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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Por que o padre Vieira não consentia que indígenas carregassem missionários em redes

Redes, se é que assim se pode dizer, eram um meio de transporte muito comum no Brasil Colonial: dois indivíduos fortes carregavam um terceiro que ia deitado ou sentado na rede, sendo esta apoiada nos ombros dos carregadores mediante uma longa vara, à qual eram presas as extremidades da rede. Já tratei deste assunto aqui no blog.
Figuras de destaque na administração colonial raramente punham os pés no chão. Dispunham de pessoas - escravos, quase sempre - que se encarregavam de sair carregando as ilustres personalidades para onde desejassem ir. Por sua vez, qualquer indivíduo que tivesse dois ou mais escravos fazia questão de ser carregado. Era indício de respeitabilidade e posição social. As cadeirinhas de arruar somente mais tarde chegaram ao Brasil. 
Sendo tão generalizado o costume, não surpreende que até religiosos se deixassem carregar em redes. Na Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica, escrita pelo padre Fernão Cardim (¹), somos informados de que Cristóvão de Gouvêa, visitador jesuíta que percorreu colégios e missões no Brasil entre 1583 e 1590, deixou-se carregar em rede por indígenas, provavelmente entendendo que, quando ameríndios faziam isto, demonstravam respeito e consideração:
"Quis o padre [Cristóvão de Gouvêa] ver as aldeias dos índios brevemente para ter alguma notícia delas: partimos para a aldeia do Espírito Santo, sete léguas da Bahia, com alguns trinta índios, que com seus arcos e flechas vieram para acompanhar o padre, e revezados de dois em dois o levaram numa rede, os mais companheiros íamos a cavalo [...]." (²)
Nem todos os religiosos tinham a mesma atitude. A crermos no que escreveu o padre Simão de Vasconcelos em Vida do Venerável Padre José de Anchieta, o missionário canarino (³), tão afeito às viagens com vistas à catequese, nunca aceitava ser conduzido em rede:
"Jamais nestas tão frequentes missões andou a cavalo, nem ainda em rede, costume do Brasil, sempre a pé, com seu bordão na mão, e, posto que começava os caminhos calçado, em passando lugares públicos de gente, se descalçava logo, e ia a pé descalço." (⁴)
Indígenas é que andavam descalços - teria Anchieta decidido viver como eles, para mais facilmente catequizá-los? Ou teria compreendido que, para viver no Brasil, era preciso adotar o estilo de vida dos "brasis" (⁵)? Talvez quisesse economizar os sapatos, tão dispendiosos nos primeiros tempos da colonização? É provável que tudo isso tivesse lá sua parte no costume de Anchieta.
Já no Século XVII, outro missionário jesuíta iria ainda mais longe ao lidar com o tal costume vigente entre colonizadores que se faziam transportar em redes. Falo do padre Antônio Vieira, que, além de notável pregador, foi um missionário dedicado e, nesse ofício, proibiu a todos os subordinados que aceitassem ser carregados pelos índios, a não ser no caso de que algum religioso estivesse muito doente. A exceção é facilmente explicável, uma vez que naquele tempo não havia ambulâncias, nem terrestres e muito menos aéreas. De acordo com o também jesuíta José de Moraes, em História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (⁶), "estas missões [no Maranhão] pela maior parte as faziam os padres a pé, e com inexplicável trabalho, e posto que os índios, para os aliviarem do caminho, lhes ofereciam com as redes os ombros, como é costume naquelas terras, nunca quiseram aceitar a comodidade das jornadas à custa do suor dos índios [...]; porque era máxima do padre Vieira que o pastor é o que havia de carregar aos ombros as ovelhas, e não estas ao pastor, por cuja razão ordenou, e o mesmo praticava sempre consigo, que nenhum usasse de rede pelos caminhos, salvo se a necessidade ou enfermidade o pedisse". (⁷)
Entre a população em geral, o costume de se fazer carregar em uma rede desapareceu aos poucos, len-ta-men-te. Não obstante, no Século XIX ainda era possível encontrar redes para alugar no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. 

Homem de condição livre sendo transportado em rede por dois escravos,
de acordo com Debret (⁸)

(1) Fernão Cardim foi testemunha ocular dos acontecimentos que descreveu, por ter acompanhado o padre visitador em suas andanças pelo Brasil.
(2) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 13 e 14.
(3) Nascido nas Canárias em 1534, Anchieta veio ao Brasil em 1553, onde permaneceu até sua morte em 1597.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 183.
(5) Autores dos tempos coloniais referiam-se aos indígenas como "brasis".
(6) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus. É fácil, portanto, compreender o tom de defesa das missões jesuíticas que perpassa toda a obra.
(7) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 393.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Catecismos manuscritos usados por jesuítas no Brasil Colonial

