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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Moradores de São Paulo eram proibidos de ir a festas em aldeias indígenas

É certo que não se proíbe aquilo que ninguém faz. Então, vejamos: em 19 de janeiro de 1583, estando reunidos os vereadores e mais autoridades da vila de São Paulo, o procurador, segundo consta na ata dessa reunião (¹), requereu "que todo homem cristão branco, que não seja negro de fora, que se achar em aldeia de negros forros ou cativos, bebendo e bailando ao modo do dito gentio, que suas mercês (²) lhes mandassem e pusessem pregão (³) e pena contra os tais [...]". O que significa isso?
É preciso explicar que a proibição não estava relacionada a alguma aldeia de africanos, já que isso caracterizaria um quilombo a ser, com toda certeza, debelado. Por estranho que pareça ao leitor do Século XXI, a palavra "negros", aqui, faz referência a indígenas, uma vez que era usual, na época, que ameríndios fossem chamados assim por colonizadores. Ora, o tal intercâmbio festivo devia ser recorrente. Por que se proibia?
Podemos levantar algumas conjecturas, que não se excluem mutuamente, antes se complementam, sabendo de antemão que as "aldeias" a que se referiu o escrivão da Câmara poderiam ser tanto povoações de índios "administrados" (⁴), de índios sob a catequese de jesuítas ou mesmo daqueles que, fugindo ao controle dos colonizadores, viviam em suas próprias aldeias, a seu modo e sem a interferência direta dos brancos:
  • Talvez houvesse queixa dos missionários jesuítas, que, com farta razão, alegavam constantemente que o mau exemplo dos colonizadores era o maior entrave à catequese de indígenas;
  • Embriagados e entretidos com a dança, colonizadores poderiam revelar segredos que facilitariam um eventual ataque indígena à vila de São Paulo;
  • É possível que os "homens bons" (⁵) da vila presumissem que a amizade de brancos com índios poderia resultar na perda do controle sobre os moradores originais da terra;
  • Talvez a proposta de punir os que fossem às festas indígenas não passasse de mera formalidade, proibindo "de fachada" aquilo que não se tencionava deixar de fazer, apenas ostentando dar satisfação a eventuais queixas de missionários;
  • Finalmente, temos por dever garantir aos senhores vereadores e outras autoridades o direito à presunção da inocência - neste caso, pode ser que, de fato, estivessem preocupados com o dano que colonizadores poderiam fazer aos indígenas indo às suas festas. Improvável, porém...
É ideia popular que indígenas e colonizadores viviam em brigas constantes, que variavam apenas de intensidade. Todavia, a ata a que nos referimos prova que o relacionamento entre os antigos senhores da terra e os recém-chegados colonizadores nem sempre era caracterizado pela oposição. A verdade é que alguns colonizadores gostavam tanto do estilo de vida ameríndio que chegavam a viver com eles e/ou como eles, ainda que a Igreja, combatesse esse proceder, ao menos até onde seu braço alcançava. Brancos vindos do Reino se casavam com mulheres indígenas, falavam língua indígena dentro de casa, andavam pelo mato como indígenas, e seus filhos - os chamados mamelucos - não tinham dificuldades em viver com um pé em cada cultura. Assim se colonizou São Paulo e, por extensão, o Brasil.

(1) O trecho citado foi transcrito em ortografia atual, sendo acrescentadas as vírgulas indispensáveis à compreensão.
(2) As autoridades constituídas da vila.
(3) A advertência pública a toda a população da vila era feita usualmente aos domingos, na saída da missa.
(4) Assim eram chamados os índios escravizados que viviam em fazendas de particulares ao redor da vila de São Paulo.
(5) Era usual que assim fossem chamados os administradores de uma localidade nos tempos coloniais.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Como os tupinambás festejavam a volta de alguém que fizera uma viagem

Culturas diferentes têm diferentes respostas a situações semelhantes. Verdade, leitores? 
Vejamos. Vários autores dos dois primeiros séculos de colonização do Brasil referiram que indígenas, em particular os tupinambás, tinham um modo muito estranho de recepcionar uma pessoa que, em razão de uma viagem, estivera ausente por longo tempo. Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, foi um dos que descreveram o tal hábito:
"Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora, em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócoras diante dele a chorá-lo em altas vozes, em o qual pranto lhe dizem as saudades que dele tinham com sua ausência, os trabalhos que uns e outros passaram, a que os machos lhes respondem chorando em altas vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam às velhas que se calem, ao que estas obedecem." (¹)
Ora, leitores, para a mentalidade ocidental do Século XXI essa recepção que faziam os tupinambás parece um absurdo - se estavam felizes pelo regresso do amigo, por que é que choravam? É bastante provável que quisessem reforçar a coesão de seu grupo, mostrando quanto era preferível estar em casa, entre parentes e amigos, a viver longe, em outras terras.
Mas não era só. A choradeira era ainda maior, no caso de um recém-chegado que percorrera grande distância:
"Se o chorado vem de longe, o vêm chorar desta maneira todas as fêmeas mulheres daquela casa, e as parentes, que vivem nas outras, e como acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas, e trazem-lhe de comer, em um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o que ele assim deitado come; e como acaba de comer lhe vêm dar as boas-vindas todos os da aldeia um a um, e lhe perguntam como lhe foi pelas partes por onde andou [...]." (²)
Podemos considerar que, quanto ao hábito de oferecer alimento para quem retornava de uma viagem, talvez houvesse uma intersecção cultural entre colonizadores europeus e tupinambás. Mas parava aí. O pranto dos índios parecia estranhíssimo aos portugueses, para quem o choro incontido quase sempre expressava tristeza, e não alegria. Engraçado, mesmo, é que nem colonizadores escapavam, eventualmente, de tão ruidosa celebração. Quando europeus e ameríndios andavam em bom relacionamento e o escambo prosperava, não era raro que a chegada dos "comerciantes", com seus espelhos, pentes, ferramentas e adornos baratos, fosse também homenageada com muitas lágrimas, para dizer o quanto a vida era ruim antes que eles viessem. Pensem nisso, leitores, da próxima vez que encontrarem amigos ou parentes que não veem há muito tempo...

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 323.
(2) Ibid., pp. 323 e 324.


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