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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Traje de mulheres abastadas nos bailes e teatros durante o Primeiro Reinado

Já não era o "tempo do rei". Formalmente independente, o Brasil tinha D. Pedro I como imperador, e ia, aos poucos, mudando os velhos e sisudos costumes dos dias coloniais por outros, que, na moda, sofriam forte influência francesa. É verdade que, nas ruas, ainda eram vistas, eventualmente, mulheres usando as famosas e pesadas mantilhas, cuja finalidade era ocultar todo o corpo, deixando apenas o rosto, ou parte dele, à mostra. Mas entre gente abastada, que frequentava festas luxuosas, bailes e teatros, o trajar feminino tinha outro aspecto. Observador, o mercenário alemão C. Schlichthorst, que esteve na capital do Império entre 1824 e 1826, escreveu:
"No teatro e nos bailes, [as mulheres] aparecem com vestidos [...] cobertos de inúmeras flores e laçarotes de fitas, saiotes de cetim, corpete igual, bordado a ouro ou prata, rico diadema, flores e plumas nos cabelos em agradável combinação. As meias e os sapatos são sempre de seda. Neste ponto, o luxo excede a qualquer expectativa." (¹) 
O traje das damas que frequentavam a corte imperial era semelhante, porém com mais luxo: 
"O traje de corte se assemelha a este (²), leve e transparente como o ar sob um céu abençoado. Um manto de veludo ricamente bordado em ouro e prata, um barrete com flutuantes penas de avestruz e um adorno de brilhante dão-lhe uma dignidade fantástica e imponente. [...]" (³) 
Quem vive no Século XXI pode achar tal moda muito estranha, mais condizente com uma fantasia de carnaval que com roupa de gente séria em ocasiões que requeriam traje de gala. Mudanças viriam, com certeza, e muito frequentemente, ao longo do Século XIX, quando as publicações francesas voltadas ao público feminino passassem a ser aguardadas com ansiedade. A "última moda em Paris" seria anunciada pelos lojistas que vendiam artigos de vestuário para mulheres que tinham recursos de sobra para tanto. 
Contudo, nos dias do Primeiro Reinado, a extravagância estava em pauta, embora, quanto às joias das madames da Corte, Schlichthorst tivesse uma ressalva a fazer: 
"[...] nem tudo que ao esplendor das velas lança raios multicores é diamante verdadeiro, porque em nenhuma parte do mundo nesse país dos diamantes se usam tantas pedras falsas" (⁴).
______________________

Traje de uma família brasileira no governo joanino (⁵)




(1) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826), trad. Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Brasília: Senado Federal: 2000, p. 92.
(2) Ou seja, o traje na corte era semelhante ao usado nos teatros.
(3) SCHLICHTHORST, C. Op. cit., p. 92.
(4) Ibid. 
(5) Cf. CHAMBERLAIN, Tenente. Vistas e Costumes da Cidade e Arredores do Rio de Janeiro em 1819 - 1820. Rio de Janeiro / São Paulo: Livraria Kosmos Editora, 1943, p. 38.  A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Como se vestiam os homens que iam à Corte durante o Governo Joanino

Para que alguém se apresentasse diante do príncipe regente, depois rei Dom João VI, era preciso que se vestisse decentemente, dentro dos padrões da moda da época. Mas como era isso?
Joaquim Manuel de Macedo, em Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, explicou:
"Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço, fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia (¹), levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda." (²) 
O detalhe curioso é que esta moda um tanto ridícula - pelos padrões atuais, mas não daquela época - somente foi abandonada, ainda de acordo com Macedo, por volta do tempo em que ocorreu a antecipação da maioridade do segundo imperador do Brasil:
"[...] O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia." (³)
Calças como representantes da democracia? Ora, reconheçamos, que exagero! Mas houve quem, a despeito da nova moda, perseverasse na antiga:
"Se aceitarem a ideia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela." (⁴) 
O tal homem tinha o direito de usar a roupa que quisesse. Mas é de se admitir que, provavelmente, ao vê-lo, parecesse aos circunstantes que estavam fazendo uma viagem no tempo.

(1) Exagero no rigor ao vestir-se.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 44.
(3) Ibid.
(4) Ibid.


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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Como era feito o contrabando de ouro e diamantes

Extração de diamantes no Brasil (¹)

Muitos mineradores, e mesmo simples faiscadores de ouro do Século XVIII achavam que a cobrança dos "reais quintos" não passava de exploração. Afinal, eram eles que arrancavam o ouro da terra, à sua custa e à custa do suor de seus escravos, e ainda tinham que pagar um imposto extorsivo? A ideia de que o rei era "senhor natural" do território que governava e que, por sua muita bondade, fazia aos súditos a concessão para que explorassem o ouro não era nada popular no Brasil, e continuou a desfrutar de idêntica antipatia no Século XIX, mesmo com a distinta presença da Corte no Rio de Janeiro.
Em consequência, o contrabando de ouro e diamantes era enorme. A criatividade dos contrabandistas não conhecia limites. O barão de Eschwege (²) descreveu, em Pluto Brasiliensis, algumas das "técnicas" de contrabando, em particular quando era necessário passar por algum registro, que era um ponto de controle de carga e bagagem entre uma capitania e outra: 
"A fim de passar a salvo, usa de toda espécie de espertezas, já bastante conhecidas: caixas com fundo falso, sacos de couro cozidos nas almofadas das cangalhas, esconderijos de madeira nas canastras e fardos de algodão, apesar de estes poderem ser revistados por meio de uma agulha de ferro, que se atravessa em todas as direções. Um deles, quando conduzia uma boiada, teve a ideia de atar saquinhos com ouro na cauda de bois mansos.
Os diamantes eram também escondidos nas bengalas e nos cabos ocos dos chicotes, na coronha das espingardas ou das pistolas, no próprio cano das mesmas, ou no salto das botas." (³)
Eschwege escrevia sobre o que tinha visto, mas devia, também, ter ouvido muitas histórias. É impossível que houvesse presenciado tudo isso porque, afinal, viera ao Brasil a convite do governo joanino. Não era um funcionário público, mas não era, também, alguém em quem contrabandistas iriam facilmente confiar. Fica, porém, uma questão: se as artimanhas dos contrabandistas eram fartamente conhecidas, por que ainda eram usadas? Pode-se imaginar perfeitamente quanta corrupção acontecia nos registros, sem falar no aborrecimento dos funcionários que, dia a dia, precisavam fiscalizar cada caravana, cada tropa de mulas, cada grupo de viajantes que passava, monotonamente, no passo preguiçoso ou cansado de homens e animais. Como regra, não deviam achar razoável que as filas de verificação se tornassem demasiadamente longas. 

