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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Abusos decorrentes do escambo persistiam no Século XIX

Em outra postagem, já tratei da questão dos abusos que eram cometidos contra indígenas durante a prática do escambo no Brasil Colonial. É verdade que as trocas de objetos começaram de forma amistosa, e pode-se dizer, sem receio de erro, que foram importantes para que europeus e indígenas travassem contato com elementos culturais diferentes dos seus. Não foram, portanto, más em si mesmas - maus foram os resultados.
A dificuldade apareceu quando diferenças de mentalidade levaram a trocas extremamente desfavoráveis aos indígenas. Colonizadores tinham sede de lucro, enquanto indígenas entendiam as coisas pela sua utilidade e não estavam habituados às estratégias comerciais. Acabavam, quase sempre, prejudicados.
O que pretendo mostrar, hoje, é que as práticas abusivas no escambo não ficaram restritas aos tempos coloniais. Mercadores que percorriam os rios da Amazônia no Século XIX chegavam a aldeias indígenas longínquas e, depois de ganhar a confiança dos moradores, propunham trocas. Um relatório apresentado à Assembleia Legislativa do Pará em 1862 pelo conselheiro Brusque (¹) e citado pelo Cônego Francisco Bernardino de Sousa (²) dizia que uma forma de exploração dos indígenas chegava bem perto do trabalho escravo:
"Para logo os destina à colheita de castanha, à extração de salsa (³) e de outros produtos naturais, e quando passados três ou quatro meses de árduo trabalho, regressa [o indígena] ao grêmio da aldeia, ele [o comerciante] lhe faz a conta de modo que o mísero índio lhe fica devendo ainda (⁴)."
As trocas, propriamente, eram quase sempre injustas:
"No Gurupi um corte de calças de algodão ordinário, que custa nesta cidade 1$000 (⁵), é dado ao índio em troca de um pote de óleo de copaíba, que contém uma canada e meia a duas canadas, e que vale por conseguinte neste mercado 20$000 (⁶).
Uma arma de fogo ordinária no valor de 5$000 é dada em troca de três potes de óleo.
Um barril de pólvora que custa 17$000 é o equivalente de 8 potes (7)."
O mesmo autor assegurou que procedimento análogo era adotado em outras localidades. Assim seguia o escambo, até o momento em que, percebendo o quanto eram explorados, indígenas se revoltavam e episódios violentos chegavam a ocorrer.

(1) Francisco Carlos de Araújo Brusque.
(2) Encarregado dos trabalhos etnográficos da Comissão do Madeira.
(3) Salsaparrilha.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Pará e Amazonas. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1874, p. 133.
(5) Mil réis. 
(6) Vinte mil réis.
(7) SOUSA, Francisco Bernardino de. Op. cit. p. 133.


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terça-feira, 25 de agosto de 2020

