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terça-feira, 15 de maio de 2018

Trabalhos executados por indígenas nas expedições coloniais que iam ao sertão

Remos de uso indígena, etnia tukano
(São Gabriel da Cachoeira - AM)
Não importa se eram oficiais, de catequese ou de particulares que queriam escravizar ameríndios e encontrar ouro - sempre que expedições eram organizadas nos tempos coloniais para viagens ao interior em grande parte ainda desconhecido do Brasil, indígenas que já conviviam com colonizadores eram chamados a participar. Às vezes faziam o trabalho de livre e espontânea vontade, recebendo, inclusive, alguma remuneração, em particular quando missionários jesuítas importunavam as autoridades coloniais para que os salários fossem devidamente pagos; muito mais comum é que fossem forçados a trabalhar, porque, escravizados, não tinham opção. De um modo ou de outro, indígenas eram reputados imprescindíveis, tanto para a realização do trabalho braçal como por seu conhecimento do sertão e do modo de sobrevivência nas selvas da América do Sul.
Antes que uma expedição ao interior começasse, eram os ameríndios que faziam canoas; eles mesmos, mais tarde, empunhariam os remos, já que, não havendo estradas, os rios eram as vias de escolha, por onde as embarcações, feitas cada uma de um só tronco, deslizavam com incrível velocidade. Cachoeiras à frente? Eram os nativos que removiam as cargas, transportavam-nas por terra e faziam passar as canoas. Para completar as refeições de campanha, lá iam indígenas à caça.
É possível ter uma ideia do que acontecia pelo relato de um jesuíta do Século XVIII, o padre José de Moraes:
"Aqui será bem que se note que os índios são os que fazem as canoas, as toldam, as calafetam, os que as velejam, os que as remam, e muitas vezes [...] os que as levam às costas, e os que cansados de remar as noites (¹) e os dias inteiros vão buscar o que hão de comer eles e os portugueses (que é sempre o mais e melhor), os que lhes fazem as casas (²), e se se há de marchar por terra os que lhes levam as cargas e ainda as armas às costas." (³)
Isso não quer dizer que africanos escravizados não fossem, sob algumas circunstâncias, também incluídos entre os que faziam o trabalho pesado nas entradas, tampouco seria razoável desconsiderar que colonos de origem europeia precisavam, a bem da sobrevivência, "colocar a mão na massa". Mas o interior do Brasil era repleto de armadilhas naturais para quem o desconhecia, daí o valor daqueles que sabiam, como ninguém mais, ali viver. Como eram premiados tão notáveis serviços? Vejamos, leitores, o que mais escreveu José de Moraes:
"Tudo isto fazem os tristes índios sem paga alguma mais que o chamarem-lhes cães e outros nomes muito mais afrontosos, e o melhor galardão que podem tirar dessa jornada os miseráveis é acharem (o que poucas vezes acontece) um cabo (⁴) que os não trate tão mal. Jornada tem havido em que dos índios que partiram não voltaram a metade [sic], porque a puro trabalho e mau-trato os mataram." (⁵)

(1) Em virtude do calor durante o dia, no norte do Brasil as viagens eram feitas frequentemente durante as horas da noite.
(2) Abrigos temporários construídos com troncos e folhas de árvores.
(3) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 464.
(4) Chefe de expedição ao interior.
(5) MORAES, José de S.J. Op. cit., p. 464.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Como os monçoeiros do Século XVIII caçavam veados

As monções cuiabanas eram expedições fluviais, principalmente do Século XIX, que iam ao interior do Brasil à procura de ouro. Quando saíam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP) e iniciavam o percurso do rio Tietê, levavam consigo uma boa quantidade de suprimentos. Mas a viagem era longa e trabalhosa, e não poucas vezes acontecia que uma canoa virava, e lá se ia, literalmente por água abaixo, a comida que deveria servir para muitos dias. Diante disso, era importante encontrar alternativas para alimentação, através da caça e da pesca. 
Francisco José de Lacerda e Almeida, astrônomo de Sua Majestade (¹), fez a rota de retorno das monções entre 1788 e 1789. Nessa viagem, teve ocasião de encontrar expedicionários que subiam, observando, a respeito deles:
"[...] Aqueles que sobem por estas águas, como vêm como mais vagar, não só porque são muitas as canoas que se ajuntam para reciprocamente se ajudarem, como porque também gastam muito tempo nas cachoeiras, têm muito tempo para fazerem numerosas e continuadas caçadas, com tanta abundância como facilidade, tanto de perdizes como de veados." (²)
Cervo-do-pantanal
Para o estômago dos monçoeiros, era a hora da desforra - não escasseiam os relatos de monções cujos expedicionários chegaram quase a morrer de fome. Curiosa, porém, é a observação de Lacerda e Almeida sobre o modo usado pelos astutos sertanistas quando queriam caçar veados:
"Encaminham-se os caçadores para as manadas de veados contra o vento, levando na cabeça algum barrete ou pano vermelho; algumas vezes param e levantam um braço, e outras agacham-se; os veados, que não estão acostumados a ver estes fantasmas, chegam-se a eles para os reconhecer, e ficam sendo vítimas de sua curiosidade." (³)
Deixem a sensibilidade de lado, leitores, e enfrentem os fatos: no Século XVIII havia pouquíssima gente neste mundo disposta ao vegetarianismo para salvar os animais, os monçoeiros esfomeados tinham, como máxima preocupação, encontrar comida e não havia quase ninguém que se mostrasse alarmado com a sobrevivência da fauna nativa. Se os exploradores do sertão não vacilavam em comer lagartos e macacos, não seriam as perdizes e os veados que seriam poupados. O que chama a atenção, assumindo a veracidade do relato de Lacerda e Almeida, é a inocência dos rebanhos de ungulados (as "manadas de veados"). Alguém acha que hoje seria assim?

(1) Foi um dos membros da comissão encarregada de demarcar os limites entre as terras sob domínio português e espanhol na América (1780 e 1781).
(2) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 76.
(3) Ibid., pp. 76 e 77.


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