(1) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777 - 1855), especialista em minas, esteve no Brasil a convite do governo joanino, que pretendia reanimar a extração de minerais preciosos no país. 
(3) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 525.


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segunda-feira, 22 de julho de 2024

Como era a comitiva que conduzia diamantes do Distrito Diamantino ao Rio de Janeiro durante o governo joanino

Comboio de diamantes, de acordo com Rugendas (¹)

A segurança no transporte de ouro e diamantes que pertenciam à Coroa, desde as minas até o Rio de Janeiro, devia, necessariamente, ser reforçada. Mas o que significaria isso no tempo em que as estradas eram pouco melhores que trilhos, cercadas por vastidões de mato e árvores, onde era muito fácil que gente de más intenções se escondesse, sabendo que a força militar que fazia a escolta nem sempre era tão numerosa e equipada como  a situação requeria?
Há um relato interessante do barão de Eschwege que explica muito bem como era a comitiva que escoltava os diamantes tão desejados pela Coroa. 
"A produção anual é encerrada em uma bela caixa forrada de marroquim vermelho, preso por tachas amarelas. É nessa caixa que os diamantes são enviados para o Tesouro do Rio de Janeiro, acompanhados durante toda a viagem por um empregado escolhido pelo Intendente, que lhe dá por escolta forte destacamento do corpo de cavalaria e dos pedestres. 
A caixa dos diamantes vai dentro de uma canastra, que o comissário leva consigo. Alguns cavalarianos partem à frente, a uma certa distância, seguidos logo depois por alguns pedestres, que conduzem a mula, coberta de uma manta onde se veem as armas reais. Logo atrás seguem outros pedestres, precedendo imediatamente o comissário, que nunca perde de vista o cargueiro e é seguido por novos cavalarianos, que fecham a marcha." (²)
Eschwege deve ter examinado o assunto com os próprios olhos porque veio ao Brasil por solicitação do governo joanino (³), e permaneceu até o início de 1821, tempo suficiente, portanto, para verificar o que acontecia. Talvez tenha achado graça na pompa dessa tensa remessa anual, quando, mais importante que qualquer outra coisa, seria zelar pela segurança do que se transportava. O contrabando de diamantes, contudo, geralmente ocorria por outras rotas. Era do local de extração que as pedras extraviadas sumiam, para que Sua Majestade jamais pusesse nelas as suas reais mãos.

(1) Cf. RUGENDAS, Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann, 1827. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 497.
(3) Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777 - 1855) era especialista em minas. A ideia de D. João era que estudasse o que podia ser feito para reativar a produção aurífera no Brasil, que, nesse tempo, estava em notável declínio. 


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sexta-feira, 8 de março de 2024

Roupas e acessórios masculinos que eram moda na época da chegada da família real ao Brasil

Primeiras semanas de 1808. Estando perto os navios que traziam a família real, além de uma pequena multidão que incluía gente da nobreza, funcionários públicos e mesmo alguns que não eram nem uma coisa e nem outra, mas que haviam conseguido embarcar, a cidade do Rio de Janeiro pôs-se agitada. 
Toda pessoa que tinha alguns recursos e que pretendia ir às ruas para ver a passagem do cortejo real tratou de arranjar roupa que julgava adequada.  Ninguém queria fazer má figura diante da nobreza que aportava. Nas palavras de José Vieira Fazenda, "as meias de seda, os sapatos rasos de fivela de ouro e prata, as cabeleiras de rabicho ou de bolsa, os espadins, os coletes de cetim bordados a matiz e os chapéus armados subiram de preço" (*). 
O desembarque de D. João, então príncipe regente, aconteceu em 8 de março de 1808. Poderíamos falar em uma corrida às lojas nos dias que o antecederam? Seguindo a índole do comércio nesses tempos já distantes (e não só neles), os preços elevaram-se bastante. Não há razão para crer que, após o desembarque, os preços baixassem, uma vez que os que chegavam também iam às lojas à procura dos artigos a que estavam habituados.
O comércio do Rio de Janeiro era, então, modesto. Mas ganhou força com a chegada da corte, que atraiu comerciantes ingleses e franceses, estes últimos, geralmente dedicados ao vestuário de luxo e outros artigos de moda. Quem, nesse momento, poderia prever quão longe iriam as mudanças que apenas começavam a acontecer?

(*) FAZENDA, José Vieira, Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940, p. 40. 


