Mostrando postagens com marcador Analfabetismo no Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Analfabetismo no Brasil. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Alfabetização de adultos no Brasil do Século XIX

O anúncio em si, que apareceu na edição de 1871 do Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro (¹), já seria interessante pelo que oferecia - em um país cuja população de analfabetos era algo entre 80 e 90%, um professor se dispunha a dar aulas noturnas para adultos que quisessem aprender a ler e escrever. Mais ainda, as aulas eram gratuitas. Não era só: segundo o mesmo anúncio, o professor fornecia todo o material necessário. Era isso na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Passa Três (²). O nome do anunciante era Francisco Melchior Gonçalves, professor público. 


Observem, leitores, que as aulas, uma iniciativa do professor e não do Estado, eram ministradas três vezes por semana, entre as 18 e as 20 horas. 
Sabe-se que esse dedicado alfabetizador não era o único a empreender a dificílima tarefa de ensinar adultos (há registros, em alguns lugares, de professores que admitiam até escravos nas aulas noturnas). Digo dificílima tarefa, sim, porque a maioria das pessoas que vivia em localidades rurais ou pequenas povoações achava que podia passar a vida comodamente, ainda que não tivesse nenhuma instrução. Como convencer gente assim a gastar as horas de descanso em estudos?
O fato é que, nas cidades, as coisas, de boa ou má vontade, logo iriam mudar. De trabalhadores urbanos seria gradualmente requerida alguma instrução, ainda que seja fato reconhecido que, nesse tempo, havia pessoas até nos altos cargos do Império (³) - grandes senhores rurais, em particular - em tão crasso analfabetismo quanto haviam chegado ao mundo. Percebe-se, então, que, como em muitos outros aspectos, a melhoria na instrução pública viria mais por pressão do desenvolvimento urbano e, com ele, da industrialização, com sua exigência por mão de obra capacitada, que propriamente por alguma brilhante iniciativa governamental. Surpreendente? Nem um pouco. A escolarização de crianças até avançou bastante no Século XIX, se comparada à existente nos tempos coloniais, mas estava ainda longe de alcançar um patamar aceitável. Como esperar, então, um panorama muito diferente quanto à educação de adultos?

(1) HARING, Carlos Guilherme. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1871. Rio de Janeiro: E & H Laemmert, 1871.
(2) Hoje, a localidade é distrito do município de Rio Claro, Estado do Rio de Janeiro.
(3) No Senado, por exemplo, que, diga-se de passagem, era vitalício. 


Veja também:

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Os jesuítas, o Colégio da Bahia e a instrução no Brasil Colonial

