Afinal, não havia qualquer fiscalização e, pensava-se, escravos existiam para trabalhar.
No começo do Século XVIII Antonil observou:
"Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus escravos, que os têm por muito tempo no canavial ou no engenho sem batismo." (²) 
Entende-se que Antonil, ele próprio um jesuíta, escandalizava-se com o pouco caso dos senhores em questões de fé. E acrescentava, recordando aos poderosos que de tudo dariam conta no Juízo Final:
"Dizem os senhores que estes [os escravos] não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez mandamentos; tudo por falta de ensino e por não considerarem a conta grande que de tudo isto hão de dar a Deus, pois (como diz São Paulo), sendo cristãos e descuidando-se de seus escravos, se hão com eles pior do que se fossem infiéis." (³)
O tempo evidenciava que o tal argumento da catequese para justificar a escravidão não passava de um embuste, a tal ponto que, já no Século XIX, o padre Ayres de Casal viria a afirmar que, ao contrário do que geralmente se aceitava, a escravidão era, sim, um impedimento à propagação da fé cristã:
"Convém-se que esta gente é um mal moral, um obstáculo ao aumento da população branca, e que enquanto escravos, não podem ser bons cristãos, nem vassalos fiéis." (⁴)
Deixando de lado o quanto o dizer de Ayres de Casal soa preconceituoso a um leitor do Século XXI, vale notar que, em seu tempo, já se levantava o argumento de que a escravidão não era somente um impedimento à religião. Tornava também impossível que a população cativa pudesse servir aos interesses do rei.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 119.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 25.
(3) Ibid.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 60.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Conselhos para quem vinha colonizar o Brasil

A gente que vinha ao Brasil, durante o processo a que chamamos colonização, vinha pelas mais diversas razões. Vinha quem queria enriquecer o mais rápido possível, pensando em retornar logo a Portugal; vinha quem devia cumprir funções administrativas em algum cargo para o qual recebera nomeação; vinham os jesuítas, com propósitos relacionados à catequese dos povos indígenas; vinham os condenados ao degredo no Brasil, em razão de crimes cometidos no Reino; vinham, finalmente, os que buscavam aventuras, cuja personalidade os movia a buscar o desconhecido e investigar o mundo.
Mas, fossem quem fossem esses colonizadores, a vida, no Brasil, não lhes seria nada fácil. Assim, Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra que fez muito sucesso no Brasil do Século XVIII, tinha lá seus conselhos para os que vinham à colônia portuguesa na América do Sul. E, o primeiro deles, era que a jornada não deveria ser apenas com a meta de enriquecimento fácil - devia ser o que poderíamos chamar de "jornada espiritual". Quanto idealismo...
Escreveu ele:
"Porém há de ser com tenção de não mudar só de lugar, senão também de costumes, porque é certo que quem peregrina acompanhado de seus vícios, mais valera não haver saído, pois tornará mais perdido que aproveitado, porque as enfermidades da alma não se curam com a mudança do lugar." (¹)
No entanto, não parou aí o aconselhamento. Era preciso, também, vir com a disposição de adaptar-se à nova vida. Uma orientação sábia, certamente:
"O peregrino vai por onde há de achar cada dia novos costumes, e os deve seguir e aprovar, e não repreendê-los; pois é mais razão acomodar-se ao uso da terra que pretender e querer trazer os mais ao costume de sua pátria. Há de considerar que vai obedecer às leis que achar estabelecidas, e não a dar regra aos mais, e que vai aprender, e não ensinar." (²)
E conclui, a título de estímulo ao peregrino/colonizador neófito:
"E peregrinando assim, se qualificará em um perfeito herói." (³)

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 6.
(2) Ibid., pp. 6 e 7.
(3) Ibid., p. 7.