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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

A volta de D. João VI a Portugal

O rei se foi, o príncipe D. Pedro ficou como regente


Assinatura de D. João VI (¹)
De má vontade, mas cumprindo o desejo das Cortes de Lisboa, D. João VI deixou o Brasil, rumo a Portugal, em abril de 1821, levando consigo parte da gente que com ele viera em 1808. Nem todos, é claro, decidiram voltar, porque haviam se estabelecido no Brasil e não previam tempos fáceis para a monarquia portuguesa. Ficou no Rio de Janeiro, também, o jovem príncipe D. Pedro, na condição de regente.
Em São Paulo, a notícia da partida do rei foi seguida de preces, um tanto tardias, em favor dos membros da família real durante a travessia do Atlântico, assim registradas em Ata da Câmara:
"Aos dezoito de maio de mil oitocentos e vinte e um, nesta cidade de São Paulo e casas da Câmara [...], aonde foram vindos o doutor juiz de fora presidente Nicolau Siqueira de Queirós, vereadores e procurador atual, e daqui saíram todas as tardes antecedentes cobertos com o real estandarte desde o dia quatorze até hoje, para irem assistir às preces que [...] fazia o excelentíssimo bispo pela feliz viagem de el-rei nosso senhor e sua real família para a corte de Lisboa [...]." (²)
A demora no início das preces pode ser facilmente explicada pela lentidão com que as notícias circulavam na época, principalmente quando se tratava de comunicações oficiais. De boca em boca, não tenham dúvida, leitores, as novidades circulavam um pouco mais depressa.
No dia seguinte (em 19 de maio de 1821, portanto), outro serviço religioso requereu a atenção dos camaristas de São Paulo, dessa vez em ação de graças, por nada menos que a regência de D. Pedro: "[...] saíram incorporados cobertos com o real estandarte para irem à Sé Catedral assistirem ao Te Deum que na mesma cantou o excelentíssimo bispo, em ação de graças ao Todo-Poderoso por se achar regendo este Reino do Brasil o senhor príncipe Dom Pedro de Alcântara [...]". Poder-se-ia argumentar que tudo isso fazia parte das formalidades usuais naqueles dias, mas é fato que o príncipe, era (ainda) alvo de admiração e de grandes expectativas por parte da população. Ninguém podia prever o papel que iria desempenhar no processo de independência, mas havia certo interesse em mantê-lo favorável à causa do Brasil, ainda que uma ruptura com Portugal não estivesse abertamente em pauta. Completou-se a demonstração pública de agrado com o regente pela colocação de luminárias nas janelas nos dias 20, 21 e 22 de maio (³).
Como exercício de história contrafactual, pode-se indagar o que teria acontecido se D. João houvesse teimado em permanecer no Brasil. Como teriam reagido as Cortes? E se D. João, deixando de lado a lentidão em decidir, houvesse resolvido, ele mesmo, liderar a ruptura dos vínculos entre Brasil e Portugal, fazendo-se rei de uma nova nação independente, em lugar de encarregar o filho dessa tarefa? Se... Conjecturas, conjecturas, nada mais que isso. 

(1) Cf. SOUSA, A. D. de Castro e. Fac-símiles das Assinaturas dos Senhores Reis, Rainhas e Infantes que Têm Governado Este Reino de Portugal Até Hoje. Lisboa: Imprensa Nacional, 1848.
(2) Todos os trechos de Atas da Câmara de São Paulo aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) Conforme Ata da Câmara de 26 de maio de 1821.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Elevação do Brasil a Reino Unido com Portugal e Algarves

Bandeira do Brasil como Reino Unido
a Portugal e Algarves (²)
A data oficial da elevação do Brasil a Reino Unido com Portugal e Algarves é 16 de dezembro de 1815. Nessa ocasião, formalmente saía do status de Estado do Brasil para se tornar, também formalmente, parte do Reino, até porque, nesse tempo, a capital da monarquia lusa estava, temporariamente, instalada na cidade do Rio de Janeiro. Ainda formalmente, D. Maria I detinha a Coroa (¹), mas quem de fato tinha o poder de decisão era seu filho D. João, príncipe regente. 
Mas, como já expliquei aqui no blog, nesse tempo, e até muito depois, as notícias andavam um tanto devagar, de modo que foi somente em 24 de janeiro do ano seguinte, 1816, que a Câmara de São Paulo decidiu enviar representantes que beijassem a mão do príncipe regente D. João por tão valiosa decisão:
"[...] Na mesma [vereança] se acordou de mandar uma deputação beijar a mão a Sua Alteza Real pela mercê de ter elevado o Brasil à graduação de Reino, e pedir ao mesmo senhor para ser solenizado o dia 16 de dezembro com uma festa na catedral desta cidade [...]." (³)
A questão, agora, era resolver quem seriam os indicados para a honra de beijar a mão do príncipe. Questão discutida, decisão tomada: "[...] nomeou para deputados o atual vereador, o tenente Antônio Cardoso Nogueira, e ao pretérito vereador, o tenente Antônio Francisco Gonçalves dos Santos Cruz [...]". Supõe-se que D. João, que parecia ser tolerante, e até gostar das longas filas de beija-mão, tenha apreciado a homenagem.

Uma dentre as várias moedas que circularam no
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (⁴)

Em 21 de fevereiro de 1816 a Câmara de São Paulo lembrou-se ainda de enviar ao Rio de Janeiro um ofício sobre o mesmo assunto:
"Nesta enviou-se um ofício a Sua Alteza Real, e outro ao senhor Marquês de Aguiar, que esta Câmara manda em agradecimento de Sua Alteza Real dignar-se elevar estes Estados do Brasil a Reino. [...]". Seria apenas mais uma formalidade, entre as muitas que cercavam a realeza, a não ser por uma razão: a elevação do Brasil a Reino, quando a sede da monarquia ainda se encontrava no Rio de Janeiro, estava, aos poucos, pavimentando o caminho da independência política, da ruptura com o domínio português. Mas isso sabemos nós, que vivemos mais de duzentos anos depois. Não era consciência geral na época, ainda que seja razoável admitir que alguns a tivessem.

