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quinta-feira, 7 de abril de 2022

Através de rios

Se as proezas nas navegações oceânicas ficaram famosas, a navegação fluvial não foi menos importante: quando e onde (ainda) não havia estradas, nem mesmo trilhas, os rios eram vias muito convenientes, tanto para exploradores de um território desconhecido como para viagens regulares. Tentem imaginar, leitores, os barqueiros que, na Antiguidade, subiam o Nilo ou desciam o Eufrates, procurando alcançar, com os olhos, tudo o que havia às margens. Iam, aos poucos, compreendendo melhor aquilo que os cercava e traziam informações que contribuíam para a construção de um conceito do mundo, tal qual era, ou tal qual supunham ser.
Tão decisivos eram os rios, e não só pela água, que, em não poucas mitologias, o caminho dos mortos para algum tipo de vida além-túmulo era imaginado como ocorrendo através de um rio (¹), uma ideia que, surpreendentemente, sobreviveu por longos séculos (²).
Os rios não foram, contudo, apenas rotas de paz, para descobridores e comerciantes. Grupos invasores frequentemente se deslocavam através deles. Foi assim, por exemplo, na Idade Média, quando saxões, deixando suas terras escassas e pouco produtivas na Europa Continental, invadiram a Grã-Bretanha, usando barcos longos e estreitos, capazes de levar três ou quatro dezenas de remadores dispostos aos pares. Suas embarcações eram perfeitas para rios, embora também tenham servido para a travessia do Mar do Norte, a despeito de todos os evidentes riscos.
No Brasil, desde o Século XVI, exploradores europeus perceberam que rios seriam, quase sempre, os melhores caminhos no rumo do interior. Havia trilhas indígenas, é fato, mas os rios pareciam mais seguros e permitiam um deslocamento mais rápido. A navegação, para esses exploradores, quase sempre se fazia contra a corrente, visto que a maioria dos rios deságua no oceano ou em algum outro rio que, por sua vez, corre para o mar. Há, contudo, um caso notável no Brasil, de um rio importante que corre para o interior: o Tietê. Por ele, e muitas vezes com o auxílio de indígenas, colonizadores e missionários avançaram, gradualmente, para o interior do Brasil. A descoberta de ouro em Mato Grosso no Século XVIII converteu o Tietê, temporariamente, em parte essencial da rota das monções cuiabanas. O ouro diminuiu, as viagens pelo Tietê, por conseguinte, também foram ficando mais raras. Restaram o conhecimento e ocupação do interior, o nascimento de núcleos de povoação nas margens e, com isso, uma contribuição para a formação do Brasil, enquanto país com um território definido. 

Rio Tietê nas proximidades de Pirapora do Bom Jesus - SP

(1) É o caso do Aqueronte na mitologia grega, um rio que de fato existe e pelo qual se supunha que os mortos viajavam para ir ao reino de Hades. 
(2) Na poética do protestantismo, por exemplo, expressões equivalentes à travessia de um rio foram, por muito tempo, um modo de se referir à morte de um cristão, e, com esse sentido, obras literárias e cânticos religiosos falavam em "atravessar o Jordão", por analogia à travessia do rio Jordão, na Antiguidade, pelos hebreus que vinham do Egito. Um exemplo notável pode ser encontrado em The Pilgim's Progress, de John Bunyan, um clássico da literatura inglesa do Século XVII.


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terça-feira, 30 de junho de 2020

Indígenas foram expulsos de três aldeias para a fundação da primeira capital do Brasil

O documento que veremos foi citado por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na segunda parte do Novo Orbe Seráfico, e trata da fundação da cidade da Bahia (ou Salvador), primeira capital do Brasil. Foi encontrado, segundo Jaboatão, em um catálogo antigo dos governadores da Bahia, e nele se dizia que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, chegara ao Brasil em março de 1549, mas esteve "preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal" (¹). 
Para que tanto preparo, para que tanta espera? Diz o documento:
"[...] preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal, escolhido já o sítio por Diogo Álvares (²) [...], que é o em que está hoje fundada a cidade, por ter porto acomodado para os navios e ser terra levantada, que a faz participante de todas as virações, marchou o dito capitão-mor (³) com mil homens de guerra (⁴) e quatrocentos índios, e com efeito fizeram despejar as três aldeias do gentio (⁵), que se achavam estabelecidas onde é o terreiro de Jesus (⁶), o Convento do Carmo e o Desterro [...]."
Acontecimentos dessa época são um tanto incertos; documentos escritos posteriormente podem conter erros. As fontes divergem, por exemplo, em relação ao número de soldados que acompanharam Tomé de Sousa na viagem ao Brasil. Uma coisa, porém, é certa: a Bahia era habitada por indígenas e, para que Salvador fosse fundada nos moldes de uma povoação portuguesa, ou sairiam eles, espontaneamente, ou seriam expulsos. 
Não surpreende que Tomé de Sousa tenha contado, além dos soldados que trouxera do Reino, com a ajuda de indígenas. Sabe-se que os vários grupos tribais tinham divergências quase permanentes e, conquistando as boas graças de alguns, era possível facilmente tê-los como apoio na expulsão de outros, principalmente se levarmos em conta que os nativos que apoiaram Tomé de Sousa deviam ser aqueles tupinambás com que se aparentara Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que, escapando ao mar e à antropofagia, deixou numerosa descendência mameluca. 
Há que se considerar, ainda, que a existência de três aldeias indígenas na localidade poderia ser um exagero, uma vez que povoações nativas eram, usualmente, algo distantes umas das outras, para preservar um território de caça e coleta capaz de sustentar, ao menos parcialmente, as respectivas populações, embora não seja de todo impossível que, próximo ao litoral, grupos indígenas vivessem mais perto uns dos outros, já que do mar podia vir muito de sua alimentação. No entanto, essa dificuldade talvez desapareça, se considerarmos que colonizadores poderiam pensar que cada habitação coletiva indígena seria, por si mesma, uma aldeia, e, desse modo, três grandes moradias fossem julgadas três povoações distintas. Não se pode desconsiderar, também, o exagero intencional, com o fim de encarecer ao monarca e mais autoridades do Reino as dificuldades superadas por aqueles que enviara ao Brasil, e grandes serviços, portanto, que prestavam a seu rei, para os quais se esperava régia recompensa.
Como já disse, aos indígenas que viviam nas terras da futura Cidade da Bahia apenas se ofereciam duas opções: ou saíam espontaneamente, ou seriam expulsos. O documento que analisamos, sem disfarces ou considerações humanitárias, conta muito bem (e oficialmente) o que aconteceu. Surpreendente? Não, porque era a lógica da conquista, praticada, nesse tempo, não só na América, mas na própria Europa, quando as várias monarquias guerreavam entre si, conquistavam territórios que, automaticamente, adicionavam a seus domínios, passando os súditos de um rei ou imperador a outro. Consequências desse fenômeno existem até hoje, no patchwork das nacionalidades e culturas dentro de Estados que, em alguns casos, são muito pequenos.