Ao empreenderem a catequese no Brasil, os primeiros jesuítas que vieram do Reino encontraram grandes dificuldades. Não tinham ainda na terra qualquer estabelecimento, desconheciam completamente a língua e a cultura da população nativa e alguns dos recém-chegados missionários acabaram por contrair doenças sérias.
Quem quer que leia o relato de Anchieta sobre as condições do primeiro colégio em Piratininga (São Paulo) facilmente perceberá que os padres, por vezes, viviam em grande penúria. É até surpreendente que alguns tenham escapado com vida em situações de confronto com indígenas. Fosse como fosse, porém, gradualmente a Companhia de Jesus chegou a lançar raízes na América, de modo que melhores casas para os religiosos foram estabelecidas, à medida que se firmava a reputação dos padres como educadores e catequistas. Alguns religiosos alcançaram ótima compreensão da “língua geral”, falada e entendida por indígenas do litoral, de modo que o ensino religioso podia ser feito mais facilmente. Chegou-se, na época, a haver publicação de gramática, esperando-se dos padres que se aplicassem em aprender o “grego da terra”, indispensável, por exemplo, para ouvir confissões dos que eram adicionados ao “grêmio da Igreja”.
Se devemos crer no que escreveu Gabriel Soares, antes mesmo do fim do Século XVI já os jesuítas viviam em boas condições na Bahia, pelo que se depreende deste relato, no qual descreve o Colégio que então tinham na primeira capital do Brasil:
"Tem este Colégio ordinariamente oitenta religiosos, que se ocupam em pregar e confessar alguma parte deles, outros ensinam latim, artes, teologia e casos de consciência, com o que tem feito muito fruto na terra; o qual está muito rico, porque tem de Sua Majestade cada ano quatro mil cruzados [...], e importar-lhe-á a outra renda que tem na terra outro tanto; porque tem muitos currais de vacas, onde se afirma que trazem mais de duas mil vacas de ventre, que nesta terra parem todos os anos, e tem outra muita granjearia de suas roças e fazendas onde tem todas as novidades dos mantimentos, que se na terra dão em muita abastança." (*)
Uma crítica que se faz aos jesuítas enquanto educadores é que seu currículo era demasiadamente teórico, enquanto o Brasil Colonial precisava desesperadamente de mestres de ofícios práticos; afinal, latim e teologia podiam ser úteis para formar novos religiosos segundo os valores europeus, embora fossem, talvez, menos urgentes na América. Meninos portugueses que iam aos colégios obtinham instrução que deveria ser completada na Europa, mas poucos teriam condições de fazê-lo. Ainda assim, há que se valorizar o trabalho dos jesuítas como alfabetizadores, mesmo que, pelo menos entre os brancos, tal obra se restringisse a crianças do sexo masculino. Com raríssimas exceções, as meninas brancas da colônia eram absolutamente ignorantes de tudo que não dissesse respeito aos rudimentos do catolicismo e aos trabalhos domésticos.
Diante disso, não faltou quem atribuísse o enorme desamor de muitos brasileiros às profissões manuais e/ou mecânicas à educação ministrada pelos jesuítas nos tempos coloniais. Mas já, aí, há um certo exagero. Essas deficiências de mentalidade podem ter (e quase sempre têm) origens remotas, mas nada as obriga à persistência, quando se sabe, conscientemente, que devem mudar, mesmo porque, tão forte quanto a valorização das chamadas “artes liberais”, no sentido de desestimular o interesse pelo trabalho manual, era o ininterrupto e eloquente discurso da escravidão, que berrava a todo homem livre que trabalho era coisa de escravo.
Quanto aos jesuítas, não levaria muito tempo para que seu número se tornasse insignificante diante do crescimento da população, espalhada, além disso, pelo enorme território da Colônia. Simplesmente não havia padres-professores suficientes para atender à instrução básica das crianças em todas as cidades e vilas. Não surpreende, pois, que o mais crasso analfabetismo imperasse, a ponto de ser difícil, até, nomear quem exercesse o cargo de escrivão.

(*) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 121.


Veja também:

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um best-seller do Brasil Colonial

Dá para imaginar um best-seller no Brasil de população quase toda analfabeta do século XVIII? Pois houve, desde que respeitadas as proporções. O título era Compêndio Narrativo do Peregrino da América; seu autor, o padre Nuno Marques Pereira. Sobre esse padre-escritor, pouco se sabe. Pairam dúvidas até sobre sua origem, se de Portugal, se do Brasil. Já quanto ao conteúdo do livro, propunha-se, ao narrar o trajeto de um peregrino desde a Bahia até as minas de ouro, ir apresentando lições de caráter moral e religioso, na intenção de corrigir os péssimos costumes que, segundo o autor, eram amplamente seguidos no Brasil.
Para que os leitores deste blog possam fazer uma ideia da natureza do livro, selecionei alguns trechos (*) sobre três tópicos, que podem ser lidos logo abaixo.

Árvores frutíferas da América

"Comecei a seguir minha jornada por entre amenos campos e copados arvoredos, que com o brando terral faziam agitação às flores, que exalando fragrantes aromas me suavizavam o sentido do olfato; e para recreação da vista me lisonjeavam o sentido do ver tantas árvores floridas, sem mais cultura que a fábrica da natureza que as havia aperfeiçoado, e muitas com vistosos pomos, de que participei [...]."

Castigo de um avarento

"Sabei que o mísero não só nega a seu próximo o que lhe pede, mas também a si mesmo o de que necessita, porque em lhe faltando o que tem, não há quem dele se compadeça. Digo isto pelo que vi acontecer a um homem, que navegava em um seu barco das Vilas do Sul para a Cidade da Bahia. Costumava este entrar primeiro pela barra de Jaguaripe, quando levava na sua embarcação farinhas para vender na cidade, e por mais que lhe pedissem os moradores pobres daquele rio que lhes vendesse algumas para seu sustento, representando-lhe suas necessidades, nunca lhas queria vender. Sucedeu que vindo em certa ocasião entrando pela mesma barra, como esta é arriscada e de perigo, pelos bancos de areia que tem, deu o barco em cima de uma coroa. E como se visse naquele perigo, começou a bradar, e ainda que os que estavam em terra o ouviram, lhe não quiseram acudir, por saberem que era a embarcação daquele miserável, e ali se desfez e perdeu toda a carga que trazia."

