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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Através de rios

Se as proezas nas navegações oceânicas ficaram famosas, a navegação fluvial não foi menos importante: quando e onde (ainda) não havia estradas, nem mesmo trilhas, os rios eram vias muito convenientes, tanto para exploradores de um território desconhecido como para viagens regulares. Tentem imaginar, leitores, os barqueiros que, na Antiguidade, subiam o Nilo ou desciam o Eufrates, procurando alcançar, com os olhos, tudo o que havia às margens. Iam, aos poucos, compreendendo melhor aquilo que os cercava e traziam informações que contribuíam para a construção de um conceito do mundo, tal qual era, ou tal qual supunham ser.
Tão decisivos eram os rios, e não só pela água, que, em não poucas mitologias, o caminho dos mortos para algum tipo de vida além-túmulo era imaginado como ocorrendo através de um rio (¹), uma ideia que, surpreendentemente, sobreviveu por longos séculos (²).
Os rios não foram, contudo, apenas rotas de paz, para descobridores e comerciantes. Grupos invasores frequentemente se deslocavam através deles. Foi assim, por exemplo, na Idade Média, quando saxões, deixando suas terras escassas e pouco produtivas na Europa Continental, invadiram a Grã-Bretanha, usando barcos longos e estreitos, capazes de levar três ou quatro dezenas de remadores dispostos aos pares. Suas embarcações eram perfeitas para rios, embora também tenham servido para a travessia do Mar do Norte, a despeito de todos os evidentes riscos.
No Brasil, desde o Século XVI, exploradores europeus perceberam que rios seriam, quase sempre, os melhores caminhos no rumo do interior. Havia trilhas indígenas, é fato, mas os rios pareciam mais seguros e permitiam um deslocamento mais rápido. A navegação, para esses exploradores, quase sempre se fazia contra a corrente, visto que a maioria dos rios deságua no oceano ou em algum outro rio que, por sua vez, corre para o mar. Há, contudo, um caso notável no Brasil, de um rio importante que corre para o interior: o Tietê. Por ele, e muitas vezes com o auxílio de indígenas, colonizadores e missionários avançaram, gradualmente, para o interior do Brasil. A descoberta de ouro em Mato Grosso no Século XVIII converteu o Tietê, temporariamente, em parte essencial da rota das monções cuiabanas. O ouro diminuiu, as viagens pelo Tietê, por conseguinte, também foram ficando mais raras. Restaram o conhecimento e ocupação do interior, o nascimento de núcleos de povoação nas margens e, com isso, uma contribuição para a formação do Brasil, enquanto país com um território definido. 

Rio Tietê nas proximidades de Pirapora do Bom Jesus - SP

(1) É o caso do Aqueronte na mitologia grega, um rio que de fato existe e pelo qual se supunha que os mortos viajavam para ir ao reino de Hades. 
(2) Na poética do protestantismo, por exemplo, expressões equivalentes à travessia de um rio foram, por muito tempo, um modo de se referir à morte de um cristão, e, com esse sentido, obras literárias e cânticos religiosos falavam em "atravessar o Jordão", por analogia à travessia do rio Jordão, na Antiguidade, pelos hebreus que vinham do Egito. Um exemplo notável pode ser encontrado em The Pilgim's Progress, de John Bunyan, um clássico da literatura inglesa do Século XVII.


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quinta-feira, 25 de julho de 2019

Um quilombo junto ao rio Tietê

Quando se fala em quilombo, Palmares vem à mente da maioria das pessoas. Foi, de fato, o mais famoso, tanto pelas proporções alcançadas quanto pela resistência. Mas não foi o único. Muitíssimos outros existiram, nos mais diversos pontos do Brasil. Houve um, de acordo com Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (¹), às margens do rio Tietê, em algum lugar, portanto, do território que hoje pertence ao Estado de São Paulo:
"[...] passamos pela embocadura do rio Quilombo e, pouco abaixo, pela ilha e cachoeira do mesmo nome. Ali se haviam antigamente refugiado muitos negros, pois quilombo é palavra que designa o asilo onde eles se reúnem nas matas. Foram descobertos por negociantes que voltavam de Cuiabá (²) e que, apenas chegados a Porto Feliz, armaram, por espírito de ganância, uma expedição com a qual atacaram aqueles infelizes, aprisionando mais de cento e vinte. Amontoados em canoas, voltaram os mal-aventurados aos pontos em que sofriam o cativeiro. Foi-nos o fato contado pelo guia." (³)
Florence foi didático em suas explicações. Registrava os acontecimentos para si mesmo, mas é possível que imaginasse que eventuais leitores de seus escritos talvez desconhecessem as circunstâncias do escravismo no Brasil. Quilombos não eram incomuns, tampouco o eram as expedições para destruí-los. Captores de escravos queriam, se possível, encontrar quilombolas vivos, para reconduzi-los à escravidão. Este quilombo das margens do Tietê foi apenas mais um, a abrigar - quem saberá por quanto tempo? -, os sonhos de liberdade de quem fugia do cativeiro.