O padre José de Anchieta passava noites copiando, à mão, as lições que seus alunos precisariam estudar - já falei sobre isso aqui no blog, ao tratar do ensino e catequese na Capitania de São Vicente. Mas ele não foi o único que recorreu às cópias manuscritas quando havia necessidade de multiplicar algum texto para uso no Brasil. Não havendo nem impressoras e nem trabalhadores gráficos (¹), o material necessário à catequese era pacientemente copiado pelos missionários. Em explicação dada pelo padre Antônio Vieira ao Provincial jesuíta do Brasil, através de uma carta datada de 22 de maio de 1653, somos informados de que um catecismo simplificado estava em uso para doutrinação dos indígenas - em contato com culturas ameríndias muito diferentes da sua, os missionários tinham dificuldade em explicar alguns conceitos a seus catecúmenos - e, para multiplicar o dito catecismo, era necessário, literalmente, pôr mãos à obra:
"Não sendo [os indígenas] capazes de catecismo tão dilatado e miúdo como é o geral que anda impresso, tomamos dele as coisas mais substanciais e fizemos outro catecismo recopilado, em que, por muito breve e claro estilo, estão dispostos os mistérios necessários à salvação, e este é o que se ensina." (²)
Como se conclui que o catecismo resumido era manuscrito? Deixemos que Vieira prossiga:
"Além deste catecismo breve, fizemos outro brevíssimo para nos casos de maior necessidade se poder batizar um gentio (³), e ajudar a bem morrer um batizado, dos quais se têm pedido cópias para os lugares onde não estamos, e se começam a fazer algumas; mas porque é quase impossível escreverem-se os muitos que são necessários, na primeira monção (⁴) determinamos de os mandar imprimir em grande quantidade, para que se possam repartir por todos os moradores, e cada um ensinar aos seus índios, e instruí-los em falta de sacerdotes para o batismo e para a morte." (⁵)
Percebe-se que Vieira assumia que muitos colonizadores eram "donos" de índios, e, pragmático, tencionava, com a distribuição dos catecismos, obter alguma ajuda na doutrinação dos cativos, ciente de que os padres de sua Ordem, sendo pouco numerosos, não podiam dar conta de todo o trabalho; ainda que jesuítas, por princípio, combatessem a escravização de ameríndios, não eram contrários ao cativeiro dos aprisionados em "guerras justas", feitas, inclusive, contra aqueles que se opunham ou se recusavam a receber a catequese.

(1) Quem quer que se dê ao trabalho de folhear livros impressos em Portugal entre os Séculos XVI e XVIII, logo perceberá que as obras eram precedidas por várias páginas com permissões para impressão, expedidas por autoridades civis e eclesiásticas. Sem as ditas autorizações nenhum livro podia ser impresso ou vendido. Além do custo inerente à impressão das cópias, toda essa burocracia desencorajava a multiplicação de edições e a livre circulação das ideias.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 328.
(3) Era assim que os missionários se referiam aos indígenas ainda não batizados.
(4) Monção, aqui, é referência à época do ano favorável à navegação, quando era possível cruzar o Atlântico. Esperava-se, portanto, a ocasião propícia para que alguém, indo a Portugal, encomendasse cópias impressas dos catecismos simplificados em uso no Brasil.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Pero Corrêa - de escravizador de indígenas a missionário jesuíta

Um pequeno grupo de jesuítas foi mandado por Manuel da Nóbrega ao interior, com o propósito de iniciar a catequese de indígenas identificados por Anchieta como "ibirajaras". Estavam também incumbidos da tarefa de achar caminho pelo qual fosse possível chegar às terras de colonização espanhola no Paraguai. Iam, entre eles, Pero Corrêa e João de Sousa, missionários. 
Interessante a história desse Pero Corrêa. Português, viera ao Brasil como colonizador e, como muitos outros, queria prosperar. Não demorou muito e estava envolvido com o apresamento de indígenas para escravização. Em uma carta escrita em São Vicente em 15 de março de 1555, Anchieta observou: "Era um dos principais portugueses que estavam nesta terra e andava em uma nau, por toda a parte, matando índios ou aprisionando-os, parecendo-lhe que fazia um grande serviço a Nosso Senhor [...]." (¹) Que serviço, prestava ele!...
Mas, um dia, tudo mudou. O caçador de índios resolveu mudar de vida e se tornar jesuíta. Novamente de acordo com Anchieta, "logo que a trombeta de Cristo começou a soar pelos da Companhia, foi ele o primeiro que dobrou o colo ao jugo dela; e dizia muitas vezes, e de tal se persuadira, que se queria salvar-se, era mister que todo se desse ao serviço desses índios, até morrer pela alma deles, não achando nenhuma satisfação com que reparasse o mal que lhes havia feito." (²)
É difícil identificar o que poderia ter provocado tão notável emenda. Seria, talvez, sentimento de culpa, medo das penas eternas (conforme se ensinava na época), quem sabe arrependimento sincero? De qualquer modo, admitido como irmão na Companhia de Jesus, logo estava Pero Corrêa mergulhado na catequese de indígenas, ajudado pelo conhecimento que tinha da língua por eles falada. 
Seria até natural, todavia, que os índios, sabendo quem era o sujeito, tivessem medo dele. Não estaria preparando uma armadilha para capturá-los aos milhares? 
Pero Corrêa foi jesuíta durante cinco anos, até ser enviado por Nóbrega, com outros religiosos, na expedição para catequese dos "ibirajaras". Ao que parece, a insistência em que abandonassem a antropofagia soou demasiado irritante para os senhores da terra, que resolveram acabar com o incômodo. João de Sousa foi o primeiro a morrer, sob o efeito das flechadas recebidas. Em seguida, foi a vez de Pero Corrêa. Em outra carta, também de 1555, mas escrita em São Paulo, Anchieta relatou: "O irmão Pero Corrêa, vendo isto [a morte de João de Sousa], lhes começou a falar, e a resposta deles era flechadas [...], até que, não podendo mais sofrê-las, deixou o bordão que trazia e se pôs de joelhos, encomendando sua alma ao Senhor [...]." (³) Infere-se que a notícia da morte dos dois missionários tenha chegado a Nóbrega, Anchieta e aos demais jesuítas por boca dos outros integrantes da expedição, que conseguiram escapar.  

