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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Bem-te-vi!

Bem-te-vis, entre outras aves, em ilustração do final
do Século XIX, com desenhos de Ernesto Lohse (³)
Bem-te-vi é uma avezinha nativa do Continente Americano, cujo canto pode parecer alegre, até divertido, ou extremamente irritante - tudo depende do estado de espírito de quem o ouve. 
Nuno Marques Pereira, autor do primeiro best-seller brasileiro, o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, devia, pois, estar profundamente feliz quando escreveu:

"Despertando o pitauá,
Com impulsos de rigor, 
Disse logo: bem te vi,
Deste lugar em que estou."
(¹)

Outro que se lembrou das façanhas do cantar do bem-te-vi foi Castro Alves (²), poeta cuja obra está bastante ligada às questões abolicionistas. Estes versos pertencem ao poema A Cachoeira de Paulo Afonso:

"Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!"

Já Lima Barreto, desta vez em prosa, escreveu, em O Triste Fim de Policarpo Quaresma:

"O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi!"

Resta observar que a impressão de que o pássaro seja algo dado à intriga e à fofoca é coisa de humanos, não de aves - só diz "bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi", porque assim nos parece ou queremos entender. Podia ser outra palavra ou expressão que soasse, aos nossos ouvidos, como coisa conhecida. Afinal, bem-te-vis não falam português.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 48.
(2) Castro Alves morreu muito jovem, coisa que em seu tempo não era incomum. Nascido em 1847, faleceu em 1871. Envolvido com a campanha abolicionista, acabou conhecido como "o poeta dos escravos". 
(3) GOELDI, Emílio A. (org.). Álbum de Aves Amazônicas. Rio de Janeiro: Livraria Clássica de Alves e Cie., 1900, p. 34.


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saúvas

O combate às formigas-cortadeiras no Século XIX e primeiras décadas do Século XX 


"A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira", escreveu José de Alencar (¹) em Ubirajara. Saúvas têm dentes? Tecnicamente, não, mas agem como se cada espécime fosse dotado de uma centena deles. Nas duas postagens anteriores tratei de formigueiros descomunais em São Paulo, isso lá pela segunda década do Século XIX, formigueiros que proliferavam nas ruas e nos quintais (²). Que fique claro: formigas não eram um problema apenas em São Paulo - eram um problema do Brasil, especialmente para a lavoura, e continuaram a desafiar a perseverança dos agricultores décadas além.
Para concluir esse assunto, ao menos por enquanto, faremos, hoje, uma visita a trechos da obra de Lima Barreto (³), crítico impiedoso das calamidades e (des)governos - da Bruzundanga, naturalmente. É por ela que começamos:
"Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à mingua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores." (⁴)
Em Marginália, o mesmo autor afirmou, ao referir-se à Ilha do Governador de tempos passados:
"Vivendo, por assim dizer, isolada do Rio de Janeiro, quase sem comunicações diárias com o centro urbano, abandonada pelos seus grandes proprietários, devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva, estava toda ela entregue a moradores pobres, apanhadores de suas frutas [...], lenhadores e carvoeiros, pescadores e alguns roceiros portugueses, que tenazmente se batiam contra a implacável formiga, fazendo roças de aipins, de batatas-doces, de quiabos, de abóboras, de melancias e até de melões."
Como os lavradores obtinham tanta variedade, a despeito das infernais saúvas? Lima Barreto não explicou, ainda que se encarregasse de maldizer as himenópteras também em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, prova de que não dedicava a elas nenhuma simpatia: 
"Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor-de-vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe. "A modo que é obra de gente", disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho [...] Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Passaram-se dias, os inimigos pareciam derrotados, mas certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... [...] Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam, nada de atropelos, de confusão, de desordem. [...]"
Anúncio publicado no jornal Correio Paulistano em 1918 (⁵)

O Echo, revista paulistana, em edição de 1916 contendo quase uma página dedicada ao assunto do combate às formigas-cortadeiras, trouxe as seguintes observações: "[...] é preciso logo advertir que em qualquer dos casos pouco monta a iniciativa particular - é indispensável a ação combinada do governo estadual, dos municípios e dos fazendeiros. Que aproveita, com efeito, um agricultor limpar os seus terrenos de bichos tão daninhos, se das fazendas vizinhas lhe vêm, de noite, destruir as plantações, e, na quadra dos enxames [...], um sem-número de içás lá vão estabelecer novas colônias?" (⁶)
Na falta da dita ação conjunta, ou na insuficiência dela, empresas da época ofereciam seus serviços a quem desejasse ao menos algum controle sobre as saúvas na agricultura, conforme vocês, leitores, poderão conferir nos dois anúncios aqui incluídos, de 1918 e 1919 - mais de um século, portanto, após a Câmara de São Paulo deliberar sobre formigueiros na cidade, de acordo com o que foi dito nas duas postagens anteriores.

