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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Condições para o sucesso de um minerador no Brasil Colonial

Quantos escravos um minerador precisava ter


Quase tudo o que se fazia no Brasil Colonial pressupunha o emprego de mão de obra escrava, quer de indígenas, quer de africanos ou seus descendentes. Foi assim nas plantações de cana, nos engenhos em que açúcar e aguardente eram fabricados, foi assim nas áreas de cultivo de tabaco, e foi também na mineração.
Vários autores dos Séculos XVII e XVIII foram enfáticos em dizer que, sem escravos, era impossível que um colonizador obtivesse sucesso em seus empreendimentos. A imagem mais forte desse pressuposto talvez seja mesmo a que usou Antonil, ao afirmar que os escravos eram "as mãos e os pés de um senhor de engenho". No pensamento então corrente, nada podia ser feito sem o trabalho de cativos.
A descoberta de ouro nas Gerais, em Goiás e no Cuiabá não alterou em nada a mentalidade escravista reinante. Muitos dos primeiros descobridores nada sabiam a respeito de técnicas de extração aurífera, e se não fossem os escravos, que traziam da África alguma experiência no ramo, seria quase impossível aos sertanistas arrancar da terra o cobiçado metal. A questão é: quantos escravos um minerador precisava ter?
De acordo com José Vieira Couto (que foi intendente no Distrito Diamantino), a providência inicial de qualquer minerador era ter entre cinquenta e cem cativos efetivamente trabalhando:
"Este mineiro empenha-se primeiramente em levantar uma fábrica de cinquenta ou cem escravos, porquanto com menos disso pouca coisa faz." (¹)
Vejam os leitores, portanto, que era necessário um capital nada desprezível para dar início a um empreendimento minerador, visto que, nas minas, um escravo jovem e saudável era vendido por preço exorbitante. O problema é que, devido à insalubridade do trabalho, a expectativa de vida de um escravo era baixa, e o minerador precisava, constantemente, repor trabalhadores para o lugar dos que morriam. Escreveu o já citado Vieira Couto:
"[...] Um mineiro, que tem cem negros (²), no fim de dez anos não os reformando não terá senão cinquenta, ou pouco mais, perdendo anos por outros um em cada vintena, e às vezes em cada quinzena; e os outros cinquenta, que lhe restam, estão com menos de uma sexta parte de vida [sic] [...]." (³)

A vida nas minas para homens livres e para escravos


Mineração no Brasil Colonial (⁴)

Estudos têm demonstrado que a condição de vida dos escravos nos engenhos açucareiros era lamentável, enquanto que nas minas, a despeito do trabalho duríssimo, um cativo podia viver melhor, sempre com a esperança da alforria, na hipótese de encontrar uma grande quantidade de metal precioso e ser, por isso, libertado pelo senhor. Era possível, aos domingos e feriados, faiscar ouro em áreas de baixo rendimento, e há relatos de escravos que, dessa forma, acabaram juntando o necessário para a compra da liberdade.  
Por seu turno, a vida dos mineradores nem sempre era das mais promissoras, e muita gente, na febre de enriquecer do dia para a noite, acabava investindo o que tinha, para perder tudo logo em seguida. Como já visto, era preciso gastar com a compra de escravos, além de ferramentas e outros equipamentos que, por mais rústicos que fossem, tinham seu preço; era preciso também contratar trabalhadores livres especializados - Vieira Couto menciona ferreiros, carpinteiros, carreiros e pedreiros - o que significava, por suposto, pagar salários, independente da quantidade de ouro que se extraía. Era preciso alimentar os escravos, e, nas minas, o preço dos alimentos chegava às nuvens, já que tudo vinha de longe.  Finalmente, havia os "Reais Quintos", impostos que deviam ser pagos à Coroa. Vê-se, pois, que para um minerador ter sucesso, devia fazer um investimento elevado, cujo retorno, em grande parte, dependia da boa sorte para encontrar muito mineral precioso, e isso, como se sabe, era para poucos.

