quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Em 6 de janeiro de 1631

Foi há trezentos e noventa e um anos: a rica área colonial de produção de açúcar que era Pernambuco fora ocupada, no ano anterior, por holandeses da Companhia das Índias Ocidentais. Havia ainda alguma resistência local, feita mais com coragem, às vezes sob coerção, do que com recursos bélicos. Mas era justamente por causa dessa frágil resistência que as forças holandesas, cuja meta era controlar a produção açucareira, fazendo dela um negócio altamente lucrativo, estavam virtualmente aprisionadas junto ao local de desembarque. Nada de obter açúcar e, pior ainda, não havia sequer facilidade em conseguir água potável, lenha e vegetais frescos para a alimentação, de modo que a vida dos recém-chegados se fazia muito difícil. 
Nesse contexto é que se deu o episódio de 6 de janeiro de 1631, assim descrito por Duarte de Albuquerque Coelho:
Caju maduro
"Em seis [de janeiro] ordenou o general (¹) ao capitão Pedro Teixeira Franco, que junto com Matias de Albuquerque Maranhão [,,,] fosse fazer uma emboscada junto à vila, onde havia árvores chamadas cajueiros, e era o próprio tempo de seu fruto (²)."
(³) 
A escolha do local para a emboscada foi decisiva para que holandeses e portugueses (⁴) tivessem ocasião para um desafio às armas. Foi assim que aconteceu, ainda conforme Duarte de Albuquerque Coelho:
"[...] Quis sua sorte [sic] que encontrassem quatrocentos inimigos (⁵), tão descuidados que muitos andavam sobre as próprias árvores comendo a fruta, que, sendo doce, fizemos, com pouco esforço nosso, que lhes parecesse muito amarga. Sem resistência degolamos cento e sessenta, e entre eles um capitão inglês. [...]." (⁶)
Apenas dois breves comentários, e com eles vamos concluir. Primeiro, é preciso dizer que nem todos os soldados a serviço da Companhia das Índias Ocidentais eram holandeses - havia muita gente contratada em diversos países e, por isso, a presença de um capitão inglês não é surpresa. E, para os que ficaram horrorizados com a menção a cento e sessenta homens degolados, deve-se informar que, nessa guerra tal prática foi absolutamente corriqueira. São tantas as referências a isso na obra de Duarte de Albuquerque que seria entediante fazer a conta. Coisa do Século XVII? Não: na Guerra de Canudos, durante a última década do Século XIX, degolar sertanejos aprisionados foi um procedimento usado para aterrorizar os seguidores de Antônio Conselheiro. O tempo da luta contra holandeses já ia longe e a guerra, neste caso, era de brasileiros contra brasileiros.

(1) Nessa ocasião o comando geral da resistência estava a cargo de Matias de Albuquerque. Matias de Albuquerque Maranhão, também citado no documento, é outra pessoa.
(2) No caju, a parte carnosa é um pseudofruto decorrente do desenvolvimento do pedúnculo floral. A castanha é o fruto verdadeiro. 
(3) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memorias Diarias de la Guerra del Brasil. Madrid: Diego Diaz de la Carrera, Impressor del Reyno, 1654. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(4) Nesse tempo, tanto os que vinham do Reino como os nascidos no Brasil eram, ainda, considerados todos portugueses.
(5) Soldados a serviço da Companhia das Índias Ocidentais. 
(6) COELHO, Duarte de Albuquerque. Op. cit. 


Veja também: 

2 comentários:

  1. "E, para os que ficaram horrorizados com a menção a cento e sessenta homens degolados". Eu fui um dos que se assustou com a quantidade de pessoas e a forma de descrever a situação.

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    1. Boa tarde, Wendell, pode ser horripilante, mas era muito comum. Pior ainda: essa prática não desapareceu por completo, ouvimos falar dela há poucos anos (em outro lugar do mundo, é verdade). Lembra-se?

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