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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Sobre mamões e mamoeiros

Mamão papaia

Mamoeiro, conforme
ilustração do Século XVII (¹) 
Quando alguém quer dizer que uma coisa é fácil de ser feita, afirma que é "como mamão com açúcar". Pois bem, nem mamão, nem açúcar, faltavam no Brasil Colonial.
Não é tarefa simples descrever uma fruta para alguém que não a viu ou provou. Comparações são inevitáveis, e podem ser mais ou menos felizes. Já tratei disso aqui no blog quando escrevi sobre o modo como europeus e americanos descreveram as jabuticabas. Mas, e quanto ao mamão papaia?
Há uma descrição muito interessante feita por Nieuhof, que esteve no chamado "Brasil holandês" entre 1640 e 1649 - Século XVII, portanto:
"Entre os vegetais que proliferam tanto nas Índias Ocidentais como nas Orientais, acha-se o que os japoneses e holandeses chamam papaia e os americanos apelidam mamoeiro e pinoguaçu; os nossos às vezes chamam árvore de melão dada a semelhança de seu fruto com o nosso melão. Há duas qualidades dessa árvore: macho e fêmea. Cresce e morre em curto espaço de tempo. Seu tronco é de tal forma esponjoso que se pode cortá-lo com a mesma facilidade com que se corta um talo de couve. [...]." (²) 
Mamoeiro
É preciso perdoar a Nieuhof certa confusão entre as várias espécies de mamão. O papaia (Carica papaya) é que é nativo do Continente Americano, mas há variedades de mamão originárias de outras regiões. Para dizer a verdade, não acho o sabor do mamão papaia nada semelhante ao de qualquer variedade de melão que eu conheça. Mas essa era a opinião de Nieuhof, e é necessário respeitá-la. 
Em seguida, Nieuhof passa a descrever as folhas do mamoeiro e mais algumas características dos frutos:
"[...] As folhas são grandes e largas e assemelham-se às da videira, desenvolvendo-se na ponta de longas hastes em torno do topo, onde protegem os frutos, que nascem agrupados. Estes, verdes, quando novos, tornam-se finalmente amarelos e têm o formato de uma pera; seu porte, entretanto, é o de um melão pequeno cuja polpa também lembra, tanto em cor como em paladar, quando maduros. Quando verde, coze-se com a carne a fim de dar-lhe certo gosto picante." (³) 
Não tenho muito a opinar sobre o uso de mamão verde com carne porque sou vegetariana, mas amigos me asseguraram que o "leite" de papaia ainda verde pode mesmo ser útil no preparo de carnes para churrasco. Estou certa, contudo, de que se pode fazer excelente doce com a polpa de mamões verdes, que ganharão um sabor maravilhoso se, além do açúcar de alta qualidade, receberem, durante o preparo, algumas folhas de figueira, exatamente do mesmo modo como os doces que se faziam em fogões a lenha em fazendas do Século XIX. O que me dizem, leitores?

(1) Cf. PISO (PIES), Willen et MARKGRAF Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. São Paulo: Livraria Martins, s.d.,  p. 292.
(3) Ibid. 


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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Crianças indígenas (na visão dos colonizadores)

Colonização e catequese trouxeram mudanças significativas ao modo como viviam os povos indígenas da América. Estrutura familiar, práticas de sociabilidade e valores foram afetados, de modo que, em não poucos casos, fica difícil saber quais eram os costumes originais, até porque quase tudo o que conhecemos sobre os ameríndios, com os quais europeus travaram contato desde fins do Século XV e ao longo do Século XVI, vem de relatos dos próprios colonizadores, que expunham em seus escritos o modo como interpretavam o que viam, e não necessariamente aquilo que, de fato, acontecia.
A mais antiga referência conhecida a uma criança nativa do Brasil está na Carta do "Achamento", escrita por Pero Vaz de Caminha, que, como se sabe, integrava a expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, expedição essa que, ao menos oficialmente, era destinada às Índias, onde se esperava que estabelecesse vínculos comerciais mais fortes que os alcançados pela esquadra de Vasco da Gama. Após pisar em terra e travar contato com indígenas, Caminha observou: "Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum."
Embora a imagem seja de quase cento e cinquenta anos após o Descobrimento, o que Caminha deve ter visto seria mais ou menos o que encontramos na Figura 1, que aparece em Historia naturalis Brasiliae, publicada na Holanda em 1648 (¹); uma imagem alternativa, na qual o bebê indígena é mostrado dentro de um cesto, pode ser encontrada em Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien, de Nieuhof, publicação também holandesa, datada de 1682 (²), conforme a Figura 2:


Como já disse, não podemos ter certeza absoluta de que tudo o que diziam os colonizadores e missionários estava correto, mas, se dermos crédito ao que escreveram ao longo do Século XVI, os meninos e meninas indígenas deviam ser muito mais felizes que as crianças europeias da mesma idade, submetidas, tradicionalmente, a uma educação severa, tanto por parte dos pais quanto dos professores. Segundo Gabriel Soares, os tupinambás eram bastante gentis no trato com seus filhos:
"Não dão os tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os doutrinam, nem os repreendem por coisa que façam; aos machos ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo, e depois aos pássaros, e trazem-nos sempre às costas até a idade de sete e oito anos, e o mesmo às fêmeas; e uns e outros mamam na mãe até que torna a parir outra vez, pelo que mamam muitas vezes seis e sete anos; às fêmeas ensinam as mães a enfeitar-se, como fazem as portuguesas, e a fiar algodão, e a fazer o mais serviço de suas casas conforme é seu costume." (³)
Sem ilusões, leitores: a educação, salvo raríssimas exceções, tende a reproduzir na geração mais jovem aquilo que a geração adulta considera certo ou errado. Qualquer coisa fora disso escaparia, com absoluta certeza, à regra que encontramos, sob inúmeras versões, por todo este planeta. Mas vamos adiante, com as impressões do missionário jesuíta Fernão Cardim, contemporâneo de Gabriel Soares:
"Os pais [indígenas] não têm coisa que mais amem que os filhos [...]; nenhum gênero de castigo têm para os filhos, nem há pai nem mãe que em toda a vida castigue nem toque em filho [...]; em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mães, e todos muito amáveis e aprazíveis: têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muito mais festa e alegria que os meninos portugueses; nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras e outros animais, etc.; os jogos são mui graciosos e desenfadiços, nem há entre eles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas ou nomes ruins e desonestos [...]." (⁴) Sim, leitores, caberiam aqui uns quantos pontos de exclamação!!!
Não há como saber se tudo era assim, ou se Soares e Cardim exageravam. Cabe muito bem a observação, todavia, de que, como jesuíta que era, Fernão Cardim estava habituado a viver entre os índios, e devia saber do que falava. Assumindo, portanto, em linhas gerais, a veracidade de seu relato, teríamos um bom motivo para concordar com os que diziam que na América estava o verdadeiro paraíso terrestre - não em todos os aspectos, claro, mas quanto ao comportamento das crianças.

(1) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270.
(2) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 224.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 314.
(4) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 40 e 41.


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Preocupações ambientais: do "Brasil holandês" à época da Independência