(1) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 20.
(2) Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que já vivia entre indígenas na Bahia.
(3) Tomé de Sousa, considerado capitão-mor até que estabelecesse o Governo-Geral, quando passaria a ter o título de governador-geral.
(4) Outras fontes falam em um número diferente de soldados. De qualquer forma, o fato de se fazer acompanhar desde o Reino por um número considerável de soldados mostra que já se supunha que a ocupação da terra não seria pacífica.
(5) "Gentios" eram os indígenas não catequizados,
(6) Ou seja, defronte ao local onde posteriormente foi edificado o Colégio dos Jesuítas.


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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Moradores de São Paulo eram proibidos de ir a festas em aldeias indígenas

É certo que não se proíbe aquilo que ninguém faz. Então, vejamos: em 19 de janeiro de 1583, estando reunidos os vereadores e mais autoridades da vila de São Paulo, o procurador, segundo consta na ata dessa reunião (¹), requereu "que todo homem cristão branco, que não seja negro de fora, que se achar em aldeia de negros forros ou cativos, bebendo e bailando ao modo do dito gentio, que suas mercês (²) lhes mandassem e pusessem pregão (³) e pena contra os tais [...]". O que significa isso?
É preciso explicar que a proibição não estava relacionada a alguma aldeia de africanos, já que isso caracterizaria um quilombo a ser, com toda certeza, debelado. Por estranho que pareça ao leitor do Século XXI, a palavra "negros", aqui, faz referência a indígenas, uma vez que era usual, na época, que ameríndios fossem chamados assim por colonizadores. Ora, o tal intercâmbio festivo devia ser recorrente. Por que se proibia?
Podemos levantar algumas conjecturas, que não se excluem mutuamente, antes se complementam, sabendo de antemão que as "aldeias" a que se referiu o escrivão da Câmara poderiam ser tanto povoações de índios "administrados" (⁴), de índios sob a catequese de jesuítas ou mesmo daqueles que, fugindo ao controle dos colonizadores, viviam em suas próprias aldeias, a seu modo e sem a interferência direta dos brancos:
  • Talvez houvesse queixa dos missionários jesuítas, que, com farta razão, alegavam constantemente que o mau exemplo dos colonizadores era o maior entrave à catequese de indígenas;
  • Embriagados e entretidos com a dança, colonizadores poderiam revelar segredos que facilitariam um eventual ataque indígena à vila de São Paulo;
  • É possível que os "homens bons" (⁵) da vila presumissem que a amizade de brancos com índios poderia resultar na perda do controle sobre os moradores originais da terra;
  • Talvez a proposta de punir os que fossem às festas indígenas não passasse de mera formalidade, proibindo "de fachada" aquilo que não se tencionava deixar de fazer, apenas ostentando dar satisfação a eventuais queixas de missionários;
  • Finalmente, temos por dever garantir aos senhores vereadores e outras autoridades o direito à presunção da inocência - neste caso, pode ser que, de fato, estivessem preocupados com o dano que colonizadores poderiam fazer aos indígenas indo às suas festas. Improvável, porém...
É ideia popular que indígenas e colonizadores viviam em brigas constantes, que variavam apenas de intensidade. Todavia, a ata a que nos referimos prova que o relacionamento entre os antigos senhores da terra e os recém-chegados colonizadores nem sempre era caracterizado pela oposição. A verdade é que alguns colonizadores gostavam tanto do estilo de vida ameríndio que chegavam a viver com eles e/ou como eles, ainda que a Igreja, combatesse esse proceder, ao menos até onde seu braço alcançava. Brancos vindos do Reino se casavam com mulheres indígenas, falavam língua indígena dentro de casa, andavam pelo mato como indígenas, e seus filhos - os chamados mamelucos - não tinham dificuldades em viver com um pé em cada cultura. Assim se colonizou São Paulo e, por extensão, o Brasil.

(1) O trecho citado foi transcrito em ortografia atual, sendo acrescentadas as vírgulas indispensáveis à compreensão.
(2) As autoridades constituídas da vila.
(3) A advertência pública a toda a população da vila era feita usualmente aos domingos, na saída da missa.
(4) Assim eram chamados os índios escravizados que viviam em fazendas de particulares ao redor da vila de São Paulo.
(5) Era usual que assim fossem chamados os administradores de uma localidade nos tempos coloniais.


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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Caminhando por florestas densas

Floresta Amazônica e rio Negro

Poucas pessoas, dentre a população urbana, já andaram pelas matas fechadas do Brasil; são, por consequência, também poucas as que têm uma ideia correta do que é transpor a densa vegetação, como o fizeram os colonizadores, nos Séculos XVI, XVII e XVIII. Em uma pequenina obra, publicada em 1754 com o aparatoso título de Relação e Notícia da Gente que Nesta Segunda Monção Chegou ao Sítio do Grão-Pará e às Terras de Mato Grosso, encontramos a seguinte descrição:
Dentro da Floresta Amazônica
"Em toda esta terra, e em todo o tempo do ano estão as árvores cheias de folhas e os matos frescos, o intrincado dos quais nos serve de mortificação, porque se não pode por eles dar livremente um passo; ao chegarmos vendo o denso e frondoso dele nos parecia que o fogo poderia fazer caminho livre, mas ao depois nos desenganou a experiência, pois ainda cortados os paus e postos no lume, dificultosamente ardem; todas as árvores são enlaçadas de cipó [...], de sorte que pelo mato se não pode dar passo sem que se leve na mão um cutelo ou faca grande, com a qual se vai cortando aquela rede de cordas com que a natureza foi prendendo as árvores umas às outras [...]." (¹)
Notem, leitores, que o fato de as florestas do Brasil permanecerem sempre verdes era uma surpresa para quem estava habituado à vegetação decídua de climas temperados, mas a dificuldade apontada era caminhar por entre a mataria, não apenas pela densidade arbórea, mas também pela existência de cipós que, conforme aponta o trecho citado, formavam uma rede ligando as árvores e impedindo a passagem. Mesmo dispondo de boas ferramentas, quem pretendia explorar o terreno considerava a tarefa penosa, daí o recurso ao fogo, de modo análogo ao utilizado por indígenas (²). Esse método, inconveniente pelo dano ambiental que dele resulta, não era, todavia, muito eficaz para abrir o terreno. A despeito disso, foi usado por bandeirantes e outros exploradores do território, e continua até hoje a ser empregado - ilegalmente - para remover a floresta, dando lugar à monocultura e pastagens.

