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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Senhores de engenho no inferno

A casa das fornalhas, instalação existente nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial, foi frequentemente comparada ao inferno, conforme se pode ver pelos escritos de vários autores da época - Antonil, entre eles. Antes, porém, que Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas fosse publicado em 1711, outro autor colonial teve a ideia de comparar as fornalhas ao que, na imaginação popular, deveria ser o inferno:
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)
Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época. 
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²) 
Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴) 
Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.  

(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.  
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.

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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Quando começam os festejos do Natal

Estamos no final de outubro e já vejo lojas oferecendo artigos natalinos. Se isto continua, chegará um tempo em que o ano todo será Natal, e, com isso, perde-se a graça da festa. É mais ou menos o que acontece em relação à Páscoa, quando ovos de chocolate são postos à venda desde fins de janeiro. 
No dizer de Joaquim Manuel de Macedo, referindo-se ao Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, era esta a duração dos festejos de Natal durante o Século XVIII, e mesmo no XIX:
"As festas de Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis." (¹)
De acordo com Macedo, os festejos de Natal eram, então, assinalados por missas, ceias e presépios:
"O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam (²) e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores." (³)
Não havia muita novidade à disposição de quem vivia no Rio de Janeiro - como em todo o Brasil - durante o Século XVIII. Por isso, os presépios que anualmente eram abertos, talvez os mesmos, ano após ano, eram tão atraentes. Macedo referiu a existência de três, que mais se destacavam no Rio de Janeiro:
"No fim do Século passado (⁴), os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. Antônio, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno [sic] que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até a de Reis." (⁵) 
Uma coisa é certa; os festejos de Natal eram, em essência, religiosos. O elemento comercial não havia, ainda, se infiltrado neles.

(1)  MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 389.
(2) A missa do galo era celebrada à meia-noite; portanto, as ceias de Natal vinham antes dela.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.
(4) Referia-se ao Século XVIII.
(5) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Arraial ou povoado

O que era um arraial ou povoado nos Séculos XVIII e XIX? Hércules Florence (¹) fez esta descrição:
"Ver um povoado no Brasil, é vê-los quase todos. Uma praça oblonga com a igreja e a cadeia nos lados estreitos; uma ou duas ruas de cada lado traçadas a cordel; casas baixinhas, eis o que compõe um arraial." (²)
Florence estava certo e estava errado. Estava errado, porque a expedição da qual participou, não percorreu o Nordeste brasileiro e, portanto, sua definição não dá conta de todas as particularidades. Não viu, também, arraiais em Minas Gerais, onde o arruamento era completamente irregular, plantado no ritmo do estabelecimento de moradias para os que trabalhavam na mineração. Mesmo os que cresceram e se tornaram cidades de respeito - Ouro Preto é um ótimo exemplo - conservaram características herdadas desses dias em que a mineração começava e a coisa mais importante que um homem julgava fazer era procurar ouro e conseguir dele tanto quanto pudesse, sem se importar em demasia com outras questões que pudesse resolver mais tarde. 
Mas Hércules Florence também estava certo, se considerarmos os vilarejos por onde passou a Expedição Langsdorff, da qual participou. Nascidos como resultado da extração aurífera no centro-oeste brasileiro, nem todos prosperaram. Mais comum do que se imagina era que, tão logo o ouro superficial se esgotasse, os mineradores abandonavam o arraial e seguiam adiante, indo explorar outro local. Disso resultaram os vilarejos fantasmas, com casinholos vazios, quase sem habitantes, ou sem nenhum, mesmo. 

(1) Francês, Hércules Florence atuou como desenhista na Expedição Langsdorff (que saiu de Porto Feliz - SP em 22 de junho de 1826, e se estendeu até 1829). 
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829, trad. Visconde de Taunay. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 188.


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sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Como era a capital do Brasil na primeira metade do Século XVIII

Na primeira metade do Século XVIII, a capital do Brasil era, ainda, a Cidade da Bahia, ou Salvador, fundada com esse propósito no Século XVI pelo primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. Sebastião da Rocha Pita (¹), que amava a cidade (²), descreveu-a nestes termos, que dão uma ideia de sua aparência:
"A cidade com prolongada forma se estende em uma grande planície elevada ao mar, que lhe fica ao poente, e ao nascente a campanha. Está eminente à dilatada povoação da marinha e aos repetidos portos de onde se lhe sobe com pequena fadiga por capacíssimas ruas. Tem duas portas, uma ao sul, e ao norte outra, em cujo espaço estão os famosos templos de Nossa Senhora da Ajuda, o da Misericórdia, que tem a si unido o magnífico recolhimento de mulheres, a majestosa igreja matriz, à qual está próximo o grande palácio arquiepiscopal, a igreja nova de S. Pedro da Irmandade dos Clérigos, o templo, o colégio e aulas escolásticas e doutas dos religiosos da Companhia de Jesus e o suntuoso templo e convento de S. Francisco." (³)  
Sim, Salvador já teve muros e portas! E que ninguém se surpreenda com a menção a tantas igrejas e outros edifícios a elas relacionados: assim se fazia, no passado, concedendo a prioridade a tudo o que se ligava às práticas religiosas.
Mas vamos adiante, para ver o que Rocha Pita dizia dos bairros da cidade:  
"Em seis bairros se divide a cidade: o das Portas de S. Bento, o de Nossa Senhora da Ajuda, o da Praça, o do Terreiro, o de S. Francisco e o das Portas do Carmo, além dos outros que ficam extramuros [...]." (⁴)  
Havia, ainda, praças e edifícios públicos, que evidenciavam os pilares em que então se apoiava a autoridade local, ou seja, Estado monárquico e Igreja:
"[...] Duas praças lhe aumentam a formosura, a de Palácio, quadrada com cento e sessenta e dois pés geométricos por face e vinte e seis mil duzentos e quarenta e quatro de área. Na frente tem o majestoso paço onde residem os generais; na parte oposta a Casa da Moeda; ao lado direito as da Câmara e da Cadeia; ao esquerdo a da Relação, e por seis formosas ruas se comunica a todas as partes da cidade.
A segunda praça, chamada Terreiro de Jesus, se prolonga com trezentos e cinquenta pés de comprimento e duzentos e vinte e oito de largura [...]. Tem no princípio a igreja do [...] colégio dos padres da Companhia, de que tomou o nome, e por todas as partes vai acompanhada e enobrecida de suntuosos edifícios, de que lhe resulta agradável perspectiva e contínua frequência; por seis ruas se franqueia a todos os bairros [...]". (⁵) 
O que é que fez Salvador envelhecer e deixar de ser a capital? Nada, na própria cidade, e sim o que ocorria fora dela. Tomé de Sousa a fundara sob ordens expressas do rei para que se fizesse cidade no coração do território açucareiro, de onde a exportação e consequente cobrança de impostos ocorresse pontualmente; devia ficar tão perto quanto possível do Reino, para facilitar a comunicação entre colônia e metrópole. Contudo, a descoberta do ouro, que não podia ser plantado onde bem se entendesse, mas que se devia arrancar da terra onde pudesse ser encontrado, provocou mudança significativa no eixo econômico do Brasil. Por um pouco de tempo, Paraty foi o porto de saída do ouro para Portugal; depois, a exportação passou a ser feita pelo Rio de Janeiro. Dentro da lógica colonial, o governo devia mudar de endereço. Salvador perdeu o status de capital, e o Rio de Janeiro passou a ser sede de governo em 1763, não por alguns anos ou décadas, mas até que, já bem adiantado o Século XX, alguém tivesse a ideia de, finalmente, transferir a capital da República para o centro do Brasil. 