(1) Restava-lhe pouco tempo nessa dignidade: faleceu em 20 de março de 1816.
(2) Cf. SOUSA, Alberto. Os Andradas, Vol. 1. São Paulo: Tipographia Piratininga, 1922. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Os trechos de atas da Câmara de São Paulo aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com adição da pontuação indispensável à compreensão.
(4) Cf. FERNANDES, Manuel Bernardo. Memória das Moedas Correntes em Portugal, Desde o Tempo dos Romanos Até o Ano de 1856. Lisboa: Tipographia da Academia, 1856, p. 301. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quinta-feira, 21 de abril de 2022

A morte de D. Maria I

D. Maria I não é personagem histórica pela qual os brasileiros morrem de amores, seja pela repressão à Inconfidência Mineira, seja pela proibição de fábricas no Brasil. Portanto, o título de "a Piedosa", como foi chamada, não faz, por aqui, muito sentido, ainda que, sob certos aspectos, talvez o merecesse.
Nascida em 1734, foi, desde 1792, considerada mentalmente incapaz para conservar o reinado, e, desde então, substituída pelo filho D. João, que passou a exercer o governo na condição de príncipe-regente. Mas o mundo da época passava por mudanças acentuadas, e Maria I também teve de se mudar (em outro sentido), vindo viver no Brasil, a cuja capital, o Rio de Janeiro, chegou em 1808, como parte da Família Real que deixara o Reino para fugir das pretensões napoleônicas. E foi no Rio mesmo que D. Maria faleceu, em 20 de março de 1816. 
No mês seguinte, a informação oficial de sua morte chegou à Câmara de São Paulo, mediante ofício do capitão-general Conde da Palma, incluindo uma ordem para que o luto fosse observado com todas as formalidades e demonstrações públicas de tristeza. Não vinha ao caso a opinião popular sobre a rainha: era cumprir a ordem, e pronto. Assim, em 20 de abril, os oficiais da Câmara e mais funcionários públicos da localidade, "todos de capas de baetas pretas até os pés, chapéus desabados e fumos (¹) caídos [...], pegando cada um dos vereadores em seu escudo preto e varas pretas [...], montaram todos a cavalo, todos os quais cavalos iam cobertos de baeta preta até ao chão [...]" (²), e trataram de cumprir o ritual que deles se esperava, diante da população, cuja reação, ainda que não registrada, bem se pode imaginar:
 "[...] logo no pátio deste Concelho (³), onde estava postado um corpo de tropas, e no meio da praça um arquibanco de madeira coberto de baeta preta, subiu o vereador mais velho, e proferindo três vezes esta legenda - Chorai, Nobres, chorai, Povo, que é morta a Augustíssima rainha Senhora Dona Maria Primeira do Reino Unido de Portugal e Brasil e Algarves - e quebrou o escudo e atirou ao chão, findo o qual ato deu a tropa três descargas e daí foi indo a Câmara acompanhada pelo dito corpo de tropas para o largo e pátio da Câmara, onde estava postado outro corpo de tropas, ao qual se reuniu o corpo que acompanhava a Câmara, e em outro arquibanco que se achava quebrou o escudo o segundo vereador, proferindo três vezes a referida legenda - e deu o corpo de tropas três descargas; daí seguiu a Câmara acompanhada da referida tropa para o largo da Sé, onde estava postado outro corpo de tropas, a que se reuniram o primeiro e o segundo, e deram juntamente três descargas, depois de quebrado terceiro escudo pelo terceiro vereador em outro arquibanco que aí estava armado; daí seguiu a Câmara acompanhada dos três corpos de tropas referidos para o largo do Colégio, onde estava postado outro corpo de tropas, ao qual se reuniram outra vez os primeiros corpos que acompanhavam a Câmara, e quebrando o procurador o último escudo, proferindo três vezes a referida legenda, toda a tropa deu três descargas, [...], e daí voltando para os Paços do Concelho se mandou lavrar este termo para a todo tempo constar [...]" (⁴).
Não devia haver dúvida de que a Câmara levara a efeito o que dela se esperava. Cerimônias como essa, com um simbolismo que hoje nos parece estranho, até ridículo, na época eram feitas com toda a seriedade.
Cinco dias mais tarde, em 25 de abril de 1816, portanto, a Câmara fez outro "ajuntamento", como se dizia. Era aniversário de D. Carlota Joaquina, e lá se foram os vereadores e mais oficiais a caminho da Sé, para um Te Deum Laudamus "pelos felizes anos" da princesa que detestava o Brasil e que, pela morte da sogra, passaria a ser chamada rainha. Do luto às festas, cumpriam-se à risca as formalidades. Quanto à vida da gente comum, seguia tudo como sempre.

(1) Faixa usada em sinal de luto.
(2) Os trechos citados da ata da Câmara de São Paulo de 20 de abril de 1816 foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) "Concelho" com "c" é o nome da unidade municipal portuguesa, que, nesse tempo, ainda era usado no Brasil. 
(4) Cf. Ata da Câmara de São Paulo de 20 de abril de 1816.