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 81.
(2) Ibid.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Insetos na alimentação

Anda na moda incluir insetos nas refeições. Há quem veja neles a solução dos problemas alimentares da humanidade. De minha parte, passo longe: todo esse exército de criaturas com seis patas, um ou dois pares de asas e duas antenas me parece muito mais tolerável andando, voando ou saltando do que assado, frito, ensopado, grelhado ou mergulhado em algum molho.
Entretanto, a presença de insetos como parte da alimentação humana não é exatamente uma novidade. Em diversas culturas foi e é uma prática habitual. Indígenas do Brasil, por exemplo, foram descritos por Anchieta (¹) como grandes apreciadores de formigas tanajuras - assadas, é claro. Antes, porém, de entrar na questão do preparo dos insetos, o missionário jesuíta teve o cuidado de, a seu modo, explicar como eram esses acepipes em potencial:
"Das formigas só parecem dignas de comemoração as que destroem as árvores; estas são chamadas içás: são um tanto ruivas, trituradas cheiram a limão; cavam para si grandes casas debaixo da terra. Na primavera, isto é, em setembro, e daí em diante, fazem sair o enxame dos filhos, quase sempre no dia seguinte ao de chuva e trovoada, se o sol estiver ardente [...]." (²)
Agora, captura e modo de preparo:
"Para ver quando elas saem de suas cavernas [sic] [...] ajuntam-se os índios, que ansiosamente esperam este tempo, tanto homens, como mulheres; deixam as suas casas, apressam-se, correm com grande alegria e saltos de prazer para colher os frutos novos, aproximam-se das entradas dos formigueiros e enchem de água os pequenos buracos que elas fazem [...], e enchem os seus vasos, isto é, certas cabaças grandes, voltam para casa, assam-nas em vasilhas de barro e comem-nas; assim torradas, conservam-se por muitos dias, sem se corromperem." (³)
Para mostrar que entendia mesmo do assunto, Anchieta fez uma revelação:
"Quão deleitável é esta comida e como é saudável, sabemo-lo nós, que a provamos." (⁴)
Satisfeitos, leitores? Vem mais. Vamos à Antiguidade, à Mesopotâmia, à Assíria. Observem este interessante relevo (⁵), descoberto como resultado de escavações arqueológicas do Século XIX, no que se revelou um complexo de construções destinadas à habitação real e administração dos negócios públicos:


Trata-se de uma equipe de serviçais, conduzindo ingredientes para o que seria, com enorme probabilidade, a preparação de um régio banquete. De um grupo maior, destacamos quatro. A semelhança dos trajes faz supor que usavam uma espécie de uniforme. Da esquerda para a direita, o primeiro leva romãs (muito apreciadas por povos da Mesopotâmia na Antiguidade), o terceiro carrega aves e o quarto, coelhos. E quanto ao segundo? Vejam, leitores, no detalhe:


Sim, vocês estão certos! São... Gafanhotos! Enormes, aliás, se o artista que representou essa procissão gastronômica foi fiel às proporções. Ao monarca assírio, só restaria dizer: Bom apetite, majestade!

(1) Em uma carta escrita em São Vicente no ano de 1560, cujo destinatário era o Geral da Companhia de Jesus, padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 122.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.


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terça-feira, 28 de março de 2017

Escravos africanos em lugar de indígenas

A escravidão, no Brasil, foi de indígenas e de africanos. Desumana, em um e outro caso, como só ela pode ser. Os indígenas tinham nos missionários jesuítas valentes defensores, que se opunham à sua escravização. Os cativos de origem africana, não. Por quê?
O padre Antônio Vieira (¹), em uma de suas cartas, escreveu que calvinistas e luteranos eram menos hereges que paulistas, porque "enforcam a quem furta e fazem pagar a quem deve, e a seita pauliniana [sic] tudo isto está devorando sempre sem escrúpulo." (²)
Só é possível compreender perfeitamente o que Vieira queria dizer se duas coisas forem consideradas em relação aos jesuítas que empreendiam a catequese no Brasil: o desgosto em relação à chamada "heresia protestante" e o ódio aos paulistas que escravizavam indígenas. 
Não se deve pensar, entretanto, que a escravização da população nativa era fenômeno restrito a São Paulo. Em um documento atribuído a outro jesuíta, o padre José de Anchieta (³), pode-se ler esta observação, relacionada à Bahia e adjacências:
"[...] Já sabem [os indígenas] por todo o sertão, que somente gente que está nas igrejas, onde os padres residem, tem liberdade, que toda a mais é cativa (...)." (⁴)
Isso acontecia porque os missionários eram audazes em fazer frente aos colonizadores, quando o assunto era a escravização de indígenas ou qualquer outra ação que comprometesse sua catequese; em alguns casos, houve até rebeliões de colonos contra a presença da Companhia de Jesus, ao ponto de serem expulsos os padres, como aconteceu em São Paulo no ano de 1640.
Entretanto, observando o outro lado dessa história, veremos que a posição dos jesuítas em relação aos escravizados africanos e/ou de origem africana era muito diferente. Os próprios missionários tinham escravos a seu serviço, e não viam nada de errado em tal prática. Em uma carta enviada ao rei D. João III em 1551, o padre Manuel da Nóbrega (⁵) foi explícito em pedir escravos para o Colégio da Bahia:
"[...] Mande dar alguns escravos de Guiné à Casa [Colégio da Bahia], para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil, que facilmente se manterão e vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que façam roças de mantimentos e algodoais [...]." (⁶)
Outro exemplo pode ser encontrado na sugestão feita pelo padre Antônio Vieira, tendo em vista a queixa persistente dos moradores do Maranhão, de que a catequese de indígenas resultava em falta de mão de obra para as lavouras:
"[...] Não podem haver ao presente outros meios mais certos e efetivos, que os de meter no dito Estado [do Maranhão] escravos de Angola [...].
[...].
Comprem e remetam ao Maranhão duzentos escravos, que devem ser homens e mulheres em ordem à propagação [sic] [...]." (⁷)
Como explicar a diferença no trato dos jesuítas com indígenas e africanos? Nos dois casos, a resposta está na catequese. Os missionários da Companhia de Jesus queriam os indígenas "livres", para que, reunidos em aldeias sob a vigilância dos padres, fossem submetidos a doutrinação. Entretanto, apoiavam a escravização de africanos porque entendiam que, vindo ao Brasil, estariam ao alcance da catequese. Por isso, houve até quem julgasse que, em última análise,  a escravidão era um benefício que se fazia aos africanos...
Uma ideia de como era feita a doutrinação de escravizados, fossem eles indígenas ou africanos, pode ser obtida por esta descrição, proveniente de outro relato de Anchieta: 
"O método que se adota nestas missões é ensinar e explicar a doutrina cristã aos índios e africanos reunidos em um lugar, batizar, ouvir-lhes as confissões, separá-los das concubinas e sujeitá-los às leis do matrimônio, o que nesta Província é trabalho quotidiano, necessário e utilíssimo à salvação das almas." (⁸)
A que conclusão chegamos, leitores? No que se refere à escravidão de africanos, por séculos houve bem pouca gente que atinasse com sua imoralidade, mesmo dentro de contextos estritamente religiosos. Nos chamados países protestantes, o movimento abolicionista precisou lutar contra quem, com base na Bíblia, defendia a manutenção da ordem escravista. Interessante é que a mesma fonte era citada por quem queria acabar de vez com a escravidão. Não foi diferente onde o catolicismo predominou (⁹), o que vale, certamente, também para o Brasil. 