Dentro de mata no Brasil Central

(1) COUTO, Isidoro de; SILVA, Caetano Paes. Relação e Notícia da Gente que Nesta Segunda Monção Chegou ao Sítio do Grão-Pará e às Terras de Mato Grosso. Lisboa: Oficina de Bernardo A. de Oliveira, 1754.
(2) Antes da chegada de colonizadores europeus, as ferramentas usadas por indígenas do Brasil eram feitas com madeira e pedra, dificultando o corte de árvores, daí o uso do fogo para desbastar florestas.


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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Os sapatos de couro usados pelos colonizadores do Brasil

Sapatos, armas defensivas e móveis eram feitos com o couro de animais de caça e de criação


Os primeiros colonizadores que vieram ao Brasil precisaram ativar o senso de criatividade. Por quê? Ora, simplesmente por uma razão de sobrevivência. Era necessário encontrar nas terras da América diversos materiais que pudessem substituir coisas a cujo uso estavam acostumados. É verdade que, tanto quanto possível, traziam do Reino objetos que acreditavam imprescindíveis. Além disso, sempre que tinham bom relacionamento com indígenas, aprendiam com eles algumas técnicas que se provavam utilíssimas. Mas, em muitos casos, só a experiência, obtida no contato diário com a nova terra em que tinham de viver, é que permitiu descobrir modos de uso para aquilo que estava à mão. Afinal, para quem tivera a coragem de atravessar o Atlântico, fosse pela perspectiva de enriquecimento, pela sede de aventura ou por idealismo missionário (¹), não fazia o menor sentido ficar choramingando pela falta de confortos que haviam ficado para trás.
Assim foi, por exemplo, em relação aos sapatos. Quando os calçados trazidos do Reino se gastavam, era difícil conseguir outros semelhantes. Ao menos no princípio da colonização os navios procedentes de Portugal a cada ano eram poucos, e, mesmo mais tarde, quando o comércio de açúcar se intensificou, os calçados "do Reino" eram caros, já que não vinham em grandes quantidades - todo mundo sabe o que é que acontece quando há demanda maior que a oferta de uma dada mercadoria. A solução era, por tentativa e erro, experimentar o que havia na terra e que podia garantir a obtenção de couros apropriados para o trabalho dos sapateiros (²). Ainda no Século XVI, Gabriel Soares explicou que couros de veado eram excelentes para botas:
"Criam-se nos matos desta Bahia muitos veados, a que os índios chamam suaçu, que são ruivos e tamanhos como cabras, os quais não têm cornos nem sebo, como os de Espanha. Correm muito, as fêmeas parem só uma criança. Tomam-nos em armadilhas e com cães; cuja carne é sobre o duro, mas saborosa; as peles são muito boas para botas, as quais se curtem com casca de mangues, e fazem-se mais brandas que as dos veados de Espanha." (³) 
Mesmo citando o fato para ilustrar o pouco caso que o jesuíta Belchior de Pontes (1644 - 1719) fazia dos luxos geralmente apreciados em seu tempo, o também jesuíta Manuel da Fonseca escreveu, em relação aos sapatos usados por seu biografado:
"Os seus pés, ou nunca, ou raras vezes calçavam sapatos de cordovão, contentando-se com uns de veado tão mal alinhados, que os conservava com a mesma cor, com que tinham saído do curtume." (⁴)
De couro de anta os colonizadores aprenderam, com os indígenas, que era possível fazer armas defensivas, segundo explicou José de Anchieta, em carta escrita em São Vicente e datada de 31 de maio de 1560, cujo destinatário era o padre geral dos jesuítas, Diego Laynez:
"Do seu couro [de anta], endurecido apenas pelo sol, os índios fabricam broquéis completamente impenetráveis às flechas." (⁵)
O elemento perverso nessa ideia de usar couro de anta é que, não demorou muito, e os paulistas, que iam ao sertão com o objetivo de capturar índios para escravização, estavam fazendo uso dos ditos objetos contra as flechas que, numa tentativa desesperada de escape, os nativos na América atiravam contra eles. 
Finalmente, para não ficarmos restritos à questão do uso de couros de animais nativos da América, basta citar que Rocha Pita, em sua famosa (ainda que muito questionada), História da América Portuguesa, cuja primeira edição data de 1730, informou que na Capitania de São Vicente se criavam porcos, cujo couro era utilizado tanto para calçados como para mobiliário:
"[...] Se criam nela [na Capitania de São Vicente] porcos tão grandes, que se lhes esfolam as peles para botas e couros de cadeiras, em que provam melhor que o das vacas." (⁶)
Os leitores não terão dificuldade em perceber que, se no início, era preciso que um colono se acomodasse ao que havia na terra, aos poucos foi possível adaptar ao Brasil os usos e costumes do Reino, o que incluía, por suposto, tanto os cultivos agrícolas como a criação de animais, possibilitando, assim, um estilo de vida mais semelhante àquele que era usual na Europa (com as devidas adaptações), tendo em conta as condições climáticas vigentes na América.

(1) Com exceção, naturalmente, dos que vinham ao Brasil para cumprir uma sentença de degredo; esses, como regra, não o faziam de livre e espontânea vontade.
(2) Os experimentos foram um sucesso: nos relatórios de exportações do Século XVII, com destino à Europa, era frequente que os principais itens fossem açúcar, tabaco e couros. A criação de gado bovino para corte obteve sucesso no Nordeste, mas havia também a exportação de couros de animais nativos do Continente Americano.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 246.
(4) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 38. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 119.
(6) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 65.


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segunda-feira, 28 de março de 2016