Embora não haja muito rigor técnico na expressão, é comum que o período de permanência de holandeses no Nordeste brasileiro entre 1630 e 1654 seja chamado de "Brasil holandês". Esse tempo teve início sob a União Ibérica (¹) e a rivalidade entre a Espanha e os Países Baixos explica, ao menos em parte, a tentativa de estabelecimento de uma colônia holandesa nas ricas áreas de produção açucareira do Nordeste.
É fato que todo o período colonial, independente de quem estivesse no comando, foi assinalado por uma exploração dos recursos naturais disponíveis, com pouca preocupação quanto às questões de preservação ambiental. Como regra, esse não era um tema que naquela época despertasse muito interesse, mesmo porque o objetivo principal era sempre extrair ou produzir aquilo que pudesse ser vendido na Europa com altos lucros.
Apesar disso, durante os anos de presença holandesa, vez por outra houve uma lembrança de que os recursos naturais não eram ilimitados, daí a ocorrência de recomendações no sentido de preservá-los. Dois casos serão suficientes para demonstração desse fato, ambos relatados por Jean Nieuhof, em sua Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. Lembremo-nos de que esse autor viveu em Pernambuco entre os anos 1640 e 1649.
Referindo-se à Ilha de Itamaracá, Nieuhof observou que "em certa época, foi ela grandemente infestada por animais selvagens que depredaram os canaviais. Foi então que Pieter Bas, diretor da Capitania de Itamaracá, consultou o Conde Maurício e o Grande Conselho, em 1647, sobre se seria melhor empreitar a destruição desses animais daninhos ou dar-lhes caça a fim de servir de alimento às guarnições." (²)
Imaginam os leitores que, por consequência, um festival de caça foi organizado, não é? Nada disso. Explicou Nieuhof:
"O Conselho, entretanto, rejeitou ambas as alternativas e limitou-se a aconselhar o povo a que não sacrificasse inutilmente os animais, abatendo apenas os que invadissem as plantações, pois era do interesse da Companhia preservá-los para uma eventual necessidade. Os canaviais poderiam ser protegidos por meio de cercas de pau a pique, evitando assim que fossem danificados." (³)
Lembrando, de passagem, que essa prática tão sábia bem podia valer até hoje, vamos ao outro caso de que temos notícia, em virtude de um registro pelo já mencionado Jean Nieuhof. Dessa vez o alvo das preocupações conservacionistas foi o célebre pau-brasil, que era, então, extraído em proporções absurdas:
"Quando os holandeses conquistaram parte do Brasil, encontraram grande quantidade dessa madeira já preparada e pronta para ser utilizada. Essas partidas foram, porém, pelos portugueses, vendidas à Companhia holandesa. Desde então tanto portugueses como holandeses passaram a cortar pau-brasil em larga escala, e tal foi a quantidade de madeira exportada em 1646 e 1647, que os membros do Grande Conselho do Brasil Holandês, Srs. Hendrik Hamel, Bullestrate e Kodde, conhecedores dos ruinosos métodos adotados no corte dessa árvore - e que com o correr do tempo poderia acarretar o seu extermínio - fizeram publicar uma proclamação coibindo tais abusos." (⁴)
Neste ponto será bom recordar que, após a saída dos holandeses, tendo Portugal retomado o controle pleno do Brasil, não foram poucas as vezes em que, ao enviar governantes, o monarca luso incluiu, em suas instruções, ordens expressas no sentido de que se evitassem as derrubadas inúteis de matas, de que engenhos não fossem construídos a pouca distância uns dos outros (pois não seria possível que houvesse madeira suficiente para todos), ou mesmo de que se restringisse a captura de baleias no litoral brasileiro, já que estas, antes bastante numerosas, começavam a escassear. 
Tais medidas, no entanto, provaram-se sempre insuficientes. A administração colonial, ainda que eventualmente quisesse executar as ordens, parecia incapaz de fiscalizar seu cumprimento. O resultado disso, sem mais rodeios, foi que, pela época da Independência, já havia muitas regiões do Brasil que não tinham, nem de leve, o aspecto primitivo. Saint-Hilaire, naturalista francês que esteve em São Paulo em 1822, observou:
"A cerca de uma légua de Guaratinguetá, a vegetação dos brejos desaparece completamente, mas é difícil determinar se o que apreciamos é, em toda a parte, resultante do trabalho destruidor dos homens, ou se, em alguns pontos, a paisagem foi sempre tal qual a vemos hoje. Em nenhum trecho deparamos com verdadeiras florestas virgens." (⁵)
Interessante é que o próprio Saint-Hilaire, em um rasgo quase profético, acabaria por assumir que tinha consciência do valor de seu trabalho, ao descrever as paisagens naturais que ainda podiam ser encontradas, antes que chegasse o tempo em que elas não mais existiriam:
"[...] Julgo não ter sido inútil à ciência, fazendo conhecer a topografia botânica das diversas regiões que visitei e cuja vegetação primitiva ainda não desapareceu. Saber-se-á, assim, o que foram essas belas campinas antes de se transformarem nas culturas de milho, de mandioca ou de cana-de-açúcar que um dia as cobrirão; e, talvez, qualquer amante da natureza terá saudade das brilhantes flores dos campos, da majestade das florestas virgens, dos cipós enlaçados em festões pelas árvores e da imponente voz dos desertos." (⁶)
Ah, leitor, em nosso tempo em que já nem são mais os cultivos agrícolas que recobrem muitas das áreas percorridas por Saint-Hilaire, bem podemos avaliar o quanto tinha ele razão. Retorno ao passado? Não é possível, e talvez, sob alguns aspectos, nem seja desejável. Mas é perfeitamente razoável esperar, hoje, um manejo inteligente dos recursos naturais com que este País é favorecido.

(1) 1580 - 1640.
(2) NIEUHOF, Jean. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 49.
(3) Ibid., pp. 49 e 50.
(4) Ibid., pp. 297 e 298.
(5) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 197.
(6) Ibid., p. 199.