(1) 1608 - 1697.
(2) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2isboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 474.
(3) 1534 - 1597.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 378.
(5) 1517 - 1570.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 307 e 308.
(7) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Op. cit. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, pp. 176 e 177.
(8) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Op. cit. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 399.
(9) Para quem tiver interesse no assunto, poderá ser útil correr os olhos por uma obrinha de muita importância, escrita por José Bonifácio de Andrada e Silva, e que tem por título A Abolição.


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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A poligamia entre indígenas (e como os missionários jesuítas lidavam com ela)

Vai aqui, leitores, uma postagem destinada àqueles dentre vocês que são muito curiosos sobre o modo de vida dos ameríndios. 
Todo mundo sabe que, em vários povos indígenas do Brasil, a poligamia predominava, ou era, pelo menos, admitida. Pode-se bem imaginar o que missionários jesuítas pensavam de tal costume. Mas, afinal, o que é que se fazia quando um índio polígamo, tornando-se catecúmeno, pedia o batismo?
No que se refere à vida diária dos indígenas, os escritos de Anchieta são verdadeiro "mapa da mina". Em um documento que a ele é atribuído e que recebeu o título de "Informação dos Primeiros Aldeamentos na Bahia", lemos, relativamente à visita feita pelo bispo D. Pedro Leitão às aldeias da catequese em 1562:
"[...] Por sua mão batizava a muitos e crismava a outros, e depois casava em lei da graça os que eram para isso, e duas vezes foi às ditas igrejas, batizando os índios, que para isso estavam aparelhados, e os que o não estavam, deixando as muitas mulheres, casavam com uma, em lei da natureza, e as outras se casavam com outros índios [...]." (¹)
Vejam, leitores, que não havia nenhuma tolerância com a poligamia. Na prática, o polígamo que pretendia o batismo devia escolher uma mulher e estar casado com ela "em lei da graça"; as outras mulheres ficavam livres para um novo casamento, desde que monogamicamente.
Em outro documento (²), também atribuído a Anchieta, vem esta observação, que nos oferece um exemplo prático de como a questão era resolvida:
"Em Piratininga (³), da Capitania de São Vicente, Caiubi, velho de muitos anos, deixou uma [mulher] de sua nação, também muito velha, da qual tinha um filho homem muito principal, e muitas filhas casadas, segundo seu modo, com índios principais de toda a aldeia de Jeribatiba [...], e sem embargo disso casou com outra [...], sua escrava tomada em guerra, a qual tinha por mulher, e dela tinha quatro filhos, e esta trazia consigo, e com ela estava e conversava, e depois recebeu in lege gratiae, sem a primeira mulher nem os filhos e genros fazerem por isso sentimento algum." (⁴)
A ideia de Anchieta é que esse procedimento não trazia problemas aos indígenas porque a mulher que fosse "dispensada" não se ofendia, e logo arranjava outro marido. E, se vocês, leitores, estão pensando se a prática inversa era também admitida, ou seja, se uma mulher indígena podia abandonar o marido, para viver com outro homem, digo que, de acordo com Anchieta, a resposta é afirmativa, pelo menos entre alguns povos:
"[...] Também elas deixam o marido e tomam outro, como me contaram que fez a principal mulher de Cunhambebe (⁵), que era o principal mais estimado dos tamoios que havia na comarca de Iperoig, do qual tinha já um filho e uma filha casadouros, e com tudo isso o deixou, por ele ter outras, ou pelo que quis, e se casou ou amancebou com outro; e outras fazem o mesmo sem sentimento dos maridos [...]." (⁶)
Admitindo que as informações de Anchieta sejam corretas, é forçoso reconhecer que muitos povos indígenas do Brasil tinham, em suas respectivas culturas, arranjos familiares muito diferentes do modelo que os jesuítas vinham propor. Não é surpreendente, portanto, que os missionários ficassem algo escandalizados com o que viam, um fato que transparece, até com facilidade, em alguns dos escritos que deixaram.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 354.
(2) "Informação dos Casamentos dos Índios do Brasil".
(3) São Paulo.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit. p. 448.
(5) Hans Staden teria muito a dizer sobre esse famoso chefe tamoio.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit. p. 449.