(1) A primeira edição de sua História da América Portuguesa foi publicada em 1730.
(2) Os adjetivos e superlativos são disso uma prova acabada.
(3) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 35.
(4) Ibid. 
(5) Ibid. 


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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Como era feito o contrabando de ouro e diamantes

Extração de diamantes no Brasil (¹)

Muitos mineradores, e mesmo simples faiscadores de ouro do Século XVIII achavam que a cobrança dos "reais quintos" não passava de exploração. Afinal, eram eles que arrancavam o ouro da terra, à sua custa e à custa do suor de seus escravos, e ainda tinham que pagar um imposto extorsivo? A ideia de que o rei era "senhor natural" do território que governava e que, por sua muita bondade, fazia aos súditos a concessão para que explorassem o ouro não era nada popular no Brasil, e continuou a desfrutar de idêntica antipatia no Século XIX, mesmo com a distinta presença da Corte no Rio de Janeiro.
Em consequência, o contrabando de ouro e diamantes era enorme. A criatividade dos contrabandistas não conhecia limites. O barão de Eschwege (²) descreveu, em Pluto Brasiliensis, algumas das "técnicas" de contrabando, em particular quando era necessário passar por algum registro, que era um ponto de controle de carga e bagagem entre uma capitania e outra: 
"A fim de passar a salvo, usa de toda espécie de espertezas, já bastante conhecidas: caixas com fundo falso, sacos de couro cozidos nas almofadas das cangalhas, esconderijos de madeira nas canastras e fardos de algodão, apesar de estes poderem ser revistados por meio de uma agulha de ferro, que se atravessa em todas as direções. Um deles, quando conduzia uma boiada, teve a ideia de atar saquinhos com ouro na cauda de bois mansos.
Os diamantes eram também escondidos nas bengalas e nos cabos ocos dos chicotes, na coronha das espingardas ou das pistolas, no próprio cano das mesmas, ou no salto das botas." (³)
Eschwege escrevia sobre o que tinha visto, mas devia, também, ter ouvido muitas histórias. É impossível que houvesse presenciado tudo isso porque, afinal, viera ao Brasil a convite do governo joanino. Não era um funcionário público, mas não era, também, alguém em quem contrabandistas iriam facilmente confiar. Fica, porém, uma questão: se as artimanhas dos contrabandistas eram fartamente conhecidas, por que ainda eram usadas? Pode-se imaginar perfeitamente quanta corrupção acontecia nos registros, sem falar no aborrecimento dos funcionários que, dia a dia, precisavam fiscalizar cada caravana, cada tropa de mulas, cada grupo de viajantes que passava, monotonamente, no passo preguiçoso ou cansado de homens e animais. Como regra, não deviam achar razoável que as filas de verificação se tornassem demasiadamente longas. 

(1) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777 - 1855), especialista em minas, esteve no Brasil a convite do governo joanino, que pretendia reanimar a extração de minerais preciosos no país. 
(3) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 525.


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sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Viagem de Ouro Preto a Mariana no começo do Século XVIII

Ir de Ouro Preto a Mariana (ou de Mariana a Ouro Preto) é muito rápido. Mas nem sempre foi assim, por mais estranho que pareça, se considerarmos o quanto as duas cidades são próximas. Era mesmo uma viagem, feita em parte pelo leito de um ribeirão, segundo informou o Barão de Eschwege, que, tendo estado no Brasil no Século XIX, não precisou gastar no percurso o mesmo tempo requerido no começo do Século XVIII:
"[...] O percurso de Vila Rica, hoje Ouro Preto, à atual Mariana, era realizado em três dias, o que hoje se faz em duas horas, por estrada sofrível, aberta quase toda em rochas e aproximadamente a meia encosta da serra." (*) 
Nas primeiras décadas do Século XVIII havia muita pressa, que raiava ao desespero, em arrancar ouro da terra ou do leito de rios. Quem é que pensaria em abrir uma estrada decente? Mais tarde os senhores mineradores devem ter-se dado conta do prejuízo que resultava para si mesmos, se precisavam gastar dias em uma viagem que poderia durar no máximo algumas horas. E a estrada se abriu, apesar de todos os seus defeitos. Lembrem-se disso, leitores, se forem de Ouro Preto a Mariana e não gastarem, para tanto, mais que uma coleção de minutos. 

(*) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 46.


