Mostrando postagens com marcador Padre Ayres de Casal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Padre Ayres de Casal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Viajando com os tropeiros na Serra dos Pireneus

A "Estrada do Norte", percorrida por tropeiros desde o Século XVIII


Por aqui passavam os tropeiros 
O padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, explicava, na segunda década do Século XIX, que Meia Ponte, a que hoje chamamos Pirenópolis (¹) era uma povoação pela qual tropeiros iam e vinham constantemente:
"Os comboios da Capital e do Cuiabá que vão para a Metrópole ou São Paulo ou Bahia aportam aqui, onde cada qual toma o caminho do seu destino." (²)
Pouco tempo depois, o militar português Luís d'Alincourt observaria algo semelhante:
"As tropas de negociantes de Cuiabá e Goiás nele [Arraial de Meia Ponte] se refazem do preciso para descerem às Províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia." (³)
Meia Ponte era, então, um lugar bastante movimentado.
Ainda hoje existe parte do calçamento que constituía a chamada "Estrada do Norte" do Século XVIII, na Serra dos Pireneus (⁴). Vejam as fotos, senhores leitores, e, dando asas à imaginação, percorram comigo essa antiga rota.
Onde a maioria das pessoas só vê uma trilha revestida com pedras disformes, eu posso ouvir uma tropa que se aproxima: homens e animais vêm suarentos e empoeirados. Enquanto as mulas, resfolegando, tentam equilibrar os sacos de couro  e os jacás que levam aos lombos, ouvem-se risadas e imprecações, e segue monótono o bater dos cascos. Passam, e vão-se afastando indiferentes. Quase cadenciado, o som, aos poucos, torna-se menos audível, até desaparecer por completo numa curva longínqua - assim como no tempo, que já vai distante.

Trecho da "Estrada do Norte", na Serra dos Pireneus, Goiás

(1) Estado de Goiás.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 352.
(3) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 64.
(4) A Serra dos Pireneus tem esse nome porque exploradores de ouro que andaram pela região achavam-na algo parecida com os Pireneus da Europa. Que fique bem entendido: essa era a opinião deles.


Veja também:

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte (ou simplesmente Pirenópolis)

Igreja Matriz de N. Sra. do Rosário (Pirenópolis - GO)

