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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A pesca da baleia no Período Colonial

Vez por outra leio a notícia de alguma baleia que encalhou junto ao litoral brasileiro, ou mesmo que foi encontrada já morta. Pois bem, esses acontecimentos fazem lembrar escritos de autores dos dois primeiros séculos da colonização, nos quais informavam que, nas águas oceânicas junto ao Brasil, as baleias eram, então, numerosíssimas.
No Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa lemos que "eram tantas as baleias nesta paragem e tamanhas, e chegavam-se tanto às naus que lhes havíamos mui grande medo." Vale recordar que Pero Lopes, irmão de Martim Afonso de Sousa, escreveu o dito Diário da Navegação entre 1530 e 1532. A "paragem" por ele referida no trecho citado era a região da Bahia de Todos os Santos.
Já para o final do Século XVI, Gabriel Soares, que tinha, para sua época, um grande conhecimento das coisas do Brasil, observou:
"Entendo que cabe a este primeiro capítulo dizermos das baleias que entram na Bahia (como do maior peixe do mar dela [sic]) a que os índios chamam pirapuã; das quais entram na Bahia muitas no mês de maio, que é o primeiro do inverno naquelas partes, onde andam até o fim de dezembro que se vão; e neste tempo de inverno, que reina até o mês de agosto, parem as fêmeas à abrigada da terra da Bahia, pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que os parem, três e quatro meses, que eles têm disposição para seguirem as mães pelo mar largo; e neste tempo tornam as fêmeas a emprenhar, em a qual obra fazem grandes estrondos no mar." (¹)
Disse mais:
"Quando estas baleias andam na Bahia acompanham-se em bandos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam por ela em barcos, porque andam urrando e em saltos, lançando a água mui alta para cima; e já aconteceu por vezes espedaçarem barcos, em que deram com o rabo, e matarem a gente deles." (²)
As palavras de Gabriel Soares são úteis para que tenhamos uma ideia dos riscos envolvidos na navegação do Século XVI. Mas não só. Pelo mesmo autor somos logo informados de que a maior preocupação dos colonizadores era obter lucros, encontrando alguma coisa na América que, ao ser depois vendida na Europa, rendesse bastante. As baleias não ficaram fora dessa perspectiva, lembrando ele que "...quanto mais que se à Bahia forem biscainhos ou outros homens que saibam armar às baleias, em nenhuma parte entram tantas como nela, onde residem seis meses do ano e mais, de que se fará tanta graxa que não haja embarcações que a possam trazer à Espanha." (³)
É desnecessário lembrar que, no Século XVI, preocupar-se com questões ambientais não fazia parte do cardápio mental de quase ninguém.
Os contratos para a pesca das baleias tornaram-se, com o tempo, muito disputados. Interessavam à Coroa, interessavam aos exploradores do Continente Americano. Quem obtinha um desses contratos tinha o direito de explorar, com exclusividade, a pesca de baleias em uma determinada área. Como regra geral, quem oferecia mais aos cofres reais arrematava o tal privilégio. Já na segunda metade do Século XVII, escrevia o Padre Simão de Vasconcelos:
"As baleias são em tão grande número, que só nesta Bahia anda hoje o contrato real sobre elas em quarenta e três mil cruzados, por tempo de três anos. Revolve a multidão destes peixes [sic] o profundo das águas, e lança à praia tão grande quantidade de âmbar, que tem enriquecido a muitos." (⁴)

A pesca da baleia e seus perigos (⁵)

Em fins do século XVIII as autoridades coloniais já reconheciam que as baleias começavam a escassear na costa no Brasil. Recomendava-se cautela na pesca.
Eu poderia concluir dizendo que a captura de baleias que ainda hoje é praticada em alguns lugares do planeta é desumana e alvo dos protestos de ambientalistas. Mas esses são fatos que não há quem desconheça. Em lugar disso, talvez seja interessante recordar que os resultados da pesca incessante de baleias no litoral brasileiro podem ser observados por quem quer que deseje ver o espetáculo da multidão delas, conforme descrito por Pero Lopes ou Gabriel Soares no Século XVI. Duvido que se encontre grande coisa.
 