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domingo, 8 de dezembro de 2013

Perucas e penteados exagerados do Século XVIII

O pequeno Wolfgang A. Mozart, ao visitar Paris em 1763 para concertos com o pai e a irmã, observou, com espanto, e a despeito de sua pouca idade (¹), que a moda para cabelos era lá, então, sobremodo exagerada. Em carta à mãe, descreveu os penteados das parisienses como uma verdadeira indecência.
Seria isso coisa de menino educado em costumes muito severos? Talvez não.
Alguns exemplos de cabeleiras exageradas
do Século XVIII (⁵)
No Século XVIII estava no auge a moda de perucas (²) e arranjos exóticos para cabelos. Mesmo gente séria e importante não ousava aparecer para compromissos públicos sem passar um bom tempo sob os cuidados de um cabeleireiro experiente. O próprio Mozart acabou por adotar essa prática quando, já adulto, deixou definitivamente a sua Salzburg, para residir em Viena.
No Brasil, as perucas também andavam na moda, e mesmo oficiais militares as usavam - pode-se dizer que se esperava que o fizessem, ainda que com alguma moderação. Não quer dizer, no entanto, que não se ouvissem vozes discordantes. Nuno Marques Pereira, em O Peregrino da América, observou:
"E vede agora, como poderão estes tais ser ligeiros soldados e destros guerreiros, vivendo com tantos melindres e resguardos. Porém nasce esta desgraça, sem dúvida, por andarem os portugueses cegos e presos pelos cabelos, pelas mãos das mais nações. A este respeito vos contarei o que vi, sendo bem rapaz, trazerem as mulheres por enfeites e toucados nas cabeças, e vinha a ser que se usava naqueles tempos uma moda que chamavam patas, feitas também de cabelos, porém presos em arames. Foi crescendo tanto a demasiada moda e com tão supérfluo custo, que havia patas que custavam vinte, trinta, quarenta e cinquenta mil réis, e tão disformes que, para poder entrar uma mulher com este enfeite nas igrejas, era necessário que estivessem as portas desimpedidas de gente. Vieram depois a chamar a este uso desenganos. Correram os anos, até que se desenganaram de sorte (com serem mulheres) que lançaram as patas fora de si, e nem por isso ficaram feias." (³)
Não contente em criticar os penteados das mulheres, passou o mesmo autor a fazer suas considerações sobre as perucas usadas pelos homens:
Mais alguns exemplos, leitores. Qual é o favorito? (⁶)
"Assim também é justo que suceda agora aos homens com a presente moda, ou abuso das cabeleiras, de que falamos. No princípio chamavam aos cabelos postiços, cabeleiras; agora chamam-lhes perucas, devendo chamar-lhes Speluncas, que em latim quer dizer cova de ladrões, porque com elas roubam os estrangeiros o dinheiro daqueles que lhas compram para se enfeitarem. Melhor dissera para se sujarem, porque antes destas modas estrangeiras, vestiam-se os portugueses para andarem limpos, e hoje vestem-se para se sujarem. E isto com tanto custo e dispêndio, que bem se poderia escusar, como dantes se escusava, e nem por isso deixavam de ser mui prezados, estimados e talvez que mais livres de tantas ofensas contra Deus." (⁴)
Difícil é crer que apenas a mania das perucas pudesse acarretar a ruína econômica de uma nação...
Como todas as modas, as perucas "obrigatórias" saíram de cena e, curiosamente, para não mais voltar, embora ainda tenham permanecido em uso em uns poucos lugares para fins bastante restritos, que mais parecem um incentivo ao turismo aliado a um certo gosto pelas tradições. Bem, ainda vigoram, por suposto, em filmes de época e, vez por outra, no carnaval. Já os penteados exóticos, ao menos para mulheres, fazem uma ou outra aparição de vez em quando, sem terem, para bem ou para mal, as dimensões daqueles do Século XVIII.

(1) Nasceu em 1756.
(2) Não se discutem aqui, evidentemente, as perucas usadas por pessoas que não têm cabelos ou que desejam uma aparência diferente de vez em quando. Fala-se das perucas enormes, geralmente brancas para homens e às vezes coloridas de rosa, azul, lilás, etc., para mulheres, que estavam em uso no Século XVIII. As ilustrações desta postagem dão ótimos exemplos.
(3) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 434 e 435.
(4) Ibid., p. 435.
(5) RIMMEL, Eugene. The Book of Perfumes 5ª ed. London: Chapman and Hall, 1867, p. 220.
(6) Ibid., p. 221.