Sobre o relaxamento na espiritualidade por parte do clero no Brasil

"Porque está hoje o mundo (e principalmente este Estado do Brasil) em tais termos, que mais parecem alguns sacerdotes mercadores-negociantes que Ministros de Deus e Curas de almas. E se não, vede o que está sucedendo nos tempos presentes. Propõe-se um clérigo a qualquer igreja, e a primeira coisa que procura é saber o quanto rende cada ano e o que tem de benesses, se são ricos os fregueses e se dão boas ofertas. Sendo que só deviam procurar se havia bons paramentos na igreja e se eram devotos e zelosos os fregueses de obrar bem no culto divino, e quando muito, saber se era sítio sadio e se havia bom passadio do sustento corporal."

É obra, vê-se, de religiosidade intensa mas algo ingênua; na linguagem, resvala com frequência nos exageros típicos do Barroco; o estilo é, muitas vezes, prolixo. Que haveria, pois, nesse livro, para alcançar sucessivas edições? Diante do número reduzido de leitores potenciais entre a população alfabetizada, presume-se que fosse lido em voz alta, para entretenimento também dos que ouviam, em muitas casas, à luz de velas ou de candeias a óleo de baleia, nas longas noites coloniais. Que fazia sua popularidade?
À parte o fato de que, por sua temática, devia eventualmente ser recomendado tanto do púlpito quanto do confessionário, tenho um palpite de que interessava aos leitores e ouvintes porque tratava de coisas do Brasil, não da Europa. Era a descrição da natureza exuberante, que conheciam muito bem, as questões políticas e sociais que pontuavam o quotidiano na Colônia, o relacionamento entre as várias camadas sociais, as questões ligadas aos direitos e obrigações de senhores e escravos, a vida na cidade da Bahia, com seus usos, costumes, (i)moralidade, burocracia, criminalidade, ao lado de vistosas festas religiosas, não exatamente favoráveis à introspecção que nosso padre-escritor propunha, mas que caíam facilmente no gosto da população, a exaltação à coragem e virtude de quem deixava Portugal para vir colonizar o Brasil. Contraditório? Talvez, mas quanto mais de contraditório não houve nos tempos da colonização?

(*) Seguiu-se a edição de 1731. Conforme é pratica neste blog, os trechos citados foram transcritos na ortografia atual.


Veja também:

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Jornal das Senhoras - Publicação de mulheres para mulheres em um Brasil quase analfabeto

Em primeiro de janeiro de 1852 circulou o primeiro número do Jornal das Senhoras, cujas linhas iniciais diziam:
"Redigir um jornal é para muitos literatos o apogeu da suprema felicidade, já sou Redator, esta frasezinha dita com seus botões faz crescer dois palmos a qualquer indivíduo.
No círculo ilustrado o Redator é sempre recebido com certo prestígio do homem que em letra de imprensa pode dizer muita coisa, propícia ou fatal a alguém.
Noutra roda de gente que considera o progresso do gênero humano como uma heresia, e os literatos como uma casta de vadios, porque entendem que se possa cavar com uma enxada, porém o trabalho intelectual é para essa gente uma alocução em grego; e portanto o Redator é... é um vadio mesmo, um ente inútil.
Ora pois, uma Senhora à testa da redação de um jornal! que bicho de sete cabeças será?" (¹)
Seria, sim, porque no Brasil do século XIX ler era coisa para poucos; escrever, já nem se fala. Isso para os homens, a quem, pensava-se, até por interesse econômico, havia uma certa obrigação de desasnar. (²) Que dizer das mulheres?
Os dados são de arrepiar os cabelos. Veja, leitor, por si mesmo, os índices de analfabetismo na segunda metade do século XIX e início do século XX. Começamos com a população masculina:

ANO DE 1872
População masculina alfabetizada..................................1.013.055
População masculina analfabeta.....................................4.110.814 (80,2%)

ANO DE 1890
População masculina alfabetizada..................................1.385.854
População masculina analfabeta.....................................5.852.078 (80,9%)

ANO DE 1900
População masculina alfabetizada..................................2.726.621
População masculina analfabeta....................................6.132.905 (68,9%)

ANO DE 1920
População masculina alfabetizada.................................4.430.088
População masculina analfabeta...................................10.973.750 (71,1%)