Cavalos na conquista da América

Não havia cavalos na América antes que, em fins do Século XV, europeus pusessem os pés no Novo Mundo. Sim, é verdade que há cavalos selvagens em uns poucos lugares do Continente, mas eles descendem de animais trazidos durante a colonização, e que, por assim dizer, "voltaram para a natureza".
Nem todo mundo sabe, porém, que os cavalos tiveram uma enorme importância na chamada "conquista da América", dando aos europeus uma vantagem que talvez nem houvessem previsto quando faziam embarcar animais para a travessia do Atlântico. Se alguém tem dúvidas quanto à veracidade desse fato, será útil considerar que o frei dominicano Bartolomé de Las Casas, em sua Brevísima Relación de la Destrucción de las Índias, descreveu os cavalos como "a arma mais perniciosa que pode haver contra índios" (¹).
O mesmo Las Casas explicou, com respeito à ocupação da Nicarágua, que era prática enviar homens a cavalo, não restando "homem nem mulher, nem velho e nem idoso com vida, pelos motivos mais irrisórios, como não atender rapidamente ao chamado, ou não trazer tanto milho, que é o trigo de lá, ou tantos índios para serviço [...], porque, como o terreno era plano, ninguém podia fugir dos cavalos, nem de sua ira infernal". (²)
Como seria muito razoável supor, a população nativa tratou de procurar algum modo pelo qual pudesse dificultar o deslocamento dos cavaleiros. Indígenas começaram a cavar grandes buracos, dentro dos quais colocavam estacas pontiagudas. Tudo era então coberto com bastante capim e ramos de árvores. Vindo os cavalos, caíam nesses fossos e acabavam morrendo em consequência dos ferimentos.
Ora, a resposta dos conquistadores não se fez esperar. Conta Las Casas:
"Não mais que uma ou duas vezes caíram cavalos [nos fossos]; mas, para vingança, os espanhóis fizeram lei, segundo a qual todos os índios, de todo gênero e idade que capturassem com vida, fossem lançados nos fossos, assim mulheres grávidas ou com bebês, crianças e velhos; a quantos alcançavam, lançavam nos fossos, até que ficavam repletos de atravessados pelas estacas, o que era uma grande lástima de ver, especialmente as mulheres com seus filhinhos." (³) 
É possível que alguns dos leitores entendam que nos relatos de Las Casas (⁴) havia, talvez, certo exagero, porém nunca será demais recordar que tudo isso se publicou ainda em vida da maioria dos "conquistadores" da América, que jamais apresentaram qualquer defesa convincente para suas ações. A conquista rendia muito ouro, um fato que explica o silêncio, na época, de muitos daqueles a quem cabia fazer justiça contra tanta monstruosidade.

***

Para satisfazer a curiosidade de leitores que talvez queiram saber se alguma coisa semelhante aconteceu no Brasil, menciono aqui um incidente relatado por Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil (⁵), quanto a uma ocasião em que colonizadores ameaçaram tomar vingança da morte de alguns brancos por uma tribo indígena, com a qual viviam em atrito: "Isto bastou para os alborotar e pôr a todos em fugida, o que também fizeram por verem no nosso exército cavalos, porque os temem muito."
Fatos como esse, porém, não eram generalizados, já que parte expressiva do território brasileiro ocupado nos tempos coloniais não era muito favorável a investidas de cavalaria, fosse pelo relevo, fosse pela densa cobertura vegetal.

(1) LAS CASAS, Bartolomé de. Brevísima Relación de la Destrucción de las Índias. Philadelphia: Juan F. Hurtel, 1821, p. 27.
(2) Ibid., p. 45.
(3) Ibid. p. 68.
(4) As citações da obra de Bartolomé de Las Casas incluídas nesta postagem (cuja primeira edição foi publicada na Espanha em 1552), são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) O manuscrito data de c. 1627.


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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Saguis


Saguis-de-tufos-pretos compartilhando alimento

São denominados saguis, genericamente, muitos pequenos primatas arborícolas encontrados nas florestas do Brasil. No Século XVI, quando os colonizadores europeus, ainda fascinados pelo Novo Mundo, compreendiam bem pouco da fauna das Américas, Pero de Magalhães Gândavo escreveu, em sua História da Província de Santa Cruz a Que Vulgarmente Chamamos Brasil, cuja primeira publicação data de 1576:
"Há também uns pequeninos pela costa, de duas castas pouco maiores que doninhas, a que comumente chamam saguis. Convém a saber, há uns louros, e outros pardos; os louros têm um cabelo muito fino, e na semelhança do vulto e feição do corpo quase se querem parecer com leão; são muito formosos e não os há senão no Rio de Janeiro. Os pardos se acham daí para o norte em todas as mais capitanias. Também são muito aprazíveis, mas não tão alegres à vista como estes." (¹)

Mico-leão-dourado

Temos que perdoar a Gândavo o desconhecimento da variedade de saguis existente no Brasil, até porque, em seus dias, não apenas esses primatinhas é que eram ignorados. Os colonizadores pouco sabiam das terras da América, já que raramente ousavam ir longe, rumo ao interior.
Pois bem, portugueses e outros europeus gostaram tanto dos saguis que intentaram levá-los à Europa. Porém, segundo o relato do mesmo Gândavo, quase sempre a mudança de ares era fatal aos animaizinhos:
"E assim uns com outros são tão mimosos e delicados de sua natureza, que como os tiram da pátria e os embarcam para este Reino, tanto que chegam a outros ares mais frios quase todos morrem no mar, e não escapa senão algum de grande maravilha." (²)
Já no Século XVII o Padre Simão de Vasconcelos escreveu que, no Brasil, havia uma grande variedade de "animais de gosto e recreação, monos, macacos, bugios, saguis, preguiças, cotias e outras espécies sem conta." (³) Está nisso, afinal, uma evidência de que a gradual exploração do território americano levou os colonizadores europeus a uma melhor compreensão da enorme riqueza natural de que o Continente era dotado.
O povoamento e consequente crescimento das áreas urbanas contribuiu muito para a redução das matas habitadas por saguis, havendo um caso particularmente crítico em relação ao mico-leão-dourado, ainda uma espécie ameaçada pela diminuição da Mata Atlântica. Outras espécies, porém, podem encontrar lugares favoráveis à sobrevivência, havendo algumas que, curiosamente, parecem não ter problemas em achar espaço até mesmo em regiões urbanas, desde que convenientemente arborizadas.

Este foi visto em um zoológico no interior de São Paulo:
sagui comendo salgadinho industrializado (oferecido por visitantes)

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 117 e 118.
(2) Ibid., p. 118.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 75.


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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A pesca da baleia no Período Colonial