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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Por que povos da Antiguidade acreditavam na influência dos corpos celestes sobre a vida quotidiana na Terra


"Então surgiu um cometa, que para a opinião vulgar pressagia a mudança de rei."
                                                                                                                                                Tácito, Annales

Para os povos que criam que os corpos celestes eram divindades, não era muito complicado imaginar que pudessem causar problemas aos pobres mortais que viviam sobre a Terra. Sabe-se, por exemplo, que um eclipse total ocorrido em 763 a.C. foi associado, pelos assírios, a uma série de infortúnios. Funcionava mais ou menos assim: ocorria um eclipse solar e, logo depois, vinha, digamos, uma enchente, uma safra ruim, uma praga de ratos ou gafanhotos - adivinhem leitores, quem era o culpado? - o eclipse, é claro! Interpretava-se a ocultação do deus-sol como um momento de ira celeste, que só podia resultar em desgraças. Podemos facilmente medir o que é que isso significava, se tomarmos em conta o fato de que quase todos os povos antigos tinham alguma personificação do Sol em suas respectivas coleções de deuses.
Por outro lado, um eclipse lunar podia ser considerado como presságio favorável, de acordo com o que contou Tácito (¹), ao descrever uma revolta do exército romano nos dias do imperador Tibério. Estacionados na Panônia, onde eram obrigados a viver em condições de extrema penúria, os soldados começaram uma rebelião, durante a qual ocorreu um eclipse lunar, que, reputado como indicação de favor dos deuses, levou-os a fazer enorme alarido no acampamento. Porém, não demorou para que a Lua fosse ocultada por nuvens, e, dessa vez, o acontecimento foi interpretado como desfavorável. A soldadesca caiu em profundo desânimo, proporcionando assim aos comandantes a oportunidade perfeita para que retomassem o controle e fizessem justiçar os cabeças da revolta, pelo modo típico do exército romano - os cabeças obviamente perderam a cabeça. Mas não foi só. Usualmente, os soldados que queriam mostrar aos comandantes que estavam arrependidos da sedição, tratavam de comprovar esse fato despedaçando os companheiros rebeldes. Os leitores veem, então, que é melhor voltar ao assunto da suposta influência dos planetas, estrelas, cometas, etc. sobre o destino dos homens...
A questão é que, mesmo quando a crença nos deuses arrefeceu, a humanidade continuou a achar que, de algum modo, os corpos celestes tinham poder para trazer calamidades e espalhar doenças. No Século XVI, cometas eram particularmente temidos, mas nem a Lua, tão próxima e tão familiar, estava isenta da acusação de causar dano à integridade física dos terráqueos. Em um relato de 1585, cuja autoria é atribuída ao padre José de Anchieta, observa-se que, no Brasil, "a lua é mui prejudicial à saúde e corrompe muito as coisas [...]." (²) 
Ah, então é ela a culpada!

(1) Annales, Livro I.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. 
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 424.


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sexta-feira, 8 de abril de 2016

A hora da catequese

Missionários jesuítas adaptavam os horários de catequese à rotina seguida pelos povos indígenas


Embora, pelas cartas de Anchieta, seja possível inferir que missionários jesuítas não perdiam ocasião de ensinar suas crenças aos indígenas, também sabemos que, sempre que conseguiam ser admitidos ao convívio em uma aldeia, logo tratavam de adotar um horário definido para a catequese. O aspecto interessante é que a escolha da hora estava relacionada à rotina que habitualmente era seguida, não pelos padres, mas pelos índios, ao menos para a catequese de adultos. 
Razão para isso? Muito simples: os homens indígenas adultos costumavam passar boa parte do dia em atividades como caça e pesca, e só no final da tarde é que retornavam à aldeia. O padre Simão de Vasconcelos, autor seiscentista da Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, explicou:
"Como [os índios] vivem de seu arco, em amanhecendo partem à caça das aves e feras por esses campos [...], voltam comumente à noite, de maneira que em todo o dia não há tratar com eles com sossego. Porém este inconveniente vencia o grande fervor de Aspilcueta (¹). Ia esperá-los sobre a tarde, a tempo que vinham carregados com suas caças, dava-lhes as boas-vindas e os parabéns do sucesso aos que tiveram boa dita. Dizia-lhes que descansassem e ceassem [...] com suas famílias; e quando já estavam descansados e satisfeitos, em começando a noite a desenrolar seu manto, começava ele a despregar a torrente de sua eloquência, levantando a voz, e pregando-lhes os mistérios da fé, andando em roda deles, batendo o pé, espalmando mãos, fazendo as mesmas pausas, quebros e espantos costumados entre seus pregadores, para mais os agradar e persuadir." (²)
Para a catequese das crianças a estratégia era diferente: estabeleciam-se escolas, que funcionavam durante o dia. O mesmo Simão de Vasconcelos, na biografia do padre José de Anchieta, escreveu: "Nestas escolas gastam duas horas de manhã, outras duas da tarde." (³)
Logo os missionários jesuítas perceberam que os meninos catecúmenos podiam ser muito úteis quando a questão era convencer os adultos. Assim que anoitecia, as crianças, cantando, percorriam as ruas, o que devia fazer boa impressão entre os nativos do Brasil, notórios amantes da música:
"Tangendo as Ave Marias da noite, tornam-se  a ajuntar [os meninos] à porta da igreja, e daí formam procissão com cruz levantada diante, e postos em ordem, vão cantando pelas ruas em alta voz prosas santas em sua língua [...]." (⁴)
Aos jesuítas parecia, a princípio, mais fácil catequizar crianças que adultos; o tempo veio provar, porém, que assim que chegavam à adolescência, quase todos os meninos optavam pelo atraente estilo de vida de seus pais, com sua liberdade, suas caçadas e suas guerras a cada nova safra de cajus, em lugar dos severos costumes que os padres tentavam ensinar. Justamente por isso é que Anchieta, um mestre no gênero epistolar, viria a escrever algumas de suas páginas mais amargas, exprobando à criançada indígena o abandono da fé que antes pareciam aceitar com tanta facilidade.

(1) Padre João Aspilcueta Navarro, o primeiro dentre os missionários jesuítas a ser capaz de ensinar na "língua geral" dos indígenas que viviam em áreas litorâneas.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 55.
(3) Idem. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 163.
(4) Ibid.