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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Fraudes e corrupção nos tempos coloniais - Parte 4

Pouca (ou nenhuma) honestidade nos pesos e medidas


Hoje voltamos ao Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, para mais alguns relatos de fraudes correntes no Brasil Colonial. Era nas "vendas", os armazéns da época, que muitos enganos se praticavam, sendo os mais comuns relacionados à pouca honestidade nos pesos e medidas (ainda que as Ordenações do Reino fossem severas a esse respeito) e, muito usualmente, no misturar água a bebidas, como se vê neste trecho do autor e obra citados:
"Ouvi então perguntar o vendeiro a um seu escravo, quanto tinha feito aquele dia em dinheiro. Respondeu-lhe o escravo que quatro mil réis. Pouco fizestes a respeito dos mais dias, lhe disse o vendeiro. E assim mais lhe perguntou quanta água deitara no vinho e nas mais bebidas. Disse-lhe o escravo que no vinho deitara duas canadas de água, e no vinagre, três, e que também caldeara a aguardente do Reino com a da terra. E logo lhe perguntou mais o vendeiro se calcara com os dedos o fundo da medida de folha de flandres em que se media o azeite, porque fazendo cova pela parte de fora no meio da medida, com o peso do liquor se derrama, e parece ao que compra que está cheia. E finalmente lhe perguntou se lançara o vinho de alto na medida, para se derramar, e parecer que estava cheia. Tudo fiz, senhor, como vossa mercê me tem ensinado, lhe disse o escravo. Pois assim hás de fazer, lhe disse o vendeiro, porque nestas casas quem dá o seu a seu dono, fica sem coisa alguma." (¹)
Depois desse autêntico manual de fraude nos negócios, vale lembrar que era atribuição dos vereadores de uma localidade, segundo as Ordenações, a fiscalização dos preços e fornecimento de alimentos na área sob sua jurisdição. (²) Para ilustrar o funcionamento dessa disposição, diga-se que em São Paulo, nos anos de 1623 e 1627, precisou a Câmara interferir para garantir que o pão vendido ao povo tivesse um peso razoável, e como medida extrema, em 1631, recorreu à fintação do trigo (³) para assegurar o abastecimento, segundo conta Affonso de E. Taunay:
"...Precisou a Câmara de 1631 recorrer ao expediente violento da "fintação de seiscentos alqueires de trigo, para sustento do povo, entre os principais lavradores"." (⁴)
É quase desnecessário afirmar que, quanto ao vinho (tão prezado pelos colonizadores, já saudosos do Reino) e demais mercadorias, as coisas corriam mais ou menos da mesma maneira. Para cada infração às leis devidamente notada e punida, havia uma infinidade de outras, que escapavam ao alcance das autoridades ou para as quais simplesmente se faziam "vistas grossas", no dizer popular.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 266 e 267.
(2) Ver, por exemplo, o Livro Primeiro, Título LXVI, § 8.
(3) Estabelecia-se uma quantidade e os produtores eram obrigados a contribuir com sua parte, a título de imposto.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História da Cidade de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 104.


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domingo, 19 de maio de 2013

Fraudes e corrupção nos tempos coloniais - Parte 3

Estupendas usuras nos mercados...


Gregório de Matos invectivou em seus versos, no século XVII, a condição em que via a cidade do Salvador, capital da Bahia, e também, durante bom tempo, do Brasil. Escreveu, por exemplo:

"Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?"

Ou então:

"...que ande pois a fidalguia
vendida assim por dinheiro,
só porque há nisso vanglória!
Boa história."

São mais famosos, talvez, os versos abaixo, e os que, por hora, mais nos interessam:

"Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
E eis aqui a cidade da Bahia."