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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Escorbuto

A alimentação pobre em vitamina C provocou muitas mortes entre marinheiros na era das grandes navegações


O escorbuto, como se sabe, é causado pela carência de vitamina C (¹). Embora já conhecido muito antes, foi ao tempo das grandes navegações que sua ocorrência veio a ser mais notada, porque os marujos ficavam longo tempo no mar, submetidos a uma alimentação péssima, e, como não poderia deixar de ser, quase sem ingredientes frescos. O problema era então gravíssimo, e muitos acabavam morrendo. 
Que tal um limão?
Todas as providências adotadas na época eram falhas, uma vez que a causa da doença era desconhecida. Ninguém sequer sabia da existência de vitaminas, e só muito tempo depois é que se verificou que um suprimento de limões e outras frutas cítricas podia ser muito útil para debelar os casos de escorbuto. 
Por séculos, no entanto, as gengivas inchadas e sangrando, que  aterrorizavam os valentes exploradores do oceano como sinal fatídico da doença, foram atribuídas a causas que não estavam de modo algum associadas a ela. Nieuhof, que esteve no "Brasil Holandês" entre 1640 e 1649, escreveu, logo depois de cruzar a Linha do Equador:
"O calor, aí, é terrível e a grande escassez de água potável - pois que se não pode contar com a das chuvas, alterada pelo ardor dos raios solares - constitui a causa principal do escorbuto." (²)
Como os leitores pode ver, Nieuhof estava completamente errado. No entanto, até que a verdadeira causa fosse descoberta, muita gente perdeu a vida, submetida, talvez, a tratamentos que nada tinham de eficazes (³).

(1) Ácido ascórbico.
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, s.d., p. 7.
(3) O que surpreende é saber que ainda hoje há casos de escorbuto, e não simplesmente entre pessoas que não têm acesso a uma alimentação saudável. Ocorrem em gente que, por negligência ou desconhecimento, adota uma dieta equivocada.


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pássaros do Brasil

Nem pensem que vou começar esta postagem com o poema de Gonçalves Dias (¹) - hoje, só autores do Período Colonial. O fato é que os europeus que vieram ao Brasil no Século XVI não podiam, em terras da América do Sul, ouvir cantar o rouxinol. Não tinham porém, muito motivo para lamentações. Um documento escrito pelo padre Anchieta na Bahia, e datado de 31 de dezembro de 1585, nos faz crer, que, bem ao contrário, a passarada do Brasil é que levava vantagem, ao menos sob o ponto de vista de missionários e colonos:
"Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvore nem erva seca (²). Os arvoredos se vão às nuvens, de admirável altura e grossura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade, e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos e canários de Portugal, e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo." (³)
Um pouco mais tarde, já no Século XVII, Nieuhof explicaria a seus leitores europeus que, no Brasil, os pássaros não tinham problemas em encontrar alimento, independente da estação:
"No Brasil os pássaros jamais sofrem falta de alimento, pois encontram-no sempre, em abundância, entre as flores e os frutos; lá, as árvores não perdem as folhas durante o inverno." (⁴)
1 - Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris)
Nem todos os pássaros são bons cantores, mas todos sabem fazer muita algazarra ao amanhecer e ao fim da tarde. Dentre os que têm belo canto, o destaque cabe, sem dúvida, aos sabiás. José Viera Couto, especialista em mineralogia que comandou o Distrito Diamantino e que em 1801 andou em expedição aos sertões do Abaeté, para avaliar a viabilidade da exploração de diamantes e metais preciosos naquela área, anotou em seu relatório de viagem:
"Em todos estes dois dias sobre tardinha, e nas manhãs ao romper da alva, um sabiá, em extremo insigne cantor, vinha sempre pousar em uma alta árvore que ficava sobre nossas cabeças, e aí vibrando suas asas, e todo se remexendo, desfazia-se em gorjeios, que naquela espantosa solidão onde estávamos, junto com o mavioso e saudoso tom que é natural a estes pássaros, muito e muito mais nos enchiam e penetravam desta suave paixão. Não só as brutas pedras e os [...] metais terão lugar nestas minhas Memórias. Tu também, inocente habitante destes ermos o terás, e se o Céu me escuta, teus dias serão longos, pois tanto de agradeci teu canto e tua visita." (⁵)
Vieira Couto não especificou qual a espécie de sabiá observada, mas a descrição combina muito bem com o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), que, em época de reprodução, pode ser ouvido de longe, não só em áreas florestadas, mas também, já há algum tempo, nas cidades, onde parece ter-se acomodado a gosto.
Pois bem, senhores leitores, é primavera no Brasil, e a passarada anda na maior cantoria por toda parte. Mais uma vez chegou o tempo de fazer ninhos e alimentar os filhotes. Enquanto isso, vai aqui uma ocupação para os que leem esta postagem: nem todas os pássaros das fotos foram identificados (fotos 7, 8, 9 e 10). Quem souber o nome de algum e quiser ajudar pode escrever no espaço para comentários, sim?