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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Costumes indígenas adotados por missionários jesuítas no Brasil

Se é verdade que a catequese  de indígenas (por jesuítas, principalmente, mas não só) representou o fim de algumas tradições da cultura nativa, também é verdade que, para uma adaptação ao Brasil, os religiosos precisaram adotar muitos dos hábitos e costumes dos "brasis", como então se dizia. Em sentido amplo, viver no Brasil, no Século XVI, e mesmo no XVII, pressupunha, em vários aspectos, viver como os índios. De outro modo, a sobrevivência seria quase inviável.

O costume de dormir em redes


Indígena do Brasil dormindo
em uma rede (¹)
Muito do que sabemos sobre o modo de vida dos missionários nesses primeiros tempos de colonização e catequese vem das cartas escritas por José de Anchieta. Em uma delas, redigida em Piratininga no ano de 1554, explicava que os padres da Companhia de Jesus que viviam na Capitania do Espírito Santo haviam adotado o costume indígena de dormir em redes, ficando as camas relegadas apenas aos doentes:
"Em lugar de cama, usa a máxima parte dos Irmãos de uns panos tecidos à maneira de rede, suspensos por duas cordas e traves; todavia, os que padecem de enfermidade de corpo por algum tempo, usam de camas como em Portugal." (²)
Como se sabe, a maioria dos indígenas do Brasil dormia em redes, cuja confecção variava conforme as tradições tribais. Era um modo conveniente de dormir, ao menos para os ameríndios nômades ou seminômades.

Hábitos alimentares aprendidos com indígenas


Em uma outra carta, Anchieta descreveu alguns detalhes da alimentação de que dispunham, revelando que, sob esse aspecto, já tinham aprendido bastante com seus catecúmenos:
"O principal alimento nesta terra é a farinha de pau, feita de umas certas raízes que se plantam (a quem chamam mandioca) [...]; isso substitui entre nós  a farinha de trigo. Constituem outra parte da alimentação as carnes selváticas, como sejam os macacos, as corças, certos outros animais semelhantes aos lagartos (³), os pardais, e outras feras; também os peixes dos rios, mas esses raramente. A parte mais importante, porém, do sustento consiste em legumes e favas, em abóboras e outras que a terra produz, em folhas de mostarda e outras ervas cozidas; usamos, em lugar de vinho, de milho cozido em água, a que se ajunta mel, de que há abundância; é assim que sempre bebemos as tisanas ou remédios; e se isto temos com fartura quase que não nos parecemos a nós mesmos pobres." (⁴)

Vestuário leve e ausência de calçados


Em um documento que se supõe escrito também por Anchieta, diz-se que, no Brasil, em razão do clima, era comum que as pessoas não usassem muita roupa - não estava falando dos índios, naturalmente, que isso já é outra história. O caso é que os jesuítas, seguindo a "moda da terra", também não tinham grandes preocupações com vestuário:
"Os nossos Padres e Irmãos vestem e calçam propriamente como em Portugal dos mesmos panos que lá, mas faltam-lhes muitas vezes, mas não se amofinam, porque a terra não pede muita roupa e quanto mais leve e velha tanto é melhor e folgam com ela; e o andarem descalços é uso da terra e não lhes dá tanta pena e trabalho como se fora na Europa [...]." (⁵)

Um exemplo de adaptação ao modo de vida dos ameríndios


É ainda da pena de Anchieta, ao traçar a biografia do Padre Gregório Serrão, que nos chega um exemplo de como vivia um missionário jesuíta que, ao empreender a catequese, estava disposto, se necessário, a abrir mão dos costumes de sua cultura de origem, adotando os hábitos e tradições vigentes entre os nativos da América:
"Residiu em uma aldeia muito tempo, que se ajuntou duas léguas de Piratininga com o Irmão Manuel de Chaves, aprendendo ali a língua e ensinando os meninos da escola, passando muito frio e fome. Pela muita pobreza que então havia de mantimento e vestido, nunca trouxe mais naquele tempo que a roupeta (⁶) velha sobre camisa e ceroulas, dormindo em uma rede, tendo o fogo por cobertor." (⁷) 
Chega a ser surpreendente que Anchieta, capaz como era, até por divertimento, de escrever cartas inteiras usando apenas trechos da Bíblia, tenha resistido aqui à tentação de citar o apóstolo que viveu e trabalhou no mundo greco-romano do Primeiro Século, quando afirmou: "omnibus omnia factus sum ut omnes facerem salvos..." (⁸)

(1) ________ Bilder - Atlas, Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 37.
(3) Levando em conta outras referências na obra de Anchieta, é possível que falasse dos jacarés.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., pp. 43 e 44.
(5) Ibid., pp. 426 e 427.
(6) Hábito tradicional dos religiosos jesuítas.
(7) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 490.
(8) Epistula ad Corinthios I, IX, 22 ("Fui de tudo e de todos, para com modos diversos conseguir salvar alguns"). 


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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A ordem era plantar mandioca