Vez por outra leio a notícia de alguma baleia que encalhou junto ao litoral brasileiro, ou mesmo que foi encontrada já morta. Pois bem, esses acontecimentos fazem lembrar escritos de autores dos dois primeiros séculos da colonização, nos quais informavam que, nas águas oceânicas junto ao Brasil, as baleias eram, então, numerosíssimas.
No Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa lemos que "eram tantas as baleias nesta paragem e tamanhas, e chegavam-se tanto às naus que lhes havíamos mui grande medo." Vale recordar que Pero Lopes, irmão de Martim Afonso de Sousa, escreveu o dito Diário da Navegação entre 1530 e 1532. A "paragem" por ele referida no trecho citado era a região da Bahia de Todos os Santos.
Já para o final do Século XVI, Gabriel Soares, que tinha, para sua época, um grande conhecimento das coisas do Brasil, observou:
"Entendo que cabe a este primeiro capítulo dizermos das baleias que entram na Bahia (como do maior peixe do mar dela [sic]) a que os índios chamam pirapuã; das quais entram na Bahia muitas no mês de maio, que é o primeiro do inverno naquelas partes, onde andam até o fim de dezembro que se vão; e neste tempo de inverno, que reina até o mês de agosto, parem as fêmeas à abrigada da terra da Bahia, pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que os parem, três e quatro meses, que eles têm disposição para seguirem as mães pelo mar largo; e neste tempo tornam as fêmeas a emprenhar, em a qual obra fazem grandes estrondos no mar." (¹)
Disse mais:
"Quando estas baleias andam na Bahia acompanham-se em bandos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam por ela em barcos, porque andam urrando e em saltos, lançando a água mui alta para cima; e já aconteceu por vezes espedaçarem barcos, em que deram com o rabo, e matarem a gente deles." (²)
As palavras de Gabriel Soares são úteis para que tenhamos uma ideia dos riscos envolvidos na navegação do Século XVI. Mas não só. Pelo mesmo autor somos logo informados de que a maior preocupação dos colonizadores era obter lucros, encontrando alguma coisa na América que, ao ser depois vendida na Europa, rendesse bastante. As baleias não ficaram fora dessa perspectiva, lembrando ele que "...quanto mais que se à Bahia forem biscainhos ou outros homens que saibam armar às baleias, em nenhuma parte entram tantas como nela, onde residem seis meses do ano e mais, de que se fará tanta graxa que não haja embarcações que a possam trazer à Espanha." (³)
É desnecessário lembrar que, no Século XVI, preocupar-se com questões ambientais não fazia parte do cardápio mental de quase ninguém.
Os contratos para a pesca das baleias tornaram-se, com o tempo, muito disputados. Interessavam à Coroa, interessavam aos exploradores do Continente Americano. Quem obtinha um desses contratos tinha o direito de explorar, com exclusividade, a pesca de baleias em uma determinada área. Como regra geral, quem oferecia mais aos cofres reais arrematava o tal privilégio. Já na segunda metade do Século XVII, escrevia o Padre Simão de Vasconcelos:
"As baleias são em tão grande número, que só nesta Bahia anda hoje o contrato real sobre elas em quarenta e três mil cruzados, por tempo de três anos. Revolve a multidão destes peixes [sic] o profundo das águas, e lança à praia tão grande quantidade de âmbar, que tem enriquecido a muitos." (⁴)

A pesca da baleia e seus perigos (⁵)

Em fins do século XVIII as autoridades coloniais já reconheciam que as baleias começavam a escassear na costa no Brasil. Recomendava-se cautela na pesca.
Eu poderia concluir dizendo que a captura de baleias que ainda hoje é praticada em alguns lugares do planeta é desumana e alvo dos protestos de ambientalistas. Mas esses são fatos que não há quem desconheça. Em lugar disso, talvez seja interessante recordar que os resultados da pesca incessante de baleias no litoral brasileiro podem ser observados por quem quer que deseje ver o espetáculo da multidão delas, conforme descrito por Pero Lopes ou Gabriel Soares no Século XVI. Duvido que se encontre grande coisa.
 
(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 278.
(2) Ibid., p. 279.
(3) Ibid., p. 358.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 280.
(5) TELLER, Thomas. Stories About Whale-Catching. New Haven: S. Babcock, 1845. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Colonizadores nem sempre arranhavam o litoral

A antológica afirmação de Frei Vicente do Salvador de que os colonos portugueses que vinham ao Brasil viviam junto ao litoral, arranhando a costa como caranguejos tinha muito de verdade:
"Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que sendo grandes conquistadores de terras não se aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos."
Razões para isso? Comecemos com o óbvio: muitos iam estabelecer-se no litoral simplesmente porque... estava mais perto. Havia, também, em boa parte da colônia, um sério obstáculo natural à ocupação: a Serra do Mar, com escarpas muito íngremes em certos pontos. Isto sem falar na população nativa da América que, resistindo à colonização, postava-se no interior, até para fugir à escravização que se lhes queria impor. Há, de Gândavo, um trechinho interessante sobre as razões que bloqueavam as idas ao sertão:
"Não há pela terra dentro povoações de portugueses por causa dos índios que não o consentem, e também pelo socorro e tratos do Reino lhes é necessário estarem junto ao mar por terem comunicação de mercadorias. E por este respeito vivem todos junto da costa." (¹)
Ocorre que não apenas de falta de interesse ou de coragem decorria o fato de não se ocupar o interior. Houve mesmo proibição nesse sentido, segundo, no Século XVIII, explicou Frei Gaspar da Madre de Deus:
"Com duas vistas, ambas muito próprias dos olhos de Martim Afonso, fez este Donatário aquela proibição utilíssima ao bem comum do Reino, e conducente ao aumento de sua Capitania. Ele penetrou os verdadeiros interesses do Estado melhor do que alguns modernos, e o seu fim era não só evitar guerras, mas também fomentar a povoação da Costa. Previu que da livre entrada dos brancos nas aldeias dos índios haviam de seguir-se contendas e alterar-se a paz tão necessária ao aumento da terra; não ignorava que D. João III mandara fundar colônias em país tão remoto de Portugal com o intuito de utilizar ao Estado por meio da exportação dos frutos brasílicos; sabia que todos os gêneros produzidos junto ao mar podiam conduzir-se para a Europa facilmente, e que os do sertão, pelo contrário, nunca chegariam aos portos, onde os embarcassem, ou se chegassem, seria com despesas tais que aos lavradores não faria conta largá-los pelo preço por que se vendessem aos da marinha. Estes foram os motivos de antepor a povoação da costa à do sertão, e porque também previu que nunca ou muito tarde se havia de povoar bem a marinha, repartindo-se os colonos, dificultou a entrada do campo, reservando-a para o tempo futuro, quando estivesse cheia e bem cultivada a terra mais vizinha aos portos." (²)
Menciono, de passagem, que Frei Gaspar da Madre de Deus era nascido em São Vicente, o que talvez explique um pouco suas ideias sobre o povoamento do interior. Mas, voltando à proibição de Martim Afonso de Sousa, vale lembrar que excetuou dela apenas João Ramalho. Ora, que remédio! O homem já andava pelos campos de Piratininga muito antes de que o próprio Martim Afonso cogitasse vir ao Brasil!
Em todo caso, gradualmente as coisas foram mudando.
Depois da fundação de Piratininga (1554), a uma certa distância da vila de João Ramalho (que mais tarde seria "transferida" compulsoriamente para Piratininga), aos poucos a ocupação do interior foi-se fazendo, no rumo das circunstâncias, aliás as mais variadas possíveis, dentre as quais será bom recordar:
a) a existência de um grande rio - o Tietê - que em lugar de correr para o mar, como fazem os rios ajuizados, corria para o interior, e que acabava sendo uma espécie de caminho natural para quem desejava perscrutar a imensidão de florestas que revestia o Continente;
b) a necessidade de ir mato adentro para combater índios que pretendiam, por vezes com muito motivo, atacar a pequena São Paulo;
c) a iniciativa catequética dos jesuítas, pressupondo que fossem os missionários até onde viviam os povos indígenas;
d) os apresadores de índios e buscadores de ouro que não mediam esforços e arriscavam o pescoço na fúria por enriquecimento rápido;
e) no extremo, gente que se via na contingência de fugir à força da Justiça - coisa que em Piratininga não constituía nenhuma raridade - acabava, mesmo sem querer, explorando o interior da capitania.
Tudo isso contribuiu para levar o povoamento lusitano muito além do que seria um limite aceitável para Tordesilhas, até porque onde era esse limite, com exatidão, ninguém sabia mesmo.
Ironicamente, foi no ponto em que as escarpas da Serra do Mar mais íngremes se mostravam que a interiorização do processo colonizatório acabou por ocorrer mais cedo, com maior intensidade e eficácia. Só para contrariar a "regra" de Frei Vicente do Salvador, os colonos da Capitania de São Vicente não se satisfizeram com "andar arranhando ao longo do mar como caranguejos".