Falemos, pois, da usura.
Frei Vicente do Salvador (¹), na primeira metade do século XVII, explicava que os traficantes de escravos que vinham à Bahia oferecer sua "mercadoria" aos senhores, principalmente aos que tinham engenhos, jamais aceitavam fazer negócios à vista, Estranho? Não, facílimo de explicar: é que os juros pelas compras a prazo, eram de... 100% ao ano:
"... se vale um escravo vinte mil réis pago logo, o dão fiado por um ano por quarenta, e o que mais é que por isso o não querem já vender a dinheiro de contado, senão fiado, e não há quem por isto olhe."
Outro que observou a malfadada prática da usura que se fazia na Bahia, escrevendo um século mais tarde, foi Nuno Marques Pereira, o autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, livro famoso nos tempos setecentistas. Em sua narrativa, coloca estas palavras na boca de um vendeiro, que parece estar arrependido de suas más práticas, pelos bons conselhos do "Peregrino":
"Na verdade, senhor, me disse o vendeiro, que não sei com que palavras vos signifique o quanto vos estou obrigado. Agora conheço que estou no inferno pelos grandes pecados que neste particular tenho cometido. Porque não só roubei a este povo com a venda, mas também pelo negócio de usuras no dinheiro que dei a alguns homens, que mo pediram por empréstimo, com a condição de vinte e de trinta por cento, ficando-me penhores em meu poder." (²)
Desnecessário é dizer que essa história termina com o "Peregrino" recomendando ao vendeiro que, tal qual Zaqueu, o publicano, mencionado no Evangelho Segundo S. Lucas, trate de colocar a vida em ordem, pela devolução do que seria produto de fraude. Há que se observar, no entanto, que o tal vendeiro até era modesto nos juros exigidos, se comparados aos que se extorquiam  no infame negócio dos seres humanos escravizados.
Ora, alguém dirá, a Bahia dos tempos coloniais era mesmo um mar de corrupção!
A Bahia? Meus leitores devem lembrar-se de que Salvador era a cidade mais importante no Brasil da época, e era nela que vivia a maioria das pessoas em condições de escrever e analisar a vida ao seu redor, daí termos testemunhos em maior número sobre as falcatruas que aí se praticavam do que sobre as de outros lugares. É só isso. A verdade é que em quase toda a Colônia as práticas escusas nos negócios eram, no mínimo, muito frequentes. Na próxima postagem trataremos mais disto.

Vista da Cidade de Salvador nos tempos coloniais (³)

(1) História do Brasil c. 1627.
(2) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 276.
(3) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837.


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domingo, 28 de abril de 2013