Traição no escambo com os índios carijós

Colonizadores europeus e indígenas do Brasil, quando viviam em boa paz, praticavam o escambo, ou troca de mercadorias. Essas mercadorias eram chamadas "resgates", porque se dizia que quem ia ao sertão para tal comércio "ia resgatar". 
O escambo parecia interessante para ambas as partes. Aos indígenas, oferecia a possibilidade da aquisição de ferramentas mais eficientes que as suas, tradicionalmente feitas de pedra, além de objetos de adorno e outras quinquilharias. Aos colonizadores, era um recurso para a obtenção de madeiras, alguns alimentos e objetos de artesanato indígena, como redes, por exemplo. As trocas corriam bem quando nenhuma das partes se sentia lesada, ainda que, como se sabe, as ferramentas oferecidas para resgates - machados, facas, tesouras - nem sempre fossem de boa qualidade, e as roupas - camisas, calções, carapuças - não primassem pela excelência.
No entanto, um episódio relatado pelo jesuíta Simão de Vasconcelos em Vida do Padre João de Almeida mostra bem que, não satisfeitos em fazer as trocas, alguns moradores de Santos, uma das povoações coloniais mais antigas, tiveram a ideia de enganar carijós, indígenas que eram da chamada "região dos Patos", acessível por mar, ao sul da Capitania de São Vicente. Escreveu Simão de Vasconcelos:
"Partindo de Santos certos mancebos [...], chegaram ao porto dos Patos com sua embarcação, a título de seus resgates [...], e antes que corressem os índios ao contrato, trataram este estratagema: pregaram os caixões dos resgates no porão, debaixo da escotilha, de tal maneira que não pudessem ser abalados; vinham os simples, fora de tal engano, e desejosos da mercadoria, concorriam a bandos; os mancebos os mandavam abaixo a carregar os caixões para cima, e como eles estavam fortemente pregados, não podiam os índios abalá-los; chamavam mais e mais companheiros, e quanto mais resistência viam nos caixões, tanto mais entravam, sem receio algum e desacautelados, mas os enganadores sagazes, em vendo a embarcação que estava cheia, deram à vela, fechando as escotilhas, e levaram consigo índios e resgates. [...]." (¹)
É óbvio que o acontecimento não passou despercebido aos carijós que não tinham entrado na embarcação. Nas palavras de Vasconcelos, "[...] bramiam de raiva os que ficavam em terra, vendo a traição, e sentidos da perda e apartamento dos parentes, maridos e filhos, batendo logo os arcos, apregoaram guerra" (²). Por outro lado, pode-se imaginar o rebuliço em Santos, quando, de retorno a embarcação, saltaram em terra os seus ocupantes e deram notícia do que haviam feito. Continua Simão de Vasconcelos:
"Chegaram ao porto de Santos os capitães de tão ilustre feito, e sabido ele, acudiram os padres da Companhia (³), estranhando caso tão enorme; e como era o capitão daquela Capitania por nome Jerônimo Leitão, homem nobre e temente a Deus, repreendeu como devia o latrocínio [sic], e enviou por embaixadores dois dos nossos padres, chamados, um, o padre Agostinho de Matos, e outro, o padre Custódio Pires, aos quais fez entregar os índios com recado seu para os principais (⁴), de como estranhara o caso e o castigara, e fazia restituição e queria continuar as pazes com eles." (⁵)
Duas observações são aqui necessárias. A primeira é relativa a Jerônimo Leitão, o capitão-mor. Nobreza e religiosidade talvez não fossem preponderantes na decisão de devolver os cativos à sua gente. Mais importava, naquela hora, manter o bom relacionamento com os carijós, já que a Capitania de São Vicente vivia às turras com seus vizinhos indígenas, e mais um conflito não era exatamente uma coisa desejável. A segunda questão tem a ver com a atuação dos jesuítas no caso. Por que o padre Simão de Vasconcelos teria trabalho em contar o incidente, não fora para encarecer a atuação de seus irmãos de Ordem? Por outro lado, é sabido o quanto jesuítas se empenhavam pela liberdade dos povos indígenas que haviam catequizado ou que tinham a intenção de ainda catequizar. Nenhuma surpresa, portanto, que entrassem no caso, pressionando, talvez, o capitão-mor a agir. 
Como, afinal, acabou tudo isso? Vamos novamente às palavras de Simão de Vasconcelos:
"[...] Fizeram os padres sua embaixada, e aquietaram os índios por sua língua, de tal maneira que suspenderam os arcos, abrandaram sua ira e abraçando os padres prometeram paz e boa amizade, continuando os resgates e trato com os portugueses. [...]" (⁶)

(1) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, pp. 121 e 122.
(2) Ibid., p. 122.
(3) Referência aos jesuítas.
(4) Líderes tribais dos carijós.
(5) VASCONCELOS, Simão de S. J. Op. cit., p. 122.
(6) Ibid.


terça-feira, 5 de maio de 2020

O que os ferreiros de São Paulo fabricavam no Século XVI

- Mestre Antônio! Ó de casa!...
A fumaça que vem da fornalha enche todo o ambiente, já de si escuro. Só se vê o vermelho do carvão em brasa e, em um dos cantos da oficina, um aprendiz, que, com o martelo, tortura os ouvidos de quem chega, com o som de uma ferradura que ajusta na bigorna. Verdadeiro mistério é que o teto de sapé não se incendeie.
- Ô mestre Antônio! 
Um homem vem, lentamente, ver quem chama.
- Ô Lourenço, bons dias!...
- Bons dias. Vim buscar a encomenda...
- Já está quase tudo pronto, homem. Então partem amanhã?
- Amanhã, depois da missa. Não quer ir?
- Não. Tenho aprendizes, e, desta vez, fico. No ano que vem, talvez vá, também. Venha conferir: estão aqui as tesouras, as facas. Olhe as enxadas, o machado...
Loureço dá um risinho maroto.
- Nem precisava tanto capricho, mestre Antônio!
É que as encomendas eram para "resgates", as trocas com indígenas que a gente de São Paulo fazia em suas idas ao sertão. 
- O facão que me pediu, dos bons, fica pronto daqui a pouco. Estava polindo a lâmina. Vai sair uma beleza!...
- Então, passo depois. E quanto àquelas correntes?
- Guardei lá dentro. São garantidas. As "peças" (¹) não lhe escapam. 
Nova risada.
- Terá sua parte, mestre Antônio...

