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quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Hortas nas reduções jesuíticas na América do Sul

Os jesuítas que estabeleceram reduções indígenas na América do Sul tinham, em cada uma delas, uma horta devidamente provida, tanto de vegetais nativos como daqueles que haviam vindo da Europa com colonizadores. Em referência a uma dessas hortas, o cônego João Pedro Gay (¹) afirmou que era "murada de pedra e barro, com ruas alinhadas e plantadas de pinheiros, laranjeiras, limoeiros, marmeleiros, macieiras, pessegueiros, nogueiras da Europa, oliveiras, parreiras e outras muitas árvores e arbustos, tanto indígenas como exóticos [...]" (²). 
Assim descrita, a horta seria, com mais justiça, chamada pomar. É pena que o cônego João Pedro Gay não tenha citado por nome os arbustos cultivados, porque entre eles poderiam estar algumas plantas aromáticas muito apreciadas. Embora não mencionadas por ele, hortaliças em geral eram também cultivadas. Disso se podem tirar pelo menos duas conclusões:
  • A existência das hortas permitiu que espécies conhecidas pelos colonizadores, mas não nativas, fossem, em alguns casos, introduzidas, e, em outros, tivessem o cultivo desenvolvido e disseminado na América do Sul, um fato que talvez os jesuítas não tenham premeditado, mas para cuja ocorrência, de qualquer modo, contribuíram;
  • As hortas dos jesuítas incluíam espécies que hoje não são muito comuns na América do Sul, o que prova que seu cultivo era possível, e que razões variadas devem ter contribuído para que o plantio não se generalizasse em outras áreas de colonização.

(1) Foi cônego em São Borja - RS no Século XIX e estudioso das missões jesuíticas na América do Sul. 
(2) GAY, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. de Domingos Luiz dos Santos, 1863, pp. 237 e 238.


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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Argumentos para trazer missionários jesuítas ao Brasil no Século XVI

Houve, no Século XVI, alguns casos de jesuítas que, estando muito doentes em Portugal, decidiram vir ao Brasil, acreditando que gastariam bem seus últimos dias sobre a terra se estivessem ocupados na catequese de indígenas. Ocorre que, ao chegarem ao Continente Americano, não só recuperaram a saúde, como ainda viveram largos anos, estimando-se que a mudança de ares fora a causa desse (quase) milagre. A despeito dos riscos inerentes à travessia do Atlântico, a vinda ao Brasil passou a ser vista como uma possibilidade de melhora na saúde dos padres que, vivendo no Reino, não encontravam alívio nos tratamentos a que eram submetidos. Convenhamos: a medicina da época não ajudava muito.
Mesmo assim, era reduzido o número de missionários envolvidos na catequese de indígenas e no ensino dos meninos, filhos de portugueses, e, por essa razão, os jesuítas encarregados da redação de cartas para seus irmãos de Ordem, viviam citando as palavras de Jesus nos Evangelhos, de que a seara era mesmo grande, mas eram poucos os trabalhadores (¹). Era preciso pedir mais gente para tanto trabalho. 
Que argumentos mais poderiam ser úteis para encorajar candidatos a missionários? Uma carta escrita na Bahia em setembro de 1560 pelo padre Rui Pereira, destinada aos jesuítas que viviam em Portugal, nos dá, indiretamente, algumas pistas de quais poderiam ser os pretextos para não vir - comida diferente, desconforto da vida no Brasil, etc. - e como poderiam ser refutados. Vejamos, primeiro, a questão da alimentação:
"[...] Se em Portugal há galinhas (²), cá as há muitas e mui baratas; se tem carneiros, cá há tantos animais que caçam nos matos e de tão boa carne, que me rio muito de Portugal em essa parte. Se tem vinho, há tantas águas que a olhos vistos me acho melhor com elas que com os vinhos de lá; se tem pão, cá o tive eu por vezes e fresco, e como antes dos mantimentos da terra que dele. E está claro ser mais sã a farinha da terra (³) , que o pão de lá; pois as frutas coma quem quiser as de lá, das quais cá temos muitas, que eu só as de cá me quero. [...]" (⁴) 
Mas quem quereria trocar as horas de sono em uma cama confortável, por uma rede, como aquelas em que dormiam os indígenas, fosse no mato ou em alguma povoação de colonizadores? Responde o padre Rui Pereira:
"[...] Dir-me-ão que vida pode ter um homem dormindo em uma rede pendurado no ar, que é isso cá tão grande coisa que tenho eu cama de colchões, aconselhando-me o médico que dormisse na rede, e achei tal, que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho. Outros terão outros pareceres, mas a experiência me constrange a ser dessa opinião." (⁵)
O jesuíta Rui Pereira argumentava com base em suas preferências. Talvez fosse um exemplo notável de aculturação ou, pelo menos, de adaptação às possiblidades em terra de missões. Argumentos como os seus, contudo, podem ter influenciado aqueles que, indecisos, vacilavam em "passar ao Brasil". Independentemente do que se pense do modo como aconteceu a catequese de indígenas, ser missionário no Século XVI não era para qualquer um.

(1) Cf. Evangelium Secundum Mattheum, 9. 37, 38 - "[...] messis quidem multa operarii autem pauci / rogate ergo dominum messis ut eiciat operarios in messem suam"; Secumdum Lucam 10. 2 - "messis quidem multa operari autem pauci rogate ergo Dominum messis ut mittat operarios im messem"
(2) A carne de galinha era vista, na época, como um alimento favorável aos enfermos. 
(3 Farinha de mandioca.
(4) Cf. LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 153.
(5) Ibid., p. 154.


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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Casamentos em reduções jesuíticas na América do Sul

Indígenas que aceitavam a condição de catecúmenos e iam viver em reduções administradas por jesuítas na América do Sul eram levados a um modo de vida muito diferente daquele que haviam aprendido de seus ancestrais. Era assim, por exemplo, em relação aos costumes quanto ao casamento e ao estabelecimento de novos vínculos familiares. De acordo com o cônego João Pedro Gay, que estudou o assunto e escreveu sobre ele no Século XIX, em quase todos os casos competia aos padres a decisão quanto a quem se casaria com quem. Em seguida, em uma única data, as uniões eram formalizadas segundo as regras da Igreja: 
"Para celebrar os matrimônios parece que os jesuítas tinham tempo determinado, que era depois da Quaresma (¹). Então se mandava vir a lista dos moços e moças, viúvos e viúvas do povo em estado de casar, e os chamavam à porta da igreja. Indagavam deles se tinham tratado casamento, e aqueles que não tinham tratado, que eram todos ou quase todos, aí mesmo se lhes fazia escolher mulher, ou os padres mesmo as indicavam, e tratando logo de cumprir os pregões, os casavam todos em um dia, que pelo costume era o domingo antes da missa paroquial, para que se fizessem com maior solenidade. [...]." (²)
A partir daí, não era grande a mudança na vida dos recém-casados:
"[...] Os recém-casados passavam à jurisdição do seu chefe competente [...]; os homens trabalhavam do seu ofício se o tinham; se não, seguiam os trabalhos da comunidade (³), e as mulheres recebiam tarefas (⁴), e se ocupavam como as outras nos serviços da comunidade." (⁵). 
Não havia, portanto, muito espaço para devaneios românticos nesses casamentos. Era característica essencial da catequese jesuítica que os neófitos abandonassem todas as práticas que parecessem contrárias àquelas que os padres idealizavam para as comunidades em formação, daí a insistência no controle de todos os aspectos da vida. O casamento era apenas um deles, mas, nem de longe, o menos importante, particularmente quando a intenção era suprimir qualquer vestígio de poligamia.

(1) No tempo em que as reduções jesuíticas existiam, a Quaresma era celebrada com todo o rigor, e, portanto, expressões festivas ligadas a casamentos não eram toleradas. 
(2) GAY, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. de Domingos Luiz dos Santos, 1863, pp. 211 e 212.
(3) Geralmente trabalho na agricultura.
(4) Fiar algodão, por exemplo.
(5). GAY, João Pedro. Op. cit., p. 212.


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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Agricultura coletiva nas reduções indígenas comandadas por jesuítas na América do Sul

Existe uma ideia um tanto difundida de que missionários jesuítas, durante os tempos coloniais, teriam tentado estabelecer um Estado próprio no coração da América do Sul, formado por comunidades indígenas em uma espécie de regime comunista. 
Será, mesmo? O assunto é polêmico.
Se dermos crédito ao cônego João Pedro Gay, que viveu em São Borja no século XIX e investigou o assunto, a história pode ser outra. Lembremo-nos, antes de prosseguir, que a catequese, de fato, reunia indígenas em reduções, ou seja, comunidades de indígenas dirigidas por padres. Para os catecúmenos, tudo era novo: atrás ficava seu modo tradicional de sobrevivência, dando lugar ao estilo de vida que os jesuítas ensinavam, com novos hábitos alimentares e uso de vestuário. Até mesmo a disposição das casas em ruas perfeitamente retilíneas e o calendário centrado nas celebrações religiosas significavam uma mudança radical em relação ao modo como, até então, haviam vivido. 
Para viabilizar as reduções, era preciso assegurar um suprimento de alimentos, mediante agricultura e pecuária, praticadas com técnicas que os indígenas desconheciam e que deviam aprender, vivendo agora não mais em grandes casas comunitárias, mas em habitações menores, com familiares mais próximos e, eventualmente, outras pessoas. Pois, bem, de acordo com o já referido cônego João Pedro Gay, a primeira tentativa dos padres para a instrução dos indígenas na agricultura não se deu através de lavouras comunitárias, e sim mediante agricultura familiar: "[...] todos os anos se dava a cada família um terreno suficiente para seu sustento e sementes para plantar [...]. Se o padre que deles cuidava não os obrigasse a entregar-lhe no tempo das colheitas as sementes necessárias de todos os frutos para uma nova plantação, ter-se-iam perdido as sementes em todo o povo." (¹)
Portanto, habituados à coleta, caça, pesca e, em alguns casos, a uma agricultura rudimentar, os indígenas reunidos em reduções tinham certa dificuldade em lidar com a ideia de que era preciso guardar uma parte da produção para plantio no devido tempo, tão contrária a tudo que haviam aprendido no modo tradicional de sobrevivência que anteriormente conheciam. Valia o mesmo quando se tratava de pecuária. Segundo o cônego João Pedro Gay, houve casos em que até bois de arado foram comidos e, quando interrogados quanto a seu paradeiro, os catecúmenos alegaram que, por estarem com fome, haviam abatido os animais.
Teria sido apenas diante desse cenário que os missionários jesuítas resolveram adotar o cultivo coletivo da terra, e, ao menos nesse momento, não por convicções que poderiam ser chamadas de ideologicamente comunistas. Ainda segundo o cônego João Pedro Gay, "[...] não podendo conseguir proveito nenhum do trabalho particular dos índios, os jesuítas deixaram de os fazer trabalhar em lavouras privadas e ocuparam toda a gente do povo nas grandes lavouras e estabelecimentos da comunidade." (²) 

(1) GAY, João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay. Rio de Janeiro: Typ. de Domingos Luiz dos Santos, 1863, p. 186.
(2) Ibid., p. 187.


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quinta-feira, 4 de maio de 2023

Vestuário ensinado aos indígenas por missionários jesuítas

Não é verdade que todos os povos indígenas do Brasil, antes da chegada de europeus no final do Século XV, dispensavam toda e qualquer forma de vestuário. Contudo, é fato que muitos grupos não viam necessidade de roupas. Isso escandalizou os colonizadores e, em particular, os missionários da Companhia de Jesus. Resultado? Trataram de vestir os indígenas que catequizavam. 
Mas, afinal, que roupas eram essas que os padres tanto insistiam que seus catecúmenos vestissem? No último dos Diálogos das Grandezas do Brasil (¹), obra escrita no começo do Século XVII, Brandônio e Alviano discutem essa questão:
"Brandônio
[...] Antigamente, e ainda até hoje no sertão, [os indígenas] andavam e andam todos despidos, assim homens como mulheres, sem usarem de coisa alguma, para com ela haverem de cobrir suas partes vergonhosas.
Alviano
Deviam de ouvir contar de nosso padre Adão, enquanto esteve em estado de graça.
Brandônio
Mas já agora o gentio que habita entre nós anda coberto, os machos com uns calções e as fêmeas com uns camisões grandes de pano de linho muito alvo, e os cabelos enastrados com fitas de seda de diferentes cores, costumes que introduziram entre eles com assaz trabalho os padres da Companhia; porque não havia quem os fizesse apartar de sua natureza, que os incitava a andarem nus." (²) 
Apenas algumas considerações mais sobre o assunto:
  • Roupas, nesse tempo, eram muito caras e, portanto, é compreensível que o vestuário introduzido pelos jesuítas fosse bastante simples, ao que se deve acrescentar a conveniência de um traje leve para quem vivia em locais quentes e/ou nas matas do Brasil;
  • Não era fácil para os missionários a obtenção de roupas que seriam oferecidas aos indígenas - é sabido que Manuel da Nóbrega solicitou que fossem enviadas do Reino, fazendo um pedido a quem, caridosamente, pudesse doá-las;
  • Missionários jesuítas procuravam dirigir seus catecúmenos à confecção das próprias roupas, e, ao contrário do que disse Brandônio, é pouco provável que tecidos de linho fossem o padrão - tecidos de algodão, preparados pelos próprios indígenas, seriam um uso mais plausível.

(1) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(2) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. - Diálogo Sexto. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 298.


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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Roupas usadas por missionários jesuítas no Maranhão no Século XVII

Por mais que navegadores do final do Século XV e mesmo do XVI descrevessem o Brasil como uma espécie de paraíso, "Éden restaurado", lugar de riquezas e beleza infinitas, a verdade é que a vida colonial estava longe de ser um mar de facilidades. Sim, havia gente abastada e que fazia vir do Reino tanto a roupa quanto a comida de que precisava, embora nada disso fosse garantia de conforto - pode-se imaginar facilmente o estado de deterioração do bacalhau seco e dos queijos que, depois de meses no mar, eram desembarcados e vendidos no Brasil. 
Em se tratando de vestuário, as sedas, cetins e veludos eram reservados às famílias da elite açucareira. Para a maior parte da população, cabia o vestir-se com roupas feitas de algodão grosseiro.  Nas missões jesuíticas do Maranhão, nem mesmo os padres escapavam dos rudes tecidos destinados aos mais pobres. Antônio Vieira, o grande pregador e missionário, em carta a um amigo, afirmou: "[...] Ando vestido de um pano grosseiro cá da terra, mais pardo que preto; como farinha de pau (¹); durmo pouco; trabalho de pela manhã até a noite [...]" (²).
Esse tecido "mais pardo que preto", de que se andava fazendo a roupeta dos padres da Companhia de Jesus era tingido de um modo curioso, que o padre André de Barros, escrevendo no Século XVIII, assim explicou, ao expor o modo como os missionários sob a liderança do padre Vieira tiveram de viver, quando empreendiam a catequese de indígenas, contra toda a oposição dos colonizadores: "[...] Por esta causa se reduziram os padres daquela missão a vestir pano de algodão tinto na lama (que é certo lodo, que se acha no fundo de alguns rios), a calçar sapatos de peles dos animais dos matos e a não beber vinho, e finalmente a viver tão pobres como os mesmos índios, poupando desta maneira para ter com que os granjear a eles para Cristo" (³). 
Vieira trabalhou alguns anos como missionário no Século XVII. No centênio precedente, jesuítas como Nóbrega e Anchieta haviam enfrentado dificuldades semelhantes, porém em outras áreas do Brasil, sendo obrigados a pôr em serviço toda a capacidade inventiva para a confecção de calçados e outros objetos de que precisavam. Contudo, a necessidade de procurar soluções caseiras não se restringia aos religiosos: portugueses em geral, bem como seus descendentes, logo descobriram que, se pretendiam sobreviver como colonizadores, tinham muito a aprender com os indígenas, que já viviam no Brasil muito antes deles. 
 
(1) Farinha de mandioca.
(2) BARROS, André de S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, p. 514.
(3) Ibid., p. 571.


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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Novas regras para a Inquisição em 1774

O Século XVIII é chamado "Século das Luzes" devido à enorme influência exercida pelo Iluminismo, em suas múltiplas facetas. Na política, velhas ideias absolutistas, ainda que não varridas de todo (¹), ao menos foram disfarçadas, fazendo com que algumas monarquias ganhassem um aspecto mais aceitável, e escondendo, atrás de cortinas de modernidade, as teias de aranha ideológicas que andavam, há séculos, tão confortáveis no poder. Nesse cenário, o que se faria com a Inquisição? Deveria ser mantida? Seria possível compatibilizá-la com mudanças que pareciam inevitáveis?
Em Portugal e, portanto, naquilo que diretamente interessava ao Brasil, o inquisidor-geral, Cardeal da Cunha, propôs um novo Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal, que entrou em vigor em setembro de 1774, sob os auspícios do Marquês de Pombal e do rei D. José I. Toda a responsabilidade pelos sangrentos autos da fé do passado foi lançada sobre os jesuítas - lembrem-se, leitores, de que a Companhia de Jesus, depois de expulsa de Portugal e seus domínios, foi extinta em 1773 (²). "[...] não houve estabelecimento útil nestes Reinos [...] que a pravidade jesuítica não deturpasse, aniquilasse, reduzisse aos miseráveis termos de os fazerem compatíveis com as máximas do seu despotismo [...]", afirmou o Cardeal da Cunha, entendendo que o Tribunal da Inquisição deveria ter status de tribunal régio e não simplesmente de tribunal eclesiástico. Consequentemente, estaria, em última instância, sob a autoridade do monarca reinante em Portugal. Quem iria supor que o rei pensaria mal dessa ideia?
Na prática, o novo Regimento abolia a tortura, com apenas uma exceção, "por ter mostrado a experiência que sendo a fragilidade humana inferior à constância que seria necessária para tolerar as dores dos tormentos, vêm os atormentados a confessar, por se livrarem delas, o que nunca fizeram, nem ainda imaginaram". Contudo, no Título II, § 3, havia esta instrução: "Porém se os réus forem heresiarcas ou dogmatistas, e constar terem disseminado erros e feito sequazes deles, se os não confessarem e as pessoas que com eles contaminaram; ou confessarem, ocultando algumas das ditas pessoas, serão postos a tormento proporcionado à qualidade da prova e dos indícios, que contra eles houver, pelo muito que importa arrancar de entre os fiéis tão venenosas e pestíferas raízes." Não se admitia, portanto, qualquer tolerância com ensinos ou ideias que contrariassem a doutrina oficial da Igreja. 
É curioso, até bizarro, o que se mandava em relação a acusados de bruxaria, feitiçaria e práticas congêneres, tão investigadas e cruelmente punidas pela Inquisição nos séculos precedentes. O novo Regimento dava a entender que, ou essas práticas eram fruto apenas de superstições e ignorância, ou resultavam de fenômenos ainda não devidamente explicados pela ciência: "Ou foram as referidas invenções miseráveis ideias de outras pessoas pobres e mendicantes, as quais buscavam recurso nas superstições de que fizeram uso para matarem a fome sem fatigarem o corpo com trabalho [...]; ou foram produtos naturais dos novos descobrimentos e das antes desconhecidas operações da física experimental, da química e da botânica, ou foram fenômenos das paixões histéricas e das intemperadas imaginações do sexo feminino [sic!!!!!!]." 
Seria razoável supor, então, que a Inquisição deixasse em paz os adeptos de superstições? Nada disso! Réus dessas coisas seriam chamados ao Santo Ofício e deveriam admitir que tudo o que faziam não passava de "fingimentos e imposturas" e, como suas práticas eram condenadas pela Igreja, podiam receber uma série de penalidades, incluindo açoites e degredo. Nada de fogueira, porém. 
E se algum réu insistisse que, de fato, tinha poderes mágicos? Mandava o Regimento, no Título XI, § 4: "Que os réus que se acharem nos referidos casos, sejam definitivamente julgados por loucos, sem necessidade de outra prova ou exame; que sejam como tais remetidos ao Hospício Real de Todos os Santos; que nele fiquem reclusos nos cárceres dos doidos, enquanto o Conselho Geral não mandar o contrário; e que nos mesmos cárceres sejam tratados pelos enfermeiros deles, como o costumam ser os outros doentes dessa enfermidade, frenéticos ou maníacos, conforme o indicarem os sintomas de cada um dos referidos loucos." 
Estariam os inquisidores ficando bonzinhos, estaria o Tribunal do Santo Ofício ficando menos malvado ou até simpático? 
Não se iludam, leitores. Os tempos eram outros, o Absolutismo, sob o influxo das ideias iluministas, corria sério perigo, e era preciso mudar, para evitar que coroas caíssem das cabeças, ou, pior, que cabeças caíssem do respectivo pescoço. O simples fato de existir um tribunal régio como o da Inquisição prova, sem margem a dúvida, que a liberdade de pensamento e expressão não era consentida. Veja-se, como evidência, o que o "moderno" Regimento do Cardeal da Cunha determinava, no Título IV, § 8, quanto aos condenados por heresia que se recusassem a reconhecer seus supostos erros como tais e fossem, portanto, "relaxados à justiça secular" (³): "Os hereges afirmativos, que persistirem em seus erros até final conclusão de sua causa, serão entregues e relaxados à Justiça Secular; e sendo caso que possa temer-se que digam em público algumas coisas contra nossa Santa Fé, levarão mordaça na boca, e hábito de relaxados; porém se reconhecerem seus erros e se reduzirem à nossa Santa Fé Católica, fazendo inteira confissão de suas culpas, serão recebidos ao grêmio e união da Santa Madre Igreja, e terão reclusão em algum mosteiro ou colégio de Regulares Doutos, que os possam bem instruir nas coisas da fé."
Não importa se, a partir de 1774, foram muitos ou poucos os condenados pela Inquisição. O que interessa é que o cerceamento à liberdade individual permanecia. Era proibido pensar diferente da maioria ou questionar crenças estabelecidas. Considerem, por comparação, meus leitores: um móvel velho e em mau estado se torna novo e bom, apenas por receber uma camada de tinta ou uma demão de verniz? É certo que não. Era inútil tentar reformar o Tribunal do Santo Ofício com a introdução de um novo Regimento, por moderado que fosse em relação aos anteriores. O problema estava na Inquisição em si mesma e nas razões para sua existência.

(1) Sempre há um tapete por perto...
(2) Uma bula papal autorizou sua restauração em 1814.
(3) Expressão usada em todo o Regimento de 1774 para designar aqueles que seriam executados.


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quinta-feira, 18 de março de 2021

A rotina de catequese e trabalho em reduções jesuíticas na América do Sul

Indígenas que viviam em reduções jesuíticas na América do Sul eram submetidos a um controle estrito por parte dos padres, com imposição de uma rotina completamente estranha ao modo de vida praticado antes do contato com europeus. Isso se comprova pelas palavras do padre Antonio Ruiz de Montoya, ele próprio um missionário dedicado e defensor dos direitos dos povos nativos. Logo pela manhã, a primeira obrigação era ouvir missa, vindo depois as horas de trabalho: "Ao raiar do dia, em todo o ano, ouvem missa, e saindo da igreja vão ao trabalho, que é muito produtivo com tal preparação religiosa [...]" (¹).
Apenas bebês e aqueles que corriam risco de morte eram batizados prontamente; quanto aos demais, eram aos poucos instruídos no catolicismo, e somente depois de um longo preparo, admitidos à comunhão: "[...] embora o sacramento da confissão seja logo praticado, esperam alguns anos pela comunhão, alguns mais e outros menos [...]" (²), e "os que estão aptos comungam quatro vezes por ano [...], com preparação de sermões e exemplos, jejuns, disciplinas (³) e outras penitências [...]" (⁴).
Quanto ao trabalho diário, indígenas das reduções aprendiam técnicas agrícolas e ofícios mecânicos. No primeiro caso, o treinamento começava, de acordo com Montoya, por volta dos onze anos de idade: "São todos lavradores e cada um tem sua própria roça, e passando de onze anos os meninos têm já seu cultivo, em que se ajudam mutuamente com muita solidariedade; não fazem compra e venda, porque com liberalidade e sem interesse se socorrem em suas necessidades [...], vivem em paz e sem litígios" (⁵). Já nos ofícios mecânicos, em geral completamente novos para os ameríndios, a instrução dos jesuítas era vital: "São muito hábeis em trabalhos mecânicos, e há carpinteiros, ferreiros, alfaiates, tecelões e sapateiros muito bons entre eles, e se bem que nada disso soubessem, o ensino dos padres tornou-os mestres, e não pouco, no cultivo fácil da terra com arado [...]" (⁶).
Sabe-se que os missionários que conduziam as reduções faziam os maiores sacrifícios e estavam dispostos, se preciso, a morrer pelos indígenas sob sua supervisão. Não obstante, algumas críticas têm sido feitas, sob os seguintes argumentos, que deixo a quem lê o direito de avaliar como quiser:
  • Embora indígenas fossem escolhidos para funções de liderança dentro das reduções, a autoridade máxima competia aos padres, não aos caciques, limitando, portanto, a liberdade mesmo em questões civis;
  • Indígenas aprendiam com os padres habilidades que não eram, como regra, parte de sua cultura de origem. Disso resultou um problema inesperado, porque aprisionadores de indígenas para escravização passaram a rondar e a atacar as reduções com intenção de capturar índios instruídos em ofícios, porquanto uma vez escravizados, eram considerados mais úteis pelo conhecimento que tinham e/ou mais valiosos para venda.
  • Chegou-se mesmo a dizer, sem comprovação efetiva, que jesuítas tinham a intenção de estabelecer um Estado independente na América do Sul, tal o controle que exerciam e o grau de isolamento em que mantinham a população indígena sob sua autoridade. Essa ideia, no entanto, deve ser creditada, ao menos em parte, à argumentação usada para justificar a expulsão dos jesuítas e posterior supressão da Companhia de Jesus.

(1) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. Este e todos os demais trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) A prática da autoflagelação era comum em ocasiões como a Semana Santa.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Op. cit.
(5) Ibid.
(6) Ibid.


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Obstáculos à catequese de indígenas, de acordo com José de Anchieta

Não foi o desconhecimento da língua falada pelos indígenas a maior dificuldade enfrentada pelos missionários que, desde meados do Século XVI, vieram ao Brasil no interesse de desenvolver um projeto de catequese. Nos colégios jesuítas estabelecidos na América portuguesa era obrigatório o estudo do "grego da terra", como jocosamente se referiam à língua predominante na costa do Brasil, e, não muito mais tarde, já havia até gramática pela qual orientar a instrução dos religiosos. Com base em um documento datado de 1584 (¹) e atribuído a Anchieta (²), pode-se afirmar que, sob a ótica dos jesuítas, os maiores obstáculos à catequese eram de outra natureza, e poderiam ser assim resumidos:
  • Prática da poligamia por indígenas;
  • Apreço pelo "vinho" (principalmente pela bebida fermentada de caju, cujo uso o próprio Anchieta reconhecia ser preferível moderar que tentar abolir);
  • Guerras frequentes por questão de honra, seguidas, não raro, de antropofagia;
  • Inconstância, já que ameríndios pareciam aceitar prontamente as ideias propostas pelos missionários, porém, mais tarde, abandonavam-nas com idêntica facilidade (³);
  • Falta de "temor e sujeição" (os missionários, incluindo Anchieta, achavam que a catequese poderia ser facilitada, se imposta pelas autoridades coloniais, que obrigassem, por exemplo, ao aldeamento dos indígenas em comunidades subordinadas aos padres).
Qual destes itens corresponderia à maior dificuldade? Conforme Anchieta, nenhum deles; o problema mais grave não era nativo da América:
"Os maiores impedimentos nascem dos portugueses, e o primeiro é não haver neles zelo da salvação dos índios [...], antes os têm por selvagens e, ao que mostram, lhes pesa de ouvir dizer que sabem eles alguma coisa da lei de Deus [...]." (⁴)
A maioria dos colonizadores via nos índios apenas um vasto acervo de mão de obra gratuita, a cuja escravização mesmo as autoridades coloniais faziam vistas grossas, isso quando não estavam diretamente envolvidas no apresamento dos naturais da terra sob o pretexto de "guerras justas". A Companhia de Jesus, por seu turno, buscava implantar um modelo de catequese em que os ameríndios viveriam em comunidades sob a tutela dos padres. Perspectivas tão diferentes resultaram em cerca de dois séculos de confrontos.

(1) "Informação do Brasil e de Suas Capitanias". In: ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 333.
(2) Ele mesmo um notável missionário.
(3) É interessante que Anchieta não parecia considerar que a suposta inconstância podia ser, talvez, fruto de um choque cultural. Como regra, não era esse o modo de ver os fatos no Século XVI.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A bagagem de dois missionários jesuítas que pretendiam catequizar indígenas no Ceará e no Maranhão

O Século XVII está no começo. Dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, saindo do Colégio de Pernambuco, iniciam uma longa caminhada com o propósito de estabelecer uma missão entre indígenas no Maranhão. 
Não vão sozinhos: têm a companhia de alguns índios, já catequizados, que auxiliam no contato com grupos indígenas. Além disso, ajudam a transportar a bagagem dos dois padres. Como somos curiosos, leitores, iremos bisbilhotar o que é que carregam. Como? Há um relato interessante, feito pelo padre José de Moraes em A Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará:
"Caminhavam a pé, sem mais vitualhas que o altar portátil que levavam dois índios, algum vinho, hóstias, cera e uma pouca de farinha de pau (¹), usual sustento da terra, repartida pelas mochilas dos companheiros; sem mais outra vianda que o peixe e caranguejos, que a diligência dos índios encontrava por aquelas praias. Usavam de umas roupetas curtas para lhes ficarem mais desembaraçados os passos [...]; mas porque os charcos, pedras e lodos por onde precisamente haviam de passar eram muitos, consumidos logo nos primeiros dias os sapatos, se viram obrigados a caminhar descalços." (²)
A obra de José de Moraes somente foi escrita uns cento e cinquenta anos depois da missão de Francisco Pinto e Luís Figueira (³). Sabe-se de seu acesso a uma variedade de documentos, mas, conforme ele próprio explicou, em alguns casos seus relatos tiveram por fundamento a tradição, apenas. Apesar disso, podemos estar certos de que, ao empreenderem a viagem, os dois padres a que nos referimos entraram em um rumo de todo desconhecido para eles. Confiavam, pois, na lealdade e experiência dos indígenas já catequizados que tomavam por guias. Para a alimentação, esperavam achar pesca e alguma caça, a fim de complementar a magra dieta de farinha de mandioca. Na bagagem listada por José de Moraes, destacam-se os itens de uso religioso, a começar pela existência de um altar portátil. O mesmo autor, tratando de outras missões de catequese, faria referência ao uso de um móvel semelhante, o que nos leva à conclusão de que seu emprego era prática comum na época. 
Não foi dessa vez, no entanto, que uma missão de jesuítas foi estabelecida no Maranhão. Ao chegar à Serra de Ibiapaba, a pequena caravana foi atacada por tapuias. Francisco Pinto foi morto, assim como alguns dos índios catequizados. Luís Figueira escapou, escondendo-se no mato. Depois de sepultar o companheiro, retornou a Pernambuco. Anos mais tarde, após a expulsão dos franceses do Maranhão, foi mandado a São Luís, onde uma nova luta o aguardava, não contra grupos indígenas que rejeitavam a catequese, mas contra os colonizadores que viam em cada ameríndio um escravo em potencial.

(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 30.
(3) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.


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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Na falta de médicos, jesuítas prestavam assistência aos doentes no Brasil Colonial

Os jesuítas que vieram ao Brasil desde meados do Século XVI tinham, como objetivo primário, empreender a catequese dos povos indígenas. Logo que chegaram, ficou evidente que, em grande parte, deles dependeria a assistência religiosa aos portugueses colonizadores. O trabalho junto aos indígenas tornou possível, também, que missionários da Companhia de Jesus andassem pelo interior do Brasil como verdadeiros exploradores do território ainda desconhecido para europeus. Logo, porém, os "padres da Companhia" perceberam que teriam ainda outra tarefa, diante das condições precárias em que vivia a maior parte da população colonial - deixemos que José de Anchieta explique por si mesmo:
"Neste tempo que estive em Piratininga servi de médico e barbeiro, curando e sangrando a muitos daqueles índios, dos quais viveram alguns de quem se não esperava vida [...]." (¹) 
Estas palavras foram escritas em uma carta datada de 1554. De saída, é necessário lembrar que, quando Anchieta diz que serviu como barbeiro, não queria isso significar que andava a cortar os cabelos ou fazer a barba de quem quer que fosse. É que nesse tempo, quando alguém tinha febre, costumava chamar um barbeiro que fazia sangria. Que é isso? Simples, acreditava-se, com base em ideias desenvolvidas ainda na Antiguidade greco-romana, que a febre era indício de um excesso "força vital". Portanto, para resolver o problema, retirava-se um pouco de sangue da pessoa febril, para que sarasse. Ora, com tal tratamento, às vezes a febre baixava mesmo. De uma vez para sempre. Sangrias, porém, não eram aplicadas apenas quando o paciente tinha febre. Eram recomendadas para quase tudo. E ninguém imagine que esse "tratamento" era praticado apenas em comunidades isoladas na América. Era o que se fazia em quase todo o mundo dito "civilizado", e assim continuaria a ser, ainda por centênios.
É verdade que, aos missionários, era vedado "derramar sangue", mas, depois de uma consulta ao Geral e Fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, foi-lhes dada uma permissão para que socorressem os doentes, face à situação de penúria na Colônia, pela absoluta falta de profissionais habilitados na área da saúde. Por isso é que Anchieta escreveu a seus irmãos de Ordem que viviam em Portugal sobre o trabalho que andava a fazer, de "médico e barbeiro". A assistência a indígenas e portugueses não estava restrita à pequenina São Paulo de Piratininga, fundada em 1554. Era praticada, havendo doentes, onde quer que estivessem os padres.
Não há dúvida de que, ao cuidar de enfermos entre os índios, os padres procuravam, com habilidade, obter a confiança também em seus ensinos de caráter religioso. Em outra carta, escrita dois anos mais tarde, Anchieta seria explícito nessa questão:
"[Os indígenas] não podem deixar de admirar e reconhecer o nosso amor para com eles, principalmente porque veem que empregamos toda a diligência no tratamento de suas enfermidades, sem nenhuma esperança de lucro." (²)
Faziam isso como estratégia de evangelização:
"Fazemos isto, na intenção de preparar para o recebimento do batismo, caso haja necessidade, os seus espíritos, em tais circunstâncias mais redutíveis e mais brandos [...]." (³)
Independente da opinião que se tenha sobre os métodos de catequese que estavam em uso no Século XVI, não podemos deixar de admirar a caridade manifestada por Anchieta, segundo um relato feito por ele mesmo ao padre Diego Laynez (Geral dos jesuítas entre 1558 e 1565), relativo ao período em que esteve com Nóbrega negociando a paz entre tamoios e colonizadores. Um índio que tencionava matá-los adoeceu gravemente, e recebeu os cuidados dos padres:
"[...] Se inchou uma mão em tanta maneira que toda se corrompeu, a qual eu lha abri em duas partes com uma lanceta [...], e junto com isto se lhe empolou o braço até os ombros de umas inflamações tão feias, que os outros não se ousavam de chegar a ele, mas mirando-o de longe, me diziam que o curasse e fizesse não se estendesse aquele mal pelos outros, e todos o desampararam sem se doer dele, nem dar-lhe de comer, nem houve entre todos seus parentes quem me buscasse um pouco de mel pelos bosques com que o curasse, e ainda que eu lho pagava; eu rompi uma camisa que tinha e curei-o com azeite, buscando-lhe de comer e dando-lho por minha mão, porque ele não podia [...]." (⁴)
Os padres da Companhia eram procurados inclusive para prestar assistência às mulheres em trabalho de parto, conforme explicou Anchieta em outra carta, desta vez escrita em São Vicente no ano de 1560:
"Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos e os que morrem, ora para as mulheres de parto, sobre as quais pomos as relíquias dos santos, e parem, e o que elas não ignoram, começando a sentir as dores, logo as mandam pedir, havendo-se primeiro confessado." (⁵)
Sim, leitores, entendo que estejam horrorizados. Explico, apenas, que a prática absurda de colocar relíquias de santos sobre parturientes eram coisa comum no Século XVI, e mesmo mais tarde. Parece absurdo para nós, mas as pessoas daquele tempo realmente criam que isso funcionava, tanto para a mãe quanto para o bebê que ia nascer. 
Anchieta, em seus escritos, sempre procurava deixar claro que os jesuítas eram chamados para socorrer não apenas indígenas, mas também colonizadores que viviam nas proximidades dos colégios da Companhia de Jesus. "Acudimos a todo gênero de pessoa, português e brasil, servo e livre, assim em as coisas espirituais como em as corporais, curando-os e sangrando-os, porque não há outro que o faça [...]" (⁶), observou ele, em uma carta datada de 1562. O ponto essencial, aqui, destacado pelo próprio missionário, é que não havia ninguém que cuidasse da saúde da comunidade colonial em Piratininga, de modo que, nesse aspecto, os jesuítas faziam o que podiam ou achavam que dava algum resultado. Esse fato é extremamente revelador sobre as condições sanitárias que vigoravam nos primeiros tempos coloniais. A procura pelo atendimento dos padres era tão frequente, que, tanto no caso de indígenas como de portugueses, se traduzia em uma verdadeira dependência, sobre a qual Anchieta ainda diria:
"É gente miserável [os indígenas], que em [...] enfermidades nem sabem nem têm com que se curem, e assim todos confugem a nós outros demandando ajuda, e é necessário socorrê-los não só com as medicinas, mas ainda muitas vezes com lhes mandar a levar de comer e dar-lho por nossas mãos, e não é muito isto em os índios, que são paupérrimos, os mesmos portugueses parece que não sabem viver sem nós outros, assim em suas enfermidades próprias, como de seus escravos: em nós outros têm médicos, boticários e enfermeiros, nossa casa é botica de todos, poucos momentos está quieta a campainha da portaria, uns idos, outros vindos a pedir diversas coisas [...]." (⁷)
O que concluímos disso tudo? Ora, se parece certo que os missionários jesuítas não procuraram para si a atribuição de prestar os primeiros socorros nas incipientes comunidades coloniais, fica também evidente que o rumo dos acontecimentos foi interpretado como uma oportunidade para a catequese e para o crescimento da influência que a Companhia de Jesus podia exercer entre portugueses que viviam no Brasil, face à vulnerabilidade ocasionada por situações de risco para a vida.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 61.
(2) Ibid., p. 88.
(3) Ibid. 
(4) Ibid., pp. 227 e 228.
(5) Ibid., p. 149.
(6) Ibid., p. 179.
(7) Ibid., p. 240.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A celebração do Natal por missionários jesuítas e indígenas catequizados em São Paulo de Piratininga

Os jesuítas, a despeito de métodos inovadores que eventualmente empregavam na catequese, procuravam conformar os catecúmenos às práticas da Igreja quanto ao calendário litúrgico e à administração dos sacramentos. É o que se nota em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga por José de Anchieta, em fins de dezembro de 1556, na qual descrevia práticas associadas à celebração do Natal:
"Antes do dia do Nascimento do Senhor procuramos que [os indígenas] se confessassem, o qual fizeram muitas mulheres e alguns homens, os quais diligentemente examinamos nas coisas da fé, e o que principalmente pretendemos é que saibam o que toca aos artigos da fé, scilicet ao conhecimento da Santíssima Trindade e aos mistérios da vida de Cristo que a Igreja celebra, e que saibam, quando lhes for perguntado, dar conta destas coisas [...]." (¹)
Anchieta diria ainda:
"Neste mesmo tempo do Nascimento do Senhor se confessaram e comungaram muitas mulheres mestiças com muita devoção, o qual em outros tempos muitas vezes fazem." (²)
O que se pode observar é que a catequese não ficava restrita aos indígenas, mas tinha também como objetivo, tanto quanto fosse possível, alcançar o restante da população da aldeia de Piratininga, como se vê pela referência a "mulheres mestiças", ainda que nem sempre os colonizadores estivessem dispostos a dar atenção aos padres da Companhia (³). Em todo caso, era mais frequente que, dentre a população livre, as mulheres se mostrassem mais devotas, embora os homens, até por obrigação social, não deixassem de comparecer aos ofícios religiosos em ocasiões de maior importância. Também quanto à menção de Anchieta relativamente às "mulheres mestiças", será útil recordar que eram poucas, ou melhor, pouquíssimas as mulheres que, nesse tempo, vinham do Reino para viver no Brasil, de modo que não era incomum que colonos portugueses em Piratininga se casassem com índias, nem sempre sob as leis da Igreja. Desses casamentos nasciam os chamados mamelucos, que, nos primeiros séculos de São Paulo, viriam a ser a maioria da população.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 93.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 94.
(3) Não eram incomuns os atritos entre padres e colonizadores, tendo por principal razão as objeções que os jesuítas faziam à escravização de indígenas.


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal muito triste para um jumentinho

Conta o padre Simão de Vasconcelos em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que, nos primeiros e difíceis tempos do Colégio dos jesuítas na Bahia, viveu nele um irmão de nome Domingos, mais conhecido entre os religiosos pelo apelido de Pecorela (¹). Segundo escreveu Simão de Vasconcelos, era esse Domingos Pecorela um homem de pouca instrução, mas muito devoto e extremamente dedicado aos afazeres relacionados à manutenção diária do Colégio:
"Cinco anos serviu este servo fiel à Companhia, e em todos eles se teve sempre por um escravo comprado por dinheiro para o serviço da casa, sem mais querer, nem mais pretender, que o de um servo leal. Entre os mais ofícios da obediência, o principal era ter cuidado em um jumentinho, e ir com ele a todas as partes onde era mandado em busca do sustento da casa, que era pobríssima." (²)
É fato que Simão de Vasconcelos fez sua Crônica mais de um século depois da morte do irmão Domingos, mas usava consultar registros escritos e relatos daqueles que tinham algo a contar. Além disso, não constitui grande dificuldade imaginar quanto era complicado fazer provisões para o sustento dos que viviam no Colégio quando a colonização na Bahia estava apenas começando. Assim, o relato segue explicando que, na falta de comida, Domingos Pecorela era mandado às aldeias de índios amigos, para pedir alguma doação:
"Quando faltava de comer na Casa (que era muitas vezes), não desmaiava Domingos Pecorela: ornava seu jumento, ia-se às aldeias dos índios e entrava com eles com tal graça, falando-lhes pela própria língua, em que era perito, que estes lhe faziam a carga do mais estimado de seus haveres, farinha, caça do mato, batatas, bananas, carás, que é o que possui esta gente quando mais rica, e era naquele tempo o comer de mais estima dos padres." (³)
Pecorela, sempre em companhia do fiel companheiro de quatro patas, ia também buscar lenha e água para o Colégio:
"Bastava significar-lhe o Superior: "Irmão Domingos, ide à lenha para a cozinha", e sem mais demora, a pé descalço [...], aparelhava seu jumentinho e ia ao mato a carregar de lenha, e da mesma maneira à fonte e carregar de água." (⁴)
Ora, o que haveria de incomum nesta história? No Século XVI era perfeitamente normal que animais de carga fossem empregados para o transporte de água (não havia encanamento) e de lenha (principalmente para manter aceso o fogão); por outro lado, não é surpreendente que os padres pedissem ajuda aos indígenas quando lhes faltava o necessário à subsistência. De qualquer modo, dirão os leitores, alguém no Colégio teria que cuidar do jumento...
É que Domingos Pecorela era mesmo muito afeiçoado ao animal que estava sob sua responsabilidade:
"Era tal a humildade simples e simplicidade humilde deste bom irmão, que chegava a ter-se por obrigado a servir ao próprio jumento; assim curava ele, assim se compadecia de seu trabalho, como se fora criatura racional; chegava a descuidar de si por cuidar do asninho." (⁵)
Exagero? O padre Simão de Vasconcelos estava disposto a provar que não:
"Pareceu-lhe [a Domingos Pecorela] algumas vezes que vinha carregado sobre suas forças; e logo compadecido tirou parte da carga das costas do jumento, e pôs às suas, e caminharam ambos carregados; e aos que lhe perguntavam por que tomava aquele trabalho, respondia cheio de compaixão: Porque esta pobre criatura não pôde mais, e que se diria de mim, se viesse ela arrebentando com a carga, e o irmão Domingos folgando?" (⁶)
Pecorela faleceu no Colégio da Bahia em 24 de dezembro de 1554, ou seja, na véspera do Natal. Quanto ao jumento, não se têm dele mais notícias, nem sabemos se, acaso, foi colocado, na mesma noite, em algum presépio vivo. Mas deve ter sentido muito a perda de seu melhor amigo.

(1) Provavelmente faziam um trocadilho com o termo italiano Pecorella, ou seja, ovelha.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 105.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid., pp. 105 e 106.
(6) Ibid., p. 106.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ensino e catequese no Brasil após a expulsão dos jesuítas no Século XVIII

Os jesuítas vieram inicialmente ao Brasil com Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, em 1549. Desde então passaram a desenvolver a catequese de indígenas e a ensinar filhos de colonos em seus colégios. Sucede que a Companhia de Jesus tornou-se muitíssimo poderosa na América, a ponto de ser acusada de ter intenções de estabelecer, no sul do Continente, um verdadeiro império sob seu controle. No Século XVIII o ideário iluminista, influente até mesmo sobre alguns governantes na Europa (¹), fez com que as suspeitas contra os jesuítas chegassem ao auge, resultando na supressão da Ordem em 1773 (²). A expulsão de Portugal e seus domínios ocorreu antes, em 1759, até porque o Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, não tinha por eles nenhuma simpatia. 
O que aconteceu às missões no Brasil que os jesuítas foram obrigados a abandonar?
Saint-Hilaire, naturalista francês, percorrendo o Rio Grande do Sul um pouco antes da Independência, observou:
"Outrora ensinava-se a ler e a escrever em todas as aldeias, mas essas lições cessaram há muito tempo." (³) 
Referia-se, naturalmente, às aldeias de índios guaranis que haviam sido catequizadas por jesuítas. Deve-se notar que, expulsos os missionários da Companhia, competia ao governo português prover instrução básica à população. Como, porém, notou o próprio Saint-Hilaire, os salários oferecidos aos professores eram muito baixos, disso resultando um desinteresse pelo cargo e, por consequência, muitas povoações deixaram de ter escolas.
Não só o ensino foi abandonado em muitos lugares. A saída dos jesuítas também interrompeu a catequese, ainda que, em alguns casos, religiosos de outras Ordens tenham assumido as missões. Um resultado curioso desse abandono foi registrado no Diário da Expedição que em 1780 saiu para demarcação da América Portuguesa, com a constatação de que havia indígenas semicatequizados que, sem uma doutrinação completa, chegavam, quando interrogados, a expressar uma lista algo sincrética de crenças que, se eram em parte cristãs, eram, também parcialmente, bem pouco ortodoxas. Exemplo? Veja-se o que disse o chefe indígena de uma tribo da região amazônica, que já tinha "alguma luz da doutrina cristã":
"...indagado por alguns princípios da religião que seguiam nas suas terras, respondeu que os bons depois de mortos iam ter muitas mulheres, e os maus iam para uma cova muito funda em que havia muito fogo."

(1) Os chamados "déspotas esclarecidos".
(2) A bula papal, permitindo a restauração da Companhia de Jesus, data de 1814.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 341.


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