Mostrando postagens com marcador Povos indígenas do Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Povos indígenas do Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Nomadismo indígena

No poema A Confederação dos Tamoios, Gonçalves de Magalhães, poeta brasileiro do Século XIX, dedicou alguns versos ao nomadismo indígena, que ele entendia como produto da liberdade:

"Como preza a andorinha a liberdade.
E por instinto sói cantar errante,
Errante fabricar ligeiros ninhos;
E se no aéreo cárcere encerrada
Triste pende a cabeça, encolhe as asas,
Cala o trinado que soltava livre,
Rejeita tênue grão, suspira e morre:
Não menos estes filhos das florestas
Errante vida e liberdade estimam.
Ora aqui, ora ali erguem choupanas,
E onde frondosas árvores estendem
Pejados ramos de gostosos frutos
Aí é seu país, aí se abrigam." (¹)

Apenas umas poucas considerações:
  • Nem todos os povos indígenas eram nômades;
  • Muitos eram seminômades, porque plantavam, também, alguns alimentos, e viviam em um dado lugar enquanto aguardavam a colheita;
  • Havia grupos com aldeias estabelecidas, cercadas de uma espécie de paliçada, e mais duradouras, portanto;
  • O nomadismo se explica, em parte, porque a maioria dos povos indígenas tinha poucos pertences a transportar. 
De qualquer modo, Gonçalves de Magalhães não errou em atribuir-lhes o gosto pela liberdade. Indígenas tinham-no, todos devemos ter. Característica da humanidade, não apenas dos povos indígenas do Brasil. 

Indígenas do Brasil depois de caçar (²)

(1) MAGALHÃES, D. J. Gonçalves de. A Confederação dos Tamoios. Rio de Janeiro: E. T. Dous de Dezembro, 1857, p. 13.
(2) Cf. RUGENDAS, Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann, 1827. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


Veja também:

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Ferramentas usadas por povos indígenas

Machado indígena (¹)

A surpresa com as ferramentas rudimentares usadas por indígenas é recorrente entre autores que estiveram no Brasil no início da colonização. O padre Yves D'Évreux, por exemplo, franciscano que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614, afirmou:
Ralador indígena de madeira
com pedrinhas de granito (³)
"[...] estes selvagens [...] não tendo ferramenta alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de machados de pedra para cortar árvores, fazer suas casas e canoas, plantar raízes, e por única recompensa de seus trabalhos só comem farinha e raízes passadas por um ralador feito de pedrinhas agudas, engastadas em uma tábua da largura de meio pé." (²)
Bem, se tinham machados de pedra e, para a cozinha, um ralador, já não estavam sem ferramentas. Também é fato que indígenas não se alimentavam somente de farinha de mandioca e raízes, porque iam à pesca e à caça, e eram hábeis no manejo de suas armas. Coletavam frutas, ainda, de modo que, mesmo com a escassez de instrumentos para trabalhar, conseguiam sobreviver no ambiente em que estavam inseridos. D'Évreux minimizou as ferramentas usadas pelos indígenas que conheceu no Maranhão; mas poderia, com mais justiça, ter-se maravilhado com aquilo que eram capazes de fazer com tão poucos instrumentos.

(1) Etnia Fuini-ô Tapuya. Pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 43 e 44.
(3) Etnia walwa.  Pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF). 


Veja também:

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Uma proposta do Século XVIII para imunização de indígenas contra a varíola

O título longo da obra, Diário da Viagem que em Visita e Correição das Povoações da Capitania de São José do Rio Negro Fez o Ouvidor e Intendente-Geral da Mesma, seguia uma prática em moda no tempo em que foi escrita, a segunda metade do Século XVIII. Seu autor, Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, assim que assumiu o cargo para o qual fora nomeado, decidiu embarcar em canoas, acompanhado pela família, por alguns funcionários públicos e por remadores indígenas, para conhecer de perto as localidades habitadas na Capitania de São José do Rio Negro. 
Entendam, leitores: isso significava percorrer a Amazônia no Século XVIII. Não era tarefa fácil, e chega a ser uma surpresa que alguém se aventurasse a tanto, quando muitos outros haviam preferido a comodidade da permanência na sede de governo. As anotações que fez, em forma de diário da viagem essencialmente fluvial, ocorrida entre 1774 e 1775, foram mais tarde publicadas sob a forma de um pequeno livro. Poucos tinham, então, a oportunidade de viajar para terras distantes, e um registro assim podia despertar interesse. Em certa localidade, notou que a população indígena sofria bastante com a varíola, também chamada de "bexigas", conforme o dizer popular da época, e escreveu: 
"Grassavam [...] funestamente as bexigas, ainda que já estavam terminando. Além dos índios que morreram, tinham desertado muitos, principalmente da nação Purus, com medo delas [...], porque as bexigas em índios são mal mortal, e de que raros escapam.  Atribui-se a causa à dificuldade de erupção das bexigas, considerando-se que a cútis dos índios é menos porosa [...]. Seria coisa felicíssima que se introduzisse nas povoações dos índios o fácil e proveitoso método de inocular ou enxertar as bexigas. Que milhares de vidas se não poupariam!" (¹)
Hoje parece cômico que alguém explicasse a tragédia da varíola entre indígenas pela suposta diferença na porosidade da pele - como todos sabem, a questão é outra. Porém, muito interessante, é que esse autor, administrador público e viajante sugerisse o emprego da inoculação, um método rústico (e um tanto perigoso) de imunização, que, se devidamente aplicado, poderia salvar vidas entre a população nativa. É pouco provável que se referisse à imunização com a vacina proveniente da varíola bovina, que já se experimentava com sucesso na Europa, e que, mais tarde, Edward Jenner formalizaria (²). Contudo, esse trecho do diário, escrito em 12 de outubro de 1774 por Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio demonstra, sem margem a dúvida, que mesmo na Amazônia, tão distante dos grandes centros de pesquisas médicas do Século XVIII, se cogitava a utilização de um método que reduzisse o impacto da varíola em indígenas, talvez por já ser usado em parte da população colonial de origem europeia. 
A vacinação, propriamente dita, pelo método de Jenner, não demorou muito a ser introduzida no Brasil. Portanto, contrariando uma ideia corrente, deve-se entender que desconhecimento não é uma justificativa plausível para a famosa Revolta da Vacina, na capital do Brasil, ocorrida cento e trinta anos depois que Ribeiro Sampaio escreveu o seu Diário de Viagem