Consequências ruins da mineração no Brasil Colonial

É notável o fato de que, desde que começaram a colonizar o Brasil, tudo o que portugueses mais desejavam era encontrar jazidas de metais preciosos, de modo a dar alívio à empobrecida Coroa lusitana. O ouro, porém, demorou a aparecer (ou melhor, a ser encontrado). As "minas" trabalhadas desde fins do século XVI até meados do XVII proporcionavam magros resultados. No entanto, quando finalmente jazidas de real importância foram encontradas, as consequências que se apresentaram não foram, em sua totalidade, favoráveis aos colonos.
Uma dessas consequências foi, sem dúvida, uma elevação geral nos preços das mercadorias na Colônia, e não apenas nas regiões mineradoras. Antonil, por exemplo, refere em sua notável obra Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas:
"Mas o ter crescido tanto nestes anos o preço do cobre, ferro e pano e do mais de que necessitam os engenhos, e particularmente o valor dos escravos, que os não querem largar por menos de cem mil réis, valendo antes quarenta, e cinquenta mil réis os melhores, é a principal causa de haver subido tanto  o açúcar [...], depois de descobertas as minas de ouro, que serviram para enriquecer a poucos e para destruir a muitos [...]." (¹)
São Paulo, povoação ainda pequena, na época, sofreu muito com isso: de economia agrícola, tocada à base da mão de obra de indígenas escravizados, viu-se em penúria face à alta nos preços dos gêneros mais indispensáveis. Afinal, tudo o que se produzia destinava-se a abastecer as Minas, nas quais alimentos, vestuário, escravos, eram comprados e vendidos, literalmente, a peso de ouro. Quem iria querer comerciar a preços módicos em qualquer outra localidade? (²)
As migrações em massa constituíram-se em outra pesada consequência: esfomeados por ouro arriscavam tudo, das posses à vida, na esperança de ficarem ricos. Vinha gente do Reino, vinham estrangeiros (ainda que fosse proibido), vinha gente de outros lugares do Brasil. Consequentemente, despovoavam-se as vilas, escasseavam os braços para a lavoura, diminuía a produção agrícola. Mais um elemento, portanto, para elevar os preços dos gêneros de subsistência.
"E para que não fique este Estado do Brasil sem algum exemplo dos muitos em que a soberba e as riquezas têm feito estragos, reparai e notai com atenção. Ide a Pernambuco, passai ao Rio de Janeiro, subi a São Paulo, entrai nesta Cidade (³), correi estas vilas e seus recôncavos: vereis a quantos tem a soberba e os interesses feito notáveis destroços. A uns, arrimar bastões, a outros, largar ginetes, a muitos, encostar bengalas, a alguns, deixar alabardas, e fugirem muitos soldados, despejar engenhos, desamparar fazendas. E se perguntardes a essas ruínas quem lhes causou tão lastimosos estragos, vos responderão em ecos essas arruinadas paredes e medonhas fornalhas dos engenhos que tudo lhes procedeu da soberba e demasiada ambição." (⁴)
Medidas adotadas com o fito de deter os deslocamentos populacionais fracassaram completamente. Como mais tarde escreveria Varnhagen: "Não há diques que valham contra estas ondas de gente, que vão com passaportes ou sem eles, onde o seu melhor-estar os chama." (⁵)
 
(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 95.
(3) Refere-se a Salvador, então chamada Cidade da Bahia.
(4) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 18.
(5) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 894.


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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Deslizes de alguns membros do clero colonial - Parte 2

 O voto de celibato nem sempre era respeitado


"Para o Cônego observante
todo o dia e toda a hora,
cuja carne é pecadora
das completas por diante"
(Gregório de Matos)


Tendo assumido um compromisso de celibato, muitos clérigos do Brasil Colonial passavam longe de suas obrigações; referindo-se à Cidade da Bahia (Salvador), pelos inícios do século XVIII, Varnhagen escreveu que "reinava na cidade certa libertinagem entre os próprios eclesiásticos." (¹)
Pois bem, há, a esse respeito, um relato no mínimo curioso que aparece no Compêndio Narrativo do Peregrino da América (obra de muito sucesso no século XVIII), que é útil, não só para exemplificar a questão, como também para dar uma ideia de como o descumprimento dos votos, por parte de religiosos, era visto na época. Teria ocorrido em Olinda:
"Nunca sucederia aquele tão lastimoso caso a certo eclesiástico desta América, há bem pouco tempo, se este fosse advertido de seus confessores e prelados. [...] Segundo uma carta, que ouvi ler, feita no ano de 1715, foi o caso na forma seguinte. Um sacerdote desta América estava publicamente concubinado com uma mulher, havia muitos anos, com grande escândalo de um povo inteiro, mas todos lhe dissimulavam esse pecado, ainda aqueles que o podiam emendar e repreender. Sucedeu, pois, que em uma noite, estando ele com a concubina em uma sacada das casas em que morava, para ver certo festejo que na rua se fazia, pegou o fogo em uns barris de pólvora, que estavam nas lojas das mesmas casas, e fez o incêndio voar o edifício, e do ar veio uma trave, que caiu sobre ambos, e os matou, ficando todos os mais, que junto deles estavam, livres do perigo. Notável caso [...] para exemplo de todos, e mui especialmente para os eclesiásticos, que sabendo o quanto devem ser espelhos da virtude, estão dando escândalo com o seu mau viver aos seculares." (²)
Em razão de casos como este é que o mesmo autor de O Peregrino da América, Nuno Marques Pereira, aconselhava às mulheres que viviam na Colônia:
"Fujam, quanto puderem, de ter trato ou familiaridade com pessoas eclesiásticas, porque suposto sejam comparadas com os anjos, tem sucedido muitas vezes, pelo caminho da virtude entrarem na estrada da maldade; e basta ter-lhes muito respeito de longe, porque também da terra se tem devoção com os anjos e santos do céu. Contentem-se com ouvi-los e vê-los nos altares, nos púlpitos e nos confessionários, que são os lugares em que os sacerdotes representam a Cristo. Vejam, que o demônio é como o ladrão: este furta nas estradas, aquele na ocasião." (³)