(1) A Expedição Langsdorff saiu de Porto Feliz no dia 22 de junho de 1826.
(2) Monçoeiros, infere-se. 
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 38

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O costume de abençoar as monções que percorriam o Tietê no Século XVIII

Este monumento assinala o local
aproximado de onde
partiam as monções do Século XVIII
Foi em 22 de junho de 1826, ao sair a Expedição Langsdorff de Porto Feliz, que o desenhista francês Hércules Florence registrou: "[...] dirigimo-nos para o porto, onde achamos o vigário paramentado com suas vestes sacerdotais, a fim de abençoar a viagem, como é costume, e rodeado de grande número de pessoas que viera assistir ao nosso embarque." (¹)
O "costume" a que Hércules Florence fez referência, de abençoar as expedições que partiam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP), datava do tempo das monções cuiabanas. Corria, então, o Século XVIII, e, de acordo com Affonso de E. Taunay, a fórmula usual da benção era esta, na qual o sacerdote invocava para os monçoeiros e embarcações que viajariam pelo Tietê a mesma proteção concedida pela mão direita de Deus à arca de Noé, durante o dilúvio, e a São Pedro, quando andara sobre o mar: 
"Propitiare, Domine, suplicationibus nostris et benedic navem istam dextera tua sancta et omnes, qui in ea vehentum fiant dignitatus es benedicere arcam Noe ambulantem in diluvio. 
Porrige eis, Domine, dexteram tuam, sicut porrexisti Beato Petro ambulanti supra mare.
Qui vivis er regnas in secula seculorum" (²)
Havia ainda, na época da Expedição Langsdorff, algum movimento de viajantes que seguiam rumo ao interior do Brasil pelo rio Tietê, em expedições militares ou em algumas poucas expedições comerciais. A febre do ouro do Cuiabá já era, porém, coisa do passado. 
Ressalvadas as proporções, o ritual de partida das monções cuiabanas guardava semelhanças com o cerimonial religioso que assinalara a partida das grandes expedições marítimas portuguesas que, nos Séculos XV e XVI, haviam alcançado as Índias e outras terras. "Os aventureiros, que se atiram aos mares", escreveu Teófilo Braga, "desconhecendo as terras em que hão de aferrar, [...], saem em procissão, acompanhados dos sacerdotes que salmeiam invocando o céu, preparando-os para a viagem donde talvez não mais voltarão [...]" (³). 
Nas monções não havia as grandes tempestades oceânicas, mas havia, a cada passo, a fúria traiçoeira dos rios a enfrentar, além das doenças tropicais, do confronto com indígenas, fome e sede, mesmo que os expedicionários estivessem rodeados por água, porém imprópria para consumo humano. Em ambos os casos havia a fadiga, o medo do desconhecido, a vindicação da honra pessoal, a busca por riquezas e, mais ou menos intensamente, algum ideal religioso, de que se levaria a fé até paragens ainda não alcançadas.
Na partida de Portugal havia, por suposto, mais pompa, com a presença de figuras eclesiásticas notáveis, e até, eventualmente, do próprio monarca reinante; à margem do Tietê, o cerimonial era forçosamente singelo, com a benção aos navegantes que haviam já ouvido missa. Não se poderia esperar mais em povoação tão pequenina, no interior de uma capitania em grande parte ainda por explorar.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 20.
(2) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 54.
(3) BRAGA, Teófilo. Estudos da Idade Média. Porto, Braga: Livraria Internacional, 1870, p. 125.

terça-feira, 29 de maio de 2018

As mães-d'água do rio Tietê

Rio Tietê no local de onde partiam as monções no Século XVIII (Porto Feliz - SP)

"Os cabelos verdes, tão verdes, chegavam até os pés e ainda arrastavam; nhanhã não tem visto aqueles fios muito compridos, que às vezes andam boiando em cima d'água? a gente chama limo; são as tranças dela."
José de Alencar, O Tronco do Ipê