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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Rotina de trabalho nas casas de fundição

As casas de fundição não eram repartições públicas muito apreciadas. Era nelas que todo o ouro encontrado devia, obrigatoriamente, ser convertido em barras com o selo real, e nelas, também, era descontado o imposto sobre o ouro (os famigerados quintos). Existiam, portanto, para a cobrança de impostos e para impedir o contrabando de ouro. Como tudo o mais no Brasil Colonial e mesmo mais tarde, estavam longe de realizar integralmente o que se pretendia. 
Eram estabelecimentos que poderiam muito bem trabalhar com poucos funcionários, mas não era esse o caso. Os empregados eram numerosos e, a depender do cargo que ocupavam, recebiam salários elevados. Como, gradualmente, a produção das minas foi declinando, o trabalho nas casas de fundição diminuiu, mas os funcionários continuaram lá. Durante o Governo Joanino o crescimento numérico do funcionalismo público foi explosivo, e as casas de fundição chegaram ao ponto de não arrecadar impostos em valor suficiente para cobrir os custos de seu próprio funcionamento. 
Especialistas foram contratados na Europa para a introdução de técnicas mais modernas de exploração aurífera. Um deles, o barão de Eschwege, logo descobriu o minucioso trabalho das casas de fundição, mas onde pouco se realizava, porque pouco ouro havia para quintar. Anos mais tarde, de volta à Alemanha, escreveu: "A organização das Casas de Fundição é excepcionalmente simples; o pessoal, porém, é numeroso e complicado. Há os escritórios, onde o ouro levado pelos mineiros é pesado e quintado; o forno refratário, onde é fundido, e, em seguida, restituído; uma câmara de ensaio, onde é provado [...]. Isso constitui o essencial na Casa de Fundição [...]" (¹).
Havia todo um processo burocrático até que, descontados os reais quintos, o ouro voltasse às mãos do proprietário: "A quantidade de ouro, por menor que seja, entregue pelo dono, é fundida barra por barra. Esta é então encaminhada ao ensaiador, que determina o seu título e nela imprime as armas reais, o quilate e o peso, entregando-a de novo ao proprietário, com uma guia que deve acompanhá-la sempre, e na qual são também inscritos o valor, o peso e o título" (²).
Já que não havia muito serviço, seria razoável fechar as casas de fundição de pouco movimento e demitir os funcionários dispensáveis. Essas medidas, contudo, iriam na contramão do que acontecia na Corte do Rio de Janeiro (³), de onde, afinal, vinham as ordens para as minas. Portanto, na época, não se viam mudanças no horizonte.

(1) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 214.
(2) Ibid.
(3) Ao funcionalismo já existente no Brasil adicionou-se, em 1808, todo o que veio do Reino em companhia da Família Real. Nos anos seguintes, muitos outros funcionários foram admitidos, em uma política de proliferação da burocracia que teve impacto significativo na sociedade brasileira, com consequências que - acreditem - podem ser observadas até hoje.


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terça-feira, 16 de novembro de 2021

Escravos para o trabalho na mineração deviam ser jovens

O trabalho nas minas coloniais era muito desgastante. Além do esforço físico requerido, das longas jornadas e das condições precárias de alimentação, os escravos deviam enfrentar as dificuldades inerentes às regiões inóspitas em que o ouro fora encontrado. Por isso, a mortalidade entre cativos que trabalhavam na mineração era alta. Houve proprietários que perderam quase todos os escravos em decorrência de alguma enfermidade.
Entre as regras estipuladas para as sociedades de mineração (¹) que o governo joanino projetou criar em 1817, encontramos este item, que, mesmo posterior aos melhores tempos da extração aurífera, nos oferece uma ideia de como deveriam ser os escravos que trabalhariam nas minas:
"[...] O fundo das Sociedades será formado com ações de 400$000 cada uma, em dinheiro, ou de três escravos (²) moços e sem defeitos de 16 a 26 anos de idade, que serão aprovados pelo inspetor-geral [...]." (³)
A experiência das décadas precedentes deve ter demonstrado que escravos dessa faixa etária eram mais resistentes às condições insalubres das minas, mesmo se tivessem a desvantagem da falta de prática no trabalho. Cabe recordar, a título de conclusão, que escravos não se faziam acompanhar por uma certidão de nascimento, pela qual se verificasse que idade tinham. À exceção de uns poucos nascidos no Brasil, que talvez soubessem dizer quantos anos tinham, os cativos denominados "negros novos", que acabavam de chegar do Continente Africano, tinham a idade apenas estimada. 

(1) A ideia da criação de sociedades de mineração pode até ter sido boa, porque se pretendia que adotassem métodos corretos de exploração aurífera, em lugar da precariedade vigente ao longo do Século XVIII. Foi só ideia, porém. Em sua maioria, as sociedades que chegaram a ser estabelecidas tiveram vida curta. 
(2) Note-se que esse regulamento, que pressupunha trabalho escravo na mineração, foi expedido quando o governo joanino já havia assumido um compromisso de, gradualmente, eliminar o trabalho compulsório no Brasil.
(3) Cf. ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 185.


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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Como estava a Fábrica de Ferro de Ipanema em 1852

Tendo chegado ao Brasil em 1810, o Barão de Eschwege (¹) percorreu a Província de Minas Gerais investigando o que poderia ser feito para que a mineração ganhasse força. Notou que havia por lá algumas fábricas de ferro, tanto públicas quanto particulares, mas, mesmo reconhecendo que eram importantes para o País, em virtude da produção de artigos indispensáveis, mostrou-se cético quanto às possibilidades de que se tornassem lucrativas. 
Alto-forno na Fábrica de Ferro de Ipanema
Não obstante, ao considerar a  Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (²), localizada na Província de São Paulo, julgou que oferecia maior probabilidade de êxito:
"A fábrica de S. João de Ipanema oferece maiores vantagens pela sua localidade, porque estabelecendo-se aí uma fábrica de armas e ferrarias, onde se fabrique em obra grande parte do ferro para os Reais Arsenais, etc., ela por si mesma se sustentará [...]." (³)
Passaram-se algumas décadas. Na edição de 27 de maio de 1852, o jornal Aurora Paulistana trouxe um relatório do presidente da Província de São Paulo,  José Tomás Nabuco de Araújo, no qual estava incluída esta observação sobre a Fábrica de Ipanema: "[...] no ofício sob o qual remeti ao governo imperial [...] indiquei como essencial o arrendamento dessa fábrica [de Ferro de Ipanema], sendo que, se esse arbítrio não for tomado, cumpre tirar esse estabelecimento do estado pouco lisonjeiro em que se acha, e montá-lo como deve ser para que alguma utilidade produza, reparar os edifícios e oficinas arruinadas, dar-lhe mestres hábeis e peritos, construir ou reformar as máquinas e aparelhos, sem os quais, como declara o diretor, não é possível a refundição do ferro e o fabrico de obras importantes." (⁴)
Ora, meus leitores, parece que, dessa vez, Eschwege errou, e por larga margem. Não lamento, porém. Se a Fábrica de Ipanema houvesse prosperado, provavelmente as construções do Século XIX acabariam demolidas para dar lugar a edifícios mais modernos. Mas, como nada disso ocorreu, quem a visita pode dar um mergulho no passado, como poucos lugares no Brasil oferecem. Alguém acha isso ruim?