(1) COUTO, José Vieira. Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842, p. 24.
(2) Notem os leitores que José Vieira Couto empregava a palavra "negros" como sinônimo de escravos...
(3) COUTO, José Vieira. Op. cit., p. 24
(4) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pássaros do Brasil

Nem pensem que vou começar esta postagem com o poema de Gonçalves Dias (¹) - hoje, só autores do Período Colonial. O fato é que os europeus que vieram ao Brasil no Século XVI não podiam, em terras da América do Sul, ouvir cantar o rouxinol. Não tinham porém, muito motivo para lamentações. Um documento escrito pelo padre Anchieta na Bahia, e datado de 31 de dezembro de 1585, nos faz crer, que, bem ao contrário, a passarada do Brasil é que levava vantagem, ao menos sob o ponto de vista de missionários e colonos:
"Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvore nem erva seca (²). Os arvoredos se vão às nuvens, de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade, e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos e canários de Portugal, e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo." (³)
Um pouco mais tarde, já no Século XVII, Nieuhof explicaria a seus leitores europeus que, no Brasil, os pássaros não tinham problemas em encontrar alimento, independente da estação:
"No Brasil os pássaros jamais sofrem falta de alimento, pois encontram-no sempre, em abundância, entre as flores e os frutos; lá, as árvores não perdem as folhas durante o inverno." (⁴)
1 - Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris)
Nem todos os pássaros são bons cantores, mas todos sabem fazer muita algazarra ao amanhecer e ao fim da tarde. Dentre os que têm belo canto, o destaque cabe, sem dúvida, aos sabiás. José Viera Couto, especialista em mineralogia que comandou o Distrito Diamantino e que em 1801 andou em expedição aos sertões do Abaeté, para avaliar a viabilidade da exploração de diamantes e metais preciosos naquela área, anotou em seu relatório de viagem:
"Em todos estes dois dias sobre tardinha, e nas manhãs ao romper da alva, um sabiá, em extremo insigne cantor, vinha sempre pousar em uma alta árvore que ficava sobre nossas cabeças, e aí vibrando suas asas, e todo se remexendo, desfazia-se em gorjeios, que naquela espantosa solidão onde estávamos, junto com o mavioso e saudoso tom que é natural a estes pássaros, muito e muito mais nos enchiam e penetravam desta suave paixão. Não só as brutas pedras e os [...] metais terão lugar nestas minhas Memórias. Tu também, inocente habitante destes ermos o terás, e se o Céu me escuta, teus dias serão longos, pois tanto de agradeci teu canto e tua visita." (⁵)
Vieira Couto não especificou qual a espécie de sabiá observada, mas a descrição combina muito bem com o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), que, em época de reprodução, pode ser ouvido de longe, não só em áreas florestadas, mas também, já há algum tempo, nas cidades, onde parece ter-se acomodado a gosto.
Pois bem, senhores leitores, é primavera no Brasil, e a passarada anda na maior cantoria por toda parte. Mais uma vez chegou o tempo de fazer ninhos e alimentar os filhotes. Enquanto isso, vai aqui uma ocupação para os que leem esta postagem: nem todas os pássaros das fotos foram identificados (fotos 7, 8, 9 e 10). Quem souber o nome de algum e quiser ajudar pode escrever no espaço para comentários, sim?

Atualização em 14 de fevereiro de 2016:

O nº 8 é um garibaldi macho (Chrysomus ruficapillus); o nº 10 é um sabiá-do-campo (Mimus saturninus). Ficam esperando identificação os pássaros 7 e 9. Quem se candidata?


2 - Anu-preto (Crotophaga ani)

3 - Cabeça-vermelha ou cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana)

4 - Canário-da-terra (Sicalis flaveola)

5 - João-de-barro (Furnarius rufus)

6 - Lavadeira (Fluvicola nengeta)

7 - ???

8 - ???

9 - ???

10 - ???

(1) Poeta do romantismo brasileiro (1823 - 1864).
(2) É evidente que Anchieta não conhecia nem o cerrado e nem a caatinga, biomas de savana existentes no Brasil.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 430 e 431.
(4) NIEUHOF, Jean. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 44.
(5) COUTO, José Vieira. Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842, p. 71.


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