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 31.
(2) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, pp. 71 e 72.


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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cerrado

A fase inicial da colonização do Brasil ocorreu, senão em exclusividade, ao menos predominantemente no litoral (¹). Aos poucos, porém, a exploração do interior foi acontecendo, até porque a busca por metais preciosos o exigia.
Assim, foi no interior do Brasil que os exploradores de origem europeia vieram a encontrar um tipo de vegetação em grande parte arbustiva, com árvores não muito altas e de troncos retorcidos. Já no Século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire descreveu-as como "...árvores esparsas, enfezadas, tortuosas, de cascas encortiçadas, com folhas duras e quebradiças." (²)
Tratava-se, como devem ter notado os leitores, do cerrado, uma forma de savana encontrada no Brasil (³). Podia ser visto, por exemplo, no território dos atuais Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e de São Paulo, tendo o mesmo Saint-Hilaire referido, quanto a uma área nas proximidades de Sorocaba:
"...encontramos um campo, onde, em meio de ervas e de subarbustos, elevam-se, umas bem juntas das outras, árvores definhadas, de casca suberosa, com folhas duras e quebradiças..." (⁴) 


(1) A Capitania de São Vicente foi, nesse quadro, uma exceção.
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 47.
(3) Outra forma de savana, também encontrada no Brasil, é a caatinga.
(4) SAINT-HILAIRE, A. Op, p. 201.


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domingo, 22 de dezembro de 2013

O padre Anchieta fazia alpargatas

Os europeus que, no século XVI, iniciaram a colonização do Brasil, tiveram, não necessariamente por opção, mas por razões de sobrevivência, de aprender com os povos indígenas novos hábitos e costumes. Isso significava o uso, como alimento, de coisas que até então desconheciam, dormir em redes (como os índios) e até mesmo novos modos de preparar o vestuário e construir habitações. Afinal de contas, que poderiam fazer quando roupas e calçados, trazidos do Reino, após muito uso devessem ser substituídos?
Como parte ativa no processo de colonização, os jesuítas trataram, em suas tentativas de aproximar-se dos nativos para doutriná-los, de viver tanto quanto possível segundo os hábitos e recursos locais, enquanto se esforçavam para aprender a língua da terra, instrumento indispensável à catequese.
Nas areias de Iperoig em Ubatuba (SP),
encontra-se este monumento em
homenagem 
ao Padre José de Anchieta
 que,
no Século XVI,
foi missionário no Brasil.
É possível, hoje, conhecer algo das dificuldades e soluções encontradas pelos religiosos europeus se lermos as cartas que enviavam e nas quais, com uma periodicidade quase sempre anual, davam conta a seus superiores das atividades, dos progressos e mesmo dos fracassos em relação ao que empreendiam na América. Assim, em 1554, em carta mandada a Coimbra, José de Anchieta escreveu:
"Agora estou aqui em São Vicente, que vim com nosso padre Manuel da Nóbrega para despachar estas cartas. Demais disso tenho aprendido um ofício que me ensinou a necessidade, que é fazer alpergatas (¹), e sou já bom mestre e tenho feitas muitas aos irmãos, porque se não pode andar por cá com sapatos de couro pelos montes." (²)
E em outra carta, desta vez tendo por destinatário o Geral da Companhia de Jesus, datada de julho de 1860, o mesmo Anchieta relatou:
"... fazemos vestidos, sapatos, principalmente alpercatas de um fio como cânhamo, que nós outros tiramos de uns cardos lançados n'água e curtidos, cujas alpercatas são mui necessárias pela aspereza das selvas e das grandes enchentes d'água." (³)
Esse costume de usarem os padres as alpargatas não era, no entanto, devido apenas às condições do terreno em que andavam. Devia-se, também, à falta de calçados como os que estavam disponíveis no Reino. Isso registrou o mesmo Anchieta, muito mais tarde (⁴), ao falar do Padre Diogo Jacome:
"Era isto mui comum naqueles tempo trabalharem os Irmãos de saberem alguns ofícios proveitosos para a comunidade. E assim o dito Padre (⁵) e outros Irmãos aprenderam a fazer alpargatas, porque então não havia sapato nem meia." (⁶)
Ora, em terras do Brasil, no Século XVI, já era bastante, para quem se aventurava pelos sertões, dispor de umas alpargatas para os pés. Afinal, não será demais lembrar que a maioria dos índios dispensava qualquer calçado. Sendo muito hábeis em andar descalços, ensinaram aos portugueses o modo como o faziam, e que, posteriormente, foi adotado pelas levas de bandeirantes que cruzaram o interior da Colônia.

(1) O termo "alpargata", de mesmo significado, é mais usual atualmente no português falado no Brasil.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 63.
(3) Ibid., p. 151.
(4) A data exata é desconhecida, mas as circunstâncias do texto apontam para a segunda metade da década de 1580.
(5) Refere-se a Diogo Jacome.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Op. cit.,  pp. 482 e 483.