Mitos envolvendo criaturas aquáticas capazes de atrair e enfeitiçar humanos são tão antigos quanto numerosos. Embora as sereias da Antiguidade fossem retratadas como seres alados (¹), já na Idade Média surgiram representações de figuras femininas, com cabeça, tronco e braços humanos e uma longa cauda de peixe, feiticeiras das águas, a cujos encantos os que ousavam navegar para longe de casa temiam sucumbir. 
No Brasil, leitores, há, entre as tradições indígenas, algumas que referem a existência de um ser misterioso, que emerge das águas de rios para atrair pescadores incautos - é a uiara, iara ou mãe-d'água (²) - mas há também a lenda do boto, que busca mocinhas namoradeiras... Esses mitos são geralmente associados à região amazônica, com toda a sua exuberância aquática, mas Francisco J. de Lacerda e Almeida (³), ao percorrer o rio Tietê, ouviu de um proeiro (⁴), narrador da lenda como coisa verdadeira, que em pontos de maior profundidade havia, além de fartura de peixes, também as famosas mães-d'água:
"Contou-me [...] que nestes poços havia mães-d'água encantadas, que levantavam grandes ondas e faziam muita bulha, e tinham morto alguns homens, etc. Pedi-lhe a descrição destas encantadas matronas, e ele (não obstante nunca tê-las visto) [sic] me fez a descrição de um monstro mais horrendo que aqueles que nos pinta Horácio. Intentei desabusá-lo; mas ele e toda comitiva se mostraram tão ressentidos e pertinazes, que para o contentar, e evitar alguma sublevação, me vi obrigado a seguir o partido das mães-d'água encantadas." (⁵)
A conversa de Lacerda e Almeida com o proeiro aconteceu em 1788. Talvez ela demonstre que a lenda da mãe-d'água fosse mais generalizada do que às vezes se supõe. Seja como for, é evidente que, àquela altura, já era parte do acervo de crenças populares correntes entre monçoeiros. Nos longos dias de uma viagem pelas águas do Tietê, lendas encontravam abastança de tempo e cenário para propagação.

(1) Como as mencionadas entre as muitas peripécias da Odisseia, quando Ulisses e seus companheiros empreendiam a viagem de retorno a Ítaca, após a conclusão da guerra de Troia.
(2) Alguns estudiosos acham que a lenda apontava, originalmente, para um homem-peixe, e que, somente mais tarde, sob a influência de colonizadores europeus, teria sido identificada como uma mulher de encantos irresistíveis e mortais.
(3) Integrou uma expedição demarcadora de limites entre terras de Portugal e Espanha na América em 1780.
(4) O proeiro era o líder da equipe de remadores em uma embarcação monçoeira (batelão) no Século XVIII. Veja, para mais detalhes, O Trabalho do Proeiro nas Embarcações Monçoeiras do Século XVIII
(5) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 84.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Como os monçoeiros do Século XVIII caçavam veados

As monções cuiabanas eram expedições fluviais, principalmente do Século XIX, que iam ao interior do Brasil à procura de ouro. Quando saíam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP) e iniciavam o percurso do rio Tietê, levavam consigo uma boa quantidade de suprimentos. Mas a viagem era longa e trabalhosa, e não poucas vezes acontecia que uma canoa virava, e lá se ia, literalmente por água abaixo, a comida que deveria servir para muitos dias. Diante disso, era importante encontrar alternativas para alimentação, através da caça e da pesca. 
Francisco José de Lacerda e Almeida, astrônomo de Sua Majestade (¹), fez a rota de retorno das monções entre 1788 e 1789. Nessa viagem, teve ocasião de encontrar expedicionários que subiam, observando, a respeito deles:
"[...] Aqueles que sobem por estas águas, como vêm como mais vagar, não só porque são muitas as canoas que se ajuntam para reciprocamente se ajudarem, como porque também gastam muito tempo nas cachoeiras, têm muito tempo para fazerem numerosas e continuadas caçadas, com tanta abundância como facilidade, tanto de perdizes como de veados." (²)
Cervo-do-pantanal
Para o estômago dos monçoeiros, era a hora da desforra - não escasseiam os relatos de monções cujos expedicionários chegaram quase a morrer de fome. Curiosa, porém, é a observação de Lacerda e Almeida sobre o modo usado pelos astutos sertanistas quando queriam caçar veados:
"Encaminham-se os caçadores para as manadas de veados contra o vento, levando na cabeça algum barrete ou pano vermelho; algumas vezes param e levantam um braço, e outras agacham-se; os veados, que não estão acostumados a ver estes fantasmas, chegam-se a eles para os reconhecer, e ficam sendo vítimas de sua curiosidade." (³)
Deixem a sensibilidade de lado, leitores, e enfrentem os fatos: no Século XVIII havia pouquíssima gente neste mundo disposta ao vegetarianismo para salvar os animais, os monçoeiros esfomeados tinham, como máxima preocupação, encontrar comida e não havia quase ninguém que se mostrasse alarmado com a sobrevivência da fauna nativa. Se os exploradores do sertão não vacilavam em comer lagartos e macacos, não seriam as perdizes e os veados que seriam poupados. O que chama a atenção, assumindo a veracidade do relato de Lacerda e Almeida, é a inocência dos rebanhos de ungulados (as "manadas de veados"). Alguém acha que hoje seria assim?