Deixemos mestre Antônio entretido no trabalho, com seus aprendizes e fregueses. Ferreiros que viviam e trabalhavam na Europa no Século XVI tinham como principais encomendas a fabricação de armas, ferramentas e objetos de uso doméstico. Já aqueles estabelecidos na vila de São Paulo, na mesma época, precisavam atender às demandas do quotidiano colonial, com suas inevitáveis especificidades. 
Como sabemos disso?
Um tabelamento de preços, imposto no ano de 1587, é documento valioso para mostrar o que é que mantinha os ferreiros da vila ocupados. A ordem partiu da Câmara de São Paulo e foi lida publicamente no dia 24 de agosto, "ao pé da cruz que está junto ao adro da dita vila", conforme era costume. Impossível não pensar em tudo o que tal cruz não teria ouvido nesses tempos, se ouvir pudesse, é claro.
A lista é extensa; vamos ao que é indispensável, em transcrição na ortografia atual e com a pontuação necessária à compreensão:
"Das foices roçadeiras de roçar (²), dando seu dono o ferro, setenta réis de feitio, e se o ferreiro der o carvão lhe pagará o dono da foice, e das foices [...] de resgate, sessenta réis; [...] de uma foice nova calçada que vender o ferreiro, duzentos réis; das enxadas para casa, setenta réis de feitio; das enxadas para resgate cinquenta réis de feitio; [...] de um machado novo, sendo ferro e aço de quem manda fazer para trabalho de casa, cem réis; [...] do feitio de um machado novo para resgate, sendo o ferro do dono, oitenta réis; [...] do feitio de uns engonços (³), dando quem os manda fazer o ferro, dez réis; de uma perna para mesa ou cadeira, sendo o ferro de quem o manda fazer, de feitio cinco réis; pregos de foices de trabalho, dois réis, e dando seu dono o ferro, um real; tachinhas para caixas de marmelada, dando seu dono o ferro, duas por real, e sendo do ferreiro, três por dois réis; [...] do feitio de um espeto de três palmos, sendo o ferro de quem o manda fazer, com argola, trinta réis; [...] anzóis pargueiros a três réis [...]; do feitio de um cadeado, sendo o ferro de quem o manda fazer, com uma chave, seis vinténs, e sendo do ferreiro, duzentos réis; de uma chave macho, cinquenta réis, e de feitio de uma fêmea, quatro vinténs; de um ferrolho com sua fechadura e chave, sendo o ferro de quem o manda fazer, para porta de casa, [...] trezentos réis, e sendo do ferreiro, trezentos e cinquenta réis [...]; uma tesoura de resgate, cinquenta réis, e se for o ferro de quem a mandar fazer, trinta réis; [...] de uns estribos de ferro do ferreiro, três cruzados."
Para quem se aventurasse a desobedecer, a mesma ata ainda estipulava uma "pena de quinhentos réis, a metade para o acusador e a metade para o concelho (⁴)."
O que podemos concluir dessa lista que quase acaba com o fôlego de quem lê?
Vejamos cinco aspectos:
  • Devia haver um número muito maior de objetos que ferreiros podiam fornecer, constando na tabela de preços apenas os mais comuns;
  •  Fica evidente a diferença entre ferramentas para uso próprio e "para resgate", pela variação nos preços entre elas. Lembrando que "resgates" eram as trocas ou escambo que se fazia com indígenas, nota-se que era explícita a ideia de que, para esse efeito, as ferramentas não precisavam ser lá muito boas;
  • As tachinhas para as caixas de marmelada eram importantes: a produção de marmeladas da vila de São Paulo tinha fama que alcançava outras capitanias, e, malgrado o pequeno valor cobrado pelos preguinhos, quem as exportava para outras capitanias precisava de um bom número deles;
  • Embora o tabelamento fosse feito em moeda da época, não se deve esquecer que, no Século XVI, e mesmo mais tarde, quase não havia dinheiro amoedado circulando em São Paulo (⁵), e, portanto, os valores deviam funcionar apenas como referência, sendo os pagamentos feitos, de hábito, em espécie;
  • Finalmente, havia um óbvio incentivo à delação, visto que aquele que denunciasse um infrator receberia metade do valor da multa imposta. Essa prática talvez desobrigasse a Câmara de exercer fiscalização por si mesma, porque não faltaria quem desse com a língua nos dentes, se algum ferreiro tentasse burlar o tabelamento (⁶).

(1) No Brasil Colonial, escravos eram muitas vezes chamados "peças". Neste caso, é uma referência a indígenas que sertanistas de São Paulo capturavam e forçavam ao trabalho.
(2) De que mais seriam?
(3) Dobradiças.
(4) Concelho, aqui, é mesmo com "c", por se referir à administração municipal da época.
(5) O mesmo acontecia em outros pontos de colonização no Brasil.
(6) Sim, isso acontecia, mesmo sob a ameaça de multa.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Machadinhas de cobre em troca de contas coloridas

