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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Embarcações usadas pelos caetés

Indígenas do Brasil faziam excelentes canoas, construídas geralmente a partir de um único tronco, já que as árvores do Brasil eram gigantescas. Sim, isto é certo, mas é preciso acrescentar que a criatividade indígena parecia quase não conhecer limites. Onde não havia grandes árvores, nem por isso ameríndios deixavam de navegar, usando, neste caso, jangadas feitas com vários troncos menores, amarrados entre si com firmeza. Porém, havia mais: de acordo com Antônio de Santa Maria Jaboatão (¹), os caetés, que viviam no Nordeste brasileiro, chegavam a fazer suas jangadas, não com troncos, mas com um tipo de palha comum na região em que viviam, usada também na confecção de outros objetos:
"[...] usavam de embarcações, que faziam de certas palhas compridas [...] a que ainda chamam todos piripiri, e fazem delas os moradores daquelas partes esteiras e enxergões para as camas. Estas, depois de bem secas ao sol, ajuntavam em molhos, dentro dos quais metiam varapaus do comprimento que lhes era necessário, e atados em roda destes muito bem aqueles molhos, com cipós a que chamam timbós, brandos e fortes, e assim unidos uns molhos com outros, formavam uma larga esteira, seguros e ligados com outras travessas de paus, à maneira das que hoje chamam jangadas, e com aquelas embarcações assim, atravessavam o rio e iam dar os seus assaltos aos tupinambás da outra parte. [...]" (²)
Convenhamos: o estilo de Jaboatão, nem sempre fluente, pode ser de difícil compreensão para leitores do Século XXI que não estejam habituados ao modo de expressão da gente instruída do Século XVIII. Aqui, porém, estamos interessados em verificar quanto os povos indígenas - caetés, entre eles - eram capazes de obter recursos para a subsistência, mesmo quando o meio em que viviam não era dos mais favoráveis. As jangadas de palha, segundo o mesmo autor, não apenas serviam para navegação fluvial, como podiam, ainda, sendo requerido, servir às incursões que seus construtores ousavam, mar afora: "[...] chegava a tanto o seu atrevimento [dos caetés], que algumas vezes nestas mesmas embarcações foram cometer estes e outros insultos pelas costas do mar até junto à Bahia, que são mais de cinquenta léguas. [...]" (³). Mesmo sem declaração explícita de Antônio de Santa Maria Jaboatão, podemos deduzir que as curiosas embarcações foram usadas, não poucas vezes, em investidas dos caetés contra europeus e seus descendentes, já que esses indígenas viviam perto de uma região de intenso fôlego colonizador nos Séculos XVI e XVII. 
Já vamos concluindo, mas não sem referir, também, que embarcações feitas com algum tipo de palha, junco, cana, vime ou taquara podem ser encontradas em civilizações muito diferentes e distantes entre em si, quer no tempo, quer no espaço. No Egito Antigo, na China, entre povos da África ou entre indígenas do lago Titicaca, lá estavam (ou estão) elas. Aparentemente, sem nenhuma conexão. Eis aí um assunto interessante para estudo.

(1) Nascido em Pernambuco em 1695, esse franciscano foi autor de várias obras importantes, de grande utilidade para o estudo e compreensão do Brasil Colonial.
(2) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil  Volume 1. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 16.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 28 de março de 2019