(1) Foi um dos membros da comissão encarregada de demarcar os limites entre as terras sob domínio português e espanhol na América (1780 e 1781).
(2) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 76.
(3) Ibid., pp. 76 e 77.


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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Viajando com os monçoeiros paulistas do Século XVIII

As árvores já fazem sombra nas águas do Tietê, e o céu, a oeste, dá sinais de mudar de cor. Na densa floresta, a cantoria vespertina da passarada está por começar.
Os remeiros dos batelões se entreolham, à espera de um sinal dos respectivos proeiros, que param de marcar o ritmo. Diminuem a marcha, enxugam o suor que escorre pelo rosto e procuram, junto à margem, um lugar seguro em que amarrar as embarcações. Ligar cada uma delas a um tronco resistente é mais fácil, porém arriscado. Não correm de boca em boca os casos de canoas que, em meio a uma tempestade, foram levadas, com árvore e terra, pela correnteza reforçada com a água da chuva? Os batelões serão, portanto, arrastados mata adentro, o que é inevitável sacrifício em uma hora na qual os viajantes, já cansados, ainda terão de enfrentar o preparo da comida para o jantar e para o dia seguinte.
Os homens saltam em terra primeiro, tratando logo de ajudar no desembarque das poucas mulheres que acompanham a expedição. Em pouco tempo, ouvem-se os sons secos dos machados derrubando árvores, para abrir algum espaço onde cozinhar. Cada grupo de parentes ou conhecidos se reúne para cuidar da própria subsistência. A solidariedade é importante nessas circunstâncias. Acende-se fogo, e, entre duas forquilhas, um galho forte sustenta o caldeirão onde o feijão é posto a ferver. Alguns saem à caça. Se tiverem sorte de apanhar uma anta, o jantar acabará virando um festim, mas qualquer coisa que trouxerem será bem-vinda. Na falta de comida extra, o feijão será acompanhado por farinha de milho. 
Enquanto isso, já começa a procura por um lugar entre as árvores em que armar as redes para dormir. Gente de mais recursos traz também uma proteção contra chuva e mosquitos. Os outros torcem por não haver desses minúsculos seres sanguinários, que bem poderiam fazer parte dos suplícios do inferno, se Dante tivesse sabido de sua existência. E há, ainda, monçoeiros que nem uma simples rede têm, e irão buscar abrigo como for possível, no chão, perto da fogueira.  Ali, pelo menos, as cobras não costumam chegar.
Algumas horas depois, não havendo mais sol, os caçadores retornam. Não foram muito felizes, só trazem caça pequena, mas já é alguma coisa... O feijão borbulha nos caldeirões. Para os monçoeiros famintos, o aroma parece bom.
Enquanto todos jantam, sentados no chão, ouve-se um trovejar distante. Um murmúrio de desaprovação percorre o grupo. Com a roupa molhada e a água a cair sobre o rosto, poucos são os que conseguem conciliar o sono. Os sortudos que têm uma rede com proteção são os únicos que pouco sofrem. Mas o susto é passageiro. As nuvens se dispersam e logo a lua é perfeitamente visível por entre as árvores. 
Ao redor da fogueira, alguns arriscam uma canção. Há monçoeiros veteranos que se dispõem a contar casos que, por sua vez, também foram contados por outros monçoeiros. A maioria, porém, desgastada pela viagem, só pensa agora em descansar, e logo, no acampamento, serão ouvidos somente o crepitar do fogo e os sons de aves noturnas. 
Monçoeiros de primeira viagem tremem a qualquer ruído. Os mais experientes sabem disso, e, às vezes, algum gaiato resmunga: Olha, é miado de onça...
Os mais afoitos tratam de ter certeza de que as armas estejam ao alcance da mão, se, por acaso, precisarem delas. Para piorar, ouvem-se os latidos dos cachorros que acompanham a monção. Presos para não tentarem alguma aventura na mata, levantam a cabeça, rosnam, farejam o ar, tornam a latir. Depois de algum tempo, de novo o silêncio, apenas quebrado pelos ruídos monótonos da floresta, ou pela interjeição mais do que irritada de alguém que já não suporta piuns e borrachudos.
Amanhece. Uma névoa fina repousa sobre o rio. Sonolentos, os monçoeiros vão deixando as redes. Os remeiros já estão junto à margem, e, apontando para o chão, tagarelam entre si, com entusiasmo pouco usual. Os outros vão chegando perto. Na terra barrenta e repisada, as evidentes pegadas de um felino de grande porte não deixam dúvidas quanto à visitante que passeou pelas redondezas enquanto todos dormiam.
Mas é hora de levantar acampamento e seguir viagem. À frente, os rios com suas cachoeiras, as florestas, com sua beleza, mistério e perigos sem conta; muito longe, a miragem do ouro do Cuiabá.