Escambo, todo mundo sabe, é o nome tradicionalmente dado às trocas de mercadorias entre europeus e indígenas da América, ocorridas no princípio da Colonização. À procura de madeiras nobres, especiarias e metais preciosos, comerciantes ofereciam aos indígenas tesouras, facas e outras ferramentas, contas coloridas, ou seja, coisas de baixo custo, ainda que o valor de um objeto não esteja relacionado apenas ao preço, mas à raridade e estima que lhe são dadas. Economicamente, os europeus levavam grande vantagem, mas seria tolice negar que nativos do Continente Americano logo tenham desenvolvido interesse por esse tipo de comércio. Em alguns casos, contudo, as trocas resultaram em situações engraçadas. Vou falar de uma delas.
Corria o ano de 1518. Um grupo de soldados e aventureiros espanhóis, desesperados por encontrar ouro, navegava nas proximidades do México, quando entrou em contato com alguns indígenas e começou a resgatar com eles. "Resgatar" significava fazer trocas ou escambo, e "resgates" eram as mercadorias de pouco valor que ofereciam aos ameríndios. Conta Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol que era parte do grupo:
"[...] todos os índios daquela província tinham por costume trazer umas machadinhas de cobre polido, à semelhança de armas, que tinham cabos de madeira muito pintados, e nós acreditamos que eram ouro baixo, e começamos a resgatar com eles; digo que em três dias conseguimos mais de seiscentas delas, e estávamos muito contentes, crendo que eram de ouro baixo, e os índios muito mais com suas contas. Tudo, porém, em vão, porque as machadinhas eram de cobre (¹), e as contas, quase nada. Um marinheiro havia resgatado às escondidas sete machadinhas e estava muito alegre por elas, e parece que outro marinheiro foi dizê-lo ao capitão, que lhe ordenou entregá-las, mas nós pedimos por ele, e ficou com as machadinhas, crendo que eram de ouro." (²)
Quem poderia calcular o entusiasmo dos espanhóis, diante de um "achado" que, supunham, iria torná-los ricos de um dia para outro? Que sorte, a deles...
Navegaram de volta a Santiago de Cuba, onde estava o governador Diego Velazquez, a quem deviam prestar contas de suas viagens, descobertas e façanhas. Como leais súditos do rei da Espanha, apresentaram as machadinhas brilhantes para que o ouro fosse quintado (³). Foi aí que fizeram uma importante - e triste - descoberta. É ainda Bernal Díaz quem relata:
"[...] trouxeram as seiscentas machadinhas (⁴) que pareciam de ouro, e quando as trouxeram para quintar estavam tão mofadas, como cobre que eram, e ali houve muito que rir e dizer da burla e do resgate." (⁵)
Para quem queria ouro, era mesmo muito pouco.

(1) Ou, pelo menos, Bernal Díaz supunha que fossem desse material.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Vejam, leitores, que a cobrança dos Reais Quintos não era exigência apenas dos monarcas portugueses.
(4) Não é impossível haver exagero no número de machadinhas que trouxeram.
(5) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


terça-feira, 16 de abril de 2019

Quando o consumismo não é possível

Por que algumas sociedades tenderam ao consumismo e outras ficaram longe dele? Pode parecer demasiado óbvio, mas só existe consumismo quando há o que consumir, quando a produção de bens de consumo é tão farta que possibilita o exagero do ter, embora a desigualdade na distribuição também seja característica da maioria das sociedades consumistas - alguns têm muito mais que o necessário, outros menos do que precisam. 
Um consumista típico é apaixonado por shoppings centers, embora as compras on-line sejam cada vez mais frequentes e tenham já uma multidão de adeptos. No entanto, se você tiver que trabalhar duro para fazer por si mesmo os objetos de que precisa, dificilmente acalentará ideias consumistas. Pelo menos, é improvável. Isso explica, ainda que parcialmente, por que algumas sociedades se tornaram altamente consumistas, fosse pela exploração da mão de obra, mesmo que assalariada, fosse através do manejo de tecnologia voltada à produtividade (não descartando algum nível de combinação de ambas as possibilidades), enquanto outras, não dispondo de largos contingentes de trabalhadores para explorar e/ou sem tecnologia suficiente para maximizar a produção e a produtividade, tenderam apenas a produzir para consumo próprio, não chegando, em alguns casos, ao hábito da troca, a que chamamos comércio. Foi o caso de muitos povos indígenas da América.
Vejamos. Logo abaixo está uma foto de pilões (*) feitos por indígenas do Brasil. O método para produzi-los consistia em queimar a madeira no local a ser escavado e, depois, com ferramentas primitivas, dar a forma desejada. Esse processo é chamado escarificação. Até a chegada de colonizadores, era assim que povos indígenas do Brasil fabricavam canoas, potes e outros objetos de madeira, apenas para uso da própria comunidade, e não para troca. O corte de árvores era em extremo trabalhoso e o emprego de ferramentas de pedra tornava todo o processo muito lento. Não é preciso um exagero de imaginação para entender o motivo que impedia o consumismo de imperar nessas culturas.


Ora, leitores, não vai aqui nenhum juízo de valor em relação às sociedades e indivíduos consumistas. Sendo este um blog dedicado à História, a ideia é apenas mostrar que, no caso dos povos indígenas, o processo de colonização, incluindo o estímulo ao escambo, introduziu mudanças nada desprezíveis no modo como os ameríndios entendiam a produção e, por consequência, em seus conceitos relativos à propriedade individual e coletiva.

(*) Os pilões vistos na foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

terça-feira, 12 de junho de 2018

Por que vir de tão longe buscar pau-brasil?