Como era feita a conservação das embarcações que iam ao sertão

Quase todas as embarcações usadas em expedições fluviais no Brasil Colonial eram feitas de um único tronco, uma vez que árvores gigantescas ainda eram regra nas florestas. Os ameríndios eram peritos em fazer canoas mediante uma técnica que, a despeito de um tanto morosa, era compatível com as ferramentas rudimentares de que dispunham: a área da madeira que devia ser escavada era primeiro queimada e, depois, removida mediante escarificação. 
Os colonizadores portugueses trouxeram consigo conhecimentos de construção naval que não tardaram em adaptar à navegação fluvial, de modo que as longas canoas de um só tronco também foram usadas por eles (¹). Como, porém, executar a conservação de tais embarcações durante as viagens, sertão adentro? De onde viria o material necessário? Uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira no Século XVII, relatando uma expedição pelo rio Tocantins, oferece informações preciosas em resposta a estas questões:
"Os armazéns de que se tiram todos estes aprestos são os que a natureza tem prontos em qualquer parte deste rio [...], que é coisa verdadeiramente digna de dar graças à providência do Divino Criador, porque indo nesta jornada [...] em qualquer parte que chegamos achamos prevenido de tudo a pouco trabalho. A estopa se faz de cascas de árvores, sem mais indústria que despi-las. Destas mesmas ou outras semelhantes fazem os índios cordas muito fortes [...]. Os toldos se fazem de vimes, que cá chamam timbós-titica, e certas folhas largas a que chamam ubi, tão tecidos e tapados que não há nenhuns que melhor reparem do sol nem defendam da chuva, por mais grossa e continuada, e são tão leves que pouco peso fazem à embarcação." (²)
Dizia ainda Vieira:
"O breu sai da resina das árvores [...], e se breiam com ele não só as canoas, senão os navios de alto bordo [...]. As velas, se as não há ou rompem as de algodão, não se tecem mas lavram-se com grande facilidade, porque são feitas de um pau leve e delgado, que com o benefício de um cordel se serra de alto a baixo [...], e com o mesmo de que fazem as cordas, que chamam embira, amarram e vão tecendo as tiras como quem tece uma esteira [...]." (³)
Maravilhava-se o jesuíta de que, com o emprego de materiais extraídos da floresta, fosse dispensável, nas embarcações, o uso de pregos:
"Tudo isto se arma e sustenta sem um só prego [...], pois todo o pregar se supre com o atar, e o que havia de fazer o ferro fazem os vimes, a que também chamam cipós, muito fortes, com que as mesmas partes da canoa se atracam, e tudo quanto dela depende vai tão seguro e firme como se fora pregado." (⁴)
Vieira tinha razão: havia um verdadeiro armazém natural à disposição de indígenas e colonizadores que, amalgamando saberes em suas expedições sertão adentro, iam dando forma, voluntariamente ou não, à configuração territorial que o Brasil tem hoje. 

Indígenas construindo uma embarcação (⁵)

(1) Ainda que outros tipos de embarcações também estivessem em uso.
(2) Cf. MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 463.
(3) Ibid., pp. 463 e 464.
(4) Ibid.
(5) ____  Bilder-Atlas Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



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terça-feira, 4 de julho de 2017

Preparativos dos indígenas quando iam à guerra

A preparação de muitos povos indígenas, quando se tratava de fazer guerra ofensiva, envolvia várias etapas.
Era necessário ter, por suposto, uma grande quantidade de armas: arcos (que os homens aprendiam a manejar desde a infância), muitas flechas, tacapes e lanças de madeira, dentre outras. 
Mas não era só. De acordo com Yves d'Évreux (¹), que afirmou ter investigado o assunto acuradamente, toda a tribo era envolvida nos aprestos, havendo muito cuidado em preparar alimentos suficientes para que nenhum guerreiro deixasse, por falta de sustento, de combater no máximo de sua capacidade:
"[...] As mulheres e suas filhas preparam a farinha de munição, e em abundância, por saberem, naturalmente, que [...] a fome é a coisa mais perigosa num exército [...]." (²)
Explicando, de passagem, que "farinha de munição" era um tipo de farinha de mandioca, já vamos constatando que, enquanto isso, os homens estavam, também, em grande atividade. É que, para muitos grupos indígenas, o deslocamento até o território inimigo era feito por mar ou por rios, sendo, portanto, indispensável a confecção de canoas grandes e resistentes - aqueles soberbos exemplares cavados no tronco de uma única árvore, que podiam levar, cada um, vinte ou trinta combatentes:
"[...] Empregam-se os homens em fazer canoas ou consertar as que já possuem próprias para esse fim, porque é necessário que sejam compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões [...]." (³)