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A tragédia de um minerador paulista que foi procurar ouro em Cuiabá

Nos tempos coloniais, a procura de ouro no interior do Brasil era muito arriscada


Monumento ao minerador desconhecido em
Cristalina - GO (fotografia infravermelha)
Os leitores bem sabem o que é que movia muitos paulistas à ida aos sertões desconhecidos nos tempos coloniais: era a fome desesperada por enriquecimento (rápido, de preferência), quer através do apresamento de indígenas para escravização, quer mediante a descoberta de jazidas auríferas. No primeiro caso, os escravizados eram usados, alguns, em terras dos próprios apresadores, enquanto outros eram vendidos para quem queria cativos para o trabalho. Ter muitos escravos significava aumentar as áreas de cultivo, produzir mais e, por conseguinte, ampliar as possibilidades de ganho.
Nada disso, porém, se comparava à riqueza com que a sorte na procura do ouro favorecia alguns felizardos. Fazia-se fortuna em brevíssimo tempo. Poucos, porém, é que alcançavam a sonhada prosperidade. A maioria tinha rendimentos modestos, até porque, nas minas, o custo de vida era absurdo. Literalmente, tudo se comprava a peso de ouro. 
Não foram poucas as pessoas que, mesmo desfrutando em São Paulo de uma posição econômica satisfatória, resolveram arriscar o patrimônio na procura de metais preciosos. Queriam ter mais, muito mais, e acabavam perdendo quase tudo o que tinham. Um desses casos, registrado na Nobiliarchia Paulistana, é o do sargento-mor João Carvalho da Silva, Devia ser um sujeito respeitado em São Paulo, já que, sobre ele, Pedro Taques refere: "ocupou os cargos da sua República (¹), foi sargento-mor do terço de auxiliares, teve as estimações que soube conseguir a sua docilidade e a graduação do seu distinto nascimento. Possuiu os bens da fortuna, sem inveja aos opulentos do seu tempo [...]."
Ao ouvir dizer que em Cuiabá havia muito ouro, deu-lhe na cabeça investir tudo o que tinha para ficar ainda mais rico. Meteu-se em uma das monções e lá se foi, Tietê afora, e outros rios mais, com todos os escravos de que dispunha, supondo que tudo lhe sairia muito bem. 
Mas não foi assim.
A desdita começou ainda antes da chegada às minas, quando canoas com suprimentos foram perdidas nas terríveis cachoeiras que havia na viagem. Conta Pedro Taques:
"[...] Nesta jornada, a mais arriscada pelo precipício das grandes cachoeiras que há nos rios desta navegação, voltou-se a roda a que chamamos da fortuna, e emborcando-se-lhe algumas canoas da sua conduta, lamentou antes de chegar às minas, castigada a resolução que tomara de deixar o estabelecimento da pátria [sic] para passar às minas ainda não estabelecidas no ano de 1721. O golpe foi grande por ser muito avultado o prejuízo."
Não cessaram aí as desgraças. João Carvalho da Silva e os escravos chegaram a Cuiabá em ocasião na qual grassavam as doenças, e não demorou para que muitos dos seus cativos acabassem morrendo. Segue a Nobiliarchia Paulistana:
"[...] Perdeu quase todos os escravos e se impossibilitou para, com o serviço deles, lucrosos tesouros que o conduziram àqueles sertões à custa de tão excessiva despesa, riscos de vida e tolerância das incomodidades, além da contingência dos assaltos dos bárbaros gentios de diversas nações, a cujas forças têm perecido tantas vidas [...]."
Era essa, leitores, a dura realidade das monções cuiabanas, para a maioria dos que nelas se aventuravam. A Pedro Taques ainda ocorreu mencionar que o triste herói dessa história era já viúvo quando se pôs a procurar ouro e que não tinha filhos que pudessem lamentar a herança malbaratada. Acertou, ainda na Antiguidade, o sábio rei dos hebreus, ao considerar que proveito havia na vida daquele que, não tendo descendência, gastava tempo e energia em fadigas para acumular bens: "vanitas est et adflictio pessima..." (²)

(1) Era assim que Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, nomeava a administração pública da cidade de São Paulo.
(2) Ecclesiastes 4, 7-8.