(1) Foi convidado a vir ao Brasil pelo governo do príncipe D. João, assim como vários outros cientistas e artistas estrangeiros.
(2) Município de Iperó - SP. No Século XIX era parte de Sorocaba.
(3) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Notícias e Reflexões Estadísticas a Respeito da Província de Minas Gerais.
(4) AURORA PAULISTANA, Ano I, nº 45, 27 de maio de 1852, p. 1.


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terça-feira, 11 de agosto de 2020

Da proibição das fábricas por D. Maria I ao recomeço da atividade manufatureira no Brasil durante o Governo Joanino

Dois documentos algo extensos, mas de grande importância, distantes no tempo cerca de vinte e três anos, são fundamentais para o entendimento da origem das atividades industriais no Brasil. O primeiro deles, por ordem da rainha D. Maria I, proibiu a existência de fábricas e manufaturas (¹); o segundo, sob o governo do príncipe regente D. João, não somente autorizou o funcionamento das fábricas, como, ao menos formalmente, salientou sua importância para o desenvolvimento nacional, no contexto das medidas adotadas a partir da vinda da família real portuguesa ao Brasil. 

Documento 1 - Proibição de fábricas e manufaturas no Brasil (5 de janeiro de 1785)


"Eu, a rainha, faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presente o grande número de fábricas e manufaturas que de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes capitanias do Brasil, com grave prejuízo da cultura e da lavoura e da exploração das terras minerais [sic] daquele vasto continente, porque havendo nele uma grande e conhecida falta de população, é evidente que quanto mais se multiplicar o número dos fabricantes, mais diminuirá o de cultivadores, e menos braços haverá que se possam empregar no descobrimento e rompimento de uma grande parte daqueles extensos domínios que ainda se acha inculta e desconhecida [...], e até nas mesmas terras minerais ficará cessando de todo, como já tem consideravelmente diminuído a extração de ouro e diamantes, tudo procedido da falta de braços, que devendo empregar-se nestes úteis e vantajosos trabalhos (²), ao contrário os deixam e abandonam, ocupando-se em outros totalmente diferentes [...], e sendo além disto as produções do Brasil as que fazem todo o fundo e base, não só das permutações mercantis, mas da navegação e do comércio entre os meus leais vassalos habitantes destes reinos e daqueles domínios (³), que devo animar e sustentar em comum benefício de uns e outros [...], hei por bem ordenar que todas as fábricas, manufaturas ou teares [...] excetuando tão somente aqueles dos ditos teares e manufaturas em que se tecem ou manufaturam fazendas grossas de algodão, que servem para o uso e vestuário dos negros, para enfardar e empacotar fazendas e para outros ministérios semelhantes, todas as mais sejam extintas e abolidas em qualquer parte onde se acharem nos meus domínios do Brasil, debaixo da pena do perdimento em tresdobro, do valor de cada uma das ditas manufaturas ou teares e das fazendas em que nelas ou neles houver, e que se acharem existentes dois meses depois da publicação deste [...]."

Errava a rainha ao supor que o declínio na extração aurífera era causado pela falta de trabalhadores. Desconhecia, por certo, que as técnicas de exploração algo primitivas estavam na raiz do esgotamento precoce das jazidas. Pouco além de duas décadas mais tarde, outro documento apresentava conclusões opostas:

Documento 2 - Permissão para o funcionamento de manufaturas no Brasil (1º de abril de 1808)


"Eu, o príncipe regente (⁴), faço saber aos que o presente alvará virem, que desejando promover e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas, e melhoram e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricultura e das artes, e aumentam a população [sic!] dando que fazer a muitos braços e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade [sic!!!], e convindo remover todos os obstáculos que podem inutilizar, e prestar tão vantajosos proveitos, sou servido abolir e revogar toda e qualquer proibição que haja a este respeito no Estado do Brasil e nos meus domínios ultramarinos, e ordenar que daqui em diante seja o país em que habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que hei por bem revogar o alvará de cinco de janeiro de mil setecentos e oitenta e cinco e quaisquer leis ou ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa e individual menção, sem embargo de lei em contrário."