(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 278.
(2) Ibid., p. 279.
(3) Ibid., p. 358.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 280.
(5) TELLER, Thomas. Stories About Whale-Catching. New Haven: S. Babcock, 1845. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Brasil

Ramo de pau-brasil

Segundo assinalado por Pero Vaz de Caminha, o nome atribuído inicialmente às terras "encontradas" por sua esquadra na América foi o de "Terra de Vera Cruz" ou "Ilha de Vera Cruz", conforme dois trechos de sua Carta a D. Manuel, dois quais um deles é este:
"Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, primeiramente de um grande monte mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o Capitão pôs nome "o Monte Pascoal" e à terra "a terra da Vera Cruz".
E aqui, o outro, já na conclusão do relato:
"Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500."
De passagem, observemos que essa ambiguidade na denominação, primeiro "Terra", depois "Ilha", reforça o fato de que os portugueses, assim como os demais navegantes da época, tinham ainda grande dificuldade em saber onde, exatamente, estavam. Em linhas gerais, pode-se dizer que eram capazes, com alguma imprecisão, é verdade, de determinarem a latitude; a longitude, porém, ainda levaria muito tempo para ser corretamente registrada.
Prossigamos.
Seja lá ilha ou terra, o nome inicial, de "Vera Cruz", logo foi substituído por "Santa Cruz", para, não muito mais tarde, tornar-se Brasil, bem a contragosto dos religiosos, como já veremos.
Em 1504, quando Fernando de Noronha recebeu a então chamada Ilha de São João, ainda se usava o nome de Terra de Santa Cruz, como se vê da correspondente Carta de Doação:
"A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que havendo-nos respeito aos serviços que Fernando de Noronha, cavaleiro de nossa casa nos tem feito e esperamos ao diante dele receber, e querendo-lhe por isso fazer graça e mercê, temos por bem e nos apraz que vindo-se a povoar em algum tempo a nossa ilha de São João, que ele ora novamente achou e descobriu cinquenta léguas ao mar da nossa Terra de Santa Cruz, lhe darmos e fazermos mercê da Capitania dela em vida sua e de um seu filho..." (¹)
Porém, em 1511, quando se autorizou a vinda da Nau Bretoa às terras da América, já aparece o nome "Brasil", no próprio título de seu diário de bordo: "Livro da Nau Bretoa que vai para a terra do Brasil". E depois: "Livro do dia que partimos da cidade de Lisboa para o Brasil, até que tornamos a Portugal".
Duas décadas mais tarde, quando a expedição comandada por Martim Afonso de Sousa foi enviada à América, o nome de Brasil já devia ser coisa consolidada, pelo que se vê no documento através do qual o monarca lusitano estipulava os poderes do homem a quem confiara o mando:
"Dom João, a quantos esta minha carta de poder virem, faço saber que eu envio ora a Martim Afonso de Sousa, do meu Conselho, por Capitão-Mor da armada que envio à Terra do Brasil, e assim de todas as terras que ele dito, Martim Afonso, na dita terra achar e descobrir..." (²)
Tronco de pau-brasil
Pode parecer uma simplificação até útil, essa adoção do nome de Brasil em lugar de Ilha de Vera Cruz ou Terra de Santa Cruz. Aos olhos dos mais religiosos, fossem clérigos ou não, essa mudança foi sobremodo irritante. É o que se depreende do que escreveu Gândavo em obra datada de 1576 (³):
"Por onde não parece razão que lhe neguemos este nome e nem que nos esqueçamos dele tão indevidamente, por que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pau da tinta começou a vir a estes reinos, ao qual chamaram "brasil" por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas, para que nesta parte magoemos ao Demônio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la dos corações dos homens, mediante a qual somos redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir seu nome e chamemos-lhe Província de Santa Cruz como em princípio [...], porque na verdade mais é destinar e melhor é nos ouvidos da gente cristã o nome de um pau em que se obrou o mistério de nossa redenção, que outro que não serve mais que de tingir panos ou coisas semelhantes." (⁴)
Quase um século mais tarde, o Padre Simão de Vasconcelos ainda lamentaria a tal mudança de nome:
"Aqui arvoraram aos 3 de maio (como querem alguns) (⁵) o primeiro troféu de portugueses que o Brasil viu, o estandarte da Santa Cruz, ao som de demonstrações de grandes alegrias e solenidade de missa, pregação e salvas de artilharia da Armada, pondo por nome à terra tão formosa, Terra de Santa Cruz, título que depois converteu a cobiça dos homens em Brasil, contentes do nome de outro pau bem diferente do da Cruz, e de efeitos bem diversos." (⁶)
Meus leitores sabem muito bem como, afinal, terminou essa "queda de braço". Não é necessário, pois, nenhuma outra explicação. Só resta imaginar como seria o grito dos torcedores no estádio, em dia de jogo da seleção brasileira, se o nome ainda fosse Terra de Santa Cruz. Séculos antes, portanto, as coisas se arranjaram melhor, ao menos para esse propósito, com o curto e incisivo nome: Brasil!
 
(1) Carta dada em 1504 e, a pedido do próprio Fernando de Noronha (também chamado "Fernão de Noronha"), confirmada em 1522. Veja-se que a expressão "nossa Ilha de São João, que ele ora novamente achou e descobriu", reforça o que acima foi dito sobre a imprecisão dos cálculos marítimos na época dos Grandes Descobrimentos. Uma terra descoberta podia ser facilmente perdida... e depois, novamente encontrada.
(2) Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa (1530 a 1532).
(3) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. 1576.
(4) Esqueceu-se Gândavo de mencionar que o pau-brasil tinha outros usos, igualmente importantes, sendo particularmente prezado na construção naval daquela época, para a confecção de partes de embarcações que requeriam madeira flexível, porém muito resistente. É pela mesma razão que se faz ainda hoje muito estimado dos que constroem ou tocam instrumentos de cordas de alto padrão, com emprego assinalado para arcos de violino.
(5) Nisto diverge da Carta de Caminha, já citada. A carta de Caminha menciona duas missas, celebradas, a primeira, no chamado "Domingo da Pascoela", ou seja, o domingo seguinte ao domingo de Páscoa, e a segunda, em 1º de maio de 1500, e deve ser a esta que se refere o Padre Vasconcelos, por ter sido nessa ocasião que a cruz e as armas de Portugal foram plantadas em terra. Entretanto, é bom lembrar que já houve quem discutisse essa questão de datas, tentando demonstrar que Caminha poderia ter errado nas datas que anotou em sua Carta.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668.


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domingo, 19 de agosto de 2012

Os valores dos povos indígenas e as consequências do escambo

O comércio, em si, não é uma coisa má. Afinal de contas, quem é que é capaz de fazer, por si mesmo, tudo aquilo de que precisa, principalmente em sociedades altamente complexas como as que existem hoje?
Ocorre, porém, que o comércio pode, como todo  mundo sabe, ser fonte de (muitas) encrencas. O escambo, troca direta de uma mercadoria por outra, que se instaurou no Brasil com a chegada dos europeus, é um claro exemplo disso.
Até onde as fontes documentais de que dispomos nos informam, os povos indígenas do Brasil, pelas época do século XVI, não produziam, em geral, para troca. Comparados aos europeus, os índios dispunham de um número pequeno de artefatos, com os quais, no entanto, eram capazes de satisfazer às suas necessidades quotidianas. Um relato, de autoria do Padre Simão de Vasconcelos, nos conta que, perguntados pelo que tinham de maior valor, os nativos apontavam objetos que podiam carregar consigo, nada referindo de coisas que, para os europeus, eram tidas como importantes:
"Finalmente, acerca da bondade da terra se espraiavam mais: aqui mostravam com longas histórias e exemplos, as descrições das coisas que a seu modo tinham por de maior momento, como a de seus arcos e flechas, das penas com que se enfeitavam, das frutas agrestes que comiam e de que faziam seus vinhos; e eram das coisas que em seus olhos avultavam mais, deixando por de menos conta, a prata, o ouro, o âmbar e as pedras preciosas, às quais tem dado título de grandes, nossa real cobiça." (¹)
Porém...
Porém, com a chegada dos portugueses e o início do escambo, essa perspectiva passaria por uma transformação radical. Os índios, que produziam, quase sempre, apenas aquilo que era necessário ao seu próprio uso, passaram a ter interesse em produzir mais, sempre mais, para o "resgate", que é o nome que davam os portugueses a esse nascente comércio que instituíram. Em uma linguagem que certamente muitos de meus leitores conhecem bem, aquilo que antes tinha apenas valor de uso, passou a ter valor de troca. Ou seja, virou mercadoria.
Mas não foi só. A introdução de ferramentas de metal, uma inteira novidade para os indígenas, produziu alterações profundas na relação desses povos com a natureza. Apenas para exemplificar, machados fornecidos por europeus logo encontraram uso em derrubar facilmente enormes árvores que, arrastadas a simples depósitos no litoral - as feitorias - eram, depois da devida troca, embarcadas para muito longe.
Quando a expedição de Martim Afonso de Sousa veio ao Brasil, Pero Lopes anotou, em certa ocasião:
"Este dia vieram de terra, a nado, às naus, índios a perguntar-nos se queríamos brasil." (²)
Vê-se, nesse caso, que a iniciativa do escambo já não partia, necessariamente, dos portugueses. Os índios é que estavam, agora, interessados nas trocas.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 85 e 86.
(2) Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa.


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domingo, 23 de outubro de 2011

Sepultamentos indígenas - Parte 1

Os primeiros contatos entre portugueses e indígenas envolveram altas doses de medo e curiosidade de ambas as partes - medo por causa do desconhecido, curiosidade pela mesma razão. O passar do tempo mudou a percepção desse relacionamento, mas pode-se dizer que, inicialmente, os europeus que escreveram sobre a população nativa da América tinham uma visão bastante limitada e por isso mesmo, distorcida, dos povos indígenas, cuja diversidade era dificilmente captada. Assim, é comum que nos escritos do século XVI haja generalizações absurdas, embora, gradualmente, possamos ir encontrando melhores informações, devidas, em grande parte, às observações de missionários, gente que tinha coragem suficiente para ousar a ultrapassagem de barreiras culturais, indo viver com índios, aprendendo deles os costumes e a língua, enquanto eram feitos esforços para atraí-los à sua fé, o que podia significar, finalmente, a supressão de muito dos antigos costumes nativos, à medida que as populações eram organizadas em "missões" ou "reduções", sob normas estritas de conduta, segundo valores europeus, quanto à organização da família, trabalho e rotina diária.
Sepultamento indígena, segundo Rugendas (*)
Essas considerações são válidas sob os mais diversos aspectos da cultura dos povos indígenas, inclusive no que tange às práticas de sepultamento.
A despeito disso, há uma referência muito interessante a um cemitério indígena no Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa, escrito entre 1530 e 1532. Entretanto, com quase toda certeza, os indígenas em questão eram habitantes do território do atual Uruguai, e não do Brasil. Conforme veremos, porém, na próxima postagem, havia muito em comum nas práticas adotadas pelas diversas "tribos", ainda que um bom número de particularidades também. Mas vamos ao relato de Pero Lopes:
"E andando pela terra em busca de lenha para nos aquentarmos fomos dar num campo com muitos paus tanchados e redes, que fazia um cerco, que me pareceu à primeira que era armadilha para caçar veados; e depois vi muitas covas fuscas, que estavam dentro do dito cerco de redes; então vi que eram sepulturas dos que morriam, e tudo quanto tinham lhe punham sobre a cova, porque as peles, com que andavam cobertos, tinham ali sobre a cova, e outras maças de pau, e azagaias de pau tostado, e as redes de pescar e as de caçar veados; todos estavam em contorno da sepultura, e quisera mandar abrir as covas; depois houve medo que acudisse gente da terra, que o houvesse por mal. Aqui juntas estariam trinta covas. Por não podermos achar outra lenha mandei tirar todos os paus das sepulturas, mandei-os trazer para fazermos fogo, para se fazer de comer com dois veados, que matamos, de que a gente tomou muita consolação."
Expliquemos: Pero Lopes e outros marinheiros haviam sido enviados por Martim Afonso de Sousa (irmão de Pero Lopes e líder da Expedição) a explorar a região do estuário do Rio da Prata. Acontece que, sendo época extremamente desfavorável em termos de clima, sofreram grandes tempestades, quase morreram todos afogados, alguns morreram de fato por doenças e todos passaram muita fome. É este o contexto em que o navegador, ainda que temendo a justa vingança dos nativos, mandou remover a madeira existente no cemitério para preparar alimento aos esfomeados exploradores.
Talvez algum leitor fique chocado ante a ideia de que, não fossem as circunstâncias, Pero Lopes teria ordenado a violação das sepulturas, provavelmente por curiosidade, para ver o que havia dentro. Não é isso, todavia, o que se faz a cada novo túmulo de faraó descoberto no Egito ou em qualquer outro sítio arqueológico mundo afora?
O que deve ser notado, aqui, é o costume de sepultar o morto com seus pertences, o que era, diga-se de passagem, um hábito quase planetário, do qual os túmulos dos faraós egípcios são, talvez, o exemplo mais destacado. Esse costume ainda sobrevive em diversas culturas.

(*) RUGENDAS, Moritz Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 25 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte III: Uma aventura para valentes de diversas origens

Embarcações portuguesas contavam com marinheiros de diferentes nacionalidades


A maioria dos navegadores que, nos séculos XV e XVI, lançou-se a dominar os oceanos era, sem dúvida, composta por marinheiros profissionais, gente experimentada nas asperezas do ofício. A despeito disso, não conseguiam deixar de lado o entusiasmo pelo que viam nas "novas terras", como sobejamente o demonstram a Carta de Caminha e outros documentos, como o Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza (¹), já mencionado nas postagens precedentes desta série (Parte I e Parte II), no qual podemos ter uma ideia do deslumbramento dos europeus ante a paisagem do Continente Americano, pelo que lemos no seguinte trecho:
"Eu trazia comigo alemães e italianos, e homens que foram à Índia e franceses - todos eram espantados da formosura desta terra; e andávamos todos pasmados que nos não lembrava tornar." (²)
Note-se que Pero Lopes indica haver com ele homens de várias nacionalidades, o que demonstra que as navegações, encabeçadas principalmente por Portugal e Espanha, contaram, como empreendimento, com a participação de pessoas que eram contratadas devido à sua experiência e coragem, independente das origens. E, que isso não ocorreu apenas na expedição comandada por Martim Afonso (irmão de Pero Lopes, cujo Diário citamos) e que não incluía apenas europeus, mas também africanos, pode-se ver, por exemplo, no Livro da Nau Bretoa ), que refere a presença de negros como grumetes:
"Antonio [...] negro criado de Ruy Gomes
Antonio negro escravo de Artur Henriques
Bastiam escravo de Bartolomeu Marchone " (⁴)
Neste caso, o primeiro devia, provavelmente, ser de condição livre, sendo os dois últimos explicitamente citados como cativos. O aspecto interessante é que o primeiro escravo é descrito como "negro africano", mas, quanto ao segundo, não se especifica a origem. Há, além disso, no restante da lista dos navegantes da expedição, vários outros cuja nacionalidade não é identificada, mas seus nomes sugerem que talvez não fossem portugueses, sem omitir que, dos quatro armadores, dois deviam ser italianos, pois são, na ortografia da época, chamados "Bertolameu Marchone" e "Benadyto Morelle".
Além dos marinheiros de profissão havia, porém, quem viesse às Américas em busca de aventura - do que Hans Staden, com muita probabilidade, deve ser o mais famoso exemplo. Seja como for, para muitos marinheiros ou aventureiros, as terras recém-descobertas pareciam ser um lugar encantado, a ponto de não quererem retornar. Quanto a isso, concluímos com uma última citação do Diário da Navegação, no qual se registra, em julho de 1532:
"Aqui se lançaram com os índios três marinheiros da minha nau, e me detiveram oito dias buscando-os e não os pude haver por os índios mos esconderem." (⁵)
Estes, por certo, fizeram parte do grande número de europeus que, integrando-se à vida dos aldeamentos indígenas, começaram a lançar as bases de uma cultura tipicamente mameluca, que, por séculos, caracterizou algumas regiões do Brasil e que ainda hoje persiste em determinados lugares.


(1) Rio de Janeiro: Typ. de D. L. dos Santos, 1867.
(2) Página 54.
(3) Que partiu de Lisboa com destino ao Brasil em fevereiro de 1511 - anterior, portanto, à expedição de Martim Afonso, da qual também fazia parte Pero Lopes de Souza.
(4) Na mesma edição do Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, p. 105.
(5) Página 70.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte II: A coragem ultrapassa o medo

Navegadores dos Séculos XV e XVI corriam grandes perigos em suas viagens


Na primeira postagem desta série abordei a questão das incertezas enfrentadas pelos marinheiros dos séculos XV e XVI em suas viagens marítimas. Que dizer, entretanto, das dificuldades quotidianas de quem navegava? No mesmo Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, mencionado em Incríveis Navegadores - Parte I, encontramos, à página 14:
"Sábado 14 do dito mês tomei o sol em três graus e três quartos: este dia todo não ventou; senão choveu muita água, e fazia tão grande calma, que não se podia suportar."
Tente imaginar, leitor, as embarcações a vela, retidas em alto mar pela absoluta falta de vento, estando a marujada inteiramente exposta, ora ao sol, ora às tempestades. Sob o sol, na zona equatorial, o calor do verão podia ser quase intolerável; se chovia, porém, o problema não era menor, como vemos por trechos respectivamente das páginas 22, 23, 29 e 30, em que são descritas tempestades, nas quais a água que lhes molhava o corpo talvez fosse o menor dos inconvenientes:
"Sexta-feira oito dias do mês (¹) [...]. À tarde nos deu uma trovoada de muita água; e entre as naus se fizeram duas mangas (²), de que os marinheiros houveram mui grande medo, por no mar ser coisa mui perigosa."
"Sábado (³)  no quarto-d'alva se fez o vento sudoeste; e veio tão súbito e furioso, que quase não deu lugar a amainar as velas; e ventou com tanta força (o qual ainda nesta viagem o não tínhamos assim visto ventar) que as naus sem velas metiam no bordo por debaixo do mar: era tamanha a escuridão e relâmpagos, que era meio-dia e parecia de noite; à tarde se fez o vento sul. Andava o mar tão grosso e tão feio que nos entrava por todas as partes. No quarto da prima ao sair da lua abonançou mais o vento; ficou o mar tão grande que nos não podíamos ter na nau. Da banda de bombordo me arrebentaram os aparelhos, com o jogar da nau."
Amainada a tempestade, ficavam consequências penosas, como equipamento danificado e perda de suprimentos, tão escassos quanto indispensáveis durante as viagens. Sobre isso, veja-se essa breve citação da p. 47:
"A água que choveu me molhou o mantimento todo, que mais não prestou." (⁴)
Sentiam medo os navegadores? Ora, leitor, eram humanos! É verdade que a luta contínua podia, talvez, fazê-los mais destemidos que o comum dos mortais, mas como não ter medo diante da fúria do mar, da possibilidade sempre elevada de doenças letais, da iminência da morte pela fome ou sede excruciantes? Todavia, a despeito de tamanhas dificuldades, esses incríveis navegadores prosseguiam rumo a suas metas, que muitas vezes eram desconhecidas...
O desconhecido que aterrorizava também compelia a prosseguir, mesmo sabendo que a vitória de  um dia podia transformar-se em derrota e morte em ocasião posterior. Não, não exagero: Bartolomeu Dias, o homem que liderou a ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança em 1488, naufragou nas mesmas águas traiçoeiras cerca de doze anos depois; Juan Diaz de Solís foi assassinado por nativos no Uruguai, quando buscava uma passagem do Atlântico ao Pacífico; Fernão de Magalhães, que finalmente conseguiu passar por via marítima entre os dois oceanos, morreu em combate em abril de 1521 nas Filipinas; Juan Sebastián Delcano, o sucessor de Magalhães, morreu de escorbuto em 1526, e mesmo Vasco da Gama, que havia liderado a chegada às Índias em 1498, morreu de malária em Goa, no ano de 1524. Vale ainda acrescentar que, a cada embarcação que naufragava com um grande navegador, perdiam-se também muitos marinheiros anônimos, embora não menos audaciosos. Como um tributo à sua determinação e coragem, citamos, para concluir, os fatos referidos por Pero Lopes de Souza em seu diário (páginas 60 e 61):
"Ajuntamo-nos todos em uma pedra; porque o vento saltou ao mar; e crescia muito a água, que a ilha era quase toda coberta; senão um penedo em que todos estávamos, confessando uns aos outros, por nos parecer que era este o derradeiro trabalho. Assim passamos toda esta noite (⁵) em se todos encomendarem a Deus: era tamanho o frio, que os mais dos homens estavam todos entanguidos, e meio mortos. Assim passamos esta noite com tamanha fortuna, quanta homens nunca passaram."
"E não tínhamos que comer, que havia dois dias que a gente não comia; e muitos homens ficaram tão desfigurados do medo, que os não podia conhecer. Toda esta noite nos choveu e ventou com relâmpagos e trovões: que parecia que se fundia o mundo." (⁶)
Eram os dias  24 e 25 de dezembro de 1531: não deveriam eles celebrar o Natal?...


(1) Março de 1831.
(2) Trombas-d'água.
(3) Sábado, 23 de abril de 1531.
(4) Domingo, 24 de novembro de 1531.
(5) Terça-feira, 24 de dezembro de 1531.
(6) Quarta-feira, 25 de dezembro de 1531.



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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte I: A incerteza faz companhia

Navegadores dos Séculos XV e XVI nem sempre sabiam em que lugar estavam


Hoje, quando alguém viaja ou planeja uma aventura qualquer, geralmente sabe aonde quer ir, quanto tempo gastará, quais os equipamentos indispensáveis e, quase sempre, é capaz de dizer o que espera encontrar ao chegar ao seu destino. Essas informações são vitais para a segurança de qualquer viajante. Não era esse o caso dos marinheiros dos séculos XV e XVI, pois quase tudo em suas viagens marítimas era  incerteza.
Um fato que chama a atenção nas navegações dos séculos XV e XVI é que os marinheiros pareciam nunca saber exatamente onde estavam, a menos que suas embarcações "andassem a vista de terra" já conhecida. Veja-se, por exemplo, no Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza pela Costa do Brasil até o Rio Uruguai  (¹), de 1530 a 1532, p. 10:
"Sexta-feira 9 dias de dezembro às três horas depois de meio-dia houve vista da terra; e chegando-nos mais a ela, reconhecemos ser a ilha de Tenerife. Como foi noite tiramos as monetas (²); e pairamos a noite toda até o quarto d'alva, que nos fizemos à vela."
Além disso, na página 16, encontramos o seguinte registro: 
"Assim que nesta paragem a pilotagem é incerta: por experiência verdadeira, para saberdes se estais de barlavento ou de julavento (³) da ilha de Fernão de Loronha (⁴), quando estais de barlavento vereis muitas aves as mais rabiforcados e alcatrazes pretos; e de julavento vereis mui poucas aves, e as que virdes serão alcatrazes brancos. E o mar é mui chão."
E mais adiante, ainda na p. 16:
"Segunda-feira 30 dias do mês de janeiro tomei o sol: e estava na altura do cabo de Santo Agostinho; e íamo-lo a demandar pelo rumo de oeste. Este dia não correu pescado nenhum conosco, que é sinal nesta costa de estar perto de terra; e outro nenhum não tem senão este."
Veja, leitor, o documento a que me reporto é de 1530 a 1532 - depois das viagens de Colombo, da de Vasco da Gama às Índias, da de Cabral ao Brasil, mesmo após a de circunavegação (Fernão de Magalhães - Delcano). E, a despeito de todo o conhecimento técnico e prática acumulados, as viagens eram ainda assustadoramente inseguras. Você empreenderia alguma viagem nessas condições? Os navegadores - incríveis navegadores - o fizeram.


(1) De acordo com a  edição de Varnhagen de 1867, que transcrevo na ortografia atual.
(2) Velas pequenas.
(3) Termo náutico, com o mesmo significado de sotavento, que é atualmente mais empregado.
(4) Ou Noronha.


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