(1) SAMPAIO, Francisco Xavier Ribeiro de. Diário da Viagem que em Visita e Correição das Povoações da Capitania de São José do Rio Negro Fez o Ouvidor e Intendente-Geral da Mesma. Lisboa: Typografia da Academia, 1825, p. 24.
(2) Em 1796.


Veja também:

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Arte plumária indígena

Característica presente em muitos povos indígenas do Continente Americano, a arte plumária por eles desenvolvida era (e em alguns casos, ainda é) notável. José de Alencar, em romances classificados como "indianistas", colocou em relevo o uso de penas, não só como expressão artística, mas como fator de distinção tribal. Vejamos, portanto, alguns exemplos.
Em Guarani, o herói Peri usa penas de ema na cabeça:
"Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas plumas de ema matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham roçar com as pontas negras o seu pescoço flexível."
Por outro lado, no mesmo Guarani, um guerreiro aimoré, que se opõe a Peri, leva um colar de penas de tucano:
"Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma coleira feita com as penas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavam como dois fogos vulcânicos no seio das trevas."
Já em Ubirajara, novamente a arte plumária é descrita como fator de identificação de dois grupos indígenas, os tocantins e os araguaias:
"Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
Tem na cabeça o canitar (¹) das plumas de tucano, e no punho do tacape uma franja das mesmas penas.
É um guerreiro tocantim. De longe avistou Jaguarê e reconheceu o penacho vermelho dos araguaias."
Como sabem, leitores, essas obras de Alencar pertencem ao Século XIX, escritas no intento de dar ao Brasil uma literatura que tivesse personagens verdadeiramente nacionais. No entanto, nessa época muitos povos indígenas já haviam desaparecido ou perdido elementos culturais significativos, em consequência da colonização. Sabe-se, porém, que cada povo tinha preferência por determinadas penas, que geralmente eram escolhidas entre as aves existentes na localidade em que vivia, e isso não se restringe aos indígenas do Brasil. Astecas, por exemplo, foram grandes apreciadores das penas do quetzal (verdes) e do colibri (de coloração azul-turquesa). E, se quisermos voltar ao testemunho de alguém que viveu no Brasil no Século XVI, temos as palavras de Gabriel Soares, senhor de engenho na Bahia e autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587, em que, ao falar dos tupinambás, observou: "[...] fazem carapuças e capas de penas de pássaros, e outras obras de pena do seu uso, e sabem dar tinta de vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras amarelas [...]." (²)
Creio, todavia, que, em se tratando de arte plumária, a melhor exemplificação só pode vir de trabalhos reais. Portanto, leitores, vejam as fotos (³) e tirem suas conclusões quanto à maestria dos povos indígenas nessas obras.




(1) Palavra indígena de mesmo significado que cocar.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 319 e 320.
(3) Todos os objetos pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF), que vocês não devem deixar de visitar, quando puderem.


Veja também:

terça-feira, 27 de abril de 2021

Tacapes

Indígenas indo à guerra, de acordo com Debret;
o primeiro leva um tacape na mão direita (¹)

"Poti deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ele o cocar e a araçoia, ornatos dos chefes ilustres."
José de Alencar, Iracema

Tacapes, também chamados bordunas, eram armas indígenas muito versáteis, usadas na guerra  e na caça. Bem manejado, o tacape poderia abater, de um só golpe, um inimigo, quer em campo de batalha, quer nas execuções rituais, que muitas vezes precediam a antropofagia. Neste último caso, dava-se ao prisioneiro o direito de uma defesa simulada, ainda que totalmente inofensiva. Podia manejar, quanto quisesse, a arma oferecida, mas seria invariavelmente abatido, com um golpe que lhe esfacelaria o crânio, pelo valente que, a partir de então, poderia contá-lo entre os heróis que vencera. 
Em Guarani, há uma bela passagem em que José de Alencar retrata essa situação, ainda que - romance é romance - dessa vez o prisioneiro tenha saído astutamente vencedor, e escapado:
"Com efeito esse oferecimento que os selvagens faziam ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, imóvel pela tensão da corda, o mais que podia fazer o seu braço era vibrar o tacape no ar, sem poder tocar os seus inimigos.
[...]
O velho Aimoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio."
Querem saber, leitores, em que deu a situação? Leiam a obra toda de Alencar.