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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Deveres dos familiares do Santo Ofício pelo Regimento de 1774

Se por um lado, ser familiar do Santo Ofício era uma posição honrosa na sociedade, porque o cargo supunha uma reputação religiosa imaculada, por outro, não se pode dizer que ter um desses indivíduos por perto fosse coisa apreciada. 
De acordo com o Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, Livro I, Título IX, de 1774, época em que a Inquisição perdia força em consequência da difusão de ideias iluministas, eram estas as características e obrigações dos familiares do Santo Ofício:
  • Deviam ser pessoas de boa situação financeira ("Terão fazenda, de que possam viver abastadamente");
  • Deviam atender com prontidão quando chamados ("Irão à Mesa do Santo Ofício com pontualidade, todas as vezes que a ela forem chamados pelos inquisidores");
  • Deviam ser obedientes às ordens recebidas ("Cumprirão tudo o que eles [os inquisidores] lhes ordenarem");
  • Deviam comparecer à celebração religiosa de São Pedro Mártir ("Na véspera e dia de S. Pedro Mártir se acharão na Inquisição de seu distrito para acompanharem o Tribunal, e assistirão na igreja em que se celebrar a festa do santo");
  • Deviam, em certas ocasiões, portar a vara que indicava a autoridade do seu cargo ("Quando os inquisidores lhes encarregarem alguma prisão, além de deverem observar o que se lhes declara no Regimento do Meirinho, [...] levarão vara, e com ela acompanharão os presos");
  • Finalmente, a função que os tornava verdadeiramente detestados, porquanto deviam delatar à Inquisição supostos casos de crimes contra a fé ("Se, nos lugares em que viverem, acontecer algum caso que lhes pareça ofensivo da nossa santa fé, ou se os penitenciados não cumprirem suas penitências, com toda a brevidade e segredo darão pessoalmente conta na Mesa do Santo Ofício, havendo-a no lugar de sua habitação, e não a havendo, darão conta ao comissário, e quando o não haja, avisarão por carta aos inquisidores [...]"). 

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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Para ser inquisidor

Requisitos para quem pretendesse ser inquisidor, de acordo com o Regimento de 1774


Embora defendida por muitos e apoiada por monarcas que se beneficiavam dela, a Inquisição nunca foi propriamente amada. Quando foi publicado, sob as ordens do cardeal da Cunha, o novo Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal em 1774, a Inquisição já não se impunha com tanta facilidade como nos dois séculos precedentes; em consequência, o dito Regimento era mais brando, ao menos em relação ao de 1613. Contudo, era exigente quanto a quem poderia ser inquisidor, conforme se vê no Livro I, Título II:
  • Os inquisidores deveriam "ser licenciados por exame privado em alguma das Faculdades de Teologia, Cânones ou Leis";
  • Deveriam ter "ao menos trinta anos de idade";
  • Deveriam ser "pessoas nobres e de Ordens Sacras";
  • Deveriam ter, anteriormente, "servido de deputados" no Santo Ofício, tendo "dado provas de prudência, letras e virtudes, assim para a decisão das causas [...] como para nelas se haverem com a precisa inteireza e igualdade";
  • Deveriam ser "pessoas de tanta autoridade, que correspondendo ao muito de que delas confiamos, desencarreguem no seu ministério a nossa consciência e a sua", dizia o cardeal da Cunha. 
Não há dúvida de que a Inquisição, já sob a crítica e influência do pensamento iluminista do Século XVIII, procurava assumir o aspecto de tribunal justo e piedoso. Mas era, ainda, a Inquisição, e, como tal, um instrumento poderoso de censura à liberdade de pensamento e consciência, limitando, por consequência, também a liberdade de expressão.  


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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Cláudio Manuel da Costa e a procura do ouro nas Gerais

Cláudio Manuel da Costa foi um dos integrantes mais notáveis da Inconfidência Mineira. Nascido em Minas Gerais em 1729, foi ao Reino, estudou em Coimbra e voltou ao Brasil, para viver e atuar como advogado e escritor em Vila Rica. 
A capital das Minas Gerais nesse tempo era não apenas um centro urbano importante, mas, para os padrões da época, um polo cultural significativo. Ali se lia muito, se estudava, se discutia. A riqueza proporcionada pelo ouro permitiu que a arquitetura sacra se desenvolvesse e, apesar de guiada pela estética barroca, ostentasse, também, algumas características nacionais. Não é surpreendente, portanto, que também questões políticas fossem ventiladas. Mesmo proibidas, as obras de autores iluministas acabavam chegando a quem sabia o francês e, de mão em mão, circulavam e iam encontrar abrigo junto às cabeças pensantes da Capitania. 
Como sempre, é preciso escrever um "porém": porém a produção aurífera entrava já em declínio, ainda que a Corte, distante, não se desse conta disso e esperasse receber os mesmos quintos de sempre. Mas era impossível, e temia-se a "derrama", cobrança forçada dos impostos atrasados. A partir daí, fermentou a revolta, que não passou de palavras e projetos. Delatores correram ao governador, visconde de Barbacena, e deram com a língua nos dentes. Desses, o mais famoso é, de longe, Joaquim Silvério dos Reis, mas é certo que não foi o único. O governador agiu rápido, os supostos conjurados foram presos. Entre eles, estava Cláudio Manuel da Costa. Alegou-se que, em 4 de julho de 1789, cometeu suicídio na prisão, mas desde sempre houve questionamentos. Talvez tenha sido assassinado, e parece que havia mesmo quem tivesse motivos para tanto. É por isso que, ao contrário de outros inconfidentes de 1789, não foi levado ao Rio de Janeiro para o processo conhecido como Devassa. De um modo ou de outro, morreu antes.
Entre as obras de Cláudio Manuel da Costa está o poema Vila Rica, escrito em 1773 sob o pseudônimo de Glauceste Satúrnio, conforme era costume na época. Nestes versos, o autor descreve a busca por ouro no Brasil Colonial, salientando a pouca experiência em mineração dos homens que escavavam o solo:

"A continuar a marcha se dispunha
O herói, que um vivo zelo testemunha
Em todos os que o seguem; repartidos
Aqueles a quem são mais conhecidos
Os sertões pela margem se espalhavam
À direita do rio e se empregavam
Em socavar a terra, em diligência
Do metal, de que têm verde experiência." 

Em outro trecho, o poeta retrata o trabalho dos escravos na extração do ouro:

"Passa este quadro, e logo outra pintura
Nova imagem propõem, nova figura,
Que retrata uns mortais de negras cores,
Regando o aflito solo de suores
À força das fadigas, com que cavam
As brutas serras, e nos rios lavam
As porções extraídas, separando
As pedras do metal, que andam buscando."