"Oh! e quão loucos são e ambiciosos!
Por um pouco de pó, por uma pedra,
Por um tronco de pau, eles se matam
Parece que têm medo que lhes falte
Terra e mar, ar e céu, aves e bosques!"
Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios


"Pau-de-tinta" foi um dos muitos nomes dados ao pau-brasil (Paubrasilia echinata). Na Europa do Século XVI essa notável madeira servia, entre outros usos, à construção naval e à fabricação de móveis e de instrumentos musicais, além do emprego em tinturaria. Foi sua abundância na costa do Brasil que contribuiu para dar à terra algum interesse por parte da Metrópole, uma vez que, nesse tempo, o comércio dos artigos vindos do Oriente tinha, ainda, a preponderância. 
Indígenas cortando pau-brasil com ferramentas
fornecidas por europeus (¹)
Não demorou muito e indígenas do litoral, encantados por objetos trazidos por europeus (tais como facas, tesouras e machados), também se envolveram em cortar madeira e arrastá-la até pontos junto ao mar, chamados arrogantemente de "feitorias", mas que, como regra, não passavam de amontoados de árvores cortadas, cobertas, no melhor dos casos, por alguma simples construção ao estilo indígena, aguardando que embarcações comparecessem para o escambo. Ora, leitores, nem era necessário que portugueses estabelecessem uma dessas feitorias: um relato (ao que tudo indica, verídico), presente no Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa, mostra que indígenas, motivados pelo escambo, chegavam a tomar a iniciativa de ir aos navios para oferecer madeira que, por conta própria, haviam preparado:
"A terra é toda chã, cheia de arvoredo. Como nos achegamos mais a terra se nos fez o vento sueste, e no meio-dia surgimos em fundo de onze braças, uma légua de terra. [...]. Este dia vieram de terra, a nado, às naus, índios a perguntar-nos se queríamos brasil."
Deste documento, datado de 3 de fevereiro de 1531, podem ser extraídos dois fatos importantes:
  • O escambo já despertava grande interesse entre os indígenas;
  • Indígenas e portugueses já eram capazes de razoável comunicação, ou não seria o caso de Pero Lopes de Sousa registrar que os "naturais da terra" haviam perguntado se havia interesse por madeira.
Indígenas cortando pau-brasil,
imagem do Século XVI (⁴) 
Sucede que não eram apenas os portugueses que viam no pau-brasil uma oportunidade de comércio e, portanto, de lucro. Navegadores de outras nacionalidades, especialmente franceses, eram assíduos frequentadores do litoral brasileiro, e diante deles as chamadas expedições guarda-costas eram quase inócuas. Jean de Léry (²), em conversa com tupinambás, foi interrogado quanto ao interesse dos franceses pelo pau-brasil - aos nativos da América parecia estranho que europeus viessem de muito longe para buscar lenha com que fazer fogueiras... Coube ao francês explicar que não era para queimar, mas para a extração de tinta que se usava o arabutan.
A incômoda pergunta seria repetida, um pouco mais tarde, a outro francês, o capuchinho Yves d'Évreux (³), que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614:
"Um dia disseram-me alguns [indígenas], que era preciso haver muita falta de madeira em França, e que experimentássemos muito frio para mandarmos navios de tão longe, à mercê de tantos perigos, carregarem de paus.
Respondi-lhes que não era para queimar, e sim para tingir de cores." (⁵)
Leitores, nada de achar graça na questão levantada pelos indígenas. Ignorando completamente como era a vida na Europa, eles apenas podiam imaginar o mundo segundo a vivência que tinham. Era choque de culturas, sim. Pergunto: Não serão muitos dos conflitos atuais, que assolam este mundo, resultantes, também, do quanto ainda desconhecemos em relação àqueles que diferem de nós?

(1) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 2. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575, p. 950.
(2) Francês, esteve no Rio de Janeiro em 1557, na malograda tentativa de estabelecimento da "França Antártica".
(3) Trabalhou como missionário na tentativa de estabelecimento da "França Equinocial", que, à semelhança da "França Antártica", fracassou.
(4) THEVET, André. Les Singularitez de la France Antarctique. Paris: Maurice de La Porte, 1558, p. 117.
(5) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 65.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Vegetais nativos do Continente Americano

Exploradores europeus que chegavam ao Continente Americano, depois de uma travessia oceânica que podia durar meses, desembarcavam esfomeados. A comida dos navios era, quando existente, quase intragável. Sucede, porém, que, como regra, nas praias da América não havia nenhum banquete esperando por eles (se não tivessem cuidado, eles é que acabavam virando banquete). Em desespero de causa, só restava uma coisa a fazer: deviam, tão rápido quanto possível, adotar pelo menos alguns dos hábitos alimentares dos indígenas.
Com bons modos, conseguiam trocar facas, tesouras, canivetes, navalhas, machados, espelhos, peças de vestuário e outros objetos por milho, abóbora, mandioca, amendoim, batata, peixes, papagaios, tartarugas, etc., conforme a região em que estavam.
Com maus modos, usavam as armas de fogo, cães e cavalos para arrancar dos indígenas os estoques de comida que porventura tivessem. O inconveniente de usar a força é que quase sempre vinha uma retaliação (neste caso, plenamente justificada). Houve situações em que, face à ameaça dos invasores, tribos que antes eram inimigas se coligaram e empreenderam um ataque maciço. Não será difícil a ninguém imaginar os resultados.
Consideremos, porém, o assunto dos vegetais de uso alimentar que, à época da chegada dos primeiros colonizadores, eram cultivados por indígenas em áreas específicas do Continente. Plantas até então desconhecidas para os europeus foram por eles espalhadas pelo mundo e ganharam espaço na culinária, revolucionaram velhos hábitos e permitiram uma oferta maior de alimentos, salvando multidões da carência nutricional e mesmo da morte por inanição. As batatas, cultivadas há muito tempo na região andina, são exemplo notável, porém, dentre tantos outros, destacam-se também o amendoim, a mandioca (vital para os indígenas do Brasil), variedades de abóboras e o milho, tão importante que, entre os astecas, era associado a uma divindade, Cintéotl. Tentem imaginar, leitores, o mundo sem os gloriosos tomates - tomates que os astecas conheciam e apreciavam muito antes que Colombo e seus sucessores pusessem os pés no Continente Americano, mas que hoje estão em quase todo lugar. Como seria o mundo sem molho de tomate, em suas inumeráveis versões?