Tacapes ou bordunas (²)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Os tacapes vistos nesta foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Como mães indígenas cuidavam de seus bebês

"A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que há três sóis se partira. Ela caminhava docemente para não despertar a criancinha, adormecida como o passarinho sob a asa materna."
José de Alencar, Iracema

Faixa indígena usada
para carregar bebê (³)
Por sua simplicidade, aspectos práticos da vida em comunidades indígenas intrigaram europeus que vieram ao Brasil nos Séculos XVI e XVII. Yves d'Évreux (¹), um capuchinho francês que esteve na França Equinocial, fracassada tentativa francesa de colonização no Brasil, assim descreveu o modo como mães indígenas cuidavam de seus bebês:
"A natureza, boa mãe destes selvagens, quis que o menino saído do ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras sementes do natural comum destes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido, bem-nutrido, bem-tratado, nem confiado aos cuidados de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou nalguma vasilha com água, deitado numa redezinha de algodão, com todos os seus membros em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por único alimento o leite de sua mãe e grãos de milho assados, mastigados por ela até ficarem reduzidos a farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em sua boquinha como costumam fazer os pássaros com sua prole, isto é, passando de boca para boca." (²)
Nesta passagem D'Évreux estava comparando o cuidado dispensado às crianças indígenas ao modo como o pequenos eram tratados na Europa de seu tempo. A convivência com indígenas lhe dava autoridade para confrontar realidades tão distintas. Não se pode negar que, à vista do que afirmou, cada mãe indígena adotava procedimentos em conformidade com o modo de vida da respectiva etnia, adequados à natureza do lugar e às técnicas de sobrevivência que seu grupo dominava.  
D'Évreux interpretava todo o vigor físico dos indígenas quando adultos como um favor da natureza: "[...] tendo a natureza, por longos anos, recusado vestidos aos corpos dos índios, os compensara formando-os belos e agradáveis, sem o menor auxílio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como se fosse qualquer pedaço de pau" (⁴). Entretanto, outro religioso, o jesuíta Simão de Vasconcelos, autor seiscentista assim como Yves d'Évreux, entendeu que o modo como indígenas criavam os filhos resultava em adultos de mais saúde: "[...] São de ordinário corpulentos, robustos, forçosos, e para que mais o sejam, os atam pelas pernas, quando nascem, com certas faixas [...], com que depois de grandes ficam mais vigorosos" (⁵). Sim, havia mortalidade infantil entre eles, mas não havia, também, e bastante elevada, entre os pequenos que, na época, vinham ao mundo em lares europeus? 

(1) Embora alguns relatos digam o contrário, Yves d'Évreux veio como superior dos quatro capuchinhos destinados à colônia francesa no Maranhão, onde permaneceu entre 1613 e 1614.
(2) D'ÉVREUX, Yves O. F. M. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 72.
(3) Essa faixa pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).
(4) D'ÉVREUX, Yves O. F. M. Op, cit., p. 95.
(5) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 15.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Canoas usadas por meninos indígenas

Brinquedos indígenas: canoas pequeninas (¹)

As canoas dos indígenas do Brasil, feitas de um só tronco, foram célebres. Havendo nas florestas árvores enormes, havia, também, canoas para vinte remadores, e até mais. E, como crianças indígenas aprendiam o modo de vida dos adultos pela imitação daquilo que viam os pais fazendo, preparavam-se canoas pequenas, próprias para que os meninos fossem ganhando prática na arte de remar com grande velocidade. 
Surge, então, a pergunta: como eram feitas essas canoas que os meninos usavam?
Um episódio relatado por Simão de Vasconcelos, envolvendo um jesuíta que viveu no Rio de Janeiro no Século XVII, deixa entrever a resposta. Chamaram o padre João de Almeida para ir ministrar a confissão a um escravo cristão que corria risco de morte. O lugar em que estava, porém, exigia deslocamento por mar. Indo à praia, o padre e seu companheiro não encontraram canoas disponíveis, porque, no dizer de Simão de Vasconcelos, eram "partidos os índios todos, senhores delas, para suas pescas e roças" (²). É nesse ponto que o relato ganha interesse para nós, porque o padre só encontra na praia uma canoa pequena, que é assim descrita: "Chega à praia, vê à borda do mar uma canoazinha de meninos, que os pais lhes fazem para os acostumar ao mar, e são ordinariamente capazes de dois ou três rapazes" (³).
Já têm, portanto, leitores, uma ideia de como eram essas embarcações de brinquedo. Mas, para que não fiquem aflitos quanto ao que pode ter acontecido ao padre que se aventurou a embarcar em tão exígua canoa, indo ele, seu companheiro e um índio que deveria remar, vai aqui o que mais disse Simão de Vasconcelos, também jesuíta, assim como o padre João de Almeida: "Porém eram poucos passos andados, quando logo a pobre canoinha, em pedaço de trave cavada, se encheu d'água, não acostumada a peso tão grande" (⁴). Para não desistir da pequena viagem que necessitava fazer, João de Almeida mandou que o índio saltasse na água e fosse, a nado, conduzindo a canoa, até chegar à aldeia de São Francisco Xavier, distante quatorze léguas do Rio de Janeiro. 
Supondo que as coisas tenham se passado do modo como contou Simão de Vasconcelos, devemos reconhecer que esse índio, que teria conduzido a pequena canoa infantil com os dois padres, era um nadador absurdamente atlético... Ficamos, é claro, com a descrição da canoinha, que nos ajuda a visualizar, ainda que de modo tênue, como viviam os ameríndios, nesses tempos já distantes, em que a colonização, avançando, punha fim a um modo de vida que imperara por muito tempo em terras da América.

(1) Os brinquedos indígenas vistos nesta foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF). São, evidentemente, bem menores que a canoa descrita nesta postagem.
(2) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 315.
(3) Ibid.
(4) Ibid., p. 316.


terça-feira, 28 de julho de 2020

Procedimento indígena para dar força às flechas

"Às costas cada qual suspende a aljava
Pejada de farpadas leves flechas,
E o arco sobraçando, a maça empunha."

Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios

Indígenas portando armas (²)
Indígenas faziam amplo uso de flechas, tanto para a caça, com a finalidade de obter alimento, como em guerra contra grupos inimigos. Prepará-las cuidadosamente era, portanto, conhecimento essencial à sobrevivência na floresta. De acordo com Francisco Bernardino de Sousa, que escreveu no Século XIX sobre aspectos interessantes da região amazônica, as flechas indígenas poderiam ser classificadas em três grupos:
"Há três espécies de flechas usadas na guerra, diz o sr. Gonçalves Dias, uagike comm, a arpoada, uagike méran, e a outra para caça dos animais menores, uagike bacamnumok." (¹)
Passa, em seguida, a descrever os três tipos:
"A primeira tem a ponta alongada ou elíptica, feita de taquara; tostam-na para ficar mais dura, e raspam-na e aparam para que fique cortante como faca, e a ponta fina como agulha. O animal, ferido dela, sangra muito, porque um dos lados é côncavo. A ponta da flecha arpoada, que tem polegada ou polegada e meia de comprimento, é feita de pau-d'arco ou de airi (³). É fina e muito aguda. Tem oito ou dez arpéus, e se emprega na caça de animais grandes e pequenos e também na guerra: A sua ferida é perigosa por ser de difícil extração. As flechas da terceira espécie são obtusas e matam por contusão: tomam para isso uma vara que tenha três ou mais nós, formando como um botão, de que fazem a extremidade da flecha." (⁴)
Havia, finalmente, um detalhe na técnica, que podia tornar mais fortes as flechas do primeiro tipo:
"Para dar mais força às primeiras, untam-nas com cera, passam-nas ao fogo para que penetre melhor e assim fazem também com os arcos." (⁵)
Estes eram saberes da floresta, acumulados ao longo de gerações e transmitidos sempre oralmente, no contexto de culturas ágrafas, mas nem por isso menos ricas. 

(1) SOUSA, Francisco Bernardino de. Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas. Belém do Pará: Typ. do Futuro, 1873, p. 271.
(2) STADEN, Hans. Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen. Marburg: 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Variedade de palmeira.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Op. cit., pp. 271 e 272.
(5) Ibid., p. 272.


Veja também:

terça-feira, 30 de junho de 2020

Indígenas foram expulsos de três aldeias para a fundação da primeira capital do Brasil

O documento que veremos foi citado por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na segunda parte do Novo Orbe Seráfico, e trata da fundação da cidade da Bahia (ou Salvador), primeira capital do Brasil. Foi encontrado, segundo Jaboatão, em um catálogo antigo dos governadores da Bahia, e nele se dizia que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, chegara ao Brasil em março de 1549, mas esteve "preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal" (¹). 
Para que tanto preparo, para que tanta espera? Diz o documento:
"[...] preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal, escolhido já o sítio por Diogo Álvares (²) [...], que é o em que está hoje fundada a cidade, por ter porto acomodado para os navios e ser terra levantada, que a faz participante de todas as virações, marchou o dito capitão-mor (³) com mil homens de guerra (⁴) e quatrocentos índios, e com efeito fizeram despejar as três aldeias do gentio (⁵), que se achavam estabelecidas onde é o terreiro de Jesus (⁶), o Convento do Carmo e o Desterro [...]."
Acontecimentos dessa época são um tanto incertos; documentos escritos posteriormente podem conter erros. As fontes divergem, por exemplo, em relação ao número de soldados que acompanharam Tomé de Sousa na viagem ao Brasil. Uma coisa, porém, é certa: a Bahia era habitada por indígenas e, para que Salvador fosse fundada nos moldes de uma povoação portuguesa, ou sairiam eles, espontaneamente, ou seriam expulsos. 
Não surpreende que Tomé de Sousa tenha contado, além dos soldados que trouxera do Reino, com a ajuda de indígenas. Sabe-se que os vários grupos tribais tinham divergências quase permanentes e, conquistando as boas graças de alguns, era possível facilmente tê-los como apoio na expulsão de outros, principalmente se levarmos em conta que os nativos que apoiaram Tomé de Sousa deviam ser aqueles tupinambás com que se aparentara Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que, escapando ao mar e à antropofagia, deixou numerosa descendência mameluca. 
Há que se considerar, ainda, que a existência de três aldeias indígenas na localidade poderia ser um exagero, uma vez que povoações nativas eram, usualmente, algo distantes umas das outras, para preservar um território de caça e coleta capaz de sustentar, ao menos parcialmente, as respectivas populações, embora não seja de todo impossível que, próximo ao litoral, grupos indígenas vivessem mais perto uns dos outros, já que do mar podia vir muito de sua alimentação. No entanto, essa dificuldade talvez desapareça, se considerarmos que colonizadores poderiam pensar que cada habitação coletiva indígena seria, por si mesma, uma aldeia, e, desse modo, três grandes moradias fossem julgadas três povoações distintas. Não se pode desconsiderar, também, o exagero intencional, com o fim de encarecer ao monarca e mais autoridades do Reino as dificuldades superadas por aqueles que enviara ao Brasil, e grandes serviços, portanto, que prestavam a seu rei, para os quais se esperava régia recompensa.
Como já disse, aos indígenas que viviam nas terras da futura Cidade da Bahia apenas se ofereciam duas opções: ou saíam espontaneamente, ou seriam expulsos. O documento que analisamos, sem disfarces ou considerações humanitárias, conta muito bem (e oficialmente) o que aconteceu. Surpreendente? Não, porque era a lógica da conquista, praticada, nesse tempo, não só na América, mas na própria Europa, quando as várias monarquias guerreavam entre si, conquistavam territórios que, automaticamente, adicionavam a seus domínios, passando os súditos de um rei ou imperador a outro. Consequências desse fenômeno existem até hoje, no patchwork das nacionalidades e culturas dentro de Estados que, em alguns casos, são muito pequenos.

