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quinta-feira, 16 de março de 2023

Fábricas em São Paulo no Século XIX

Anúncio de loja e fábrica de chapéus em São Paulo, 1852 (¹)

Eram passados noventa anos desde a proibição de fábricas e manufaturas no Brasil por D. Maria I, e sessenta e sete desde que D. João assinara um decreto permitindo as ditas fábricas e manufaturas. O Brasil deixara de ser colônia, passara a Reino Unido com Portugal e Algarves e, em 1822, chegara a ser nação independente. Como andavam, em 1875, as fábricas na Província de São Paulo?
Em conformidade com Joaquim Floriano de Godoy, senador do Império, a situação era esta:
"Há [fábricas] de cerveja; de dourar; de encadernar; de bilhares; de chá; de chapéus de seda, castor e lebre (²); de chocolate (³); de licores; de livros em branco; de seges e carros (⁴); de móveis; de selins e outros arreios; de tabaco; de vinagres; de vinhos; de fogos; fundição de ferro e bronze; de funileiros e latoeiros; de relógios; e muitas outras que longo seria enumerar. Há boas litografias e tipografias. Há serrarias a vapor. Há grande fábrica de tecidos de algodão." (⁵)
Um ponto positivo nessa lista é a diversificação; note-se, ainda, que em alguns ramos era evidente a necessidade de concorrer com artigos importados, enquanto outras atividades, ganhando contornos industriais, eram sucessoras de antigas oficinas de trabalho artesanal. 
O panorama não era o de uma potência industrial. Mas revelava progresso, quando se faz uma comparação com o quadro vigente por volta da segunda ou terceira década do Século XIX. Havia necessidades locais que deviam ser atendidas, e mesmo algum espaço para pequena exportação para outras Províncias do Império. Os lucros do café, consideráveis nesse tempo, permitiam algumas aventuras promissoras para além do setor agrícola, e as atividades industriais nascentes pareciam ser um caminho natural para quem desejava ousar em algum empreendimento. O século à frente, com a inevitável crise do café, revelaria o acerto desse rumo. 

Anúncio de fábrica de chocolate em São Paulo, 1888 (⁶)

(1) AURORA PAULISTANA, Ano I, nº 47, 5 de junho de 1852.
(2) Nada de admiração: eram as modas da época.
(3) Artigo essencial, como todo mundo sabe.
(4) Para tração animal, é claro.
(5) GODOY, Joaquim Floriano de. A Província de S. Paulo. Rio de Janeiro: Typ. do Diário do Rio de Janeiro, 1875, pp. 24 e 25.
(6) CORREIO PAULISTANO, Amo XXXIV, nº 9511, 15 de maio de 1888.


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terça-feira, 11 de agosto de 2020

Da proibição das fábricas por D. Maria I ao recomeço da atividade manufatureira no Brasil durante o Governo Joanino

Dois documentos algo extensos, mas de grande importância, distantes no tempo cerca de vinte e três anos, são fundamentais para o entendimento da origem das atividades industriais no Brasil. O primeiro deles, por ordem da rainha D. Maria I, proibiu a existência de fábricas e manufaturas (¹); o segundo, sob o governo do príncipe regente D. João, não somente autorizou o funcionamento das fábricas, como, ao menos formalmente, salientou sua importância para o desenvolvimento nacional, no contexto das medidas adotadas a partir da vinda da família real portuguesa ao Brasil. 

Documento 1 - Proibição de fábricas e manufaturas no Brasil (5 de janeiro de 1785)


"Eu, a rainha, faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presente o grande número de fábricas e manufaturas que de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes capitanias do Brasil, com grave prejuízo da cultura e da lavoura e da exploração das terras minerais [sic] daquele vasto continente, porque havendo nele uma grande e conhecida falta de população, é evidente que quanto mais se multiplicar o número dos fabricantes, mais diminuirá o de cultivadores, e menos braços haverá que se possam empregar no descobrimento e rompimento de uma grande parte daqueles extensos domínios que ainda se acha inculta e desconhecida [...], e até nas mesmas terras minerais ficará cessando de todo, como já tem consideravelmente diminuído a extração de ouro e diamantes, tudo procedido da falta de braços, que devendo empregar-se nestes úteis e vantajosos trabalhos (²), ao contrário os deixam e abandonam, ocupando-se em outros totalmente diferentes [...], e sendo além disto as produções do Brasil as que fazem todo o fundo e base, não só das permutações mercantis, mas da navegação e do comércio entre os meus leais vassalos habitantes destes reinos e daqueles domínios (³), que devo animar e sustentar em comum benefício de uns e outros [...], hei por bem ordenar que todas as fábricas, manufaturas ou teares [...] excetuando tão somente aqueles dos ditos teares e manufaturas em que se tecem ou manufaturam fazendas grossas de algodão, que servem para o uso e vestuário dos negros, para enfardar e empacotar fazendas e para outros ministérios semelhantes, todas as mais sejam extintas e abolidas em qualquer parte onde se acharem nos meus domínios do Brasil, debaixo da pena do perdimento em tresdobro, do valor de cada uma das ditas manufaturas ou teares e das fazendas em que nelas ou neles houver, e que se acharem existentes dois meses depois da publicação deste [...]."