Era essa, em poesia, a realidade das minas, que Cláudio Manuel da Costa presenciava, a todo instante em Vila Rica, a que hoje chamamos Ouro Preto.  


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segunda-feira, 24 de junho de 2024

Em noite de São João

Muito antes que razões ideológicas durante a Era Vargas tentassem fazer delas um evento folclórico nacionalista, as festas juninas tinham muita importância no Brasil. Isso vem desde os dias coloniais, e alguns até têm visto nelas uma espécie de versão brasileira do Dia de Ação de Graças, porque junho é, de fato, em várias regiões, época de colheita e de fartura: milho, batata-doce, abóboras, amendoim e outros artigos sempre estiveram à disposição das doceiras, fossem livres ou escravas, para que os santos do mês fossem celebrados com toda a dignidade. Ou seriam Santo Antônio, São João e São Pedro apenas um pretexto para a comilança?
Mas as festas podiam, às vezes, resultar em tragédia, como neste caso, contado com a formalidade de genealogista por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, na Nobiliarchia Paulistana:
"Filipa da Cunha foi senhora da quinta que hoje chamam dos Torres, ao pé da quinta do alferes Aleixo Garcez da Cunha, no caminho que da cidade [de São Paulo] vai para a capela de N. S. da Penha, que passou a ser de D. Maria Ângela Eufrásia da Silva. Casou-se duas vezes: primeiro com Francisco Romeiro; segunda com Antônio Teixeira de Oliveira, que na noite de S. João lhe rebentou um foguete que traspassando-lhe a mão [...], acabou da gangrena a 2 de julho de 1722 [...]." 
Os recursos médicos existentes no Século XVIII eram precários, e um ferimento grave podia, por infecção, resultar em morte. Fica apenas uma curiosidade: teriam tentado tratar o ferimento com fumo e mel, como era o costume colonial quando alguém levava uma flechada?


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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pequeno monçoeiro

Um pedaço de madeira, uma faca velha meio cega. O menininho luta para entalhar a forma de um barco, como aqueles que, de vez em quando, vê partir pelo Tietê, no rumo do sertão. 
Ainda é muito cedo e a neblina cobre o rio. Deixando de lado a ferramenta improvisada, corre até o barranco, e olha, e olha... 
Quem sabe? Parece ver movimento ao longe. Seriam os batelões que, há dois anos, haviam partido, levando-lhe o pai, entre tantos outros aventureiros?
A névoa não se dissipa, só um ligeiro ruído na água reacende a esperança. Por pouco tempo. Manejando o varejão, um desconhecido se aproxima, em pé sobre a canoa, e passa adiante, acenando aos olhinhos que o espreitam.
Com persistência grande para pequena idade, volta ao trabalho. Quer fazer o seu barquinho, colocá-lo na água e pensar no dia em que também partirá. Na imaginação de menino, talvez seja isso o significado de ser homem. Abrirá caminho nas florestas, achará ouro, será rico e respeitado. De que mais não será capaz?
Esse sonhar acordado logo acaba, já a mãe é quem grita:
- Anda, menino, vem me ajudar a tirar a palha do milho!...
Pés descalços, corre à casinha em que sós, moram agora a mãe e ele. Manejar o pilão requer uma força que seus braços ainda não têm. Mas, em um acesso de valentia, quer ser grande, quer proteger a mãe, e se esforça para fazer do milho a farinha de que tanto precisam para viver.


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Caçando moscas

Se um sujeito é um tanto desocupado ou desatento, diz-se que anda "caçando moscas". Vou provar a vocês, leitores, que nem todo caçador de moscas - literalmente - tem falta do que fazer, voluntariamente ou não.
Foi no Século XVIII, quando Félix de Azara (¹), mandado pela Coroa espanhola à América para trabalhos de demarcação de fronteiras, resolveu fazer uma viagem entre Buenos Aires e Asunción. Ia a cavalo, sempre que possível, em pelota ou canoa, quando necessário. À altura de Corrientes, tomou conhecimento da existência de um senhor que contava já noventa e três anos. Contar, aqui, não é acaso, e nem força de expressão, conforme vocês, leitores, já vão descobrir.
O que haveria de especial com o tal homem? Bem, em idade avançada, era de todo independente, preparando a própria comida, além de ir, por si mesmo, buscar água e lenha. Não é por isso, contudo, que está hoje sendo apresentado aqui. Sobre ele, disse Félix de Azara: "[...] Se entretém com três livrinhos religiosos, em engordar galinhas, que, quando quer, abate com arco e bodoque, e em matar moscas e contá-las. No ano passado matou [...] nove mil setecentas e quarenta e nove." (²)
É provável que tão estrita contabilidade consumisse parte do tempo de nosso ancião. Ainda por relato de Azara, sabe-se que seus netos moravam nas proximidades. 

(1) Félix de Azara empenhou-se ativamente no estudo da natureza dos lugares da América por onde passou, e deixou escritos que são importantes para o conhecimento das condições da época.
(2) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 47. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Novas regras para a Inquisição em 1774