A mandioca, de acordo com a Cosmographie Universelle
de Thevet (¹)
A mandioca era fundamental na alimentação dos indígenas do Brasil. Os colonizadores portugueses logo aprenderam seu uso, bem como o elaborado processo que permitia a fabricação da farinha, da qual havia dois tipos, segundo explicação que, no Século XVI, escreveu Pero de Magalhães Gândavo em seu Tratado da Terra do Brasil:
"Há todavia farinha de duas maneiras: uma se chama de guerra, e outra fresca, a de guerra é muito seca, fazem-na desta maneira para durar muito e não se danar; a fresca é mais branda e tem mais substância; finalmente que não é tão áspera como a outra, mas não dura mais que dois, três dias; como passa daqui logo se dana." (²)
Sobre a farinha dita "de guerra", frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"É chamada farinha de guerra, porque os índios a levam quando vão à guerra longe de suas casas, e os marinheiros fazem dela sua matalotagem daqui para o Reino."
No entanto, como cultura de subsistência que era, a mandioca estava longe de ser uma prioridade entre os agricultores dos tempos coloniais. Mais interessante (e lucrativo) era plantar cana, destinada à fabricação de açúcar. Por isso, não chega a ser surpreendente que, às vezes, acontecesse faltar comida na Bahia. Para sanar esse problema tão sério, em 10 de novembro de 1690 o almotacel-mor, Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, fez passar bando pelo qual ficavam os moradores de Salvador (então "Cidade da Bahia"), até a uma distância de dez léguas, obrigados a plantar, cada um, quinhentas covas de mandioca. Desobedientes seriam multados em cem mil réis. 
Ainda assim, não foram poucos os autores que, posteriormente, continuaram a falar da falta de farinha de mandioca decorrente da absoluta prioridade outorgada ao cultivo de cana-de-açúcar.
Os muito ricos, quando torciam o nariz para alimentos elaborados com mandioca, tinham a alternativa dos artigos que vinham de Portugal e que, por isso mesmo, eram caríssimos. Na Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre (⁴), datada de 1585 e atribuída a José de Anchieta, lê-se que "alguns ricos comem pão de farinha de trigo de Portugal [...], e de Portugal também lhes vem vinho, azeite, vinagre, azeitonas, queijo, conserva e outras coisas de comer" (⁵). Isso, no entanto, já sabem os leitores, não era para qualquer um, de modo que a maior parte dos colonizadores tinha que sobreviver com os produtos da terra, coisa que devia ser a mais óbvia e natural deste mundo, se levarmos em conta as excelentes condições de cultivo e a extensão territorial dos domínios lusitanos na América.

(1) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 2. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 59.
(3) O manuscrito é de c. 1627.
(4) O padre-geral dos jesuítas em 1585 era o italiano Claudio Acquaviva.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 428.


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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Tempestade em Piratininga

Para os jesuítas que iniciaram a catequese no Brasil em meados do Século XVI quase tudo o que encontravam era novidade, desde o modo de vida da população indígena que pretendiam doutrinar às características naturais da América do Sul, com suas matas de árvores gigantescas cobrindo serras que pareciam intransponíveis. Sabemos, por exemplo, que as tempestades, no mar ou em terra, deixavam os missionários apavorados. 
Um relato de maio de 1560, incluído em uma carta escrita por José de Anchieta ao padre-geral (¹) dos jesuítas, conta de uma tormenta que abalou Piratininga, ou seja, São Paulo, causando estragos notáveis:
"Não há muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que [...] caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra." (²)
Ora, temos aqui um Anchieta verdadeiramente loquaz na descrição da tempestade, tão diferente do escritor comedido que usava ser, até por escassez de papel... É que a tormenta deve ter causado nele uma terrível impressão. Talvez hoje alguém dissesse que correspondeu à chegada de uma frente fria, mas, independente da causa, será útil recordar que, na pequenina São Paulo daqueles dias, as construções ocupadas pelos jesuítas e outros colonizadores eram deveras precárias, daí porque o estrago deve ter resultado ainda maior. Outro ponto a observar é que, como religioso, Anchieta, ao que parece, fez em sua carta uma discreta referência a uma passagem do Evangelho Segundo S. Mateus, relacionada ao que se costuma chamar de "fim do mundo": "et nisi breviati fuissent dies illis non fieret salva omnis caro sed propter electos breviabuntur dies illi..." (³) A chuva e a ventania devem ter sido brutais!...
Todavia, o mais interessante do registro de Anchieta, como ele próprio reconheceu, ainda estava à frente:
"O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dançar e beber, como se tudo estivesse em completa tranquilidade." (⁴)
Podemos supor que os indígenas, plenamente habituados às súbitas mudanças de humor das condições climáticas, julgaram melhor continuar a festança, até porque de nada valeria a muita preocupação. Nem todo o terror que viessem a expressar seria de alguma utilidade para amainar a fúria das intempéries.

(1) Na ocasião, o padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 104 e 105.
(3) Mt 24, 22: "Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria, mas foram abreviados por causa dos eleitos."
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J.  Op. cit., p. 105.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A celebração do Natal por missionários jesuítas e indígenas catequizados em São Paulo de Piratininga

Os jesuítas, a despeito de métodos inovadores que eventualmente empregavam na catequese, procuravam conformar os catecúmenos às práticas da Igreja quanto ao calendário litúrgico e à administração dos sacramentos. É o que se nota em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga por José de Anchieta, em fins de dezembro de 1556, na qual descrevia práticas associadas à celebração do Natal:
"Antes do dia do Nascimento do Senhor procuramos que [os indígenas] se confessassem, o qual fizeram muitas mulheres e alguns homens, os quais diligentemente examinamos nas coisas da fé, e o que principalmente pretendemos é que saibam o que toca aos artigos da fé, scilicet ao conhecimento da Santíssima Trindade e aos mistérios da vida de Cristo que a Igreja celebra, e que saibam, quando lhes for perguntado, dar conta destas coisas [...]." (¹)
Anchieta diria ainda:
"Neste mesmo tempo do Nascimento do Senhor se confessaram e comungaram muitas mulheres mestiças com muita devoção, o qual em outros tempos muitas vezes fazem." (²)
O que se pode observar é que a catequese não ficava restrita aos indígenas, mas tinha também como objetivo, tanto quanto fosse possível, alcançar o restante da população da aldeia de Piratininga, como se vê pela referência a "mulheres mestiças", ainda que nem sempre os colonizadores estivessem dispostos a dar atenção aos padres da Companhia (³). Em todo caso, era mais frequente que, dentre a população livre, as mulheres se mostrassem mais devotas, embora os homens, até por obrigação social, não deixassem de comparecer aos ofícios religiosos em ocasiões de maior importância. Também quanto à menção de Anchieta relativamente às "mulheres mestiças", será útil recordar que eram poucas, ou melhor, pouquíssimas as mulheres que, nesse tempo, vinham do Reino para viver no Brasil, de modo que não era incomum que colonos portugueses em Piratininga se casassem com índias, nem sempre sob as leis da Igreja. Desses casamentos nasciam os chamados mamelucos, que, nos primeiros séculos de São Paulo, viriam a ser a maioria da população.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 93.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 94.
(3) Não eram incomuns os atritos entre padres e colonizadores, tendo por principal razão as objeções que os jesuítas faziam à escravização de indígenas.