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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Como indígenas penteavam os cabelos (antes da chegada dos portugueses)

Uma indígena do Brasil,
de acordo com Debret (¹)
Pero Vaz de Caminha descreveu como "corrediosos cabelos dos primeiros indígenas que viu; depois, quando viu algumas moças, observou que tinham os "cabelos muito pretos e compridos pelas costas". Não é surpreendente, portanto, que, dentre os objetos que portugueses traziam para trocar por artigos da terra, os ameríndios - e, em particular, as ameríndias - apreciassem bastante os pentes, ainda que machados, facas e tesouras fossem, talvez, mais úteis.
Reflitamos, meus leitores: se pentes eram alvo de escambo, é porque não havia similares à altura. Sendo assim, de que modo os cabelos que prenderam a atenção de Caminha eram penteados?
No Tratado Descritivo do Brasil em 1587, escrito por Gabriel Soares, um português que, com viva curiosidade, investigou tudo o que podia a respeito do Brasil, disso fazendo um registro meticuloso, encontramos esta explicação:
"Anhangaquiabo quer dizer pente do diabo; é árvore de bom tamanho, cujo fruto são umas bainhas grandes; têm dentro em si uma coisa branca e dura, afeiçoada como pente, de que os gentios se aproveitavam antes de comunicarem com os portugueses e se valerem dos seus pentes." (²)
É provável que usar o anhangaquiabo não fosse muito confortável, ou os indígenas não teriam mostrado interesse pelos pentes trazidos pelos colonizadores. Mas devia funcionar. Como os leitores já devem ter observado, em nome da valorização da aparência, ou vaidade, se preferirem, que não era e nem é exclusividade de indígenas, a humanidade tem suportado muito desconforto pelos séculos afora, independente da cultura de origem. Lembrem-se dos espartilhos, das perucas do Século XVIII, dos pés enfaixados...

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 220.


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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Providências de El-Rei Dom João III contra fraudes no escambo

Nesta última postagem sobre questões relacionadas ao escambo entre portugueses e índios, trataremos de como até mesmo o rei de Portugal, D. João III, tomou providências no sentido de pôr termo às fraudes que se praticavam em detrimento dos nativos, dentre as quais o fornecimento de mercadorias de péssima qualidade, sempre a preços exorbitantes.
Ao estabelecer o Regimento de criação do Governo-Geral, o monarca lusitano fez incluir nas instruções destinadas a Tomé de Sousa, primeiro governador, a ordem de obstar os danos causados aos povos indígenas, mediante a fixação do preço das mercadorias que entravam no escambo. É Frei Gaspar da Madre de Deus quem conta:
"Querendo evitar D. João III as fraudes mencionadas, ordenou a Tomé de Sousa, primeiro Governador-Geral do Estado, em um dos capítulos do seu Regimento, que ele com os donatários taxassem o preço de todas as mercadorias, e não podendo o Governador vir pessoalmente a fazer esta diligência, cometeu-a ao Ouvidor-Geral Pedro Borges, que na Bahia se embarcava para as Capitanias do Sul com o fim de nelas abrir correição. Este Ministro convocou o Capitão-Mor, Ouvidor, Camaristas atuais, homens bons e os da governança, e com o parecer de todos determinou os preços dos resgates com mais equidade na Vila Capital de São Vicente, aos 28 de junho de 1550." (*)
Quanto ao resultado prático dessas disposições, pouco se poderia esperar, no entanto. O governador-geral, estabelecido na recém-fundada cidade do Salvador, estava longe demais da maior parte das Capitanias, principalmente se levarmos em consideração as enormes dificuldades de transportes e comunicações daqueles tempos; aliás, em muitas das ditas Capitanias, os próprios donatários jamais punham os pés. Como esperar que os preços fixados fossem, de fato, cumpridos?

(*) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 67.