O Século XVIII é chamado "Século das Luzes" devido à enorme influência exercida pelo Iluminismo, em suas múltiplas facetas. Na política, velhas ideias absolutistas, ainda que não varridas de todo (¹), ao menos foram disfarçadas, fazendo com que algumas monarquias ganhassem um aspecto mais aceitável, e escondendo, atrás de cortinas de modernidade, as teias de aranha ideológicas que andavam, há séculos, tão confortáveis no poder. Nesse cenário, o que se faria com a Inquisição? Deveria ser mantida? Seria possível compatibilizá-la com mudanças que pareciam inevitáveis?
Em Portugal e, portanto, naquilo que diretamente interessava ao Brasil, o inquisidor-geral, Cardeal da Cunha, propôs um novo Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, que entrou em vigor em setembro de 1774, sob os auspícios do Marquês de Pombal e do rei D. José I. Toda a responsabilidade pelos sangrentos autos da fé do passado foi lançada sobre os jesuítas - lembrem-se, leitores, de que a Companhia de Jesus, depois de expulsa de Portugal e seus domínios, foi extinta em 1773 (²). "[...] não houve estabelecimento útil nestes Reinos [...] que a pravidade jesuítica não deturpasse, aniquilasse, reduzisse aos miseráveis termos de os fazerem compatíveis com as máximas do seu despotismo [...]", afirmou o Cardeal da Cunha, entendendo que o Tribunal da Inquisição deveria ter status de tribunal régio e não simplesmente de tribunal eclesiástico. Consequentemente, estaria, em última instância, sob a autoridade do monarca reinante em Portugal. Quem iria supor que o rei pensaria mal dessa ideia?
Na prática, o novo Regimento abolia a tortura, com apenas uma exceção, "por ter mostrado a experiência que sendo a fragilidade humana inferior à constância que seria necessária para tolerar as dores dos tormentos, vêm os atormentados a confessar, por se livrarem delas, o que nunca fizeram, nem ainda imaginaram". Contudo, no Título II, § 3, havia esta instrução: "Porém se os réus forem heresiarcas ou dogmatistas, e constar terem disseminado erros e feito sequazes deles, se os não confessarem e as pessoas que com eles contaminaram; ou confessarem, ocultando algumas das ditas pessoas, serão postos a tormento proporcionado à qualidade da prova e dos indícios, que contra eles houver, pelo muito que importa arrancar de entre os fiéis tão venenosas e pestíferas raízes." Não se admitia, portanto, qualquer tolerância com ensinos ou ideias que contrariassem a doutrina oficial da Igreja. 
É curioso, até bizarro, o que se mandava em relação a acusados de bruxaria, feitiçaria e práticas congêneres, tão investigadas e cruelmente punidas pela Inquisição nos séculos precedentes. O novo Regimento dava a entender que, ou essas práticas eram fruto apenas de superstições e ignorância, ou resultavam de fenômenos ainda não devidamente explicados pela ciência: "Ou foram as referidas invenções miseráveis ideias de outras pessoas pobres e mendicantes, as quais buscavam recurso nas superstições de que fizeram uso para matarem a fome sem fatigarem o corpo com trabalho [...]; ou foram produtos naturais dos novos descobrimentos e das antes desconhecidas operações da física experimental, da química e da botânica, ou foram fenômenos das paixões histéricas e das intemperadas imaginações do sexo feminino [sic!!!!!!]." 
Seria razoável supor, então, que a Inquisição deixasse em paz os adeptos de superstições? Nada disso! Réus dessas coisas seriam chamados ao Santo Ofício e deveriam admitir que tudo o que faziam não passava de "fingimentos e imposturas" e, como suas práticas eram condenadas pela Igreja, podiam receber uma série de penalidades, incluindo açoites e degredo. Nada de fogueira, porém. 
E se algum réu insistisse que, de fato, tinha poderes mágicos? Mandava o Regimento, no Título XI, § 4: "Que os réus que se acharem nos referidos casos, sejam definitivamente julgados por loucos, sem necessidade de outra prova ou exame; que sejam como tais remetidos ao Hospício Real de Todos os Santos; que nele fiquem reclusos nos cárceres dos doidos, enquanto o Conselho Geral não mandar o contrário; e que nos mesmos cárceres sejam tratados pelos enfermeiros deles, como o costumam ser os outros doentes dessa enfermidade, frenéticos ou maníacos, conforme o indicarem os sintomas de cada um dos referidos loucos." 
Estariam os inquisidores ficando bonzinhos, estaria o Tribunal do Santo Ofício ficando menos malvado ou até simpático? 
Não se iludam, leitores. Os tempos eram outros, o Absolutismo, sob o influxo das ideias iluministas, corria sério perigo, e era preciso mudar, para evitar que coroas caíssem das cabeças, ou, pior, que cabeças caíssem do respectivo pescoço. O simples fato de existir um tribunal régio como o da Inquisição prova, sem margem a dúvida, que a liberdade de pensamento e expressão não era consentida. Veja-se, como evidência, o que o "moderno" Regimento do Cardeal da Cunha determinava, no Título IV, § 8, quanto aos condenados por heresia que se recusassem a reconhecer seus supostos erros como tais e fossem, portanto, "relaxados à justiça secular" (³): "Os hereges afirmativos, que persistirem em seus erros até final conclusão de sua causa, serão entregues e relaxados à Justiça Secular; e sendo caso que possa temer-se que digam em público algumas coisas contra nossa Santa Fé, levarão mordaça na boca, e hábito de relaxados; porém se reconhecerem seus erros e se reduzirem à nossa Santa Fé Católica, fazendo inteira confissão de suas culpas, serão recebidos ao grêmio e união da Santa Madre Igreja, e terão reclusão em algum mosteiro ou colégio de Regulares Doutos, que os possam bem instruir nas coisas da fé."
Não importa se, a partir de 1774, foram muitos ou poucos os condenados pela Inquisição. O que interessa é que o cerceamento à liberdade individual permanecia. Era proibido pensar diferente da maioria ou questionar crenças estabelecidas. Considerem, por comparação, meus leitores: um móvel velho e em mau estado se torna novo e bom, apenas por receber uma camada de tinta ou uma demão de verniz? É certo que não. Era inútil tentar reformar o Tribunal do Santo Ofício com a introdução de um novo Regimento, por moderado que fosse em relação aos anteriores. O problema estava na Inquisição em si mesma e nas razões para sua existência.

(1) Sempre há um tapete por perto...
(2) Uma bula papal autorizou sua restauração em 1814.
(3) Expressão usada em todo o Regimento de 1774 para designar aqueles que seriam executados.