Hoje chamamo-la Pirenópolis, mas seu nome já foi Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte, seguindo uma antiga tradição de dar nomes gigantescos às povoações (parecia, quem sabe, aumentar-lhes a importância). Como a extensão do nome era cansativa, passou a ser chamada simplesmente Meia Ponte. 
Sobre essa povoação, nascida com a exploração do ouro por bandeirantes na primeira metade do Século XVIII, o padre Ayres de Casal fez constar em sua Corografia Brasílica:
"Meia Ponte, a maior, a mais florescente e comerciante povoação da Província depois da capital, da qual dista vinte e seis léguas para Leste, está junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno. [...] É cabeça de Julgado, abastada de carne e peixe, e tem professor régio de Gramática Latina. Seus habitantes e os de seus arredores recolhem milho, trigo, farinha de mandioca, tabaco, algodão, açúcar, algum café; criam gado vacum e muitos porcos; fabricam tecidos de lã e de algodão: o que a faz considerar como o berço e centro da agricultura e indústria na Província." (¹)
A descrição empreendida pelo padre Ayres de Casal é quase neutra, deixando transparecer algumas nuances talvez favoráveis. O que veremos a seguir, meus leitores, é uma amostra de como um mesmo lugar pode ser descrito sob pontos de vista muito diferentes. Veremos as observações de dois outros autores, Luís d'Alincourt e Raimundo J. da Cunha Matos.
Cunha Matos e d'Alincourt eram de nacionalidade portuguesa. Ambos eram militares e vieram ao Brasil sob circunstâncias semelhantes. Estiveram em Meia Ponte na década de vinte do Século XIX. 
O que os senhores leitores preferem: primeiro a descrição favorável ou a essencialmente negativa?
Vamos ao que escreveu d'Alincourt:
"É notável o mau gosto e nenhum desvelo que punham os antigos na fundação dos lugares auríferos, no que bem mostravam que só o ouro formava o seu alvo, e que tudo o mais era nada, em presença de tão precioso ídolo! Por isso é que sempre davam princípio às povoações o mais perto possível do sítio em que mineravam, importando-lhes pouco a irregularidade do terreno, das ruas e edifícios, ainda que próximo houvesse melhor local; assim teve começo, junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno, o arraial de Meia Ponte; e até por um capricho mal entendido, edificaram a matriz no pior sítio do largo, em que existe, com frontispício voltado para o máximo declive do mesmo largo, e os fundos que estão em uma cova, para a parte mais espaçosa, o que executaram só para que o templo ficasse próximo à casa de quem tinha concorrido com maior quantia para a sua fundação, o que desta sorte se exigiu. Toda a parte do arraial, que está ao setentrião da matriz, é pior situada, com as ruas dispostas sem ordem nem uniformidade em suas larguras; a outra parte, que fica ao meio-dia da mesma igreja, ocupa terreno mais regular, e as ruas são largas e direitas, porém menos povoadas, à exceção da Nova." (²)
Agora, o Brigadeiro Cunha Matos:
"O arraial tem mais de 1/4 de légua de extensão, e acha-se assentado na margem esquerda do rio das Almas, onde existe uma grande ponte arruinada. O terreno é desigual, mas a parte mais considerável da povoação fica em uma chapada. Tem a bela rua das Bestas, e outra do Rosário, além de diversas de menor extensão; algumas elegantes e espaçosas casas, pela maior parte térreas [...]; tem Casa do Conselho do Julgado e Cadeia; a espaçosa igreja de N. Sra. do Rosário, Matriz Paroquial; outra da mesma invocação; a do Senhor do Bonfim com uma devota imagem de estatura ordinária e sem nenhumas proporções nos seus membros: nesta igreja há ricos ornamentos; a igreja da Lapa e a do Carmo: estas duas estão mui arruinadas." (³)
Não se pode afirmar que Cunha Matos não enxergava os defeitos que tinha diante dos olhos; adotava, porém, ao que parece, o hábito de ver também o que havia de bom e, aspecto curioso, parecia gostar da localização da Igreja Matriz:
"A Igreja Matriz é espaçosa; tem cinco altares mui decentes, e os campanários e frontispício estão para ser reparados. Acha-se assentada na mais pitoresca posição, e dela se desfrutam golpes de vista de natureza admirável." (⁴)

Vista do centro histórico de Pirenópolis - GO
Deixando de lado o mau humor de Luís de d'Alincourt, deve-se salientar o fato de que a Matriz de Nossa Senhora do Rosário que hoje pode ser visitada é produto de muitas reformas, ampliações e alterações ocorridas ao longo dos anos, e até mesmo de uma ampla reconstrução, necessária após o incêndio de 2002. O conjunto arquitetônico do centro histórico de Pirenópolis não é nada desprezível e a cidade guarda uma rica tradição cultural que, aliada à bela paisagem natural que a cerca (Serra dos Pireneus) fazem dela um importante destino turístico no Estado de Goiás.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 352.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 64.
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 151.
(4) Ibid., p. 152.


Veja também:

sexta-feira, 20 de março de 2015

A catequese como justificativa para a escravidão no Brasil Colonial

Um argumento recorrente para justificar a escravidão de africanos no Brasil Colonial era de que, vindo à América, os escravizados seriam mais facilmente doutrinados na fé cristã (!!!). Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra de grande sucesso no Século XVIII, declarou, sem rodeios:
"E também permite sua divina misericórdia que muitos destes gentios sejam trazidos às terras dos católicos para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais." (¹) 
Essa ideia, hoje, pode parecer absurda - colocava-se em Deus a responsabilidade pela escravidão - mas é fato que foi amplamente empregada, até mesmo por religiosos, e, portanto, não era coisa apenas de escravocratas que queriam acalmar a consciência, até porque os proprietários de escravos não tinham por costume ver algo de errado na apropriação do trabalho de um ser humano por outro. Para eles, escravos eram sua propriedade, e nada mais. 
Era obrigação dos senhores providenciar assistência religiosa para seus escravos, mas a maioria não tomava qualquer atitude nesse sentido. Até mesmo o dever (imposto pela Igreja) de conceder descanso aos escravos nos domingos e feriados religiosos era desconsiderado. Afinal, não havia qualquer fiscalização e, pensava-se, escravos existiam para trabalhar.
No começo do Século XVIII Antonil observou:
"Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus escravos, que os têm por muito tempo no canavial ou no engenho sem batismo." (²) 
Entende-se que Antonil, ele próprio um jesuíta, escandalizava-se com o pouco caso dos senhores em questões de fé. E acrescentava, recordando aos poderosos que de tudo dariam conta no Juízo Final:
"Dizem os senhores que estes [os escravos] não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez mandamentos; tudo por falta de ensino e por não considerarem a conta grande que de tudo isto hão de dar a Deus, pois (como diz São Paulo), sendo cristãos e descuidando-se de seus escravos, se hão com eles pior do que se fossem infiéis." (³)
O tempo evidenciava que o tal argumento da catequese para justificar a escravidão não passava de um embuste, a tal ponto que, já no Século XIX, o padre Ayres de Casal viria a afirmar que, ao contrário do que geralmente se aceitava, a escravidão era, sim, um impedimento à propagação da fé cristã:
"Convém-se que esta gente é um mal moral, um obstáculo ao aumento da população branca, e que enquanto escravos, não podem ser bons cristãos, nem vassalos fiéis." (⁴)
Deixando de lado o quanto o dizer de Ayres de Casal soa preconceituoso a um leitor do Século XXI, vale notar que, em seu tempo, já se levantava o argumento de que a escravidão não era somente um impedimento à religião. Tornava também impossível que a população cativa pudesse servir aos interesses do rei.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 119.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 25.
(3) Ibid.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 60.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Jabuticabas e jabuticabeiras


Jabuticabas bem maduras, doces, são ótimas. A frutinha, que é encontrada junto ao tronco da árvore que a produz, encantou os colonizadores e, já no Século XIX, buscando sistematizar informações históricas e geográficas sobre o Brasil, o Padre Ayres de Casal observou:
"A jabuticabeira é árvore pequena, delgada e de casca lisa; as folhas, que são envernizadas por ambas as bandas, mas não de um mesmo verde, variam de forma num mesmo ramo; só floresce no tronco, começando do chão até onde os ramos têm boa grossura; [...] é fruta gostosa e inocente: dela se destila um licor forte." (¹)
Deixemos de lado quaisquer considerações sobre o último falar de Ayres de Casal...
Em meados do Século XIX, o jovem Império do Brasil, ainda coberto por densas florestas, despertava uma certa curiosidade, atraindo a visita de estrangeiros que, entre suas observações, sempre relatavam as frutas da terra que haviam tido ocasião de apreciar. O príncipe Adalberto, que percorreu terras brasileiras nos anos quarenta do Século XIX, contou:
"Paramos então por um momento debaixo de uma árvore da qual fizemos cair, sacudindo-a, uma grande quantidade de jabuticabas, uma fruta muito parecida com a nossa cereja preta, que nos refrescou agradavelmente." (²)
Esse príncipe prussiano deve ter realizado um sonho de menino ao andar pela América do Sul; no entanto, não sei de onde tirou a ideia de que jabuticabas são semelhantes a cerejas pretas. É provável que não lhe ocorresse, ao escrever, nenhuma outra comparação que pudesse dar a seus leitores uma ideia exata do que eram as jabuticabas.
Não muito feliz, também, foi a comparação feita por Daniel P. Kidder, pastor e missionário metodista, nascido nos Estados Unidos, que residiu no Brasil durante o Período Regencial:
"Essa árvore pertence à ordem das mirtáceas e é dotada da grande singularidade de dar as flores e os frutos diretamente colados ao tronco e aos galhos principais enquanto que as extremidades são cobertas por densa folhagem verde. A fruta é deliciosíssima, e dá a ideia de uma grande uva roxa." (³)
"Grande uva roxa"? Muito estranho. Talvez o príncipe Adalberto e o missionário Kidder só tenham acertado mesmo no formato, o que, convenhamos, não era tão complicado. Mas, se queremos ser justos com eles, havemos de admitir que a tarefa não era fácil. Quem é que nunca se viu sem palavras ao tentar descrever a outra pessoa uma fruta ou mesmo uma especialidade culinária pouco conhecida?

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. 
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 97 e 98.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 145.
(3) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 216.