Errava a rainha ao supor que o declínio na extração aurífera era causado pela falta de trabalhadores. Desconhecia, por certo, que as técnicas de exploração algo primitivas estavam na raiz do esgotamento precoce das jazidas. Pouco além de duas décadas mais tarde, outro documento apresentava conclusões opostas:

Documento 2 - Permissão para o funcionamento de manufaturas no Brasil (1º de abril de 1808)


"Eu, o príncipe regente (⁴), faço saber aos que o presente alvará virem, que desejando promover e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas, e melhoram e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricultura e das artes, e aumentam a população [sic!] dando que fazer a muitos braços e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade [sic!!!], e convindo remover todos os obstáculos que podem inutilizar, e prestar tão vantajosos proveitos, sou servido abolir e revogar toda e qualquer proibição que haja a este respeito no Estado do Brasil e nos meus domínios ultramarinos, e ordenar que daqui em diante seja o país em que habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que hei por bem revogar o alvará de cinco de janeiro de mil setecentos e oitenta e cinco e quaisquer leis ou ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa e individual menção, sem embargo de lei em contrário."

A proibição de 1785 tinha por pretexto, entre outros, a "falta de braços"; o alvará de 1808, que autorizou a existência de fábricas, trazia a alegação de que elas davam "que fazer a muitos braços"; a proibição alegava que as verdadeiras riquezas do Brasil eram a produção agrícola e a mineral, enquanto o alvará de D. João começava por autorizar manufaturas para "adiantar a riqueza nacional", porque davam "mais valor aos gêneros e produtos da agricultura". Sob esse aspecto, o príncipe estava certíssimo. Interesses vários, inclusive no âmbito internacional, haviam levado sua célebre mãe a conclusões opostas e, ao menos sob o ponto de vista do Brasil, equivocadas.
A permissão, todavia, não era suficiente para fazer brotar fábricas. Havia, é claro, a necessidade de capitais para empreendimentos dessa natureza, sem falar que, quem tinha recursos, precisava ter, também, a disposição de arriscá-los em manufaturas cuja prosperidade era incerta. Haveria, nos anos subsequentes, a óbvia concorrência de produtos importados, ingleses, quase sempre, que, pelo Tratado de 1810, passaram a entrar no Brasil em condições vantajosas, e eram, por suposto, de melhor qualidade que aqueles que a indústria nacional, apenas nascente, poderia fornecer. 
Vê-se facilmente, pois, que apenas permitir fábricas não bastava. O próprio Governo Joanino procurou passar das palavras à ação, estabelecendo a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, que, por um conjunto de fatores, não chegou a ser um grande sucesso. Em 1817, Ayres de Casal registrou na Corografia Brasílica: "A indústria está a principiar com algumas fábricas: tem já uma de galões, outra de meias de seda, outra de chitas, outra de lonas" (⁵). Era um (re)começo, não há dúvida, mas lento, muito lento. 

(1) Dificilmente alguém iria proibir aquilo que não existia. Varnhagen, no Volume II da segunda edição de sua História Geral do Brasil, menciona a existência de uma importante "fábrica de descascar arroz" no Rio de Janeiro (pertencente a Manuel Luiz Vieira e Domingos Lopes Loureiro), de um curtume, também no Rio de Janeiro, e de uma fábrica de lonas na Bahia, isso durante o reinado de D. José I.
(2) Úteis e vantajosos para quem? Se fossem assim tão úteis, não seriam trocados, eventualmente, pelas manufaturas.
(3) Aqui sua majestade começava a dizer alguma verdade, talvez até mais do que a prudência de seu real cargo recomendava. Percebe-se qual era a causa (real) que a inquietava.
(4) Gosto desse D. João. Tinha seus defeitos (todos têm), mas, ressalvadas as especificidades de sua época, era um bom sujeito. Não se pode esperar que, emerso do Absolutismo, raciocinasse segundo a lógica das democracias ocidentais do Século XXI.
(5) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 31.