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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Problemas decorrentes do escambo entre europeus e indígenas

O início auspicioso - troca de presentes entre portugueses e índios, de acordo com o que conta Pero Vaz de Caminha na Carta do Descobrimento (¹) - não impediu que, depois de algum tempo, o relacionamento entre europeus e nativos se deteriorasse.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que os índios, com razão, se consideravam os donos da terra, embora relatos da época deem conta de que também eles diziam que a haviam ocupado, depois de dominar outros povos; por outro lado, os portugueses viam-se como conquistadores e, portanto, julgavam-se com o direito de explorar o território "descoberto" de acordo com seus interesses. Isso, por si, já bastaria para explicar os conflitos que vieram a permear o relacionamento entre brancos e índios.
Mas não era só.
Outros europeus, que não os portugueses, também acharam muito interessante a ideia do escambo e passaram a enviar embarcações à América, com a finalidade de estabelecer relações com a população nativa, de modo que a troca de mercadorias viesse a ser possível. Nisso, ao menos no século XVI, os franceses foram os de maior destaque: há, da época, inúmeras referências ao combate em pleno mar entre portugueses e esses "intrusos", que já iam de retorno à Europa com belas cargas de pau-brasil e outros artigos. Hans Staden, alemão que andou pelo Brasil no século XVI (²), observou, enquanto prisioneiro dos tupinambás, que franceses vinham à região da atual Niterói para negociar a troca de produtos europeus por macacos, papagaios e pimenta.
A questão que daí decorria é que, ao estabelecerem esse intercâmbio com franceses, os nativos passavam a considerar-se inimigos dos portugueses.
Explica-se: os índios não estavam, há séculos, sentados placidamente nas belas praias brasileiras, a esperar que um dia, finalmente, os portugueses os encontrassem; havia, por suposto, entre os povos indígenas, toda uma dinâmica de relacionamentos, tanto de amizade quanto de inimizade (como, aliás, acontece mundo afora, explícita ou disfarçadamente), e os europeus que vieram às terras da América do Sul foram, ainda que contra a vontade e, algumas vezes, valendo-se disso, arrastados a esse cenário, daí dizerem os tupinambás a Hans Staden que não gostavam dos portugueses porque eles eram "amigos de seus inimigos".
Portanto, querendo ou não, portugueses, franceses e outros europeus viram-se, através do escambo, metidos em intrigas tribais que, não raro, acabavam tendo consequências desastrosas.
Finalmente, é preciso salientar que não era incomum que comerciantes portugueses fornecessem aos índios mercadorias de muito má qualidade, fato que provocava revolta, ao ponto de autoridades terem de interferir contra essa injustiça. É disso que trataremos nas próximas postagens.
 
(2) Veja a postagem "Dormir em redes - Parte 1".


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Indígenas ou europeus: quem obtinha maior vantagem com o escambo?

Em termos absolutos, os europeus levavam grande vantagem com o sistema de trocas que estabeleceram com os índios: forneciam mercadorias de pouco valor na Europa, recebendo, por elas, produtos que podiam, depois, vender por alto preço.
É fato, porém, que, para os índios, que até então dispunham apenas de ferramentas de pedra, parecia ser bom negócio obter instrumentos de metal, ainda que desde logo tenha havido a preocupação de autoridades portuguesas no sentido de impedir o fornecimento de armas, pelos riscos que poderiam representar no futuro (¹).
Machadinha de pedra (artesanato guarani
de confecção recente)
Os povos indígenas do Brasil não tinham, ao que sabemos, alguma forma de escrita, mediante a qual possamos, hoje, conhecer quais eram suas impressões sobre o que estava acontecendo nos primeiros tempos da presença europeia. Isso significa que nos resta, apenas, o testemunho dos europeus ou dos de origem europeia, o que talvez signifique uma visão um tanto parcial dos fatos, impondo, portanto, uma análise criteriosa. Mas, pelo seu interesse, cito aqui um relato de Frei Vicente do Salvador, no qual dá sua versão da atitude de uma tribo em relação às mercadorias que obtinham dos portugueses.
Segundo ele, nessa tribo era usual que, quando alguém chegava de uma longa viagem, fosse saudado por um coro de lamentações sobre o desgosto que sua ausência causara, de modo que o mesmo acontecia em relação aos portugueses que, vindo de longe, apresentavam-se para o escambo:
"... e então lhe trazem de comer, o que também fazem aos portugueses que vão às suas aldeias, principalmente se lhes entendem a língua, maldizendo no choro a pouca ventura que seus avós e os mais antepassados tiveram, que não alcançaram gente tão valorosa como são os portugueses, que são senhores de todas as coisas boas que trazem à terra, de que eles dantes careciam, e agora as têm em tanta abundância, como são machados, foices, anzóis, facas, tesouras, espelhos, pentes e roupas, porque antigamente roçavam os matos com cunhas de pedra, e gastavam muitos dias em cortar uma árvore, pescavam com uns espinhos, faziam o cabelo e as unhas com pedras agudas, e quando se queriam enfeitar faziam um alguidar de água espelho, e que desta maneira viviam mui trabalhados, porém agora fazem suas lavouras e todas as mais coisas com muito descanso, pelo que os devem de ter em muita estima; e este recebimento é tão usado entre eles, que nunca ou de maravilha deixam de fazer, senão quando reinam alguma malícia ou traição contra aqueles que vão às suas aldeias visitá-los ou resgatar com eles." (²)
(2) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. c. 1627.


domingo, 19 de agosto de 2012

Os valores dos povos indígenas e as consequências do escambo

O comércio, em si, não é uma coisa má. Afinal de contas, quem é que é capaz de fazer, por si mesmo, tudo aquilo de que precisa, principalmente em sociedades altamente complexas como as que existem hoje?
Ocorre, porém, que o comércio pode, como todo  mundo sabe, ser fonte de (muitas) encrencas. O escambo, troca direta de uma mercadoria por outra, que se instaurou no Brasil com a chegada dos europeus, é um claro exemplo disso.
Até onde as fontes documentais de que dispomos nos informam, os povos indígenas do Brasil, pelas época do século XVI, não produziam, em geral, para troca. Comparados aos europeus, os índios dispunham de um número pequeno de artefatos, com os quais, no entanto, eram capazes de satisfazer às suas necessidades quotidianas. Um relato, de autoria do Padre Simão de Vasconcelos, nos conta que, perguntados pelo que tinham de maior valor, os nativos apontavam objetos que podiam carregar consigo, nada referindo de coisas que, para os europeus, eram tidas como importantes:
"Finalmente, acerca da bondade da terra se espraiavam mais: aqui mostravam com longas histórias e exemplos, as descrições das coisas que a seu modo tinham por de maior momento, como a de seus arcos e flechas, das penas com que se enfeitavam, das frutas agrestes que comiam e de que faziam seus vinhos; e eram das coisas que em seus olhos avultavam mais, deixando por de menos conta, a prata, o ouro, o âmbar e as pedras preciosas, às quais tem dado título de grandes, nossa real cobiça." (¹)
Porém...
Porém, com a chegada dos portugueses e o início do escambo, essa perspectiva passaria por uma transformação radical. Os índios, que produziam, quase sempre, apenas aquilo que era necessário ao seu próprio uso, passaram a ter interesse em produzir mais, sempre mais, para o "resgate", que é o nome que davam os portugueses a esse nascente comércio que instituíram. Em uma linguagem que certamente muitos de meus leitores conhecem bem, aquilo que antes tinha apenas valor de uso, passou a ter valor de troca. Ou seja, virou mercadoria.
Mas não foi só. A introdução de ferramentas de metal, uma inteira novidade para os indígenas, produziu alterações profundas na relação desses povos com a natureza. Apenas para exemplificar, machados fornecidos por europeus logo encontraram uso em derrubar facilmente enormes árvores que, arrastadas a simples depósitos no litoral - as feitorias - eram, depois da devida troca, embarcadas para muito longe.
Quando a expedição de Martim Afonso de Sousa veio ao Brasil, Pero Lopes anotou, em certa ocasião:
"Este dia vieram de terra, a nado, às naus, índios a perguntar-nos se queríamos brasil." (²)
Vê-se, nesse caso, que a iniciativa do escambo já não partia, necessariamente, dos portugueses. Os índios é que estavam, agora, interessados nas trocas.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 85 e 86.
(2) Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa.


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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O início do escambo entre europeus e indígenas no Brasil

Para nós parece a coisa mais natural que, quando queremos adquirir qualquer bem ou serviço, façamos o pagamento com o uso de moeda corrente, que pode variar, de acordo com o lugar onde se vive, mas cujo princípio é exatamente o mesmo, o de intermediário para facilitar as trocas.
Houve, entretanto - e há, ainda - sociedades nas quais a moeda, como a entendemos, era coisa inexistente. Isso valia para os povos indígenas do Brasil que viviam nas áreas litorâneas, quando da chegada dos portugueses, de modo que as relações comerciais que se estabeleceram foram, de saída, baseadas em escambo, ou seja, a troca direta de uma mercadoria por outra, sem o uso de moeda, mesmo porque, se os povos indígenas tivessem alguma moeda, seria pouco provável o estabelecimento de algum padrão de equivalência (câmbio) em relação ao dinheiro usado pelos portugueses.
O "comércio" entre portugueses e índios começou bem cedo. Mal chegada a esquadra de Cabral, houve, a crer no relato de Pero Vaz de Caminha, uma autêntica troca de presentes entre nativos e visitantes:
"Levava Nicolau Coelho cascavéis (¹) e manilhas. E a uns dava uma cascavel, a outros uma manilha [...]. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, ou de qualquer coisa que a gente lhes queria dar."
Em pouco tempo, entretanto, essa troca amistosa iria transformar-se em negócio sério, à medida que os europeus (não apenas portugueses) percebiam que era possível obter grande lucro com o escambo, fornecendo os índios mercadorias de alto preço nos mercados da Europa, em troca de objetos que, para os navegadores, tinham bem pouco valor. Era o caso da troca, por exemplo, de madeiras nobres por facas e tesouras, como se vê no Livro da Nau Bretoa, datado de 1511, ressalvando a autoridade real que de nenhum modo de fornecessem quaisquer armas aos nativos:
"Notificareis isso mesmo a toda a dita companhia que não resgate nem venda e nem troque com a gente da dita terra nenhumas armas de nenhuma sorte, que sejam punhais nem outras nenhumas que são defesas (²) pelo Santo Padre e por El-Rei Nosso Senhor, e poderão levar facas e tesouras como sempre levaram."

(1) Guizos.
(2) Isto é, proibidas.


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