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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O início do escambo entre europeus e indígenas no Brasil

Para nós parece a coisa mais natural que, quando queremos adquirir qualquer bem ou serviço, façamos o pagamento com o uso de moeda corrente, que pode variar, de acordo com o lugar onde se vive, mas cujo princípio é exatamente o mesmo, o de intermediário para facilitar as trocas.
Houve, entretanto - e há, ainda - sociedades nas quais a moeda, como a entendemos, era coisa inexistente. Isso valia para os povos indígenas do Brasil que viviam nas áreas litorâneas, quando da chegada dos portugueses, de modo que as relações comerciais que se estabeleceram foram, de saída, baseadas em escambo, ou seja, a troca direta de uma mercadoria por outra, sem o uso de moeda, mesmo porque, se os povos indígenas tivessem alguma moeda, seria pouco provável o estabelecimento de algum padrão de equivalência (câmbio) em relação ao dinheiro usado pelos portugueses.
O "comércio" entre portugueses e índios começou bem cedo. Mal chegada a esquadra de Cabral, houve, a crer no relato de Pero Vaz de Caminha, uma autêntica troca de presentes entre nativos e visitantes:
"Levava Nicolau Coelho cascavéis (¹) e manilhas. E a uns dava uma cascavel, a outros uma manilha [...]. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, ou de qualquer coisa que a gente lhes queria dar."
Em pouco tempo, entretanto, essa troca amistosa iria transformar-se em negócio sério, à medida que os europeus (não apenas portugueses) percebiam que era possível obter grande lucro com o escambo, fornecendo os índios mercadorias de alto preço nos mercados da Europa, em troca de objetos que, para os navegadores, tinham bem pouco valor. Era o caso da troca, por exemplo, de madeiras nobres por facas e tesouras, como se vê no Livro da Nau Bretoa, datado de 1511, ressalvando a autoridade real que de nenhum modo de fornecessem quaisquer armas aos nativos:
"Notificareis isso mesmo a toda a dita companhia que não resgate nem venda e nem troque com a gente da dita terra nenhumas armas de nenhuma sorte, que sejam punhais nem outras nenhumas que são defesas (²) pelo Santo Padre e por El-Rei Nosso Senhor, e poderão levar facas e tesouras como sempre levaram."

(1) Guizos.
(2) Isto é, proibidas.


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terça-feira, 24 de abril de 2012

A companhia de soldados descalços de Martim de Sá

Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, conta um fato bastante interessante, relacionado aos tempos coloniais, fato esse de que alegou ser testemunha ocular. Tendo como cenário o Rio de Janeiro e como contexto a tentativa holandesa de ocupação da Bahia, faz um relato que nos permite constatar como viviam muitos colonos no Brasil da primeira metade do século XVII. Para que se compreenda bem o ocorrido, vamos primeiro à leitura do que o próprio Frei Vicente escreveu:
"A vinte e um de dezembro de 1623 partiu de Holanda uma armada de vinte e seis naus grandes, treze do Estado e treze fretadas de mercadores, da qual avisou Sua Majestade ao Governador Diogo de Mendonça que se apercebesse na Bahia e avisasse os capitães das outras Capitanias fizessem o mesmo, porque se dizia virem sobre o Brasil. O Governador avisou logo a Martim de Sá, capitão-mor do Rio de Janeiro, o qual entrincheirou toda a cidade, consertou a fortaleza da barra e fez ir os homens do recôncavo para os repartir por suas estâncias, companhias e bandeiras; e porque muitos não apareciam, por andarem descalços e não terem com que lançar librés, ordenou uma companhia de descalços, de que ele quis ser o capitão, e assim ia diante deles nos alardos descalço e com umas ceroulas de linho, e o seguiam com tanta confiança e presunção de suas pessoas, que não davam vantagem aos que nas outras companhias militavam ricamente vestidos e calçados.
Sem esta, foram muitas as preparações de guerra que fez Martim de Sá nesta ocasião. As mesmas fariam nas outras Capitanias, que a todas se deu aviso até o Rio da Prata, mas faço menção do Rio de Janeiro como testemunha de vista, porque ainda então lá estava."
Vê-se que, em se tratando de comandar na guerra, o senhor Martim de Sá sabia o que era liderar. À parte disso, podemos fazer, a partir do que lemos, algumas observações, a começar pelo fato de que, estando a Corte ciente de que uma armada desse porte vinha ao Brasil, limitou-se, inicialmente, a deixar a defesa da terra, sabidamente bem pouco guarnecida, em mãos dos que já nela estavam. É que, nesse tempo, vigorava a chamada União Ibérica (1580 - 1640), e não se pode negar que a Coroa Espanhola, que estava em pé de guerra contra as chamadas Províncias Unidas (a que hoje chamamos Holanda),  que se haviam há pouco declarado independentes, não dava ao Brasil o mesmo cuidado que dispensava aos demais domínios na América, como México e Peru, por exemplo, que já lhe rendiam muitíssimo metal precioso. As terras brasileiras, ao contrário, iam sendo lentamente povoadas, e embora as capitanias do Nordeste e do Rio de Janeiro já produzissem um volume considerável de açúcar para exportação, não era algo que se comparasse a ouro e prata.
Nota-se também que o "serviço de inteligência", a bisbilhotice e espionagem nas Cortes alheias - sim, isso existia! - não foi capaz de informar para onde exatamente a armada era dirigida, de modo que todas as Capitanias fizeram aprontos para um eventual ataque. Ora, meus leitores, se algum dos senhores fosse, na época, conselheiro da Companhia das Índias Ocidentais, para onde recomendaria que se enviassem as forças de ataque? Para a região mais rica e promissora daqueles dias, certamente... No entanto, há que se considerar que, como governante, Diogo de Mendonça foi prudente em avisar da possível chegada de "visitantes", até por uma razão que hoje não passaria pela cabeça de nenhum navegante, mas que era, antigamente, um problema bem sério: uma armada sabia perfeitamente de onde partia (supõe-se!), mas nunca se tinha uma ideia exata de onde ia chegar, isso porque, mesmo conhecendo aproximadamente o rumo que se pretendia tomar, os ventos e correntes marítimas podiam desviar uma frota de sua rota, de modo que, não raro, acontecia de embarcações destinadas à Bahia, Pernambuco ou Rio de Janeiro irem parar nas Antilhas. Assim, era admissível que a Armada holandesa acabasse por aportar em qualquer ponto da costa brasileira, o que obrigava os defensores portugueses a uma contínua vigilância.
Há quem queira atribuir aos que defendiam a terra contra tentativas de ocupação (vindas principalmente de franceses, ingleses e holandeses) algum tipo de sentimento nativista, mas a mim me parece que a questão é bem mais simples. Os líderes da defesa eram portugueses natos ou seus descendentes, que também se consideravam portugueses, de modo que a noção de "brasilidade" que já se supôs, nesses casos fica bastante enfraquecida. Lutava-se antes de mais nada pela própria vida, pelas respectivas famílias e, como não podia deixar de ser, pelo direito à terra que se estava ocupando e da qual se retirava o sustento quotidiano. O brio militar, o sentimento de honra muito em vigor na época, podiam até dar uma impressão de patriotismo, mas, em última análise, não era algo muito além da luta pela sobrevivência em um lugar distante da Metrópole, com escassos recursos defensivos e do qual, se necessário, ficava quase impossível uma retirada em massa para o Reino.
Finalmente, sobre os soldados descalços: Ser colono no Brasil, para os pobres, não era nada fácil. Andavam descalços a vida toda e, por isso, não causa espanto que não tivessem sapatos para se apresentarem às suas obrigações militares. Mas pode ser mais do que isto. Os bandeirantes de São Paulo aprenderam, com seus cativos indígenas, uma técnica incrivelmente eficaz para se caminhar descalço nas matas. Talvez os colonos do Rio de Janeiro estivessem habituados a essa mesma técnica. Talvez também houvessem aprendido com os índios. Talvez isso seja indício de um processo recíproco de aculturação. Talvez fossem alguns desses colonos descalços, eles próprios, índios ou seus descendentes. Frei Vicente do Salvador não o declara, não temos nesse texto nenhum outro indício, mas o andar da colonização, na primeira metade do século XVII, torna essa uma possibilidade bem real.