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Botas impermeáveis para D. José I

Quem se lembra de D. José I? Nascido em 1714, foi rei de Portugal de 1750 até sua morte em 1777. Ocupava o trono, portanto, quando, em 1755, aconteceu o terrível terremoto que fez tremer as terras lusitanas (¹). Contudo, D. José talvez seja mais famoso por ter colocado Portugal no círculo do despotismo esclarecido, ao nomear Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, como seu primeiro-ministro. O Iluminismo estava a fazer adeptos, ainda que com variadas nuances, nos meios políticos e intelectuais europeus.
Enquanto isso, no Brasil uma árvore começava a chamar a atenção dos aventureiros que, explorando o sertão à procura de metais preciosos, acabavam encontrando prodígios vegetais que, no futuro, seriam reputados tão interessantes quanto ouro ou prata. Era o caso, por exemplo, da Hevea brasiliensis, que produzia uma goma elástica que os índios já conheciam e utilizavam: a borracha. É verdade que os dias da febril extração da borracha na Amazônia ainda estavam distantes, mas objetos desse material se destacavam porque eram leves, flexíveis e, principalmente, impermeáveis. 
Não demorou e alguém teve a ideia de impermeabilizar calçados usando borracha. Deu certo, a notícia da existência de um material com essas características atravessou o Atlântico e, de acordo com Francisco Bernardino de Sousa (²), D. José I julgou que seria uma grande ideia se suas botas fossem revestidas com borracha: "Conhecido no Pará o uso desse calçado, tornou-se geral e não tardou a passar a Portugal, onde em 1755 já estava tão generalizado que o rei D. José também quis ter botas cobertas de goma elástica e para esse fim remeteu o governo uns poucos de pares para a cidade do Pará (³), a fim de serem convenientemente preparados." (⁴) 
A borracha, porém, servia para muito mais que impermeabilizar calçados. A partir do Século XIX seu uso ganhou proporções revolucionárias e fez a riqueza de alguns nomes ligados à grande indústria internacional. No Brasil, como se sabe, a prosperidade que gerou na região amazônica durou pouco. Dela ficaram apenas lembranças e algumas construções que atestam a existência desse brevíssimo tempo de glória.

(1) Não só elas: o terremoto foi sentido em uma área bem maior.
(2) O cônego Francisco Bernardino de Sousa foi encarregado dos trabalhos etnográficos da Comissão do Madeira.
(3) Belém do Pará.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Pará e Amazonas, Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1875, p. 22.


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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Oratórios domésticos

Oratórios domésticos, pequenos armários com finalidade religiosa - serviam para guardar imagens dos santos de devoção da casa -, foram populares no Brasil Colonial, e mesmo muito depois. Ainda podem ser vistos em uso, especialmente em localidades do interior e áreas rurais. Segundo descrição de José Vieira Fazenda em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, "[...] desses móveis havia-os de muitas qualidades: desde a simples caixa de pinho com suas portas, encimada por simples cruzinha, até os luxuosos - feitos de jacarandá, com magnífica obra de talha, guarnições e puxadores de prata". A desigualdade econômica firmava pé até em assuntos religiosos.
Consta que em fins do Século XVIII e início do XIX, nos oratórios de residências no Rio de Janeiro, já então capital do Brasil, sempre havia imagens de Santa Bárbara e São Jerônimo. Por quê? Esses eram os santos geralmente invocados sempre que uma tempestade irrompia. Voltando a Vieira Fazenda, somos informados de que "ao fuzilar do primeiro relâmpago, ricos e pobres prostravam-se ante as miraculosas efígies [...]. Acendiam-se velas bentas, que assim eram conservadas enquanto durava o perigo. Passado este, tudo voltava ao antigo estado, e todos esqueciam Santa Bárbara e São Jerônimo, para deles se lembrarem no dia seguinte, se por acaso no horizonte se apresentavam sinais de nova trabuzana"
Abaixo vocês têm, leitores, dois oratórios antigos, que recordam a religiosidade do passado. O primeiro (¹) é do Século XVIII; o segundo (²), da segunda metade do Século XIX, mostra que a devoção popular comportava multiplicidade de afeições.



(1) Pertence ao acervo da Casa de Cultura de Paracatu - MG.
(2) Pertence ao acervo do Museu Histórico e Geográfico de Monte Sião - MG.


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terça-feira, 28 de abril de 2020

Felinos sagazes

É um daqueles casos que, se não resolvem nenhuma das questões propostas pela "Grande História", ao menos servem muito bem para humanizar o estudo e a compreensão do modo como viviam os que foram antes de nós. Secundariamente, não deixa de ser uma boa ilustração da proverbial sagacidade dos gatos.
Assim, sem mais delongas, vamos à aventura felina contada por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, autor setecentista, no Novo Orbe Serafico Brasilico. Tudo começou quando um novo guardião, sem nenhuma estima por gatos, foi designado para o "Convento da Alagoa":
"Há poucos anos foi das partes da Bahia para este Convento da Alagoa por seu guardião certo religioso. Assim como chegou, ou para divertimento do trabalho do governo, ou para experiências de uma escopeta que levou consigo [sic], entrou a dar fogo nos gatos que havia na casa, e seria talvez em despique de alguma ceia, que lhe haveriam tirado à ligeireza da unha. Matou um ou dois, mas nos outros foi tal a advertência do seu natural instinto, que não apareceram mais de dia, nem ainda de noite aonde o Guardião os pudesse ver. [...]" (¹)
Havia, porém, um religioso, frei Manoel da Cruz, que, franciscanamente, amava os gatos, com especial devoção a um deles, a quem acolhia em sua cela para lhe dar algum petisco. Ora, o dito bichano, ciente do que fazia o guardião, passou a sumir nas horas claras, e mesmo sendo já noite, enquanto o desalmado gaticida não ia dormir. Depois disso, porém... Continua Jaboatão:
"[...] tanto que era noite, e o guardião estava recolhido, saía o gato do seu esconderijo, vinha à cela do seu benfeitor, tomava a ração e se retirava até o outro dia às mesmas horas. [...]" (²)
Não pensem, leitores, que a gatice acabou aqui. As idas e vindas felinas teriam durado um ano e meio, tempo que o guardião avesso a miados permaneceu no convento. Mas um dia, afinal, foi embora, e deixo que Jaboatão conclua a história, ficando a critério de quem lê acreditar ou não:
"[...] O mais notável deste caso foi, que no dia de manhã, em que o guardião despedido do convento se foi embarcar em uma canoa na praia à porta do carro do mesmo convento, entrou nele este gato com alguns mais, e não tornaram a sair, nem a esconder-se." (³)

(1) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 612.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 18 de julho de 2019