Anúncio publicado na revista A Cigarra em 1919 (⁷)

(1) José Martiniano de Alencar, 1829 - 1877.
(2) Nas deliberações da Câmara de São Paulo, citadas nas duas postagens anteriores, não houve menção à espécie de formigas que infestava ruas e quintais. Este texto trata especificamente das saúvas, uma das espécies cortadeiras, particularmente daninhas à lavoura.
(3) Afonso Henriques de Lima Barreto, 1881 - 1922.
(4) Os Bruzundangas, 1922.
(5) CORREIO PAULISTANO, nº 19873, 1º de novembro de 1918, p. 6.
(6) O ECHO, Ano XV, nº 5, novembro de 1916.
(7) A CIGARRA, Ano VI, nº 125, 1º de dezembro de 1919.


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terça-feira, 27 de abril de 2021

Tacapes

Indígenas indo à guerra, de acordo com Debret;
o primeiro leva um tacape na mão direita (¹)

"Poti deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ele o cocar e a araçoia, ornatos dos chefes ilustres."
José de Alencar, Iracema

Tacapes, também chamados bordunas, eram armas indígenas muito versáteis, usadas na guerra  e na caça. Bem manejado, o tacape poderia abater, de um só golpe, um inimigo, quer em campo de batalha, quer nas execuções rituais, que muitas vezes precediam a antropofagia. Neste último caso, dava-se ao prisioneiro o direito de uma defesa simulada, ainda que totalmente inofensiva. Podia manejar, quanto quisesse, a arma oferecida, mas seria invariavelmente abatido, com um golpe que lhe esfacelaria o crânio, pelo valente que, a partir de então, poderia contá-lo entre os heróis que vencera. 
Em Guarani, há uma bela passagem em que José de Alencar retrata essa situação, ainda que - romance é romance - dessa vez o prisioneiro tenha saído astutamente vencedor, e escapado:
"Com efeito esse oferecimento que os selvagens faziam ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, imóvel pela tensão da corda, o mais que podia fazer o seu braço era vibrar o tacape no ar, sem poder tocar os seus inimigos.
[...]
O velho Aimoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio."
Querem saber, leitores, em que deu a situação? Leiam a obra toda de Alencar.

Tacapes ou bordunas (²)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Os tacapes vistos nesta foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Casacas sob o sol da capital do Império

"Será útil que a civilização acabe com esse uso de andar de jaqueta diante dos contemporâneos e aparecer de casaca à posteridade."
Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 12 de junho de 1864

Qualquer um que leia obras escritas por romancistas brasileiros do Século XIX pode, sem muito esforço, descobrir que na capital do Império, gente "de respeito", como se dizia, andava vestida de modo muito impróprio - impróprio para o clima do Rio de Janeiro, mas apropriado, sim, segundo as regras de etiqueta da época. Corram os olhos, leitores, sobre os exemplos seguintes, e já verão o que era a moda masculina sob o sol carioca:

"Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho."
Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha

"Alice [...] trocou algumas palavras em segredo com o pai, e tirando-lhe do bolso da casaca uma caixinha oval de tartaruga aproximou-se de Mário, que estava de pé apoiado no recosto da cadeira de D. Francisca."
José de Alencar, O Tronco do Ipê

"Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares, mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras e comer estes jantares."
José de Alencar, Sonhos d'Ouro

"Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo."
Machado de Assis, O Alienista

"Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado."
Machado de Assis, Quincas Borba