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domingo, 27 de novembro de 2011

De que se alimentavam os colonizadores recém-chegados e os náufragos no Brasil

Depois de semanas ou meses no mar, os colonizadores finalmente chegavam às terras do Brasil. O que os esperava? Certamente não uma boa acolhida em uma estalagem confortável (lembre-se, era o século XVI) e, dependendo da localidade e da ocasião, não havia nem mesmo um teto sob o qual descansarem. A embarcação, para que não encalhasse, ficava a uma boa distância no mar, enquanto os novos colonos eram levados à praia em batéis. Com sorte, encontrariam água, frutos e caça. As primeiras povoações demoraram a desenvolver-se e, por isso, quem vinha ao Brasil, fosse de livre vontade ou em virtude de uma sentença de degredo, já sabia que os primeiros tempos seriam muito difíceis.
Se, em lugar de um desembarque, a chegada à costa era consequência de um naufrágio, a situação podia ser ainda pior. O colono que desembarcava podia trazer consigo alguns pertences, ferramentas e mesmo alguns suprimentos; já os náufragos, estavam longe de ter essa possibilidade, ainda que, em alguns casos, conseguissem salvar alguma coisa da embarcação perdida.
Temos, a respeito, o testemunho de Hans Staden (¹) e, como ele, muitos outros que não eram portugueses devem ter vindo parar na costa da América (²). Conta-nos que, estando em uma embarcação espanhola para a qual fora contratado como artilheiro, chegaram, segundo registro do piloto, a 28º Sul, o que nos indica estarem no litoral de Santa Catarina, tendo desembarcado em uma ilha (seria a de mesmo nome?). Ali, depois de fazerem fogo, derrubaram uma palmeira, da qual tiraram o palmito, que era uma novidade para muitos europeus e do qual, nos registros da época, encontramos descrições atribuindo-lhe os mais variados sabores.
A situação desses navegantes, entretanto, piorou, de modo que, nos cerca de dois anos e meio que ali permaneceram, foram obrigados a alimentar-se de coisas que lhes pareciam abomináveis: ratos silvestres, lagartos, mariscos, enfim, aquilo que encontravam, mesmo porque, ainda segundo o relato de Hans Staden, os índios, que inicialmente tinham "cooperado", deixaram de fazê-lo e desapareceram quando as poucas mercadorias que tinham para escambo acabaram. Melhor situação encontraram em outra ilha onde havia uma grande colônia de alcatrazes que, conta-nos, eram fáceis de capturar. Com isso, tiveram carne e ovos.
Finalmente, conseguiram sair dali, mas naufragaram próximo a São Vicente e o nosso informante acabou contratado para trabalhar na defesa da área ocupada por portugueses, fato que lhe resultaria em terríveis problemas, ao ser capturado por tupinambás. Mas é desse tempo no qual serviu na fortaleza lusitana que deixou uma informação que muito nos interessa, por dar uma ideia do que cabia aos recém-chegados colonizadores em termos de alimentação. Mencionando ter um escravo carijó que lhe trazia caça, Staden conta que, no Brasil, não havia muito mais alimento senão aquilo que se achava no mato. É fácil compreender que o confronto permanente com os nativos dificultava, senão impedia completamente, o estabelecimento de lavouras que, afinal, nem poderiam mesmo ser muito extensas, na estreita faixa de terra existente entre o Oceano Atlântico e a Serra do Mar.

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.


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domingo, 21 de agosto de 2011

Terra dos papagaios, dos periquitos, das araras...

Os jovens estudantes brasileiros sabem muito bem que, nos primórdios da presença portuguesa na América, o Brasil recebeu outros nomes, derivados do desconhecimento geográfico inicial do território: foi primeiro "Ilha de Vera Cruz", depois "Terra de Santa Cruz". O que em geral poucos sabem é que um nome popular para o Brasil, naqueles tempos, foi "Terra dos Papagaios". Decorreu isso, naturalmente, do encanto que a quantidade e diversidade de psitacídeos provocou nos primeiros colonizadores.
Podemos verificar esse fato em escritos da época. Pero Vaz de Caminha, em sua famosíssima Carta, relatando o "achamento" do Brasil (segundo sua própria expressão), conta que o capitão Pedro Álvares Cabral trazia consigo, em sua embarcação, um papagaio pardo - aliás, nada mais típico dos grandes navegantes, a ponto de virar estereótipo. Pois bem, o tal papagaio foi mostrado aos nativos do Brasil e... Deixemos que conte o próprio Caminha:
"Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali."
É claro que havia papagaios, e não só eles, mas toda a gama de seus aparentados, como ainda prossegue o escrivão, dirigindo-se ao rei D. Manuel, ao dar conta das primeiras "relações comerciais" entabuladas com os nativos:
"Resgataram lá por cascavéis(¹) e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos (²), e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
E ainda pondera:
"Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra."
Estava certíssimo o escrivão Caminha. E tantos havia que, em pouco tempo, tornaram-se um pequeno ramo de comércio. Quem porventura vinha ao Brasil tratava de levar consigo, no retorno à Europa, algumas dessas belas aves, pois a venda por bom preço era garantida.
No Livro da Nau Bretoa, embarcação comercial que veio ao Brasil em 1511 com o objetivo de levar madeiras e outras mercadorias, há o registro de que o capitão, o escrivão, o piloto, o despenseiro, vários marinheiros e um grumete levaram do Brasil um bom número de papagaios, além de outras aves e pequenos primatas. Escrupulosamente, o Livro registra o valor estimado de todos os animais e, como não poderia deixar de ser, o imposto devido por eles a El-Rei.
Desnecessário é acrescentar, leitor, que hoje há muitas espécies dessas criaturas falantes naturais do Brasil que são tidas como ameaçadas de extinção - não pela admiração que causaram no passado, mas pela exploração desenfreada (devido às penas) e pela depauperação dos habitats. Isso além de um outro motivo, conforme veremos na próxima postagem.

(1) Não cobras, evidentemente, mas guizos.
(2) Entende-se que Caminha referia-se, aqui, a araras e periquitos.


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