terça-feira, 16 de abril de 2019

Quando o consumismo não é possível

Por que algumas sociedades tenderam ao consumismo e outras ficaram longe dele? Pode parecer demasiado óbvio, mas só existe consumismo quando há o que consumir, quando a produção de bens de consumo é tão farta que possibilita o exagero do ter, embora a desigualdade na distribuição também seja característica da maioria das sociedades consumistas - alguns têm muito mais que o necessário, outros menos do que precisam. 
Um consumista típico é apaixonado por shoppings centers, embora as compras on-line sejam cada vez mais frequentes e tenham já uma multidão de adeptos. No entanto, se você tiver que trabalhar duro para fazer por si mesmo os objetos de que precisa, dificilmente acalentará ideias consumistas. Pelo menos, é improvável. Isso explica, ainda que parcialmente, por que algumas sociedades se tornaram altamente consumistas, fosse pela exploração da mão de obra, mesmo que assalariada, fosse através do manejo de tecnologia voltada à produtividade (não descartando algum nível de combinação de ambas as possibilidades), enquanto outras, não dispondo de largos contingentes de trabalhadores para explorar e/ou sem tecnologia suficiente para maximizar a produção e a produtividade, tenderam apenas a produzir para consumo próprio, não chegando, em alguns casos, ao hábito da troca, a que chamamos comércio. Foi o caso de muitos povos indígenas da América.
Vejamos. Logo abaixo está uma foto de pilões (*) feitos por indígenas do Brasil. O método para produzi-los consistia em queimar a madeira no local a ser escavado e, depois, com ferramentas primitivas, dar a forma desejada. Esse processo é chamado escarificação. Até a chegada de colonizadores, era assim que povos indígenas do Brasil fabricavam canoas, potes e outros objetos de madeira, apenas para uso da própria comunidade, e não para troca. O corte de árvores era em extremo trabalhoso e o emprego de ferramentas de pedra tornava todo o processo muito lento. Não é preciso um exagero de imaginação para entender o motivo que impedia o consumismo de imperar nessas culturas.


Ora, leitores, não vai aqui nenhum juízo de valor em relação às sociedades e indivíduos consumistas. Sendo este um blog dedicado à História, a ideia é apenas mostrar que, no caso dos povos indígenas, o processo de colonização, incluindo o estímulo ao escambo, introduziu mudanças nada desprezíveis no modo como os ameríndios entendiam a produção e, por consequência, em seus conceitos relativos à propriedade individual e coletiva.

(*) Os pilões vistos na foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Anúncios curiosos das primeiras décadas do Século XX - Parte 6

Por séculos, os artigos de higiene pessoal tiveram fabricação caseira, mediante o uso de fórmulas que eram passadas de uma geração a outra, de modo muito semelhante ao que ocorria com receitas culinárias. Poucas eram as pessoas que tinham acesso a produtos mais sofisticados, preparados em pequena escala, de acordo com fórmulas mais do que secretas e postos à venda nas (poucas) lojas especializadas existentes. Por isso, a solução era, quase sempre, fazer, em casa mesmo, os sabões e sabonetes, enxaguatórios bucais e águas perfumadas de que se precisava, seguindo os mesmos procedimentos da mamãe, da vovó, da bisavó...
A produção dos mais diversos artigos em escala verdadeiramente industrial veio alterar esse panorama. Produtos de higiene pessoal ganharam maior oferta, tornaram-se mais baratos e seu uso virou coisa quase obrigatória, sinônimo de civilidade, de respeito do indivíduo para consigo mesmo e para com os semelhantes. Não é, portanto, nenhuma surpresa que os anúncios de artigos de higiene tenham proliferado - era preciso vender o que se produzia, convencendo os potenciais consumidores de que seu uso era indispensável. Meus leitores encontrarão, a seguir, dois ótimos exemplos disso.

Produto para limpeza dos dentes (¹)


Pergunto apenas o que é que um simpático gatinho teria a ver com um dentifrício...

Desodorante para os pés e axilas (²)


(1) O MALHO, 22 de setembro de 1906.
(2) A CIGARRA, 21 de abril de 1915.


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quinta-feira, 21 de julho de 2011

O campeonato de motociclismo de 1922 em São Paulo

Alinhados para a partida, os motociclistas aguardam ansiosos o sinal que autorizará o início da prova. O som da aceleração logo indica que lá vão eles, à máxima velocidade que suas máquinas permitem. Não, meus leitores, não estou narrando nenhuma prova do último final de semana, mas uma que aconteceu há quase noventa anos, o Campeonato de Motociclismo de 1922, em São Paulo.
A imagem abaixo, que apareceu na edição de 1º de dezembro de 1922 da revista A Cigarra, divide-se em três partes:
1. Competidores alinhados para a partida (na Avenida Paulista, em frente ao Trianon);
2. O momento da saída, acompanhado pelo público;
3. A chegada do vencedor.


O grande campeão, que pode ser visto na foto abaixo, também da edição de 1º de dezembro de 1922 de A Cigarra, foi Antônio Lage, competidor que representava a Sociedade Esportiva Paulista.


Agora, cronômetro na mão: o percurso de duzentos e dez quilômetros foi cumprido em três horas, nove minutos e trinta e nove segundos.
Esse detalhe do tempo é muito importante e revelador. Por quê?
Simples: O Brasil estava saindo de uma era em que os grandes intervalos de tempo é que contavam e entrando em outra, na qual a preocupação com os segundos é forte indicador da aceleração do ritmo da vida diária (um efeito colateral da industrialização, da qual as motocicletas, ainda importadas, eram produto), principalmente em uma cidade como São Paulo.


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