A proibição de 1785 tinha por pretexto, entre outros, a "falta de braços"; o alvará de 1808, que autorizou a existência de fábricas, trazia a alegação de que elas davam "que fazer a muitos braços"; a proibição alegava que as verdadeiras riquezas do Brasil eram a produção agrícola e a mineral, enquanto o alvará de D. João começava por autorizar manufaturas para "adiantar a riqueza nacional", porque davam "mais valor aos gêneros e produtos da agricultura". Sob esse aspecto, o príncipe estava certíssimo. Interesses vários, inclusive no âmbito internacional, haviam levado sua célebre mãe a conclusões opostas e, ao menos sob o ponto de vista do Brasil, equivocadas.
A permissão, todavia, não era suficiente para fazer brotar fábricas. Havia, é claro, a necessidade de capitais para empreendimentos dessa natureza, sem falar que, quem tinha recursos, precisava ter, também, a disposição de arriscá-los em manufaturas cuja prosperidade era incerta. Haveria, nos anos subsequentes, a óbvia concorrência de produtos importados, ingleses, quase sempre, que, pelo Tratado de 1810, passaram a entrar no Brasil em condições vantajosas, e eram, por suposto, de melhor qualidade que aqueles que a indústria nacional, apenas nascente, poderia fornecer. 
Vê-se facilmente, pois, que apenas permitir fábricas não bastava. O próprio Governo Joanino procurou passar das palavras à ação, estabelecendo a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, que, por um conjunto de fatores, não chegou a ser um grande sucesso. Em 1817, Ayres de Casal registrou na Corografia Brasílica: "A indústria está a principiar com algumas fábricas: tem já uma de galões, outra de meias de seda, outra de chitas, outra de lonas" (⁵). Era um (re)começo, não há dúvida, mas lento, muito lento. 

(1) Dificilmente alguém iria proibir aquilo que não existia. Varnhagen, no Volume II da segunda edição de sua História Geral do Brasil, menciona a existência de uma importante "fábrica de descascar arroz" no Rio de Janeiro (pertencente a Manuel Luiz Vieira e Domingos Lopes Loureiro), de um curtume, também no Rio de Janeiro, e de uma fábrica de lonas na Bahia, isso durante o reinado de D. José I.
(2) Úteis e vantajosos para quem? Se fossem assim tão úteis, não seriam trocados, eventualmente, pelas manufaturas.
(3) Aqui sua majestade começava a dizer alguma verdade, talvez até mais do que a prudência de seu real cargo recomendava. Percebe-se qual era a causa (real) que a inquietava.
(4) Gosto desse D. João. Tinha seus defeitos (todos têm), mas, ressalvadas as especificidades de sua época, era um bom sujeito. Não se pode esperar que, emerso do Absolutismo, raciocinasse segundo a lógica das democracias ocidentais do Século XXI.
(5) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 31.


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Como foi anunciada a chegada da família real ao Rio de Janeiro em 1808

Embarque do príncipe D. João para o Brasil, de acordo com Giuseppe Gianni (¹)

A família real portuguesa iniciou a incômoda viagem rumo ao Brasil no final de novembro de 1807. No ano seguinte, depois de uma breve estada na Bahia, a Corte móvel deslocou-se para o Rio de Janeiro, onde chegou no dia 8 de março.
De acordo com Joaquim Manuel de Macedo, uma embarcação foi enviada com antecedência, dando aviso para que fossem tomadas as providências indispensáveis: 
"Era vice-rei do Brasil o Conde dos Arcos, quando, a 14 de janeiro de 1808, entrou no porto do Rio de Janeiro o brigue de guerra Voador, trazendo a notícia da próxima chegada da família real portuguesa. O brigue fizera honra ao nome que lhe tinham dado: voara para dar aquela nova ao vice-rei, ainda a tempo de serem por ele tomadas algumas providências." (²)
Era muita gente que chegava, e, como se sabe, as medidas para prover acomodação decente não foram simpáticas à população do Rio de Janeiro (³). Apesar disso, e apesar das críticas (algo humorísticas) que se costuma fazer ao governo joanino, há que se reconhecer que a permanência da família real no Brasil por alguns anos teve aspectos bastante favoráveis, pela ruptura das velhas estruturas coloniais que, se não impediam por completo, ao menos dificultavam bastante o desenvolvimento do país. O Rio ganhou uma efervescência cultural inteiramente nova, cujos resultados se estenderam para além da Independência. A modernização, ainda que modesta, foi importante por dar ao Brasil, que logo seria nação livre, algumas instituições que, de outro modo, talvez demorassem a existir, incluindo os primeiros cursos superiores, biblioteca, teatro, academia militar, entre outras mais. 

(1) O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 39.
(3) Os até então felizes proprietários de bons imóveis não devem ter achado graça nenhuma em ter de sair de casa.


terça-feira, 16 de outubro de 2018

A Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Edifício que serviu como sede da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema
e como residência de seu diretor

Acreditem, leitores: o país que é um dos maiores produtores mundiais de minério de ferro andou às voltas, durante longo tempo, com dificuldades para estabelecer uma fabricação regular de objetos de ferro. Soa ridículo, é certo, mas essa busca pela "idade do ferro" nada tem de pré-histórica ou remotamente histórica. É coisa muito mais recente. 
As tentativas de trabalhar o ferro no interior da Capitania de São Vicente datam dos tempos coloniais, talvez do final do Século XVI. Pedro Taques de Almeida Paes Leme refere na Nobiliarchia Paulistana:
"Cecília Ribeiro foi mulher de Bernardo de Quadro, nobre sevilhano, provedor e administrador das minas de São Paulo e juiz de órfãos, proprietário, senhor do engenho de fundir ferro e aço na Serra de Biraçoyaba [sic] [...]." 
O texto de Pedro Taques é um tanto confuso, de modo que não é fácil estipular com exatidão uma data para esse engenho de fundir ferro e aço; sabe-se, porém, que desde fins do Século XVI a região do morro de Araçoiaba despertava interesse para a mineração, e Afonso Sardinha, dentre vários outros, fez por lá explorações com vistas à descoberta de ouro e outros recursos minerais. Teria sido o mesmo Sardinha o fundador da fundição de ferro, pelo que relata Pedro Taques em outra obra, a História da Capitania de São Vicente:
"Nesta serra de Biraçoiaba [sic] houve um grande engenho de fundir ferro, construído à custa do paulista Afonso Sardinha, cuja manobra teve grande calor pelos anos de 1609 [...], com o decurso dos anos se extinguiu o labor da extração do ouro e da fundição de ferro. [...]." (¹)
No entanto, no Século XVIII uma nova fundição de ferro voltou a funcionar no mesmo local, ainda de acordo com Pedro Taques:
"No presente tempo desde o ano de 1766 existe a extração do ferro na dita serra de Biraçoiaba [sic], cuja fábrica se construiu por expensas de alguns acionistas que se uniram, a quem a real grandeza conferiu a graça de fundir o ferro por tempo de dez anos livre de quintos." (²)
Já no Século XIX, estando a Corte no Brasil, o lugar viu nascer um projeto ambicioso (³), que pretendia desenvolver tecnologia para tornar o país autossuficiente na produção de artefatos de ferro: era a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (⁴). O investimento, para os padrões da época, foi considerável. Diferentes técnicas, sob a supervisão de vários especialistas, foram tentadas, sem que produzissem resultados esplêndidos, e isso por razões as mais diversas, desde incompetência pura e simples até falta de continuidade nos processos que se mostraram promissores, como os ensaiados pelo engenheiro Friedrich Ludwig Wilhelm Varnhagen. Nas décadas seguintes, a Fábrica agonizou entre frustradas tentativas de ressurreição e anos de abandono. 
Apesar disso, era comum que viajantes nacionais e estrangeiros que visitavam a Província de São Paulo tomassem tempo para ir a Ipanema. Daniel P. Kidder, missionário metodista americano, lá esteve na década de quarenta do Século XIX, ocasião em que observou:  "O estabelecimento é um próprio do governo e consiste em seis ou oito prédios onde se faz a redução e fundição de ferro. Existem ainda, uma grande casa onde reside o diretor e diversos outros prédios menores, ocupados pelos operários e suas famílias, das quais, por ocasião de nossa visita, vinte e sete eram alemãs." (⁵) Pôde ver a Fábrica em funcionamento, mas fez constar que "em relatório oficial datado de 1843, perguntava certo ministro, se depois de trinta e quatro anos de experiências, não seria melhor abandonar inteiramente o estabelecimento, pelo menos até que deixasse de constituir fonte de despesas para o erário imperial" (⁶). A questão não era descabida. 
Em 1861, quando Augusto-Emílio Zaluar esteve em Ipanema, a situação era ainda pior:
"Fomos visitar a fábrica de ferro de São João de Ipanema. Fica três léguas distante da cidade de Sorocaba, por um caminho quase todo plano e no centro de agradáveis planícies. Está toda desmontada e quase deserta.
Encontramos por toda parte, em lugar da orquestra animadora do trabalho, o silêncio sepulcral da esterilidade.
E no entanto, como tudo que ainda aí existe é grandioso e belo! Os dois fornos altos, os encanamentos de água por toda a fábrica, obra de muita dificuldade e arte, o forno de porcelana, o hospital, as senzalas, a botica, a cadeia, a excelente casa da diretoria, o depósito, servindo atualmente de escritório, e finalmente a casa das máquinas, onde fomos advertidos, de dia, que andássemos com cuidados por causa das cascavéis que se aninham entre os tijolos quebrados do assoalho, tudo está em abandono, em tristeza e solidão!" (⁷)
Posteriormente, a extensão de uma linha ferroviária deu sobrevida ao empreendimento que estertorava, e não mais que isso. Hoje, a Real Fábrica de Ferro é parte da FLONA Ipanema. A impressão de grandiosidade, descrita por Zaluar, não desapareceu. O lugar é, de fato, belíssimo, um dos mais expressivos conjuntos históricos que alguém verá no Brasil (8). A vista, dos pontos de maior altitude, é de tirar o fôlego. Podem achar pérfida a ideia, leitores, mas se a Fábrica de Ipanema tivesse prosperado e, em consequência, recebido seguidas modernizações, hoje não seria possível, a quem visita essa joia, dar um mergulho no passado.

A represa Hedberg, datada de 1811, foi a primeira a ser construída no Brasil para fins de
aproveitamento da energia hidráulica

Casa das Armas Brancas

Os altos-fornos da Fábrica de Ferro de São João de Ipanema datam do chamado Período Joanino

Interior de um dos fornos da Fábrica de Ferro de Ipanema

Construído entre 1878 e 1885, sob a supervisão do engenheiro Joaquim de Souza Mursa (daí ser chamado "alto-forno de Mursa"),. este alto-forno, por falta de um equipamento, nunca entrou em operação

Fornos de carvão construídos em 1913, em mais uma tentativa de reativar a
Fábrica de Ferro de Ipanema

(1) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. História da Capitania de São Vicente. Brasília: Senado Federal, 2004, p. 130.
(2) Ibid.
(3) A Fábrica de Ipanema não foi a única tentativa feita no Século XIX no sentido de estabelecer a produção regular de artigos de ferro no Brasil. Apenas para constar, houve outra em Minas Gerais. Seria bom que pruridos regionalistas fossem afastados do estudo deste assunto.
(4) Como quase tudo no Período Joanino, recebeu o nome de "São João" em homenagem ao príncipe regente, mais tarde rei com o nome de D. João VI. Na época, a Fábrica de Ferro pertencia aos limites de Sorocaba. Hoje pertence a Iperó - SP.
(5) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 236.
(6) Ibid., p. 238.
(7) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro / Paris: Garnier, 1862, pp. 272 e 273.
(8) Registro aqui meu agradecimento à administração e funcionários da FLONA Ipanema que me receberam com o máximo da gentileza e atenção. O zelo na conservação do lugar, a ordem e a limpeza que pude observar em tudo, dão mostras da seriedade e competência dos que lá trabalham.


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