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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Esqueletos de baleia no caminho do padre Anchieta

Relatos dos primeiros tempos coloniais dão conta de que as baleias eram, então, muito numerosas no litoral brasileiro, a tal ponto que a Coroa concedia o monopólio de sua captura àquele que fizesse a proposta mais vantajosa. Ao traçar a biografia do padre José de Anchieta, Simão de Vasconcelos, jesuíta que escreveu no Século XVII, observou que, ao caminhar pelas areias de Itanhaém, seu biografado achava, pelo caminho, restos de baleias que por ali haviam encalhado:
"É a praia desta costa, por onde caminhava, tão áspera e dura, que um carro bem carregado não deixa sinal nela, e comumente embaraçada com armações desfeitas de corpos de baleias, que ali se dão à costa, cujos ossos perturbam, impedem a praia e fazem o caminho mais áspero; contudo esse mesmo caminho era a recreação de José, a pé, comumente descalço, costume seu em todas as mais peregrinações." (*)
Se vivesse no Século XXI, e supondo que caminhasse descalço pelas praias do Brasil, Anchieta não teria, por certo, que topar a cada passo com vestígios de baleias. Elas são, hoje, muito menos numerosas (por que seria?!!), embora vez ou outra, alguma ainda encalhe num ponto qualquer do litoral, dependendo então da boa vontade de ambientalistas dedicados para voltar a nadar, feliz da vida, pelas águas do Atlântico.

Esqueleto de baleia exposto em Ubatuba - SP

(*) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 169.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pássaros do Brasil

Nem pensem que vou começar esta postagem com o poema de Gonçalves Dias (¹) - hoje, só autores do Período Colonial. O fato é que os europeus que vieram ao Brasil no Século XVI não podiam, em terras da América do Sul, ouvir cantar o rouxinol. Não tinham porém, muito motivo para lamentações. Um documento escrito pelo padre Anchieta na Bahia, e datado de 31 de dezembro de 1585, nos faz crer, que, bem ao contrário, a passarada do Brasil é que levava vantagem, ao menos sob o ponto de vista de missionários e colonos:
"Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvore nem erva seca (²). Os arvoredos se vão às nuvens, de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade, e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos e canários de Portugal, e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo." (³)
Um pouco mais tarde, já no Século XVII, Nieuhof explicaria a seus leitores europeus que, no Brasil, os pássaros não tinham problemas em encontrar alimento, independente da estação:
"No Brasil os pássaros jamais sofrem falta de alimento, pois encontram-no sempre, em abundância, entre as flores e os frutos; lá, as árvores não perdem as folhas durante o inverno." (⁴)
1 - Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris)
Nem todos os pássaros são bons cantores, mas todos sabem fazer muita algazarra ao amanhecer e ao fim da tarde. Dentre os que têm belo canto, o destaque cabe, sem dúvida, aos sabiás. José Viera Couto, especialista em mineralogia que comandou o Distrito Diamantino e que em 1801 andou em expedição aos sertões do Abaeté, para avaliar a viabilidade da exploração de diamantes e metais preciosos naquela área, anotou em seu relatório de viagem:
"Em todos estes dois dias sobre tardinha, e nas manhãs ao romper da alva, um sabiá, em extremo insigne cantor, vinha sempre pousar em uma alta árvore que ficava sobre nossas cabeças, e aí vibrando suas asas, e todo se remexendo, desfazia-se em gorjeios, que naquela espantosa solidão onde estávamos, junto com o mavioso e saudoso tom que é natural a estes pássaros, muito e muito mais nos enchiam e penetravam desta suave paixão. Não só as brutas pedras e os [...] metais terão lugar nestas minhas Memórias. Tu também, inocente habitante destes ermos o terás, e se o Céu me escuta, teus dias serão longos, pois tanto de agradeci teu canto e tua visita." (⁵)
Vieira Couto não especificou qual a espécie de sabiá observada, mas a descrição combina muito bem com o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), que, em época de reprodução, pode ser ouvido de longe, não só em áreas florestadas, mas também, já há algum tempo, nas cidades, onde parece ter-se acomodado a gosto.
Pois bem, senhores leitores, é primavera no Brasil, e a passarada anda na maior cantoria por toda parte. Mais uma vez chegou o tempo de fazer ninhos e alimentar os filhotes. Enquanto isso, vai aqui uma ocupação para os que leem esta postagem: nem todas os pássaros das fotos foram identificados (fotos 7, 8, 9 e 10). Quem souber o nome de algum e quiser ajudar pode escrever no espaço para comentários, sim?

Atualização em 14 de fevereiro de 2016:

O nº 8 é um garibaldi macho (Chrysomus ruficapillus); o nº 10 é um sabiá-do-campo (Mimus saturninus). Ficam esperando identificação os pássaros 7 e 9. Quem se candidata?


2 - Anu-preto (Crotophaga ani)

3 - Cabeça-vermelha ou cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana)

4 - Canário-da-terra (Sicalis flaveola)

5 - João-de-barro (Furnarius rufus)

6 - Lavadeira (Fluvicola nengeta)

7 - ???

8 - ???

9 - ???

10 - ???

(1) Poeta do romantismo brasileiro (1823 - 1864).
(2) É evidente que Anchieta não conhecia nem o cerrado e nem a caatinga, biomas de savana existentes no Brasil.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 430 e 431.
(4) NIEUHOF, Jean. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 44.
(5) COUTO, José Vieira. Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842, p. 71.


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