Então, o que acham? O problema é que usar casaca não era simplesmente uma opção. Daniel P. Kidder, missionário metodista que esteve no Brasil entre 1837 e 1840, descreveu muito bem as exigências quanto ao vestuário de quem pretendia pôr os pés em lugares de maior cerimônia:
"Presume-se que todo indivíduo de respeito se vista bem e com propriedade. Daí o fato de se não poder entrar nas repartições públicas, no Museu ou na Biblioteca Nacional, sem ser "de casaca". O paletó-saco constitui a birra principal das regras de etiqueta, no Brasil, e, conquanto se adapte melhor ao clima que qualquer outra roupa e seja geralmente usado em casa, é rigorosamente condenado o seu uso na rua. Assim é que as pessoas respeitáveis devem usar um capote quando saem, ou, se preferirem, um casaco relativamente pesado." (¹)
Lembrando aos leitores da geração Y que não havia ventiladores elétricos e muito menos ar-condicionado no Século XIX, consideremos, agora, o que escreveu o pintor François Biard, ao tratar da mania dos trajes cerimoniosos. Notem, por favor, que Biard, de nacionalidade francesa, esteve no Rio uns vinte anos após Daniel Kidder, e foi muito menos benevolente em suas observações:
"No Brasil todo mundo se veste de preto, não somente para ir às festas, mas, também, durante o dia, muito embora o sol derreta a todos de suor." (²)
Acrescentou, ainda:
"[...] Percorri a cidade [do Rio de Janeiro] [...]. Enverguei, para esse passeio, as roupas leves compradas na Belle Jardinière, mas me senti acanhado ao reparar que todos me olhavam com espanto semelhante ao que manifestávamos (³) antigamente diante de um árabe com seu albornoz ou um grego com sua saia pregueada. Por toda parte o preto predominava. Os caixeiros das lojas, manejando as vassouras, já vestiam, às sete da manhã, elegantes redingotes de casimira. O branco, neste país, onde o preto deveria ser castigo para os galés, era desconhecido." (⁴)
Biard estava errado. Havia, sim, quem usasse branco - os escravos! Vejam, portanto, leitores, que além de imitar o que era moda na Europa, era para se diferenciar dos cativos que a gente de condição livre se submetia à tortura das casacas, mesmo quando o clima e a saúde recomendavam coisa bem diferente.

Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, Século XIX;
em primeiro plano, dois cavalheiros usando casaca e cartola (⁵).

(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 142 e 143.
(2) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 12.
(3) Biard se refere aos franceses.
(4) BIARD, Auguste François. Op. cit., p. 32.
(5) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental. Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Coches, tílburis, carruagens

Transporte urbano com tração animal


Câmara dos Senadores, tendo, nas imediações, veículos de tração animal (¹)

O Paço Imperial, construído no Rio de Janeiro no Século XVIII, para servir,  inicialmente, como residência do Governador (vice-rei), era dotado de duas cocheiras, segundo descrição de Joaquim Manuel de Macedo:
"A face do norte apresentava [...] um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril." (²)
Não se espantem os leitores: cocheiras eram absolutamente necessárias. Animais que serviam ao transporte de humanos e de carga precisavam de moradia.
Muita gente andava a cavalo; em áreas urbanas, porém, a maioria das pessoas preferia os "carros", que podiam ser coches, seges, troles, tílburis, e assim por diante.
Como a maioria de nós, gente do século XXI, não tem a menor intimidade com o uso desses veículos, vai aqui um pequeno dicionário para alguns deles, sem nenhuma pretensão a rigor técnico, apenas para dar uma ideia:

Sege - tinha só um par de rodas e um assento. Cortinas ocultavam o(s) passageiro(s).
Coche - semelhante à sege, mas geralmente com quatro rodas.
Carruagem - Montada sobre molas, para reduzir o impacto ao passar por buracos e outras irregularidades do terreno (não pouco frequentes).
Carroça - com duas ou quatro rodas, servia para o transporte de carga. Era puxada por cavalos, burros ou mulas.
Trole - era uma carruagem bem simples, que se usava para o transporte de passageiros, principalmente no interior do Brasil.
Tílburi - Tinha um só par de rodas, com um único animal de tração.

Um fiacre, desenho de Thomas Ender (³)

A literatura brasileira do Século XIX contém numerosas referências a meios de transporte com tração animal, mesmo porque eles eram parte da vida quotidiana de quase todo mundo. Em Dom Casmurro, por exemplo, a personagem que dá título à obra relata o apreço que tinha, na infância, por passear na sege de propriedade do pai. Bentinho contará por si mesmo:
"Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um óculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.
- Senta, Bentinho!
- Deixa espiar, mamãe!
E em pé, quando era mais pequeno, metia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a rédea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incômodo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava e eu também."
É bom lembrar que a maioria das pessoas, nas cidades, fazia uso de "carros de aluguel", num sistema semelhante aos modernos táxis, mas havia quem tivesse seu próprio meio de transporte. A propósito, quem tinha, por exemplo, um coche particular, devia ter, também, um escravo ou empregado para a função de cocheiro ou condutor. Nos carros de aluguel o cocheiro era, em geral, assalariado para a função. É também de Machado de Assis esse trechinho de Quincas Borba que nos permite entrever o fato de que cocheiros podiam, afinal, ser pessoas que apreciavam informações em primeira mão, o que obrigava casais apaixonados à guarda de um comportamento, digamos, discreto:
"Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que há de haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente falava à vontade, e iria ao fim da Terra."

Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender (⁴)

(1) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental. Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 36.
(3) Fiacre, desenho de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Duas aranhas na literatura brasileira

Não sei quantas aranhas aparecem na literatura brasileira; tampouco sei se as há personagens importantes ou insignificantes. Só sei que conheço duas. Vamos a elas.
Vem a primeira de ninguém menos que Machado de Assis, em Quincas Borba:
"Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre."
Ouve? Talvez por preguiça de mover-se a outro lugar; talvez goste. Como saber se Machado tinha razão?
Já a segunda aranha (que também, por suposto, nada devia saber de Mozart, nem de músico algum...), aparece em Os Bruzundangas, de Lima Barreto. Ora, na Bruzundanga, país fictício com notáveis semelhanças com um outro bem real, uma aranha deu-se à veleidade de fazer teia no gabinete de um ministro de Estado - pretexto para o autor discorrer sobre a enorme importância de um secretário de ministro de Estado:
"Creio que as aranhas, tanto as daqui como as da Bruzundanga, não têm em grande conta o cargo de Ministro de Estado. É de lastimar que insetos [sic] de tanto talento desconheçam a importância de tão sublimado bímano; entretanto, não está nos poderes humanos obrigá-las a respeitar o que respeitamos, senão devíamos fazê-lo, para que tais aracnídeos não procedessem como um deles procedeu irreverentemente com um ministro da Bruzundanga."
Sim, sim, sim, aranhas são classificadas entre os aracnídeos, não entre os insetos, embora tanto aracnídeos como insetos sejam artrópodes. Uma vez salvo o patrimônio lineano, é hora de abrir passagem a Lima Barreto para que venha nos contar o tal incidente:
"Caso foi que uma aranha comum, totalmente despida de qualquer notoriedade entre as aranhas, completamente sem destaque entre as suas iguais, teve o desaforo de pôr-se a tecer a sua teia no próprio teto do gabinete de um ministro da Bruzundanga e bem por cima de sua majestosa cadeira.
Houve, quando o trabalho ia adiantado, não sei que espécie de cataclismo, próprio ao universo das aranhas; e, tão forte foi ele, que um bom pedaço de labor do engenhoso articulado veio a cair em cima da sobrecasaca da poderosa autoridade da República da Bruzundanga.
Apesar do seu imenso poder e da sua forte visão de seguro guia de povos, o grave ministro não deu conta do desrespeito - involuntário, é verdade, mas desrespeito - de que acabava de ser objeto, por parte de uma miserável aranha, hedionda e minúscula.
Mas, não dando pelo fato, tratou de tomar o coupé para ir ao despacho coletivo, levando tão estranha condecoração nas costas, quando o secretário, chapéu na mão, todo mesuroso, pedindo licença, tirou a prova da indignidade do bichinho das vestes do seu amo. E ele já entrava no carro!...
[...] Ah!, Os secretários de ministro! Como são úteis!"
Lima Barreto escreveu nos tempos da República Velha, nos tempos em que a Capital (do Brasil, não da Bruzundanga) estava junto ao mar, nos tempos em que ministro de Estado tomava "coupé para ir ao despacho coletivo". Na Bruzundanga, é claro!
Como veem, senhores leitores, eram mesmo outros tempos.
Quase onipresentes, no entanto, as aranhas continuam a ouvir Mozart (talvez com menos frequência, infelizmente) e, cem anos mais tarde, talvez ainda sejam bastante atrevidas parar irem tecer suas moradias em lugares insólitos.


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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Remédios estranhíssimos de antigamente - Parte 3: Cachaça para tratar picadas venenosas

Antes do soro antiofídico (1903), a picada de uma cobra venenosa equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, às vezes muito rápida, às vezes algo mais demorada, frequentemente dolorosa. Vale lembrar, também, que, desde os primeiros tempos da colonização, os europeus que chegavam ao Brasil ficavam aterrorizados diante do número e das dimensões das serpentes venenosas que encontravam, de modo que não tardou a aparecer um certo "conhecimento" popular para tratamento no caso de alguém ser picado, fato que, diga-se de passagem, não era nada incomum. O problema é que os tais "medicamentos" quase sempre não davam muito resultado.
Um relato do Conde de Azambuja, monçoeiro do Século XVIII, provê a explicação de como eram tratadas as picadas de cobra:
"No Pardo (¹) ocorria extraordinário número de ofídios causadores de frequentíssimos acidentes combatidos pela ingestão de altas doses de cachaça salgada." (²)
Espantoso? Há mais.
Não eram apenas picadas de cobra que eram "tratadas" à base de cachaça. As de abelhas recebiam terapia semelhante, se devemos crer em um trechinho proveniente da Literatura, em obra de José de Alencar:
"João Fogaça passou tranquilamente em face deles; apertou a mão a Estácio e beijou-a ao Rev. Padre Inácio. Instruído do que acontecera, o capitão de mato deu logo suas providências para o curativo do pobre sacerdote, cujo corpo apresentava já com a inflamação um aspecto disforme; as fricções de fumo e aguardente aliviaram o enfermo que afinal consentiu repousar algumas horas, depois de obtida a promessa formal de perdão para os selvagens." (³)
Use a interjeição que quiser, leitor. Ao menos, no caso de picada de cobra, a cachaça devia servir, parece, para tornar o infeliz moribundo um tanto alheio à realidade da morte iminente.

(1) Rio Pardo.
(2) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 86.
(3) ALENCAR, José de. As Minas de Prata.


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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Superstições no Brasil - Parte 3

Superstições na literatura brasileira: do ouro que virava carvão à sexta-feira, dia 13


Na literatura brasileira do século XIX há uma variedade de exemplos de superstições que eram, então, populares. Vão aqui apenas alguns casos.

1. Em As Minas de Prata, José de Alencar refere que, nos tempos coloniais, havia uma exótica crendice relacionada a dinheiro que alguém, para escondê-lo, havia enterrado:
"Ainda hoje há pelo interior quem acredite que o dinheiro enterrado por pessoa finada se transforma em carvão, à vontade de quem o possuiu, e sobretudo quando o acha outro, que não o escolhido herdeiro da alma penada.
Encontrando a botija, os salteadores sem dúvida acreditariam que o ouro de que estava cheia se trocara em carvão; e deixariam em paz a casa de D. Dulce. Então, quando se retirassem já aterrorizados com a superstição, esbarrariam nos quadrilheiros (¹) postados ali perto, e iriam chorar os seus pecados na cadeia até o dia do castigo."
Como veem, senhores leitores, é quase de se lamentar que tal superstição tenha perdido completamente sua força!

2. Outra de Alencar, desta vez em Til, versando sobre as explicações supersticiosas que se atribuíram à origem de uma menininho abandonado que certo dia apareceu, sobre um cavalo, no terreiro de uma fazenda:
"Como de costume, apareceram várias conjecturas e invenções, cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou que esse menino era o anticristo e o sendeiro a própria besta do Apocalipse, descrita por S. João. Outra jurava ser o caçula do diabo cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava fazendo estripulias pelo mundo."
Tem-se, por este exemplo, uma noção das ideias malucas que povoavam a cabeça das pessoas quando se tratava de crianças abandonadas e/ou de origem desconhecida. Era a culminação da infelicidade, vir ao mundo como um ser frágil e já em péssima situação, e ser ainda alvo de superstições cabeludas. E olhem que este não é o único caso na literatura brasileira em que há referência aos supostos maus agouros associados a pequenos que ninguém sabia exatamente de onde vinham.
Agora, Machado - para recordar duas das mais universais superstições, a do número 13 e a da sexta-feira. Vamos a elas.

3. Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre. O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o número 13. Et coetera. Era um algarismo fatídico. Não podia alegar semelhante coisa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha razões particulares para não aceitar."
Neste caso, Machado de Assis toca, de passagem, em um aspecto curioso das superstições. É que, sendo elas amplamente aceitas e mais amplamente ainda execradas, ninguém que se julgue pessoa instruída quer assumir que as acolhe. Mas é raro encontrar quem não tenha lá, sob esse aspecto, suas manias.

4. Por último, uma citação de Dom Casmurro:
"Um dia, - era uma sexta-feira, - não pude mais. Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro, como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas também pode ter sido de propósito; fui educado no terror daquele dia; ouvi cantar baladas em casa, vindas da roça e da antiga metrópole, nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto, não havendo almanaques no cérebro, é provável que a ideia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. A vida é tão bela que a mesma ideia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida."
Pois bem, deixando Bento (ou Dom Casmurro, como queiram) de lado, juntamente com suas neuróticas suspeitas (²), tratemos de encerrar esta postagem que, aliás, não sai nem em dia 13, muito menos em sexta-feira. Tenham, pois, um ótimo dia, senhores leitores!

(1) Assim eram chamados, segundo as Ordenações do Reino, os indivíduos com funções policiais que, à noite, vigiavam a cidade (Veja-se o Livro Primeiro, Título 73 das Ordenações).
(2) Ou nem tanto...


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domingo, 23 de dezembro de 2012

Cadeirinhas de arruar - Parte 3

O trânsito não muito seguro de seges, coches, carruagens e cadeirinhas de arruar


Depois das duas postagens anteriores, alguns de meus leitores podem ter considerado que redes ou cadeirinhas de arruar eram meios de transporte absolutamente seguros, ainda que muito lentos. Combinavam bem com o cenário dos tempos coloniais, com as ruas sossegadas, com a pouca pressa de quem caminhava. Enfim, eram parte de um estilo de vida algo bucólico, que se perdeu com a aceleração trazida pelos tempos da industrialização. Certo?
Talvez não. Mesmo quem se fazia transportar em cadeirinha podia envolver-se em um acidente. Neste caso, a Literatura pode ser muito útil à História.
Há um pequeno episódio narrado por Machado de Assis em Quincas Borba no qual as cadeirinhas fazem parte do cenário, mas uma de suas usuárias acaba sendo tragicamente esmagada pelas rodas de uma sege e pelas patas de duas mulas que a conduziam. Passou-se durante o chamado Período Joanino. É hora de ler:
"Foi no Rio de Janeiro [...], defronte da Capela Imperial, que era então Real, em dia de grande festa; minha avó saiu, atravessou o adro, para ir ter à cadeirinha, que a esperava no Largo do Paço. Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas suas ricas traquitanas. No momento em que minha avó saía do adro para ir à cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma das bestas de uma sege; a besta disparou, a outra imitou-a, confusão, tumulto, minha avó caiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe por cima. Foi levada em braços para uma botica da Rua Direita, veio um sangrador, mas era tarde; tinha a cabeça rachada, uma perna e o ombro partidos, era toda sangue; expirou minutos depois."
Naturalmente o incidente contado por Machado devia ter um mínimo de verossimilhança, ou não entraria em Quincas Borba. Mas, o que nos interessa, mesmo, é verificar que, até nos dias das cadeirinhas, seges, coches e carruagens, acidentes graves podiam ocorrer. Talvez o que diferencie o mundo de hoje e o de antigamente não seja exatamente se tais fatos ocorrem, mas com que frequência.


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domingo, 6 de novembro de 2011

Álvares de Azevedo - poesia, amor, saudade e morte aos vinte anos

Notícia publicada no jornal
Aurora Paulistana, 1º de maio de 1852
Nascido em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831, o poeta Álvares de Azevedo faleceu no Rio de Janeiro em 25 de abril de 1852. Era jovem, muito jovem, e já fazia grande sucesso com suas produções literárias, aliás de caráter bastante diversificado, refletindo um espírito em busca de seus rumos, típico de um (quase) adolescente. Ao contrário do que muitos pensam, o tal senso de "ser adulto" tem variado muito de idade - já notou, leitor, por exemplo, como mudou ao longo dos tempos a época da vida que se considerava apropriada para o casamento? De todo modo, basta folhear o que se publicou da pena de Álvares de Azevedo para que se constate a veracidade do que estou dizendo.
É, porém, inegável que a temática da morte, até por influência de autores do romantismo europeu, está muito presente em seus versos, assim como nos escritos de outros poetas contemporâneos - vê-se logo que, ao menos em termos literários, os jovens escritores demonstravam uma identificação absolutamente passional com o famoso suicida de colete amarelo e casaca azul (*), a ponto de alguns, seguindo-lhe o exemplo, chegarem a pôr termo à vida "por amor".
Vale aqui, entretanto, uma observação. Se é verdade que havia interesse pelas obras um tanto mórbidas dos grandes românticos, esse interesse encontrava âncora na realidade quotidiana. Do que estou falando? Quem quer que caminhe pelas quadras de cemitérios nos quais estão sepultados os mortos do século XIX dar-se-á logo conta de um fato estarrecedor, o da existência de uma quantidade absurda de túmulos de gente que morreu com dezoito, vinte anos, ou pouco mais que isto. Vê-se, leitor, que morrer "na flor da idade" era coisa relativamente comum, consequência de doenças (como a tuberculose) para as quais não havia tratamento,  não uma fantasia de adolescentes mentalmente doentios, metidos a ler e escrever poesia quando deviam tratar de fazer qualquer outra coisa.
Ora, o estudante de Direito Álvares de Azevedo faleceu, como já disse, em 25 de abril de 1852, mas a notícia de sua morte apareceu no jornal Aurora Paulistana somente em 1º de maio (do mesmo ano, claro). Isso nos dá alguma ideia da velocidade de publicação das notícias naqueles dias, já que uma edição do mesmo jornal circulou em 28 de abril, sem tocar no assunto. Compare-se com o que ocorre atualmente, quando um fato, ocorrido em quase qualquer ponto, não do Brasil, mas do mundo, ganha os sites de notícias e repercute nas redes sociais em poucos minutos, para se verificar o quanto o fenômeno da rápida circulação de informações alterou não só nossa visão de mundo mas, até em consequência disso, nosso modo de vida e, por que não dizê-lo, nossa percepção da morte. Chora-se pela celebridade falecida em um ponto qualquer do planeta, ignorando-se por vezes a dor e o sofrimento dos que estão perto, ou mesmo a desgraça de milhares trucidados por catástrofes naturais e/ou provocadas por nossa própria espécie. Somos mesmo muito estranhos.

(*) Refiro-me, naturalmente, à personagem Werther, da obra Die Leiden des jungen Werthers, de Goethe: "Er lag gegen das Fenster, entkräftet, auf dem Rücken, war in völliger Kleidung, gestiefelt, im blauen Frack mit gelber Weste."


***

Sob uma epígrafe de Byron, Álvares de Azevedo, em 12 de setembro de 1851, dia de seu vigésimo e último aniversário, escreveu:

Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d'esperança!
Mas hoje o coração desbota, esfria,
E do peito no túmulo descansa!

Pálida sombra dos amores santos,
Passa, quando eu morrer, no meu jazigo:
Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,
E lá na morte eu sonharei contigo!
(Saudades in Lira dos Vinte Anos)



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sábado, 23 de abril de 2011

Doces sabores da Páscoa e da gramática

Todo estudante lê muita coisa apenas para cumprir exigências acadêmicas. Não foi diferente comigo, aposto que também foi assim com você. Reler uma obra importante, sem nenhuma obrigação de fazê-lo, já é outra coisa. Um dia desses topei com este delicioso trechinho de Raul Pompeia em O Ateneu:
"A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. 
Cetim cor de céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de chocolate: levados à boca saborosíssimos."
Ora, bem, então ocorreu-me que seria bom cumprimentar meus leitores e assinantes com essa inusitada associação entre os doces da páscoa e a gramática...
Portanto, desejo a você - leitor, assinante, seguidor - uma feliz páscoa, com ou sem gramática, mas com muito doce, especialmente chocolate. Afinal, já, já, vem a segunda-feira e, nesses dias do capitalismo, as celebrações terminam no domingo mesmo, ao contrário de antigos tempos, em que seguiam semana adentro.

domingo, 14 de novembro de 2010

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!

Aprendemos, quando crianças, que fadas ou bruxas podem usar determinadas palavras mágicas que, apenas pronunciadas, têm o poder de "fazer acontecer" qualquer coisa que se queira. Quando crescemos, temos a difícil tarefa de desaprender tudo isso. A duras penas, percebemos que é preciso muito mais que palavras mágicas para que aquilo que desejamos venha a ser realidade. Entretanto, é curioso observar que, em se tratando de política, parece haver muita gente crescida que ainda acredita em palavras mágicas - é só ver as listas de "eu prometo que...", "eu farei...", ou ainda "no meu governo..." que proliferam nas campanhas eleitorais. Resta saber se os crentes em contos de fadas são eleitores ou candidatos, ou se há entre eles um verdadeiro e misterioso pacto do faz-de-conta.
No belíssimo poema "O Navio Negreiro", de 1869, o jovem Castro Alves (que não jogava no time do faz-de-conta) escreveu:

"Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E a deixa transformar-se nessa festa,
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio, Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que da liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!..."

Reconheço que, para o leitor contemporâneo, a linguagem pode, talvez, soar difícil. Mas, em essência, o que o poeta afirma é que a bandeira do Brasil, com toda a beleza natural que representa, encontra-se, no momento em que escreve, manchada pela infâmia da escravidão. E, num arroubo de coragem, chega a dizer que melhor teria sido ver a bandeira despedaçada na guerra (da Independência, provavelmente), que tê-la agora transformada em mortalha para os escravizados, já que o objetivo do poema é descrever a brutalidade do tráfico de africanos e o horror do quotidiano em um tumbeiro, ou seja, em um navio da "carreira da África".
Como se sabe, a escravidão foi formalmente abolida em maio de 1888. No ano seguinte, em 15 de novembro, proclamou-se a República. Eis que, no contexto dessa nova ordem política, adotou-se um Hino à Proclamação da República, com letra de José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque e música de Leopoldo Américo Miguez. Para efeitos práticos, a data de publicação do Hino no Diário Oficial foi a de 21 de janeiro de 1890, ou seja, pouco mais de dois meses após a proclamação da República e pouco menos de dois anos após a Abolição.
Na segunda estrofe do Hino, encontram-se estas palavras:

"Nós nem cremos que escravos outrora,
Tenha havido em tão nobre país
Hoje o rubro lampejo da aurora,
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais, ao futuro
Saberemos unidos levar,
Nosso augusto estandarte, que puro,
Brilha avante, da Pátria no altar."