(1) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 20.
(2) Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que já vivia entre indígenas na Bahia.
(3) Tomé de Sousa, considerado capitão-mor até que estabelecesse o Governo-Geral, quando passaria a ter o título de governador-geral.
(4) Outras fontes falam em um número diferente de soldados. De qualquer forma, o fato de se fazer acompanhar desde o Reino por um número considerável de soldados mostra que já se supunha que a ocupação da terra não seria pacífica.
(5) "Gentios" eram os indígenas não catequizados,
(6) Ou seja, defronte ao local onde posteriormente foi edificado o Colégio dos Jesuítas.


Veja também:

terça-feira, 3 de março de 2020

Meninos tamoios

A água do mar, tépida e faiscante à luz do sol, atrai os meninos tamoios para fora da paliçada que protege a aldeia. Tudo parece calmo e em paz. Por que não brincar no aconchego da natureza? Logo, na areia tão alva, pegadas fundas denunciam a passagem, em corrida, dos que, mais adiante, transpõem as primeiras ondas e, acelerando as braçadas, nadam com perícia invulgar.
Alguns minutos depois, retornam à praia. Risos, brincadeiras, a água que jogam uns nos outros. Enfim, o cansaço. Deitam-se na areia, olham o céu quase sem nuvens, a imaginação voa pelas aventuras que ouvem os mais velhos contarem. Um dia serão como eles.
Já refeitos, sentam-se, olham ao redor. Não muito longe, junto às rochas na ponta da praia, aves esvoaçam e mergulham, subindo com peixinhos no bico. 
Vamos remar? Palavras e ação são quase a mesma coisa. Lá se vão os três, já sobre a canoa que estivera encalhada na praia, os longos remos nas mãos, passando uma onda após outra, na cadência do mar. Remam em pé, como aprenderam com os grandes. Que equilíbrio têm eles... Miram, à distância, as escarpas da Serra do Mar. O vento traz o aroma da liberdade.
Um quarto de hora mais tarde, chegam a um pequeno estuário e, entrando por ele, remam com cuidado, junto à vegetação do mangue, cujas raízes expostas denunciam a maré baixa. Tateando com os remos, buscam caranguejos, aqui e ali. Vão atentos, sufocando gritinhos de entusiasmo para não afugentar alguma caça. É para isso, afinal, que trazem na canoa os arcos que já manobram com destreza. 
Súbito, veem movimento entre os arbustos, à distância, em terra firme. Em silêncio, trocam um olhar, contendo a respiração e, com o menor ruído possível, aproximam a canoa das árvores, ocultando-se, quanto podem, enquanto continuam a observar. 
Uma longa fila de homens armados caminha, removendo a vegetação. Estão pintados, e os meninos sabem: é pintura de guerra, que mostra, no corpo, a sanha que vai na mente. São inimigos. Vêm vingar um dos seus, que, há tempos, foi morto por gente da aldeia à beira-mar.
Por costume indígena, não atacarão enquanto há luz. A guerra é coisa para as horas em que as estrelas vigiam, quando a surpresa pode ser manejada como a mais útil das armas. Depois de esperar por um momento de segurança, os meninos se afastam, deslizando os remos sutilmente. Em alguns minutos já estão no mar. Agora, seus músculos juvenis têm pressa. Chegarão a tempo, avisarão os idosos, o chefe dará as ordens, haverá flechas em quantidade, arcos, tacapes e pintura corporal, também. Nesse dia, em meio à agitação dos preparativos de defesa, os três meninos é que serão os heróis.


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Cestaria indígena



Indígenas do Brasil foram (e são) notáveis na arte da cestaria. Não precisavam (precisam) de mais recursos que aqueles que podiam (podem) encontrar perto de onde viviam (vivem). Jean de Léry (¹), por exemplo, afirmou que palha de milho (²), além de outros materiais, era usada por indígenas que conheceu no Rio de Janeiro em meados do Século XVI, resultando em cestos de tamanhos variados e de aspecto delicado. 
Bernardo Guimarães, em Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais, coloca uma de suas personagens, a índia Jupira, envolvida com a arte da cestaria: "Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande tiú." Façam disso um cenário, leitores, onde inserir o que se pode ver aqui: fotos de trabalhos em cestaria (³), feitos por povos indígenas do Brasil.

Trabalho em cestaria da etnia tukano

Trabalho em cestaria da etnia Kayapó

Trabalho em cestaria da etnia yanomami

(1) Protestante francês que em 1557 esteve na chamada França Antártica, fracassada tentativa francesa de colonização no Rio de Janeiro.
(2) Essa afirmação de Léry quanto ao emprego de palha oferece uma informação interessante em relação à polêmica que envolve a época a partir da qual passou a haver o conhecimento e cultivo de milho por indígenas do Brasil. 
(3) Todas as amostras de cestaria incluídas nesta postagem pertencem ao Memorial dos Povos Indígenas, que tem um acervo notável. Quando forem a Brasília, leitores, não deixem de visitar.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O jenipapo e seu uso por indígenas e colonizadores do Brasil

Jenipapo (Genipa americana)