(1) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 867.
(2) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 112 e 113.
(3) Ibid., p. 327.


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domingo, 10 de junho de 2012

Colonos, funcionários públicos coloniais, baiacus

Que juízo fazia Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América (¹), a respeito de colonos que, vindo ao Brasil, alcançavam alguma posição, principalmente por ocupar cargo público?
Resposta simples: comparava-os a baiacus. O quê? Sim, a mesma irritação que demonstrava com padres que pouco caso faziam do sacerdócio (veja a postagem anterior) era também direcionada a tais colonos, embora dessa vez expressa com algum humor. Que, levado a sério, não tinha graça nenhuma.
O padre Nuno Marques Pereira começa por uma descrição dos baiacus, feita à moda da época e, por isso mesmo, com as limitações dos conhecimentos científicos que lhe eram disponíveis. Vejamos:
"São estes tais como uma casta de peixes que há neste Brasil, e lhes chamam baiacus, entre os quais há uns que têm espinhos. São estes peixes peçonhentíssimos, por terem no fel o mais refinado veneno que há no mundo, e que ainda que algumas pessoas os comem, é com muita cautela. Mas vamos à comparação. Costumam estes peixes, assim como os pescam e tiram da água, começarem a inchar, e fazem-se como bolas. Os de espinhos, não há quem pegue neles, pelo risco das agudas pontas. Incham de sorte que assim morrem às vezes dando um grande estouro. Ocupam-se estes peixes em mariscar pelas margens dos rios e mangais, e só quando se veem em terra é que incham."
Ora, dirão os leitores, e que é que isso tem a ver com os senhores colonos e funcionários públicos? A explicação não tarda:
"Assim são os baiacus humanos, ou desumanos: tanto que se veem nas praias e terra do Brasil, logo começam a inchar, e se lhes dão algum ofício ou posto, fazem-se baiacus de espinhos, não há quem se chegue junto deles. E se dizem a um destes: "Basta, Baiacu, porque podes rebentar", ou se lhes tocam, cada vez incha mais."
E o padre-escritor conclui:
"Bem sei que este exemplo ou moralidade é mui humilde, porém como é tão vulgar, cada qual o tome no sentido mais acomodativo." (²)
Em linguagem de hoje, talvez escrevesse: Que vista a carapuça aquele que a achar de bom tamanho.

O Autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América comparou colonos e
funcionários coloniais a baiacus... (³)

(1) Essa obra teve, ao longo do século XVIII, várias edições, sendo das mais lidas e admiradas no Brasil da época, conforme se explica na postagem "Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um best-seller do Brasil Colonial".
(2) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 20 e 21.
(3) Os baiacus desta postagem pertencem ao Museu do Mar, no Aquário Marinho de Ubatuba, SP. Se passar pelo Litoral Norte, não deixe de visitar.


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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um best-seller do Brasil Colonial

Dá para imaginar um best-seller no Brasil de população quase toda analfabeta do século XVIII? Pois houve, desde que respeitadas as proporções. O título era Compêndio Narrativo do Peregrino da América; seu autor, o padre Nuno Marques Pereira. Sobre esse padre-escritor, pouco se sabe. Pairam dúvidas até sobre sua origem, se de Portugal, se do Brasil. Já quanto ao conteúdo do livro, propunha-se, ao narrar o trajeto de um peregrino desde a Bahia até as minas de ouro, ir apresentando lições de caráter moral e religioso, na intenção de corrigir os péssimos costumes que, segundo o autor, eram amplamente seguidos no Brasil.
Para que os leitores deste blog possam fazer uma ideia da natureza do livro, selecionei alguns trechos (*) sobre três tópicos, que podem ser lidos logo abaixo.