Agora os dados relativos à população feminina:

ANO DE 1872
População feminina alfabetizada...................................551.426
População feminina analfabeta.....................................4.255.183 (88,5%)

ANO DE 1890
População feminina alfabetizada..................................734.705
População feminina analfabeta....................................6.361.278 (89,6%)

ANO DE 1900
População feminina alfabetizada.................................1.701.060
População feminina analfabeta....................................6.836.848 (80,1%)

ANO DE 1920
População feminina alfabetizada.................................3.023.289
População feminina analfabeta...................................12.168.498 (80,1%) (³)

Uma rápida consideração desses números nos mostra que o analfabetismo era absurdamente alto no Brasil da virada do século, independente do sexo. Não podemos deixar de considerar que os recenseamentos da época eram bastante precários, nem podemos omitir o fato de que a imigração intensa contribuía para fazer flutuar os índices de alfabetização. Ainda assim, se comparados aos índices de países vizinhos (Argentina e Uruguai, por exemplo), nas mesmas ocasiões, os do Brasil são absolutamente escandalosos. E, a despeito disso, é incrível como o progresso na escolarização era lento. Por quê?
Há que se ter em conta uma vasta gama de fatores, dentre os quais podemos considerar pelo menos dois: a maioria da população era rural, e não havia quase escolas "na roça", além do fato de que preconceitos de gênero impediam que meninas frequentassem as escolas existentes, muitas delas, aliás, só aceitando mesmo a matrícula de meninos. A chamada "coeducação dos sexos" era coisa restrita a umas poucas escolas estrangeiras que se haviam estabelecido no país. Conheço uma senhora, já quase centenária, que até hoje chora por não ter podido estudar. Os meninos da roça iam de charrete para a cidade próxima, onde havia uma escola, mas ela, uma menina, foi proibida pelos pais de ir, porque se considerava uma indecência que andasse em companhia dos guris.
Diante disso, leitor (e retomando o assunto do início da postagem), era mesmo uma loucura que alguém, em 1852, tivesse a ousadia de lançar uma revista para o público feminino (havia tão poucas leitoras possíveis!), principalmente tendo uma mulher como redatora. O Jornal das Senhoras circulou entre 1852 e 1855. Nada mal, se considerarmos que muitas publicações destinadas ao público masculino tinham vida muito mais breve. E, para sua diversão, vai aqui um pequeno trecho publicado há exatos 155 anos, no dia 2 de dezembro de 1855, tendo como título "Importância do Número 4"
"Certo dia, o quarto da semana, segundo conta o Corsaire, discutia-se em casa do Sr. Quatromães de Quiney sobre a importância dos números: uns davam a palma ao nº 3, outros ao nº 7. Enfim o Sr. Quatro-barbas levantou a voz e pleiteou a causa do nº 4. E na verdade não temos nós os 4 Evangelistas, os 4 pontos cardeais, os 4 filhos de Aymon, os 4 membros, as 4 idades da vida, as 4 partes invariáveis do discurso, as 4 estações, os 4 naipes no baralho de cartas e os 4 mosqueteiros de Alexandre Dumas? Além disso, não se acha provado que César morreu 44 anos antes da vinda de Cristo, que também morreu no 4º ano da ducentésima olimpíada?
Ia esquecendo os 4 elementos, com que os físicos modernos não se têm querido contentar, depois as 4 partes do mundo, a que os nossos geógrafos anexaram sem nosso consentimento uma quinta parte; há ainda o vinagre dos 4 ladrões. Os Cristãos têm as 4 têmporas, sem falarmos das nossas carruagens, que têm 4 rodas, dos animais que as puxam que têm 4 pés e de nossas mulheres, que às vezes fazem o diabo a 4, com o que, leitoras, não vos agasteis, de sorte que nos façais descer os degraus de vossa casa 4 a 4."

Expediente do primeiro número do Jornal das Senhoras, 1º de janeiro de 1852

(1) Ao que tudo indica, o Jornal das Senhoras foi a primeira publicação brasileira que, voltada para mulheres, tinha uma mulher como redatora.
(2) Desasnar foi, durante muito tempo, particularmente no período colonial, expressão corrente que designava o aprendizado de leitura, escrita e um pouco de aritmética.
(3) EDUCAÇÃO - Órgão da Directoria Geral da Instrucção Pública e da Sociedade de Educação, de São Paulo Volume 1, p. 101.