O jenipapo (Genipa americana) era muito apreciado por indígenas do Brasil, em razão de sua utilidade nas pinturas corporais. Como se sabe, indígenas amavam os banhos frequentes, e as pinturas feitas com jenipapo, mesmo com tanta água, eram duráveis - uns dez a doze dias, segundo afirmou Jean de Léry em Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil. Já Pero de Magalhães Gândavo estimou que as pinturas duravam nove dias:
"[...] assim machos como fêmeas costumam tingir-se com o sumo de uma fruta que se chama jenipapo, que é verde quando se pisa e depois que se põe no corpo e se enxuga fica muito negro, e por muito que se lave não se tira senão aos nove dias: isto tudo fazem por galantaria." (¹)
Colonizadores logo descobriram que, além do uso indígena nas pinturas corporais, o jenipapo era bom, também, para conservas, e disso sabemos por informação de Gabriel Soares (²), que, interessado como era em tudo o que se referia à natureza do Brasil, deixou este interessante registro:
"Jenipapo é uma árvore que se dá ao longo do mar e pelo sertão [...]. A sua folha é como de castanheiro, a flor é branca, da qual lhe nasce muita fruta, de que toma cada ano muita quantidade, as quais são tamanhas como limas, e de sua feição; são de cor verdoenga, e como são maduras se fazem de cor pardaça e moles, e têm honesto sabor e muito que comer, com algumas pevides dentro, de que estas árvores nascem. Quando esta fruta é pequena, faz-se dela conserva, e como é grande antes de amadurecer tinge o sumo dela muito, com a qual tinta se tinge toda a nação do gentio em lavores pelo corpo, e quando põe esta tinta é branca como água, e como se enxuga se faz preta como azeviche; e quanto mais a lava, mais preta se faz, e dura nove dias, no cabo dos quais se vai tirando." (³)
Além disso, portugueses logo perceberam que a madeira do jenipapeiro podia ser utilizada com proveito para uma variedade de trabalhos, inclusive na arte náutica:
"[...] tratamos do jenipapo no tocante ao fruto, agora cabe tratar no tocante à madeira, cujas árvores são altas e de honesta grossura, têm a folha como castanheiro, a madeira é de cor branca como buxo, de que se fazem muitos e bons remos, que duram mais que os de faia; enquanto verdes são pesados, mas depois de secos são muito leves; esta madeira não fende nem estala, de que se faz também toda a sorte de poleame, por ser doce de lavrar, e cabos e cepos para toda ferramenta de toda sorte." (⁴)

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. O Tratado de Gândavo foi escrito por volta de 1570 e impresso pela primeira vez em 1826.
(2) Gabriel Soares de Sousa foi senhor de engenho na Bahia durante o Século XVI.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 185.
(4) Ibid., p. 218.


Veja também:

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Como indígenas se referiam ao rei de Portugal

Uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira em 1653 e transcrita pelo padre José de Moraes na História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (¹) traz uma revelação surpreendente quanto ao modo como indígenas se referiam ao rei de Portugal. O destinatário era o provincial jesuíta do Brasil, e o assunto principal, uma expedição da qual Vieira e outros inacianos haviam participado, percorrendo o rio Tocantins, com a finalidade, assim pensavam eles, de fazer contato com nativos para a catequese. Colonizadores que os acompanhavam tinham, porém, outros planos, porque viam nessa viagem uma oportunidade excelente para a captura e escravização de indígenas.
Por esse tempo, já eram corridos mais de cento e cinquenta anos que portugueses frequentavam o Brasil, não sendo, por essa razão, nada espantoso que indígenas que se relacionavam, de um ou outro modo, com colonizadores, tivessem conhecimento da existência de um rei em Portugal. No entanto, é possível que não entendessem muito bem a questão do poder hereditário e imaginassem que, década após década, o rei era sempre o mesmo, algo que se pode inferir das palavras de Vieira, ao relatar o encontro com parentes de líderes tribais, que, segundo o jesuíta, estavam dispostos a receber a catequese, mas nada queriam com os colonizadores (tinham razões de sobra para isso):
"[...] Em companhia deste índio vieram seis da nação a que íamos buscar, filhos e sobrinhos dos principais, com os quais e com os dois que vieram desde o Pará não temos perdido tempo, declarando-lhes a tenção de Sua Majestade, e a nossa, [...] e nos têm prometido que não hão de admitir senão o estar juntos, e ser filhos dos padres, e vassalos de El-Rei." (²)
Prossegue o padre Vieira:
"[...] Pasmei de ver, quão familiar é entre eles, este nome de rei, e quão continuamente o trazem na boca; e querendo eu saber, que conceito faziam da palavra, e o que cuidavam que era rei, responderam: Jára omanó eyma, que querem dizer: Senhor que não morre. [...]" (³)
E Vieira, ousado praticante de esgrima verbal, assim concluiu o episódio: 
"[...] Explicamos-lhes que imortal era só Deus; mas por este alto conceito que fazem estes gentios do nosso rei (⁴) mereciam ao menos, que em prêmio da imortalidade que lhe atribuem, os defendessem eficazmente de tantas violências." (⁵)

(1) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 470.
(3) Ibid.
(4) D. João IV, nessa ocasião.
(5) MORAES, José de S.J. Op. cit., p. 470.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Moradores de São Paulo eram proibidos de ir a festas em aldeias indígenas