Árvores frutíferas da América

"Comecei a seguir minha jornada por entre amenos campos e copados arvoredos, que com o brando terral faziam agitação às flores, que exalando fragrantes aromas me suavizavam o sentido do olfato; e para recreação da vista me lisonjeavam o sentido do ver tantas árvores floridas, sem mais cultura que a fábrica da natureza que as havia aperfeiçoado, e muitas com vistosos pomos, de que participei [...]."

Castigo de um avarento

"Sabei que o mísero não só nega a seu próximo o que lhe pede, mas também a si mesmo o de que necessita, porque em lhe faltando o que tem, não há quem dele se compadeça. Digo isto pelo que vi acontecer a um homem, que navegava em um seu barco das Vilas do Sul para a Cidade da Bahia. Costumava este entrar primeiro pela barra de Jaguaripe, quando levava na sua embarcação farinhas para vender na cidade, e por mais que lhe pedissem os moradores pobres daquele rio que lhes vendesse algumas para seu sustento, representando-lhe suas necessidades, nunca lhas queria vender. Sucedeu que vindo em certa ocasião entrando pela mesma barra, como esta é arriscada e de perigo, pelos bancos de areia que tem, deu o barco em cima de uma coroa. E como se visse naquele perigo, começou a bradar, e ainda que os que estavam em terra o ouviram, lhe não quiseram acudir, por saberem que era a embarcação daquele miserável, e ali se desfez e perdeu toda a carga que trazia."

Sobre o relaxamento na espiritualidade por parte do clero no Brasil

"Porque está hoje o mundo (e principalmente este Estado do Brasil) em tais termos, que mais parecem alguns sacerdotes mercadores-negociantes que Ministros de Deus e Curas de almas. E se não, vede o que está sucedendo nos tempos presentes. Propõe-se um clérigo a qualquer igreja, e a primeira coisa que procura é saber o quanto rende cada ano e o que tem de benesses, se são ricos os fregueses e se dão boas ofertas. Sendo que só deviam procurar se havia bons paramentos na igreja e se eram devotos e zelosos os fregueses de obrar bem no culto divino, e quando muito, saber se era sítio sadio e se havia bom passadio do sustento corporal."

É obra, vê-se, de religiosidade intensa mas algo ingênua; na linguagem, resvala com frequência nos exageros típicos do Barroco; o estilo é, muitas vezes, prolixo. Que haveria, pois, nesse livro, para alcançar sucessivas edições? Diante do número reduzido de leitores potenciais entre a população alfabetizada, presume-se que fosse lido em voz alta, para entretenimento também dos que ouviam, em muitas casas, à luz de velas ou de candeias a óleo de baleia, nas longas noites coloniais. Que fazia sua popularidade?
À parte o fato de que, por sua temática, devia eventualmente ser recomendado tanto do púlpito quanto do confessionário, tenho um palpite de que interessava aos leitores e ouvintes porque tratava de coisas do Brasil, não da Europa. Era a descrição da natureza exuberante, que conheciam muito bem, as questões políticas e sociais que pontuavam o quotidiano na Colônia, o relacionamento entre as várias camadas sociais, as questões ligadas aos direitos e obrigações de senhores e escravos, a vida na cidade da Bahia, com seus usos, costumes, (i)moralidade, burocracia, criminalidade, ao lado de vistosas festas religiosas, não exatamente favoráveis à introspecção que nosso padre-escritor propunha, mas que caíam facilmente no gosto da população, a exaltação à coragem e virtude de quem deixava Portugal para vir colonizar o Brasil. Contraditório? Talvez, mas quanto mais de contraditório não houve nos tempos da colonização?

(*) Seguiu-se a edição de 1731. Conforme é pratica neste blog, os trechos citados foram transcritos na ortografia atual.


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