Indígenas em uma canoa (⁴)

Finalmente, era preciso cuidar de um aspecto que, para nós, talvez pareça supérfluo, mas que, entre os indígenas, era visto como essencial:
"[...] Preparam suas penas, tanto para a cabeça, braços e rins, como para as armas." (⁵)
No contexto cultural dos povos indígenas, a ornamentação de armas e homens com penas de aves podia ter vários significados, além, é claro, do aspecto puramente estético. Manter uma tradição era um dos motivos, de acordo com o padre d'Évreux:
"Quis saber por intermédio do meu intérprete por que traziam sobre os rins [...] penas de ema: responderam-me que seus pais lhes deixaram este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando ela se sente mais forte ataca atrevidamente o seu perseguidor, e quando mais fraca abre suas asas, despede o voo e arremessa com os pés areia e pedras sobre seus inimigos; assim devemos fazer, acrescentavam eles. [...]." (⁶)
Outra razão que se tem aventado para esse colorido costume de usar penas de araras, emas, papagaios e outras aves (⁷) seria de caráter ritual, à medida que qualidades e virtudes tidas como desejáveis nessas criaturas seriam, magicamente, compartilhadas pelos guerreiros, em sua condição de representantes, guardiões e herdeiros das façanhas bélicas empreendidas pelos antepassados. Juntemos a isso o orgulho pessoal de cada indígena que queria, no combate, aparecer do modo mais favorável ao realizar suas proezas, e um intenso desejo de intimidar o adversário, e já teremos, leitores, um panorama do que ocorria nas semanas de preparo que antecediam as lutas entre grupos, cuja inimizade, não raro, era cultivada desde tempos remotos.

Indígenas atacando uma aldeia (⁸)

(1) Capuchinho francês que esteve no Brasil entre 1613 e 1614.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 20.
(3) Ibid., p. 21.
(4) D'ORBIGNY, Alcide. Voyage Pittoresque dans les Deux Amériques. Paris: Furne et Cie., 1841.
(5) D'ÉVREUX, Yves. Op. cit., p. 21.
(6) Ibid., p. 22.
(7) Além de outros materiais de origem animal.
(8) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837.


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Modo indígena de evitar uma luta contra inimigos mais poderosos

O problema, desde a Antiguidade, tem inquietado comandantes militares e estrategistas das mais variadas civilizações: como proceder para uma retirada segura, sempre que se verifica que o inimigo tem forças muito superiores? Sim, porque, afinal, retirada não é derrota, e pode ser um recurso eficiente para preservar as tropas, adiando o confronto até uma ocasião mais favorável.
Indígena brasileiro com armas (²)
Os indígenas do Brasil, se podemos confiar no relato feito pelo Padre Simão de Vasconcelos no Século XVII, tinham uma tática bem definida para essas situações:
"Em suas guerras contam alguns destes um modo gracioso de que usavam os menos poderosos, quando queriam evitar o encontro; que como ordinariamente vivem em ilhas ou ribeiras do rio, e usam de canoas mui leves, no tempo em que hão de ser acometidos, passam à outra parte do rio, e logo tomando as canoas às costas, as vão esconder em algum dos muitos lagos que há entre as matas, e fogem, deixando os contrários frustrados; e idos eles, tornam a restituir-se às suas terras com as mesmas canoas." (¹)
Fica apenas uma dúvida: o que acontecia ao vinho de caju que as tribos contendoras deviam ter preparado para comemorar a vitória?