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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O trabalho do proeiro nas embarcações monçoeiras do Século XVIII

A existência de um rio que corria para o interior e não para a o litoral - o Tietê - foi um fator importante a favorecer a curiosidade dos primeiros exploradores da América do Sul, que, na ânsia por descobrir metais preciosos e outras riquezas, arriscavam a vida para ir até onde, ao que se sabe, europeus nunca haviam chegado. Quando, no Século XVIII, descobriu-se o "ouro do Cuiabá", expedições devidamente organizadas passaram a percorrer o Tietê e outros rios como única rota então praticável para quem sonhava com a riqueza supostamente rápida e fácil que o ouro talvez proporcionasse. Essas expedições que partiam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP) foram chamadas monções.
As embarcações que os monçoeiros usavam, fossem simples canoas ou os enormes batelões, deviam ser velozes e resistentes para enfrentar com sucesso os obstáculos impostos à navegação pelas numerosas corredeiras e saltos que havia no percurso. Era necessário, também, como questão de vida ou morte, que fossem tripuladas por remadores fortes, com capacidade de manter o ritmo monótono das remadas por horas e horas, sem fraquejar. Muitos desses remadores eram escravos.
A segurança na condução de homens, bagagem, suprimentos, e mesmo de animais em uma embarcação monçoeira dependia, porém, do comando, conhecimento e experiência de um indivíduo em particular: o proeiro. Esse sujeito precisava saber tudo a respeito dos rios pelos quais navegaria. Um lapso de sua parte, e as perdas, materiais e humanas, podiam ser irremediáveis.
O astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida, estando a serviço da Coroa portuguesa, veio de Vila Bela da Santíssima Trindade a São Paulo em 1888, fazendo, portanto, a navegação de retorno das monções, ocasião em que anotou, em seu diário, o seguinte relato de como trabalhava o proeiro da embarcação em que viajava:
"Este homem tem as chaves do caixão das carnes salgadas e das frasqueiras, comanda e governa a proa, e está na sua jurisdição e vontade o fazer mais ou menos compassadas as remadas, conforme bate mais ou menos apressadamente com o calcanhar na canoa, servindo cada pancada como de compasso para cada uma remada: todos remam em pé. Este homem merece na verdade toda contemplação, pois nas descidas das cachoeiras leva a vida em muito perigo e risco, porque como o rio corre nelas (para assim dizer), como a bala despedida da peça (*), é necessário desviar a proa e a canoa das pedras que lhe estão em frente, e não bastando o leme, que também é um remo, vai este proeiro em pé na proa da canoa com um grande e forte remo nas mãos para poder ajudar e aumentar o efeito do leme, e rapidamente desviar a canoa das pedras. Como estas são muito dispersas, lhe é necessário mudar o remo para um e outro lado da canoa, conforme a necessidade o pede, e com grande presteza. Se nestas rápidas mudanças sucede escorregar ou roçar a canoa em alguma pedra, ainda que seja levemente, vai ao rio e se faz em pedaços, ou ao menos morre afogado."
A competência e a responsabilidade do cargo que ocupava faziam de cada proeiro um elemento respeitado entre as tripulações monçoeiras. E, consciente disso, o próprio indivíduo acabava, segundo Lacerda e Almeida, por adotar uma conduta meio arrogante, conforme assinalou, na linguagem típica do Século XVIII:
"Todas estas considerações da importância da sua pessoa e a autoridade que tem, o fazem respeitado de seus companheiros, e tem toda a chibança de um vilão obsequiado e respeitado."
À vista disso e apesar dos riscos inerentes ao ofício, quase podemos dizer que o sonho de cada remador nas monções era, afinal, ser proeiro.

(*) Peça de artilharia, entenda-se.


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quarta-feira, 18 de março de 2015

A tripulação usual de um batelão monçoeiro

"Batelão" era o nome dado a cada uma das enormes canoas que, ao tempo das monções cuiabanas, eram usadas nas viagens pelo Tietê, Paraná e outros rios. Partia-se de Porto Feliz - então chamada Araraitaguaba (*) - mas o retorno podia ser pelo próprio Tietê ou, em época de grandes chuvas, pelo rio Piracicaba.
Os batelões eram, com frequência, construídos a  partir do tronco de uma única árvore, o que era possível porque, naquela época, havia ainda matas em São Paulo com árvores enormes.
Habitualmente, a tripulação de um desses batelões era composta por oito homens com prática na navegação dos rios, incluindo um piloto (que viajava na popa), um proeiro e seis indivíduos de muita força para remar contra a corrente, habilitados, inclusive, para o uso de varejões em lugar de remos, quando era preciso atravessar as perigosas corredeiras. Entendam os leitores que o número de tripulantes podia variar, ainda que oito fosse o padrão.
Ora, cada uma dessas embarcações devia levar, também, os respectivos monçoeiros e sua bagagem. Em alguns casos, até animais eram transportados. Vê-se, pois, quão árdua era a tarefa dos remadores que, não raro, eram escravos. Assim carregado, um  batelão deslizava pelo leito dos rios, rumo ao interior do Brasil, ficando a borda apenas uns poucos centímetros acima do nível da água. 
Era preciso coragem, mas a esperança de enriquecimento com o ouro levou muita gente a correr todos os riscos, que não eram relacionados somente à navegação. Havia também as doenças, a fome, os ataques de indígenas (paiaguás e guaicurus, entre outros), as chuvas torrenciais e, pequenos mas insuportáveis, mosquitos que tornavam a viagem uma rota infernal. 
Foi assim que se explorou e povoou uma parte considerável do interior do Brasil. Quem ia, queria enriquecer. Voltar? Era apenas incerteza.

Parte que resta de um batelão monçoeiro (Parque das Monções, Porto Feliz - SP)

(*) Os leitores não terão muita dificuldade em compreender a razão para a mudança de nome dessa localidade...


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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 2

Os guaicurus estavam para a América do Sul como os comanches para a América do Norte. Ferozes e destemidos, afeiçoaram-se grandemente aos cavalos, animais que não eram nativos do Continente Americano (foram trazidos pelos colonizadores europeus) e que tanto comanches como guaicurus passaram a apreciar, desenvolvendo método próprio de conduzi-los. Se devemos crer em testemunhos de contemporâneos, pensavam que tinham pleno direito a todos os cavalos do Universo. Portanto, assumindo que os cavalos eram seus, nada mais justo que capturá-los de quem estivesse com eles. Não constituiria roubo. Os outros é que os roubavam...
Devemos, todavia, como já afirmei na postagem anterior, ser cautelosos, mesmo com relatos provenientes dos tempos coloniais. Tanto comanches quanto guaicurus tiveram as terras nas quais viviam sistematicamente ocupadas por colonizadores, que tinham voz, através de seus escritos, de modo que podemos, ainda hoje, saber seu ponto de vista nos confrontos com indígenas; já os nativos da América, muitos deles não dispondo de escrita e muito menos de registros sistemáticos, não deixaram testemunhos equivalentes aos dos colonizadores. É difícil, pois, estabelecer uma avaliação imparcial. Certo, mesmo, é que os confrontos foram sangrentos, tanto na América do Norte quanto na América do Sul.

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No Brasil do Século XIX os enfrentamentos entre gente de origem europeia e índios guaicurus já haviam diminuído bastante de intensidade, quando comparados a combates ocorridos no século precedente, durante o período das chamadas monções cuiabanas. Não obstante,  o relato feito por Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, é ainda muito similar aos que aparecem em obras mais antigas. Embora seja razoável supor que Florence tenha lido Ayres de Casal e outros autores, ele deveria ter também material de primeira mão a apresentar a seus leitores:
"Estão, com efeito, os anais de Mato Grosso cheios das traições desses infiéis. Errantes nas margens do Paraguai e Taquari e estendendo suas excursões em vastíssimo território, fizeram no princípio do descobrimento grande dano às monções que por entre eles passavam. Foram já por vezes até Camapuã e, não há muito tempo, arrebataram de lá perto de 500 cavalos. Costumam também entranhar-se pelo país dos caiuás e caiapós perto do Paraná, a fim de reduzi-los à escravidão."(¹)
"Não poupam em suas devastadoras correrias nem sequer os espanhóis das margens do Paraguai, indo mesmo em tempo de paz saquear-lhes as povoações, cujos despojos vendem aos brasileiros. Não sei se depois de pacificados continuam nessas práticas." (²)
Não deixa de ser curioso que um europeu, francês, supusesse que os indígenas da América tinham a obrigação de respeitar as fronteiras que representantes de países europeus (no caso, Portugal e Espanha), haviam combinado entre si ainda no Século XVIII. Aliás, fronteiras combinadas depois de uma quantidade de tratados e guerras... Isso demonstra o quanto pode ser difícil romper com a mentalidade reinante.

