segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Trabalho do Proeiro nas Embarcações Monçoeiras do Século XVIII

A existência de um rio que corria para o interior e não para a o litoral - o Tietê - foi um fator importante a favorecer a curiosidade dos primeiros exploradores da América do Sul, que, na ânsia por descobrir metais preciosos e outras riquezas, arriscavam a vida para ir até onde, ao que se sabe, europeus nunca haviam chegado. Quando, no Século XVIII, descobriu-se o "ouro do Cuiabá", expedições devidamente organizadas passaram a percorrer o Tietê e outros rios como única rota então praticável para quem sonhava com a riqueza supostamente rápida e fácil que o ouro talvez proporcionasse. Essas expedições que partiam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP) foram chamadas monções.
As embarcações que os monçoeiros usavam, fossem simples canoas ou os enormes batelões, deviam ser velozes e resistentes para enfrentar com sucesso os obstáculos impostos à navegação pelas numerosas corredeiras e saltos que havia no percurso. Era necessário, também, como questão de vida ou morte, que fossem tripuladas por remadores fortes, com capacidade de manter o ritmo monótono das remadas por horas e horas, sem fraquejar. Muitos desses remadores eram escravos.
A segurança na condução de homens, bagagem, suprimentos, e mesmo de animais em uma embarcação monçoeira dependia, porém, do comando, conhecimento e experiência de um indivíduo em particular: o proeiro. Esse sujeito precisava saber tudo a respeito dos rios pelos quais navegaria. Um lapso de sua parte, e as perdas, materiais e humanas, podiam ser irremediáveis.
O astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida, estando a serviço da Coroa portuguesa, veio de Vila Bela da Santíssima Trindade a São Paulo em 1888, fazendo, portanto, a navegação de retorno das monções, ocasião em que anotou, em seu diário, o seguinte relato de como trabalhava o proeiro da embarcação em que viajava:
"Este homem tem as chaves do caixão das carnes salgadas e das frasqueiras, comanda e governa a proa, e está na sua jurisdição e vontade o fazer mais ou menos compassadas as remadas, conforme bate mais ou menos apressadamente com o calcanhar na canoa, servindo cada pancada como de compasso para cada uma remada: todos remam em pé. Este homem merece na verdade toda contemplação, pois nas descidas das cachoeiras leva a vida em muito perigo e risco, porque como o rio corre nelas (para assim dizer), como a bala despedida da peça (*), é necessário desviar a proa e a canoa das pedras que lhe estão em frente, e não bastando o leme, que também é um remo, vai este proeiro em pé na proa da canoa com um grande e forte remo nas mãos para poder ajudar e aumentar o efeito do leme, e rapidamente desviar a canoa das pedras. Como estas são muito dispersas, lhe é necessário mudar o remo para um e outro lado da canoa, conforme a necessidade o pede, e com grande presteza. Se nestas rápidas mudanças sucede escorregar ou roçar a canoa em alguma pedra, ainda que seja levemente, vai ao rio e se faz em pedaços, ou ao menos morre afogado."
A competência e a responsabilidade do cargo que ocupava faziam de cada proeiro um elemento respeitado entre as tripulações monçoeiras. E, consciente disso, o próprio indivíduo acabava, segundo Lacerda e Almeida, por adotar uma conduta meio arrogante, conforme assinalou, na linguagem típica do Século XVIII:
"Todas estas considerações da importância da sua pessoa e a autoridade que tem, o fazem respeitado de seus companheiros, e tem toda a chibança de um vilão obsequiado e respeitado."
À vista disso e apesar dos riscos inerentes ao ofício, quase podemos dizer que o sonho de cada remador nas monções era, afinal, ser proeiro.

(*) Peça de artilharia, entenda-se.

2 comentários:

  1. Engraçado pensar num rio que em vez de correr para o mar, o faz em sentido contrário. Não existe nenhum assim em Portugal. Lembro-me quando fomos ao Egito, a confusão que fez ao meu marido o facto do rio Nilo correr de sul para norte, porque em Portugal correm todos do norte para o sul... pequenos detalhes que apenas reparamos quando viajamos!
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. É verdade. Uma vez estava com um grupo de amigos olhando o céu através de um pequeno aparelho, quando um psicólogo mexicano, que estava no Brasil dando aulas para um curso de pós-graduação, disse que, para ele, as constelações estavam todas ao contrário ("de cabeça para baixo") rsrsrssss.... Claro, é a sensação que se tem ao estar no hemisfério oposto àquele em que se vive.

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