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Como os indígenas do Brasil faziam canoas

Não há quem desconheça o fato de que os indígenas do Brasil, como regra geral, eram excelentes nadadores. Eram também muito hábeis em construir canoas e, com elas, podiam deslocar-se por rios e mesmo no mar, embora, neste último caso, nunca se distanciassem muito da costa, ou acabariam perdidos em meio ao oceano, sem que pudessem voltar.
Cada grupo indígena tinha sua própria técnica para construir canoas, mas era quase unânime o uso de um só grande tronco, conforme explicou Frei Vicente do Salvador:
"...os índios naturais da terra, as embarcações que usam são canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes, que ficam depois de cavados com dez palmos de boca de bordo a bordo; e tão compridos, que remam a vinte remos por banda." (¹)

Sistema indígena para fabricação de canoas, de acordo com desenho de
Joaquim José Codima (²)

Lavrar a ferro, é bom recordar, só foi possível, todavia, a partir do escambo (troca) com europeus. Antes disso, as ferramentas eram de pedra.
Os tupinambás estavam entre os que faziam canoas pelo sistema de usar um único tronco:
"...São grandes remadores, assim nas suas canoas, que fazem de um só pau, que remam em pé vinte ou trinta índios, com o que as fazem voar." (³)
Os tamoios (⁴), que o Padre Anchieta tão bem conheceu, provavelmente usavam um método parecido, pelo que se depreende da explicação dada pelo famoso jesuíta nativo das Canárias:
"...Tinham aparelhadas duzentas ou mais canoas, que fazem de uma cortiça só de uma árvore cada uma, pondo-lhes outros pedaços da mesma cortiça por bordos, mui bem atados com vimes, e são tão grandes que levam cada uma delas vinte e vinte e cinco e mais pessoas, com suas armas e vitualhas; e algumas mais de trinta, e passam ondas e mares tão bravos que é coisa espantosa e que não se pode crer nem imaginar, senão quem o vê..." (⁵)

Canoa indígena, de acordo com Rugendas (⁶)

Os leitores já devem ter notado que uma característica das técnicas indígenas para confecção de objetos de uso diário era que sempre usavam material fartamente disponível na área em que viviam. Não era comum que fossem procurar recursos a grande distância. Portanto, grandes canoas feitas de um só tronco eram possíveis a quem vivesse próximo às grandes matas. Sendo outras as circunstâncias naturais, a técnica para a construção de embarcações também mudava, como podemos facilmente deduzir desta descrição, feita por Gabriel Soares, das canoas usadas pelos índios caetés:
"As embarcações de que este gentio usava eram de uma palha comprida como a das esteiras de tabua (⁷) que fazem em Santarém, a que eles chamam periperi, a qual palha fazem em molhos muito apertados com umas varas como vimes, a que eles chamam timbós, que são muito brandas e rijas, e com estes molhos atados em umas varas grossas faziam uma feição de embarcações, em que cabiam dez a doze índios, que se remavam muito bem e nelas guerreavam com os tupinambás neste rio de São Francisco, e se faziam uns aos outros muito dano. E aconteceu por muitas vezes fazerem os Caetés desta palha tamanhas embarcações, que vinham nelas ao longo da costa fazer seus saltos aos tupinambás junto da Bahia, que são cinquenta léguas." (⁸)
É verdade que, do ponto de vista tecnológico, os colonizadores europeus estavam muito à frente, de um modo geral, dos povos indígenas do Brasil. No entanto, é inegável que os ameríndios estavam bastante bem adaptados ao meio em que viviam e, com habilidade por vezes surpreendente, eram capazes de satisfazer às suas pequenas necessidades de consumo, como suas eficientes embarcações eram capazes de demonstrar.

(1) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil, c. 1627.
(2) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 321.
(4) Segundo a compreensão atual, os tamoios pertenciam ao grupo tupinambá, e a distinção do nome se faz pela região em que habitavam, ou seja, o litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 203.
(6) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Em São Paulo também se diz "taboa".
(8) SOUSA, Gabriel Soares de. Op. cit., pp. 38 e 39.


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