É certo que não se proíbe aquilo que ninguém faz. Então, vejamos: em 19 de janeiro de 1583, estando reunidos os vereadores e mais autoridades da vila de São Paulo, o procurador, segundo consta na ata dessa reunião (¹), requereu "que todo homem cristão branco, que não seja negro de fora, que se achar em aldeia de negros forros ou cativos, bebendo e bailando ao modo do dito gentio, que suas mercês (²) lhes mandassem e pusessem pregão (³) e pena contra os tais [...]". O que significa isso?
É preciso explicar que a proibição não estava relacionada a alguma aldeia de africanos, já que isso caracterizaria um quilombo a ser, com toda certeza, debelado. Por estranho que pareça ao leitor do Século XXI, a palavra "negros", aqui, faz referência a indígenas, uma vez que era usual, na época, que ameríndios fossem chamados assim por colonizadores. Ora, o tal intercâmbio festivo devia ser recorrente. Por que se proibia?
Podemos levantar algumas conjecturas, que não se excluem mutuamente, antes se complementam, sabendo de antemão que as "aldeias" a que se referiu o escrivão da Câmara poderiam ser tanto povoações de índios "administrados" (⁴), de índios sob a catequese de jesuítas ou mesmo daqueles que, fugindo ao controle dos colonizadores, viviam em suas próprias aldeias, a seu modo e sem a interferência direta dos brancos:
  • Talvez houvesse queixa dos missionários jesuítas, que, com farta razão, alegavam constantemente que o mau exemplo dos colonizadores era o maior entrave à catequese de indígenas;
  • Embriagados e entretidos com a dança, colonizadores poderiam revelar segredos que facilitariam um eventual ataque indígena à vila de São Paulo;
  • É possível que os "homens bons" (⁵) da vila presumissem que a amizade de brancos com índios poderia resultar na perda do controle sobre os moradores originais da terra;
  • Talvez a proposta de punir os que fossem às festas indígenas não passasse de mera formalidade, proibindo "de fachada" aquilo que não se tencionava deixar de fazer, apenas ostentando dar satisfação a eventuais queixas de missionários;
  • Finalmente, temos por dever garantir aos senhores vereadores e outras autoridades o direito à presunção da inocência - neste caso, pode ser que, de fato, estivessem preocupados com o dano que colonizadores poderiam fazer aos indígenas indo às suas festas. Improvável, porém...
É ideia popular que indígenas e colonizadores viviam em brigas constantes, que variavam apenas de intensidade. Todavia, a ata a que nos referimos prova que o relacionamento entre os antigos senhores da terra e os recém-chegados colonizadores nem sempre era caracterizado pela oposição. A verdade é que alguns colonizadores gostavam tanto do estilo de vida ameríndio que chegavam a viver com eles e/ou como eles, ainda que a Igreja, combatesse esse proceder, ao menos até onde seu braço alcançava. Brancos vindos do Reino se casavam com mulheres indígenas, falavam língua indígena dentro de casa, andavam pelo mato como indígenas, e seus filhos - os chamados mamelucos - não tinham dificuldades em viver com um pé em cada cultura. Assim se colonizou São Paulo e, por extensão, o Brasil.

(1) O trecho citado foi transcrito em ortografia atual, sendo acrescentadas as vírgulas indispensáveis à compreensão.
(2) As autoridades constituídas da vila.
(3) A advertência pública a toda a população da vila era feita usualmente aos domingos, na saída da missa.
(4) Assim eram chamados os índios escravizados que viviam em fazendas de particulares ao redor da vila de São Paulo.
(5) Era usual que assim fossem chamados os administradores de uma localidade nos tempos coloniais.


Veja também:

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lei de talião entre indígenas

Quem vai à literatura brasileira do Século XIX, logo descobre que na fase que se convencionou chamar de Primeira Geração Romântica houve obras importantes com temática, ao menos na superfície, ligada às origens do Brasil, dentro do perfil de nação independente que se pretendia construir e para a qual havia muito trabalho historiográfico a ser feito. Inserido nesse contexto, Guarani, de José de Alencar, apresentou à modesta população alfabetizada com que o país contava um herói indígena, Peri, disposto aos maiores sacrifícios para proteger a bela Ceci, filha do colonizador Dom Antônio de Mariz. O lado curioso disso é que, ao mesmo tempo em que enaltece Peri (um goitacá), Alencar faz a mais horrenda descrição dos aimorés, que, no correr da obra, são postos como inimigos ferozes, prontos para atacar e destruir a residência-fortaleza em que vive a família de Ceci. O motivo para o ataque seria a vingança da morte de uma jovem aimoré, que o filho de Dom Antônio de Mariz, inadvertidamente, atingira com o uso de arma de fogo:
"Os selvagens haviam encontrado o corpo de sua filha e reconhecido o sinal da bala; por muito tempo procuraram debalde as pisadas dos caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava serviu-lhes de guia.
Toda a noite rondaram em torno da habitação, e nessa manhã, vendo sair as duas moças, resolveram vingar-se com a aplicação dessa lei de talião que era o único princípio de direito e justiça que reconheciam.
Tinham morto sua filha; era justo que matassem a filha do seu inimigo; vida por vida, lágrima por lágrima, desgraça por desgraça."
E então, meus leitores: isso é literatura ou história? Quanto ao conceito de uma lei de talião entre indígenas é literatura, mas é também história (¹). Sem a formalidade de tribunais e sem magistrados, povos indígenas do Brasil recorriam à lei de talião, segundo afirmaram vários autores dos tempos coloniais, para vingar a morte de um familiar e/ou membro da tribo, vendo em tal prática, ao mesmo tempo, um direito e uma obrigação. Em Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil, Jean de Léry (²), que esteve no Brasil no Século XVI, relatou que a retribuição na exata medida da ofensa não se restringia a casos de morte, mas era aplicada até para ferimentos graves decorrentes de uma briga. Sim, não conheciam, formalmente, "olho por olho, dente por dente", mas, assumindo que Léry estava correto no que escreveu, adotavam esse princípio, ainda que não frequentemente, porque os desentendimentos entre indígenas de uma mesma aldeia eram pouco comuns. 
Dentre vários outros autores, frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, setecentista, também referiu a prática de talião, ao falar de indígenas aos quais chamou papanás:
"Além das comuns gentilidades com os demais, tinham [os papanás] uma mui cruel, era, que se algum índio destes matava a outro da mesma nação, eram obrigados os parentes do matador a entregá-lo sem repugnância aos parentes do morto, que logo o afogavam, e davam garrote, e enterravam, estando presentes uns e outros, fazendo todos neste ajuntamento grande pranto, mas comendo e bebendo por muitos dias, e assim ficavam todos amigos. E se o matador fugia, de sorte que o não podiam haver às mãos, lhe tomavam um filho ou filha, e se os não tinha, um irmão; e se nem este havia, entregavam pelo matador o parente mais chegado, ao qual não matavam, mas ficava por cativo do parente também mais chegado do morto. [...]" (³)
Sem testemunhos escritos dos próprios indígenas, apenas podemos conjecturar que a lei de talião, que não conheciam por esse nome, mas que reconheciam na prática, era corrente entre ameríndios do Brasil, se os autores dos dias coloniais estiverem corretos. Contudo, o fato de ser mencionada por vários escritores acrescenta certo peso à informação. Assumindo que este seja o caso, cumpre observar que, malgrado a aparência de crueldade, a retribuição na medida da ofensa tinha dupla função, ou seja, impedia, com uma punição que não ia além da proporção do crime, a sequência perpétua de rancores e vinganças à moda da Verona shakespeariana, e assegurava a manutenção da paz dentro da tribo. Não era pouco. Quanto ao Guarani, de Alencar, fez tanto sucesso que acabou virando ópera, Il Guarany, com música de Antônio Carlos Gomes sobre libreto de Antônio Scalvini.