Veja também:

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Terríveis paulistas (como quase todos os demais colonizadores)


Acampamento de bandeirantes (¹)

Entre autores dos séculos XVII e XVIII não são raras referências nada elogiosas à conduta dos paulistas; já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou:
"Os paulistas de hoje passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (²)
Perguntará alguém dentre os leitores: Até que ponto essa observação era procedente? Para dar resposta à questão, vejamos, primeiro uma pequena lista, na qual todos os itens são provenientes da Nobiliarchia Paulistana, obra de genealogias escrita no Século XVIII, com evidente finalidade de exaltar os feitos dos paulistas:

1. Era comum que os patriarcas de Piratininga e adjacências tivessem muitos índios escravizados, centenas deles, a despeito dos protestos dos jesuítas envolvidos na catequese da população ameríndia; quando um sujeito tinha muitos desses índios escravizados, afirmava-se que era um "potentado em arcos"... O mais curioso é que os pobres escravizados eram, eufemística e legalmente, chamados "administrados", nunca "escravos", como de fato acontecia. Pior ainda, dizia-se que os índios eram "extraídos do sertão para o grêmio da Igreja".

2. Na busca por indígenas para a escravização, paulistas logo descobriram que era "bom negócio" atacar as missões e/ou reduções, já que nelas, aos cuidados dos padres, os índios viviam desarmados e, além disso, aprendiam ofícios mecânicos, fato que contribuía para torná-los mais valiosos para a venda.

3. Dinheiro amoedado era raro na Capitania de São Vicente, por sua distância da Europa e pequeno comércio direto com a Metrópole lusitana, de modo que o fenômeno da falsificação de moedas não era, em absoluto, desconhecido, a despeito das severíssimas leis previstas nas Ordenações do Reino para esse crime. Em carta à Câmara Municipal de São Paulo, datada de 1709, dizia El-Rei:
"E porque o mesmo Pedro Taques me representou a grande perturbação que causou nesse povo as moedas falsas que se acharam nessa capitania, vos ordeno que neste particular procedais com aquela diligência e cuidado que pede matéria tão importante." (³)

4. Não era incomum em São Paulo que houvesse homem obrigado a casar-se, usando a linguagem da época, "à força das armas" - os senhores leitores devem imaginar a causa. Outro eufemismo corrente era "casou por força de consciência".

5. Levantes e rebeliões também não eram incomuns. Enquadra-se aqui, por exemplo, a chamada "Aclamação de Amador Bueno", ocasião em que parentes desse rico fazendeiro pretenderam fazê-lo, nem mais e nem menos, que o rei de São Paulo! A coisa só não prosseguiu porque Amador Bueno teve juízo suficiente para rejeitar o posto que lhe queriam conferir.

6. A querela entre as famílias Pires e Camargo provocou arruaças e assassinatos por anos a fio nas ruas de São Paulo.

7. Os testamentos de paulistas estavam repletos de referências a filhos "bastardos mamelucos" e/ou "filhos naturais" (essa expressão é ótima - como seriam filhos artificiais?!!!), ou seja, nascidos fora do casamento reconhecido pela Igreja.

8. O rapto de mulheres também não era desconhecido na povoação; a poligamia seguia pelo mesmo caminho.

9. Há relatos de envenenamentos, bem como de apropriação indébita de herança que pertencia a parente(s).

10. Finalmente (como a lista já está muito longa), vale recordar que, tão afeiçoados eram os paulistas em escravizar índios que, a despeito de se considerarem bons católicos, não tiveram escrúpulos em promover a expulsão dos jesuítas em 1640, de tal forma que aos padres somente foi permitido o retorno após longa negociação.

Que dizer de tudo isso?
Antes de mais nada, é bom lembrar que feitos igualmente meritórios podem ser encontrados em quase todas as povoações de alguma importância existentes no Brasil daqueles dias. No caso dos paulistas, o isolamento em que viviam talvez explique, ao menos em parte, muitas das infrações. Ilhados no interior da Colônia, estavam livres para aprontar, como bem entendessem, com quase nenhuma restrição. O governo estabelecido por Portugal estava longe e, nessas condições, obedecer era mais uma opção do que uma obrigação.
Ora, vez por outra, o próprio governo precisava deles e, assim tinha que negociar. Amostra disso foi o que ocorreu quando se necessitou, desesperadamente, de gente disposta a lutar contra os holandeses no Nordeste. Solução? Proclamou-se anistia completa aos paulistas que houvessem cometido quaisquer atrocidades em suas andanças pelo sertão no apresamento de índios, desde que se alistassem para combater "o holandês". Preocupada em desmantelar Palmares, a administração lusa não hesitou em contratar os serviços de experientes bandeirantes que seguiam Domingos Jorge Velho. Estando "tão exausta" a Real Fazenda, foi aos sertanistas de São Paulo que recorreu o monarca português, incitando-os à procura de ouro, enquanto acenava com honrarias, em caso de sucesso.
Sedentos de glória e riqueza, paulistas arriscaram os bens e a vida à cata de metal precioso. Uns poucos lucraram bastante com a aventura. A maioria, anonimamente, saiu-se muito mal. Enquanto isso, graças aos avanços desses tipos descalços, famintos e maltrapilhos pelo interior da América do Sul, a Linha de Tordesilhas ia para o espaço e o mapa do Brasil tomava contornos algo parecidos aos que tem atualmente.
Não vale a pena generalizar. Devia haver gente excelente em São Paulo, mesmo nos difíceis dias da povoação de Piratininga. A maioria, no entanto, como ocorria com os mais colonos Brasil afora, era mesmo do arco da velha.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.


Veja também:

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 1

Os guaicurus estavam entre os indígenas mais temidos do período colonial - a própria menção a seu nome era suficiente para provocar calafrios entre os monçoeiros, que eram frequentemente por eles atacados - era o "gentio cavaleiro", como então se dizia, gente que montava de um modo estranho, ao menos segundo as regras de equitação seguidas por europeus e seus descendentes. Não causa espanto, pois, que Ayres de Casal não tivesse, sobre esses indígenas, uma visão lá muito favorável, como, de resto, não a tinham muitos dos autores da época sobre quaisquer dos povos nativos da América:
"São os guaicurus de mediana estatura, bem feitos, sadios, nutridos, e ao parecer adaptados a qualquer trabalho penoso; mas poltrões. Comem muitas vezes no dia, e mui devagar; seus manjares são muito cozinhados e sem asseio. Jamais padecem indigestões. É notável a dieta de que usam nas suas raras moléstias. Jamais apareceu um escorbutado entre eles, nem memória de mortes repentinas.
[...].
Pintam o corpo com tinta de urucum e jenipapo, no que guardam assaz de simetria. No cabelo os moços não têm uso certo; os velhos trazem a cabeça rapada em roda à semelhança dos leigos franciscanos. As mulheres também rapam a cabeça em redondo e despontam o cabelo [...]." (¹)
Depois, prossegue o padre Ayres de Casal:
"Os homens cuidam na caça, pesca, em tirar mel, frutas silvestres, palmitos, dos cavalos, feitura de armas e canoas [...]; as mulheres fiam, tecem panos e cintas de algodão, fazem cordas, louça e esteiras. Ambos os sexos se ocupam igualmente no mister da cozinha." (²)

Carga de cavalaria guaicuru, de acordo com Debret (³)

E, se devemos crer no que escreveu Ayres de Casal, não era apenas com os portugueses colonizadores que os célebres guaicurus entravam em confronto:
"São tão soberbos que a todas as nações dos gentios confinantes tratam com desprezo; a todas fazem crua guerra, sendo delas de alguma sorte respeitados e temidos pela vantagem que têm na cavalaria e armas de que usam [...]." (⁴)
Lembro aqui, no entanto, que, sem escrita, os guaicurus não deixaram seus próprios relatos para que pudéssemos compará-los aos dos colonizadores. De qualquer modo, percebe-se que havia interesses conflitantes: europeus e seus descendentes buscavam explorar novos territórios e riquezas, não importando, muitas vezes, os métodos empregados na execução de seus projetos; populações indígenas aí anteriormente estabelecidas sentiam-se ameaçadas e viam os colonos como invasores, passando então à defesa e/ou tomando a iniciativa do ataque. Nada muito diferente do que tem ocorrido em boa parte da história da humanidade neste planeta. Como sempre, quem tinha melhores armas acabou levando vantagem - não sem muitas perdas, porém.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 277.
(2) Ibid., pp. 278 e 279.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Op. cit., p. 279.