Atualização em 14 de fevereiro de 2016:

O nº 8 é um garibaldi macho (Chrysomus ruficapillus); o nº 10 é um sabiá-do-campo (Mimus saturninus). Ficam esperando identificação os pássaros 7 e 9. Quem se candidata?


2 - Anu-preto (Crotophaga ani)

3 - Cabeça-vermelha ou cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana)

4 - Canário-da-terra (Sicalis flaveola)

5 - João-de-barro (Furnarius rufus)

6 - Lavadeira (Fluvicola nengeta)

7 - ???

8 - ???

9 - ???

10 - ???

(1) Poeta do romantismo brasileiro (1823 - 1864).
(2) É evidente que Anchieta não conhecia nem o cerrado e nem a caatinga, biomas de savana existentes no Brasil.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 430 e 431.
(4) NIEUHOF, Jean. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 44.
(5) COUTO, José Vieira. Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842, p. 71.


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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Como os indígenas do Nordeste preparavam carne assada

Administradores e militares que estiveram no chamado "Brasil Holandês" no Século XVII demonstravam uma intensa curiosidade sobre a fauna e a flora da América do Sul. Tinham também muito interesse em compreender o modo de vida dos povos indígenas com os quais entravam em contato. Não poucos desses europeus chegaram a ter um razoável conhecimento da língua predominante entre os ameríndios que, na época, viviam no Nordeste do Brasil. 
Joan Nieuhof esteve em Pernambuco entre 1640 e 1649. A maior importância de sua obra está ligada aos relatos vívidos que deixou das escaramuças entre os defensores do domínio holandês e os partidários de senhores de engenho de origem lusitana. Não obstante, em sua Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil há também descrições pitorescas do que era, então, a vida diária no Nordeste açucareiro. É fato que algumas dessas informações são provenientes de outros autores (como Piso e Markgraf), mas Nieuhof viveu bastante tempo na América do Sul e tinha muito para contar.
Uma de suas observações, com certeza resultante do contato com indígenas, refere-se ao modo como eles assavam carne. Escreveu Nieuhof:
"Para assar carne, procedem da seguinte maneira: cavam um buraco no chão, forram-no com folhas sobre as quais colocam a carne que vão preparar; cobrem-na com folhas da mesma espécie e depositam sobre uma camada de terra ou areia. Sobre essa arrumação acendem uma fogueira, que deixam arder até que presumam estar a carne suficientemente assada. Se acertam o ponto, a carne fica excelente, melhor que a preparada por qualquer outro processo. A esse sistema de preparar chamam Biaribi." (*)
Façamos umas poucas considerações:
  • Nieuhof falava apenas de indígenas do Nordeste do Brasil e, portanto, ninguém deve supor que a mesma técnica fosse seguida por todos os demais grupos ameríndios;
  • Ao contrário do que ocorria com muitos colonizadores, Nieuhof parecia ter grande interesse na cultura local, e sua observação sobre a preparação da carne assada sugere que, provavelmente, chegou a experimentá-la;
  • Sendo nômades ou seminômades, os indígenas dominavam técnicas simples de sobrevivência que podem ter sido muito úteis aos militares europeus durante os anos de guerra em Pernambuco, quando era necessário lutar em áreas sem quaisquer dos recursos comuns à civilização da qual provinham.
Para algum leitor que esteja inquieto quanto ao que aconteceu a Nieuhof (sabendo que a Companhia das Índias Ocidentais foi obrigada a sair do Brasil), informo que ele, ao perceber que o domínio holandês no Nordeste estava com os dias contados, conseguiu, depois de muita insistência, uma autorização para regressar à Holanda. Mais tarde continuou suas andanças pelo mundo afora, até que desapareceu sem que dele houvesse mais notícia. A primeira edição da Memorável Viagem Marítima, publicada em Amsterdã no ano de 1682, foi iniciativa de seu irmão, que quis prestar-lhe uma homenagem.

(*) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 303.


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