sexta-feira, 9 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 3: Cachaça Para Tratar Picadas Venenosas

Antes do soro antiofídico (1903), a picada de uma cobra venenosa equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, às vezes muito rápida, às vezes algo mais demorada, frequentemente dolorosa. Vale lembrar, também, que, desde os primeiros tempos da colonização, os europeus que chegavam ao Brasil ficavam aterrorizados diante do número e das dimensões das serpentes venenosas que encontravam, de modo que não tardou a aparecer um certo "conhecimento" popular para tratamento no caso de alguém ser picado, fato que, diga-se de passagem, não era nada incomum. O problema é que os tais "medicamentos" quase sempre não davam muito resultado.
Um relato do Conde de Azambuja, monçoeiro do Século XVIII, provê a explicação de como eram tratadas as picadas de cobra:
"No Pardo (*) ocorria extraordinário número de ofídios causadores de frequentíssimos acidentes combatidos pela ingestão de altas doses de cachaça salgada." (**)
Espantoso? Há mais.
Não eram apenas picadas de cobra que eram "tratadas" à base de cachaça. As de abelhas recebiam terapia semelhante, se devemos crer em um trechinho proveniente da Literatura, em obra de José de Alencar:
"João Fogaça passou tranquilamente em face deles; apertou a mão a Estácio e beijou-a ao Rev. Padre Inácio. Instruído do que acontecera, o capitão de mato deu logo suas providências para o curativo do pobre sacerdote, cujo corpo apresentava já com a inflamação um aspecto disforme; as fricções de fumo e aguardente aliviaram o enfermo que afinal consentiu repousar algumas horas, depois de obtida a promessa formal de perdão para os selvagens." (***)
Use a interjeição que quiser, leitor. Ao menos, no caso de picada de cobra, a cachaça devia servir,  parece, para tornar o infeliz moribundo um tanto alheio à realidade da morte iminente.

(*) Rio Pardo.
(**) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3
São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 86
(***) José de Alencar, As Minas de Prata


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