Veja também:

terça-feira, 8 de abril de 2014

Guarás


Guará, em ilustração
 do Século XVII (²)
Guarás, aqui, é bom esclarecer, não são os "lobos", e sim aves litorâneas, de penas vermelhas (Eudocimus ruber), que causaram forte impressão nos colonizadores europeus. Há, por exemplo, o relato é do Padre Fernão Cardim, que acompanhou o visitador jesuíta, Padre Cristóvão Gouvêa, em suas viagens pelo Brasil, e refere-se a acontecimento do ano de 1585:
"Ao dia seguinte, depois de jantar, partimos para São Vicente, e caminhando três léguas por um grande e formoso rio cheio de uns pássaros vermelhos que chamam guará, dos formosos desta terra, os quais são como pegas; os bicos são de um bom palmo e na ponta revoltos, e têm mui compridas pernas; [...]. Vivem junto d'água salgada e nela se criam e sustentam." (¹)
Já no Século XIX, outro clérigo, o Padre Ayres de Casal, iria escrever em sua Corografia Brasílica:
"Os formosos guarás, que são numerosíssimos na proximidade do mar, onde só habitam, quando pousam em bando sobre alguma árvore seca ou despida de folhas, esta fica vistosíssima." (³)
Mas acrescentaria esta nota, obviamente triste:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (⁴)

Um glorioso descendente das aves que sobreviveram às taquaras e às espingardas

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 98 e 99.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 203.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 262 e 263.
(4) Ibid., p. 263.


Veja também:

domingo, 19 de janeiro de 2014

As tropas de muares e seus tropeiros

Como eram transportadas mercadorias no Brasil antes da existência de estradas de ferro

"De longe e visto de perfil, o rochedo parecia um tropeiro, derreado sobre o pescoço da mula e carregando às costas sua maca de viagem."
                                                                                     José de Alencar, O Tronco do Ipê

Antes das ferrovias (que só compareceram ao Brasil na segunda metade do Século XIX), praticamente todo o transporte de cargas era feito por mulas, arregimentadas em grupos mais ou menos numerosos - as "tropas" - e conduzidas por gente livre ou escrava, mas especializada nesse tipo de transporte - os tropeiros.
As estradas que então havia eram péssimas, e isso é o melhor que se pode dizer sobre elas, pouco faltando para que fossem intransitáveis. No entanto, as mulas, animais resistentes e de custo relativamente baixo, conseguiam enfrentar bem as agruras dos caminhos cheios de lama ou poeira, levando mercadorias de uma região a outra, como era o caso das que seguiam para abastecer as Minas, ou daquelas destinadas à exportação e que, portanto, iam do interior para o litoral.
Referindo-se a às mercadorias que, desde Minas Gerais seguiam para o Rio de Janeiro, o Padre Ayres de Casal escreveu:
"Exporta-se, desta Província, sola, couros de veado e de outros animais selváticos, algodão tecido e em lã, tabaco, café, frutas, açúcar, queijos, carne de porco, rapaduras, pedra-sabão, pedraria, salitre, marmelada. Quase tudo é conduzido à Metrópole em bestas, das quais se encontram comboios de cem e maior número, repartidas em récuas de sete cada uma, e governada por um homem, levando de retorno sal, fazendas secas e molhados." (¹)
Um pouco mais tarde, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, escreveu, referindo-se aos dias nos quais esteve em Cubatão:
"Durante os oito dias que lá fiquei, vi diariamente chegar três a quatro tropas de animais e outras tantas partirem.
Cada tropa compõe-se no geral de quarenta a oitenta bestas de carga, guiadas por um tropeiro e divididas em lotes de oito animais que caminham sob a direção de um camarada ." (²)
Os números são um pouco diferentes dos apresentados por Ayres de Casal, mas, de qualquer modo, relatam um padrão geral no que se refere à quantidade de animais e de homens que compunham uma tropa comum.
É o próprio Florence quem nos dá uma lista das coisas que essas tropas, vindas de São Paulo, carregavam rumo ao litoral, ou, de retorno, levavam tanto para a capital da Província como para outras localidades:
"As tropas, ao descerem de São Paulo, vêm carregadas de açúcar bruto, toicinho e aguardente de cana e voltam levando sal, vinhos portugueses, fardos de mercadorias, vidros, ferragens, etc." (³)
Comparem os leitores as duas listas de mercadorias - a de Minas Gerais, relatada por Ayres de Casal, e a de São Paulo, feita por Hércules Florence - e terão uma boa ideia do que se produzia em ambas as Províncias na época. É bom lembrar que, nesse tempo, o café ainda não era, por assim dizer, a estrela da economia brasileira. Viria a ser, logo depois.