O primeiro porco e a primeira vaca de leite levados às minas de Goiás

Cidade de Goiás, fundada em 1729 por
Bartolomeu Bueno da Silva e pela gente que o
acompanhava na procura de jazidas auríferas
Depois de muita procura, encontrou-se ouro no Brasil. Foi isso pelo final do Século XVII. No centênio seguinte, as explorações levaram ao achado de jazidas auríferas também em Goiás. O caso é que, liderados pelo mais que famoso bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, homens famintos por ouro estabeleceram povoados que, nascendo quase que literalmente do dia para a noite, não podiam contar com fontes confiáveis de suprimentos. 
Assim, se o ouro aparecia em profusão, por outro lado faltava comida, faltava vestuário básico. Os preços, em consequência, eram monstruosos. Luís d'Alincourt, um oficial português do Real Corpo de Engenheiros, esteve em Goiás no Século XIX e deve ter ouvido quem ainda contasse algo desses tempos de preços escabrosos, porque escreveu: "[...] por toda a parte entraram aqueles homens a revolver a terra para colherem só o único fruto de seus cuidados; a agricultura foi inteiramente desprezada, e só os vivandeiros, que de contínuo estavam a  chegar de São Paulo, tiravam sólidos e avultados lucros, e eram senhores de taxar os gêneros, que subiram naquela época a grandes preços; basta dizer-se que o alqueire de farinha de milho custava dez, e onze oitavas de ouro, o deste grão seis, e sete; o primeiro porco que apareceu (1), vendeu-se por oitenta, e a primeira vaca de leite por duas libras de ouro [...]." (2) 
Quanto valeriam estas coisas, atualmente? É difícil determinar com exatidão, porque seria necessário avaliar o poder de compra na época, mas algumas contas simples podem ser úteis. Consideremos:
  • uma oitava equivalente a cerca de 3,58 gramas;
  • um alqueire equivalente a 13,8 litros (³);
  • uma libra equivalente a 0,453 gramas;
  • uma arroba equivalente a cerca de 14,7 quilogramas. (⁴)
Então, um alqueire de farinha de milho, ou seja 13,8 litros, era vendido por, no mínimo, 25,8 gramas de ouro; um alqueire de milho, por mais de 21 gramas de ouro; uma vaca de leite, por duas libras de ouro, ou seja, 0,906 gramas; finalmente, o porco, que passava por ter sido o primeiro a pôr as patas nas minas de Goiás {ainda que contra a própria vontade, e para um infeliz propósito), vendeu-se por oitenta oitavas, ou seja, 286,4 gramas. Quem tiver a curiosidade, poderá verificar a cotação do dia do grama de ouro, e, fazendo mais algumas contas, chegará a ter uma ideia do preço dessas mercadorias naqueles tempos que já vão longe.

(1) Dizer que "apareceu" parece um tanto injusto.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 78.
(3) A correspondência para essa medida era variável.
(3) Essas correspondências são aproximadas.


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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O costume de abençoar as monções que percorriam o Tietê no Século XVIII

Este monumento assinala o local
aproximado de onde
partiam as monções do Século XVIII
Foi em 22 de junho de 1826, ao sair a Expedição Langsdorff de Porto Feliz, que o desenhista francês Hércules Florence registrou: "[...] dirigimo-nos para o porto, onde achamos o vigário paramentado com suas vestes sacerdotais, a fim de abençoar a viagem, como é costume, e rodeado de grande número de pessoas que viera assistir ao nosso embarque." (¹)
O "costume" a que Hércules Florence fez referência, de abençoar as expedições que partiam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP), datava do tempo das monções cuiabanas. Corria, então, o Século XVIII, e, de acordo com Affonso de E. Taunay, a fórmula usual da benção era esta, na qual o sacerdote invocava para os monçoeiros e embarcações que viajariam pelo Tietê a mesma proteção concedida pela mão direita de Deus à arca de Noé, durante o dilúvio, e a São Pedro, quando andara sobre o mar: 
"Propitiare, Domine, suplicationibus nostris et benedic navem istam dextera tua sancta et omnes, qui in ea vehentum fiant dignitatus es benedicere arcam Noe ambulantem in diluvio. 
Porrige eis, Domine, dexteram tuam, sicut porrexisti Beato Petro ambulanti supra mare.
Qui vivis er regnas in secula seculorum" (²)
Havia ainda, na época da Expedição Langsdorff, algum movimento de viajantes que seguiam rumo ao interior do Brasil pelo rio Tietê, em expedições militares ou em algumas poucas expedições comerciais. A febre do ouro do Cuiabá já era, porém, coisa do passado. 
Ressalvadas as proporções, o ritual de partida das monções cuiabanas guardava semelhanças com o cerimonial religioso que assinalara a partida das grandes expedições marítimas portuguesas que, nos Séculos XV e XVI, haviam alcançado as Índias e outras terras. "Os aventureiros, que se atiram aos mares", escreveu Teófilo Braga, "desconhecendo as terras em que hão de aferrar, [...], saem em procissão, acompanhados dos sacerdotes que salmeiam invocando o céu, preparando-os para a viagem donde talvez não mais voltarão [...]" (³). 
Nas monções não havia as grandes tempestades oceânicas, mas havia, a cada passo, a fúria traiçoeira dos rios a enfrentar, além das doenças tropicais, do confronto com indígenas, fome e sede, mesmo que os expedicionários estivessem rodeados por água, porém imprópria para consumo humano. Em ambos os casos havia a fadiga, o medo do desconhecido, a vindicação da honra pessoal, a busca por riquezas e, mais ou menos intensamente, algum ideal religioso, de que se levaria a fé até paragens ainda não alcançadas.
Na partida de Portugal havia, por suposto, mais pompa, com a presença de figuras eclesiásticas notáveis, e até, eventualmente, do próprio monarca reinante; à margem do Tietê, o cerimonial era forçosamente singelo, com a benção aos navegantes que haviam já ouvido missa. Não se poderia esperar mais em povoação tão pequenina, no interior de uma capitania em grande parte ainda por explorar.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 20.
(2) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 54.
(3) BRAGA, Teófilo. Estudos da Idade Média. Porto, Braga: Livraria Internacional, 1870, p. 125.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Paganini

Transformações sociais, políticas e econômicas ocorridas no Século XVIII e sua relação com o desenvolvimento da luteria e da técnica violinística