(1) À literatura é dada licença no terreno ficcional; quanto à história, isso jamais deveria ocorrer
(2) Veio ao Brasil como um jovem artesão, para viver e trabalhar na chamada França Antártica. Posteriormente, retornou à Europa, onde, depois de estudar em Genebra, veio a ser pastor protestante.
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil  Volume 1. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 22.


Veja também:

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Embarcações usadas pelos caetés

Indígenas do Brasil faziam excelentes canoas, construídas geralmente a partir de um único tronco, já que as árvores do Brasil eram gigantescas. Sim, isto é certo, mas é preciso acrescentar que a criatividade indígena parecia quase não conhecer limites. Onde não havia grandes árvores, nem por isso ameríndios deixavam de navegar, usando, neste caso, jangadas feitas com vários troncos menores, amarrados entre si com firmeza. Porém, havia mais: de acordo com Antônio de Santa Maria Jaboatão (¹), os caetés, que viviam no Nordeste brasileiro, chegavam a fazer suas jangadas, não com troncos, mas com um tipo de palha comum na região em que viviam, usada também na confecção de outros objetos:
"[...] usavam de embarcações, que faziam de certas palhas compridas [...] a que ainda chamam todos piripiri, e fazem delas os moradores daquelas partes esteiras e enxergões para as camas. Estas, depois de bem secas ao sol, ajuntavam em molhos, dentro dos quais metiam varapaus do comprimento que lhes era necessário, e atados em roda destes muito bem aqueles molhos, com cipós a que chamam timbós, brandos e fortes, e assim unidos uns molhos com outros, formavam uma larga esteira, seguros e ligados com outras travessas de paus, à maneira das que hoje chamam jangadas, e com aquelas embarcações assim, atravessavam o rio e iam dar os seus assaltos aos tupinambás da outra parte. [...]" (²)
Convenhamos: o estilo de Jaboatão, nem sempre fluente, pode ser de difícil compreensão para leitores do Século XXI que não estejam habituados ao modo de expressão da gente instruída do Século XVIII. Aqui, porém, estamos interessados em verificar quanto os povos indígenas - caetés, entre eles - eram capazes de obter recursos para a subsistência, mesmo quando o meio em que viviam não era dos mais favoráveis. As jangadas de palha, segundo o mesmo autor, não apenas serviam para navegação fluvial, como podiam, ainda, sendo requerido, servir às incursões que seus construtores ousavam, mar afora: "[...] chegava a tanto o seu atrevimento [dos caetés], que algumas vezes nestas mesmas embarcações foram cometer estes e outros insultos pelas costas do mar até junto à Bahia, que são mais de cinquenta léguas. [...]" (³). Mesmo sem declaração explícita de Antônio de Santa Maria Jaboatão, podemos deduzir que as curiosas embarcações foram usadas, não poucas vezes, em investidas dos caetés contra europeus e seus descendentes, já que esses indígenas viviam perto de uma região de intenso fôlego colonizador nos Séculos XVI e XVII. 
Já vamos concluindo, mas não sem referir, também, que embarcações feitas com algum tipo de palha, junco, cana, vime ou taquara podem ser encontradas em civilizações muito diferentes e distantes entre em si, quer no tempo, quer no espaço. No Egito Antigo, na China, entre povos da África ou entre indígenas do lago Titicaca, lá estavam (ou estão) elas. Aparentemente, sem nenhuma conexão. Eis aí um assunto interessante para estudo.

(1) Nascido em Pernambuco em 1695, esse franciscano foi autor de várias obras importantes, de grande utilidade para o estudo e compreensão do Brasil Colonial.
(2) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil  Volume 1. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 16.
(3) Ibid.


Veja também: