domingo, 25 de julho de 2010

Grandes Navegadores - Parte III: Uma Aventura Para Valentes de Diversas Origens

Embarcações Portuguesas Contavam com Marinheiros de Diferentes Nacionalidades


A maioria dos navegadores que, nos séculos XV e XVI, lançou-se a dominar os oceanos era, sem dúvida, composta por marinheiros profissionais, gente experimentada nas asperezas do ofício. A despeito disso, não conseguiam deixar de lado o entusiasmo pelo que viam nas "novas terras", como sobejamente o demonstram a Carta de Caminha e outros documentos, como o Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza (*), já mencionado nas postagens precedentes desta série (Parte I e Parte II), no qual podemos ter uma ideia do deslumbramento dos europeus ante a paisagem do Continente Americano, pelo que lemos no seguinte trecho:
"Eu trazia comigo alemães e italianos, e homens que foram à Índia e franceses - todos eram espantados da formosura desta terra; e andávamos todos pasmados que nos não lembrava tornar." (**)
Note-se que Pero Lopes indica haver com ele homens de várias nacionalidades, o que demonstra que as navegações, encabeçadas principalmente por Portugal e Espanha, contaram, como empreendimento, com a participação de pessoas que eram contratadas devido à sua experiência e coragem, independente das origens. E, que isso não ocorreu apenas na expedição comandada por Martim Afonso (irmão de Pero Lopes, cujo Diário citamos) e que não incluía apenas europeus, mas também africanos, pode-se ver, por exemplo, no Livro da Nau Bretoa (***), que refere a presença de negros como grumetes:
"Antonio (...) negro criado de Ruy Gomes
Antonio negro escravo de Artur Henriques
Bastiam escravo de Bartolomeu Marchone " (****)
Neste caso, o primeiro devia, provavelmente, ser de condição livre, sendo os dois últimos explicitamente citados como cativos. O aspecto interessante é que o primeiro escravo é descrito como "negro africano", mas, quanto ao segundo, não se especifica a origem. Há, além disso, no restante da lista dos navegantes da expedição, vários outros cuja nacionalidade não é identificada, mas seus nomes sugerem que talvez não fossem portugueses, sem omitir que, dos quatro armadores, dois deviam ser italianos, pois são, na ortografia da época, chamados "Bertolameu Marchone" e "Benadyto Morelle".
Além dos marinheiros de profissão havia, porém, quem viesse às Américas em busca de aventura - do que Hans Staden, com muita probabilidade, deve ser o mais famoso exemplo. Seja como for, para muitos marinheiros ou aventureiros, as terras recém-descobertas pareciam ser um lugar encantado, a ponto de não quererem retornar. Quanto a isso, concluímos com uma última citação do Diário da Navegação, no qual se registra, em julho de 1532:
"Aqui se lançaram com os índios três marinheiros da minha nau, e me detiveram oito dias buscando-os e não os pude haver por os índios mos esconderem." (*****)
Estes, por certo, fizeram parte do grande número de europeus que, integrando-se à vida dos aldeamentos indígenas, começaram a lançar as bases de uma cultura tipicamente mameluca, que, por séculos, caracterizou algumas regiões do Brasil e que ainda hoje persiste em determinados lugares.


(*) Rio de Janeiro: Typ. de D. L. dos Santos, 1867.
(**) Página 54.
(***) Que partiu de Lisboa com destino ao Brasil em fevereiro de 1511 - anterior, portanto, à expedição de Martim Afonso, da qual também fazia parte Pero Lopes de Souza.
(****) Na mesma edição do Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, p. 105.
(*****) Página 70.

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