Niccolò Paganini, o mítico violinista que enfeitiçava plateias com as diabruras que era capaz de executar com seu instrumento, nasceu em Gênova no ano de 1782. Deixando para trás uma infância pobre e sofrida, chegou a atingir imensa popularidade, atraindo plateias consideráveis em boa parte da Europa, principalmente entre os anos de 1828 e 1834. Até fábulas sinistras foram inventadas para explicar tanta genialidade. Faleceu em 1840.
Infelizmente, Paganini viveu em um tempo no qual as gravações ainda não existiam, de modo que não podemos saber como, exatamente, soava a música que arrancava do violino. Entretanto, deixou composições que, se não brilham pelo mérito estético, servem para mostrar a que altura chegava sua capacidade técnica.
O fenômeno Paganini, contudo, só foi possível porque antes dele viveram luthiers que aperfeiçoaram a construção de instrumentos de cordas. Jacob Steiner (1), a família Amati, Antonio Stradivari e Giuseppe Guarneri (2) são nomes que alcançaram destaque pela construção de excelentes instrumentos. Ao menos no conceito popular, o mais celebrado luthier do Século XVIII é Antonio Stradivari. Apesar disso, não era um Strad o preferido de Paganini, e sim um Guarnerius. Como regra geral, a maioria dos instrumentos de cordas precisa de algum tempo de uso para atingir a plena maturidade sonora (3), e, por essa razão, não surpreende que o instrumento favorito do genial mago do violino já tivesse décadas de existência ao ser por ele tocado, uma vez que fora construído por volta da década de 1740. 
Embora pareça simples, um violino é formado por cerca de oitenta partes diferentes, todas de fabricação extremamente delicada. O resultado, em termos de potência e riqueza sonora depende, portanto, de uma multiplicidade de fatores, que um luthier competente controla à exaustão.  
Nem todo mundo sabe, mas, no Século XVI, o padrão é que violinos tivessem apenas três cordas. Ainda nesse centênio chegou a ter quatro, que eram feitas de tripa (de carneiro) e, embora produzissem um som delicado, tinham o inconveniente da fragilidade. A crescente busca por instrumentos capazes de maior volume sonoro levou, por volta de 1700, à prática de revestir o encordoamento com prata, e o emprego de maior tensão nas cordas sacramentou o uso de materiais de resistência superior. No Século XVIII, o braço e o espelho se tornaram mais longos. Assim, foi possível obter mais brilho e potência, adequados a auditórios cada vez maiores. Outras novidades introduzidas foram cavaletes mais altos, além de alterações na espessura do tampo e do fundo. O arco foi, também, bastante modificado, e, já por volta de 1820, Ludwig Spohr introduziu o uso da queixeira. 
A partir das últimas décadas do Século XVIII, em resultado de dramáticas mudanças no panorama sociopolítico da Europa (4), a música erudita, antes ao alcance apenas da nobreza, passou a ser apreciada por um número cada vez maior de pessoas, todas aquelas que estivessem dispostas a pagar um ingresso, independentemente de seu status social. Salas de concerto, e não só os salões de baile dos palácios, ressoavam com novas composições. Músicos, fossem eles compositores ou instrumentistas, já não eram parte da criadagem a serviço da nobreza, e sim, quando talentosos e competentes, verdadeiros heróis populares, ou, em outras palavras, autênticos fenômenos de massa, que entusiasmavam o público, lançavam modas e eram não só admirados, como também imitados. Paganini foi um deles.

(1) O preferido de J. S. Bach.
(2) Jacob Steiner (1619 - 1683); Andrea Amati (c. 1505 - c. 1578); Nicola Amati (1596 - 1684); Antonio Stradivari (1644 - 1737) e Giuseppe Guarneri (1698 -1744) foram alguns dentre os grandes luthiers que levaram a construção de violinos e outros instrumentos de cordas a um alto grau de perfeição. 
(3) Neste caso, como em muitos outros, a regra admite exceções.
(4) Basta pensar no impacto do Iluminismo, do despotismo esclarecido, da Revolução Francesa e respectivo corolário.


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terça-feira, 21 de agosto de 2018

À procura do ouro

Ainda está escuro, mas os três já vão longe do povoado que se espalha em desalinho pelos morros. Nada de levar escravos, algum deles poderia muito bem dar com a língua nos dentes. Horas depois, param, enxugam o suor, olham em volta.
- É aqui?
- Parece...
Nem se lembram do magro lanche que trouxeram. O som das picaretas batendo contra o solo rude atravessa a vastidão do cerrado. O marulho da água do córrego não ajuda muito a abafar o ruído. Uma nuvem de pó os envolve. Procuram ouro, todo mundo procura, poucos encontram, e menos ainda são os que informam seus achados à administração colonial. 
Suados, a respiração arfante, só interrompem a busca para refrescar a garganta, que se ressente da poeira. Enquanto dois trabalham no desmonte da terra, o terceiro vai fazendo as provas. 
- Nada, ainda?
- Nada que compense. 
Voltam ao trabalho. 
- Parece que tem coisa aqui!... É, aqui!
Não têm tempo para entusiasmo: à distância, ouve-se o ganido de um cão. Os olhares se cruzam, assim, desconfiados, como quem suspeita da própria sombra. Quem vem lá?
Os latidos se aproximam. Atrás, um grupo caminha sem pressa. Talvez estejam caçando. Ou...
Os três homens recolhem as ferramentas e se esgueiram rente ao capinzal, a respiração entrecortada de medo e cansaço. Colado ao chão, um deles corre os dedos nervosamente pelo cabo da faca presa à cintura.
Os passos estão cada vez mais próximos. O ziguezague do cãozinho que, à frente, fareja o ar com insistência, mostra que estão chegando. Junto ao córrego, param para beber. Quase sem conversa, retomam a marcha e vão sumindo, sumindo. Parecem não dar muita importância às pedras e terra revolvidas. Por toda parte, mineradores esgravatam o terreno. Não há nada a temer. Quem iria ter a ideia de policiar um lugar desses? Logo não podem mais ser vistos. Ficam só a mataria retorcida e o sol que sobe causticante. 
Lentamente, o trio se levanta e volta a revirar a terra. 
- Quilombolas?!
Com o arco das sobrancelhas, um deles diz que sim. 
Denunciá-los? Nem pensar. Seria entregar o ouro. Jamais a expressão fez tanto sentido.


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