terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Navegação a Vapor em Águas do Brasil

Quem teria inventado a primeira embarcação a vapor? A resposta dependerá, talvez, de pruridos nacionalistas, mas há certo consenso de que Robert Fulton, norte-americano que não inventou nenhum barco a vapor, foi quem venceu a resistência dos medrosos ou incrédulos, e tratou de colocar a invenção em uso prático ao implantar, no começo do Século XIX, uma linha que fazia a ligação entre Nova York e Albany. A despeito de todos os prognósticos de fracasso, o barco de Fulton funcionou.

O barco de Fulton, conhecido como "Clermont", ao partir para a primeira viagem (*)

Aviso da partida de embarcações
a vapor no ano de 1852 (***)
No Brasil, ainda que embarcações estrangeiras a vapor tenham chegado aos portos antes disso, a navegação nacional a vapor parece ter começado em 1836, de acordo com Adolpho Augusto Pinto, em sua História da Viação Pública de São Paulo:
"A Companhia de Nictheroy, vencendo os embaraços que comumente se oferecem a qualquer empreendimento novo, conseguiu estabelecer e tinha funcionando, em 1836, um serviço mais ou menos regular de navegação a vapor, não só dentro da baía do Rio de Janeiro, como nas seções do Norte e Sul da Província.
Tal foi a primeira empresa de navegação a vapor que se fundou no Brasil." (**)
O mesmo autor refere ainda alguns fatos interessantes a respeito do início da navegação a vapor em águas brasileiras::
  • A citada Companhia de Nictheroy dispunha de duas pequenas embarcações, cujos nomes eram Paquete do Norte e Especuladora;
  • É provável que uma dessas duas embarcações tenha sido a primeira movida a vapor que fez entrada no porto de Santos, na então Província de São Paulo;
  • Embora fosse de bandeira inglesa, e não brasileira, a fragata Warspite, que conduziu D. Pedro I em seu retorno à Europa em 1831, era já movida a vapor;
  • Em contrato estabelecido em 1837, a Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor obteve o direito de prestar serviços de navegação ao longo de todo o litoral brasileiro;
  • A primeira linha regular de navegação entre o Brasil e a Europa foi estabelecida mediante acordo celebrado pelo Império com o governo da França em fins de 1843.
Sim, leitores, são curiosidades, mas curiosidades que mostram o ritmo da modernização no Brasil do Século XIX. 
Será útil recordar, finalmente, que as embarcações a vapor que circulavam em águas do Brasil usavam, a princípio, carvão importado da Inglaterra, e nem é preciso dizer o quanto esse fato era responsável pelo custo dos serviços prestados. Mais tarde, porém, foram feitos experimentos para uso de madeira em lugar de carvão, não só para embarcações, mas também para atendimento às locomotivas, de modo que, após algumas adaptações, a modificação veio a ser viável e amplamente adotada em algumas áreas, como foi o caso da bacia amazônica.

Embarcações a vapor, com velas e mistas em Belém do Pará, Século XIX (****)

(*) KNOX, Thomas W. The Life of Robert Fulton
New York: The Knickerbocker Press, 1900, p. 105
(**) PINTO, Adolpho Augusto História da Viação Pública de São Paulo
São Paulo: Typographia e Papelaria de Vanorden & Cia., 1903, p. 284
(***) AURORA PAULISTANA, 24 de abril de 1852.
(****) ______________ Album de Vues du Brésil
Paris: A. Lahure, 1889
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 

4 comentários:

  1. E, menos de 200 anos depois, vamos da Europa até ao Brasil em apenas 8-9 horas. Dois séculos parece muito tempo mas, se considerarmos o curso da história, foi um instantinho. E estamos todos mais perto uns dos outros.
    Abraço Marta, uma boa semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Em um sentido absoluto, duzentos anos não significam quase nada em termos de história; entretanto, se pensarmos na brutal sequência de revoluções tecnológicas desses dois séculos, já temos um tempo enorme. Ou seja, o que conta é a velocidade da mudança.
      Por outro lado, é verdade que os meios de transporte e de comunicações em alta velocidade têm um enorme potencial para aproximar, mas parece que está ocorrendo exatamente o contrário... Quem entende os humanos? :-)))

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  2. Registos que ficam para a História. Bem interessantes, diga-se, embora nem tudo corresse, na época, a vapor. ;)

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    1. De fato, nem tudo ia a vapor: em se tratando do Brasil, muito do transporte terrestre era feito por tropas de mulas, embora as primeiras ferrovias já estivem em construção na segunda metade do Século XIX.

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