Guaicurus indo ao comércio com europeus, de acordo com Debret (³)

Segue H. Florence contando sobre uma menina branca que fora raptada e criada pelos guaicurus:
"Esses bárbaros levam tão longe a ousadia que não trepidam meter nos ferros da escravidão até os próprios espanhóis. Vi chegar a Cuiabá uma menina branca dessa nacionalidade e de 12 anos de idade, que o Tenente-Coronel Jerônimo tinha tirado de entre os guaicurus, onde vivia em cativeiro. Fora com a mãe raptada de sua aldeia natal no Paraguai, ainda criança de peito, ficara só no mundo e tomara todos os hábitos dos índios, cuja língua se tornara a dela." (⁴)
Finalmente, passa a tratar da notável habilidade que havia levado os colonizadores a atribuírem aos guaicurus o apelido de “gentio-cavaleiro”:
"Os guaicurus são todos cavaleiros e bons corredores. Possuem numerosa cavalhada roubada aos espanhóis ou criada nos campos. Às vezes vão vender em Cuiabá animais de sela por 9$000 ou 10$000. Há índios que têm dois, três e mais. Montam na anca, o que faz com que usem de rédeas muito compridas." (⁵)
Nesse aspecto é possível outra comparação entre guaicurus e comanches: aos europeus e/ou seus descendentes causava estranheza o método pelo qual os indígenas controlavam e conduziam os cavalos.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 83.
(2) Ibid., pp. 83 e 84.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) ,FLORENCE, Hércules. Op. cit., p. 84.
(5) Ibid., p. 84.


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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 1

Os guaicurus estavam entre os indígenas mais temidos do período colonial - a própria menção a seu nome era suficiente para provocar calafrios entre os monçoeiros, que eram frequentemente por eles atacados - era o "gentio cavaleiro", como então se dizia, gente que montava de um modo estranho, ao menos segundo as regras de equitação seguidas por europeus e seus descendentes. Não causa espanto, pois, que Ayres de Casal não tivesse, sobre esses indígenas, uma visão lá muito favorável, como, de resto, não a tinham muitos dos autores da época sobre quaisquer dos povos nativos da América:
"São os guaicurus de mediana estatura, bem feitos, sadios, nutridos, e ao parecer adaptados a qualquer trabalho penoso; mas poltrões. Comem muitas vezes no dia, e mui devagar; seus manjares são muito cozinhados e sem asseio. Jamais padecem indigestões. É notável a dieta de que usam nas suas raras moléstias. Jamais apareceu um escorbutado entre eles, nem memória de mortes repentinas.
[...].
Pintam o corpo com tinta de urucum e jenipapo, no que guardam assaz de simetria. No cabelo os moços não têm uso certo; os velhos trazem a cabeça rapada em roda à semelhança dos leigos franciscanos. As mulheres também rapam a cabeça em redondo e despontam o cabelo [...]." (¹)
Depois, prossegue o padre Ayres de Casal:
"Os homens cuidam na caça, pesca, em tirar mel, frutas silvestres, palmitos, dos cavalos, feitura de armas e canoas [...]; as mulheres fiam, tecem panos e cintas de algodão, fazem cordas, louça e esteiras. Ambos os sexos se ocupam igualmente no mister da cozinha." (²)

Carga de cavalaria guaicuru, de acordo com Debret (³)

E, se devemos crer no que escreveu Ayres de Casal, não era apenas com os portugueses colonizadores que os célebres guaicurus entravam em confronto:
"São tão soberbos que a todas as nações dos gentios confinantes tratam com desprezo; a todas fazem crua guerra, sendo delas de alguma sorte respeitados e temidos pela vantagem que têm na cavalaria e armas de que usam [...]." (⁴)
Lembro aqui, no entanto, que, sem escrita, os guaicurus não deixaram seus próprios relatos para que pudéssemos compará-los aos dos colonizadores. De qualquer modo, percebe-se que havia interesses conflitantes: europeus e seus descendentes buscavam explorar novos territórios e riquezas, não importando, muitas vezes, os métodos empregados na execução de seus projetos; populações indígenas aí anteriormente estabelecidas sentiam-se ameaçadas e viam os colonos como invasores, passando então à defesa e/ou tomando a iniciativa do ataque. Nada muito diferente do que tem ocorrido em boa parte da história da humanidade neste planeta. Como sempre, quem tinha melhores armas acabou levando vantagem - não sem muitas perdas, porém.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 277.
(2) Ibid., pp. 278 e 279.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Op. cit., p. 279.


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