Caravana de tropeiros, de acordo com gravura de M. Rugendas (⁴)

Ocupados assim em tanger animais e zelar pela segurança das cargas, seria natural esperar que tropeiros não tivessem muito tempo para outros afazeres. Alguns, no entanto, conseguiam. Há um caso interessante registrado pelo Príncipe Adalberto da Prússia, que esteve no Brasil em 1842, referente a um sujeito por ele contratado como tropeiro que, ao lado de sua ocupação normal, encarregava-se de reportar a chegada dos "navios negreiros", embarcações que traziam africanos escravizados:
"Antônio, um português nato, tinha tido durante o governo de D. Miguel de fugir para os Açores, de onde mais tarde se transferira para o Brasil num navio baleeiro. Desde sua chegada a este país, seu trabalho era, assim que chegava um navio negreiro a S. João da Barra, partir a cavalo para o Rio e levar a notícia ao seu proprietário; ninguém portanto podia conhecer este caminho melhor do que ele que, segundo afirmava, já o tinha percorrido muitas vezes em três dias." (⁵)

(1) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 363.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 3.
(3) Ibid.
(4) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 160.


Veja também:

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O joão-de-barro e o interesse por seres vivos exóticos nos relatos sobre o Brasil Colonial

Ninho de joão-de-barro
Na postagem Uma Planta Desobediente às Regras da Filosofia de 27 de março deste ano, tratei de como os primeiros autores que escreveram sobre o Brasil quase sempre incluíam em suas obras algumas observações sobre curiosidades tanto da fauna quanto da flora do "Novo Mundo", que se lhes afigurava tão diversa daquela a que estavam habituados na Europa. Os séculos passaram, é verdade, mas o interesse sobre esses aspectos exóticos continuou. Tanto assim que, em 1817, a Corografia Brasílica do Padre Ayres de Casal continuava a listar o que de mais extravagante podia haver entre os animais encontrados no Brasil e, dentre tantos outros mencionados, encontra-se uma simpática ave, que se vê em uma parte considerável da América do Sul - estou falando do joão-de-barro (Furnarius rufus). Naturalmente o que surpreendia nosso autor não era, por suposto, a aparência desse pássaro, aliás muito comum, mas a forma como edifica seu ninho, com tal habilidade que, se fosse mais universalizada entre os seres vivos, poderia resolver os problemas habitacionais da humanidade... Sorria, leitor, mas passe em seguida à descrição de Ayres de Casal:
"João-de-barro é uma casta de cotovia, amarelada com uma risca esbranquiçada por cima dos olhos, e só é notável pela formatura do seu ninho de barro, donde se lhe derivou o nome. É feito com muita arte e perfeição no forcado de uma árvore, e consta de um corredor com um pouco mais de um palmo de comprido, com uma sala quase do mesmo comprimento a um lado, todo de abóbada, com uma janela de permeio no fim do corredor, cuja entrada é pequena e fica sempre para aquela parte donde o vento sopra menos. Este edifício resiste às invernadas por muitos anos."
A descrição do ninho chega a ser muito interessante, ainda que, para quem nunca viu um, talvez pareça confusa. Já a classificação da ave como  "uma casta de cotovia" poderia fazer arrepiar os cabelos de um ornitólogo contemporâneo, mas é compreensível para tempos em que os conhecimentos fundamentados na observação, comparação e experimentação com base científica ainda engatinhavam. Ocorre que, quase sempre,  os autores podiam servir-se apenas de palavras para dar a entender a seus leitores o que era a Natureza nas Américas. A vinda de artistas como integrantes  das missões científicas estrangeiras que estiveram no Brasil durante o século XIX foi importante para começar a fixar em forma de desenhos e aquarelas  os contornos de seres vivos exóticos, muitos deles hoje correndo perigo de extinção. Mais tarde, a fotografia iria popularizar de vez a imagem de onças, jacarés, piranhas e outras feras mais.


Veja também: