sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um Copinho de Vinho de Portugal

O Padre Fernão Cardim, em carta ao Provincial dos jesuítas, escreveu, a respeito do Colégio da Bahia:
"O Colégio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nele de ordinário sessenta; sustentam-se bem dos mantimentos, carnes e pescados da terra." (*)
Quem quer que leia essa carta, relatando a situação dos jesuítas no Brasil na década de oitenta do Século XVI, terá a ideia de que, pelo menos na Bahia, nada faltava para conforto dos religiosos, mesmo porque em outros trechos da mesma correspondência, dava o padre mais detalhes sobre os numerosos alimentos então disponíveis.
Curiosamente, no entanto, acrescentaria, depois:
"Nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza, por a terra ser desleixada e os mantimentos, fracos [sic!!!]." (*)
Velhos hábitos, velhos hábitos...

(*) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica
Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 13
(**) Idem.

6 comentários:

  1. Havia muita fartura, à época dos jesuítas no Brasil. O vinho, não podia faltar...mas demorava muito a chegar...Português não vive sem vinho.

    Deixei uma resposta sobre a "broa de goma", a palma de Coreaú, lá na Cadeirinha.

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    1. Vou procurar a "broa de goma" em restaurantes especializados em tapioca.

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  2. Não sei de outros tempos, mas hoje os portugueses vivem sem vinho sim. Perfeitamente. Muitos nem gostam. As gerações mais novas preferem a cerveja, talvez.
    Eu só provo umas gotas de vinho quando temos algum jantar especial, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que bebo vinho ao longo de um ano inteiro. Curioso como criamos esses (pré)conceitos sobre todos os outros povos.
    Suponho que numa altura que nem sempre havia água potável disponível, o vinho seria uma boa opção.
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. No Século XVI (época a que a postagem se refere) o vinho era visto não apenas como bebida, mas como medicamento. A maioria das pessoas, em muitos países, considerava que uma pequena quantidade, diariamente, era importante para a manutenção da saúde. Semelhante hábito, por si, não tornava ninguém alcoólatra, é claro. Na Antiguidade, quando os processos químicos eram ainda embrionários e não se conhecia a destilação, era costume usar vinho para tratar e higienizar ferimentos (o processo de obtenção do álcool, isoladamente, era então desconhecido).
      Por outro lado, acho a coisa mais natural do mundo que os portugueses e outros povos colonizadores levassem seus hábitos e costumes para as terras em que se estabeleciam. Há dados suficientes para comprovar que, nos primeiros séculos da colonização, era significativa a quantidade de vinho, azeite e peixe salgado que se trazia ao Brasil (não por acaso, produtos que se conservam razoavelmente bem, mesmo em longas viagens oceânicas). Ainda hoje esses artigos têm parte relevante na culinária brasileira, e nem poderia ser diferente.
      Finalmente, devo dizer que não uso bebida alcoólica de espécie alguma e, portanto, nessa questão, só trato do assunto profissionalmente :-)))

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    2. Gostei da explicação, Marta. Queria apenas evidenciar que estamos cheios de conceitos sobre o "outro", ainda hoje. Por isso tantos amigos brasileiros que tenho ficam indignadíssimos quando reduzimos o Brasil ao carnaval e futebol.
      Beijinho, querida
      Ruthia d'O Berço do Mundo

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