Para mim, há aqui um evidente diálogo entre o poema de Castro Alves e as palavras do Hino à Proclamação da República. Se Castro Alves invectiva a escravidão e todo o seu sistema de práticas cruéis, o Hino afirma ser a escravidão uma memória remota, substituída pela igualdade republicana. Se o Poeta dos Escravos lamenta a bandeira maculada pela escravidão, a letra de Medeiros e Albuquerque atesta a purificação do pavilhão nacional, obviamente em virtude também do advento do regime republicano.
Diga-me, leitor, seria possível em tão pouco tempo produzir-se uma tão radical mudança? Seria a proclamação da República o fiat lux da Pátria?
Entendo que, em seu entusiástico idealismo republicano, o autor quisesse, à força das palavras, mudar o País, banir até os mais tênues vestígios da escravidão, ver a nação constituir-se em uma autêntica fraternidade de cidadãos, habilitando-a a produzir um futuro brilhante. Belo intento, não há dúvida, que a maturidade política (semelhantemente ao que ocorre em termos de maturidade psicológica), tem demonstrado ser impossível só com palavras. Neste caso, a famosa expressão "sangue, suor e lágrimas" pode ser exata expressão da realidade. Prova disso é que o sonho continua algo distante mas, felizmente, não ao ponto de tornar-se impossível alcançá-lo.


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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Tomás Antônio Gonzaga, o ser humano escondido atrás do herói Dirceu

Primeira página da edição de 1799 de
Marília de Dirceu
Tomás Antônio Gonzaga, o famoso autor de Marília de Dirceu, é chamado, muitas vezes, de "Poeta da Inconfidência", embora jamais tenha celebrado favoravelmente o movimento de independência de que, supõe-se, tenha participado, além de não ser, entre os listados como revoltosos, o único que compunha versos. Como magistrado, já havia escrito um Tratado de Direito Natural, mas são os versos árcades de Marília de Dirceu que o tornaram conhecido.
Ora, inconfidente ou não, Gonzaga foi preso entre os rebeldes e levado à prisão no Rio de Janeiro. Lá, pelo que se sabe, continuou a compor versos, nos quais lamentava sua condição de prisioneiro:

Com pesadas cadeias manietado,
Às vozes da razão ensurdecido,
Dos céus, de mim, dos homens esquecido,
Me vi de amor nas trevas sepultado.

Ali aliviava o meu cuidado
Co' dar de quando em quando algum gemido.
Ah! tempo! Que, somente refletido,
Me fazes entre as ditas desgraçado.

Mas não era só. Tentava mostrar que não era um dos conjurados (pelos Autos da Devassa, sabemos que nem mesmo Tiradentes o considerava um!), ao atacar, sempre em versos, a rebelião antilusitana e o alferes que todos incriminavam como cabeça da sedição:

Há em Minas um homem,
Ou por seu nascimento ou seu tesouro,
Que aos outros mover possa
À força de respeito, à força d’ouro?
Os bens de quantos julgas rebelados
Podem manter na guerra,
Por um ano sequer, a cem soldados?

Ama a gente assisada
A honra, a vida, o cabedal tão pouco,
Que ponha uma ação destas
Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?
E quando a comissão lhe confiasse,
Não tinha pobre soma,
Que por paga ou esmola, lhe mandasse!

É notório que o "pobre, sem respeito e louco" só pode ser o Alferes Joaquim José da Silva Xavier. Mas, contrariando talvez a opinião de muitos, não considero Tomás Antônio Gonzaga um traidor da Inconfidência. Qualquer pessoa, metida em escura e imunda prisão, correria o risco de fraquejar ante a possibilidade de uma sentença de morte. Qualquer pessoa de uma certa posição social, tanto em Vila Rica como nas adjacências, podia, na época, ter entrado em contato com defensores das ideias iluministas e, nesse caso, corria o risco de ser incluída entre os acusados da conspiração, e é razoável imaginar que o próprio Gonzaga, ainda que português de nascimento, tenha ocasionalmente entretido conversas a respeito, sem considerar que, de algum modo, acabaria envolvido em um processo que mudaria radicalmente o curso de sua vida. Há que acrescentar que, pelos depoimentos, sabe-se que ele não foi o único a tentar escapar da condenação - ele é lembrado porque deixou seu próprio testemunho, nos versos de Marília de Dirceu. Talvez em breves instantes de esperança, Gonzaga imaginava-se inocentado, a ponto a de escrever:

Chegando este dia,
Os braços daremos:
Então mandaremos
De gosto e ternura
Suspiros aos céus.
Pôr-me-ão no sepulcro
A honrosa inscrição:
“Se teve delito,
Só foi a paixão,
Que a todos faz réus.”

Mas a absolvição não veio. Os inconfidentes foram, todos, sentenciados à morte, mas tiveram a pena comutada, à exceção, é claro, da atribuída a Tiradentes. E o poeta, mais uma vez, pôs em versos a angústia diante da condenação a dez anos de degredo na África, o que equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, pela elevada probabilidade de lá contrair uma doença fatal:

Parto, enfim, e vou sem ver-te,
Que neste fatal instante
Há de ser o teu semblante
Mui funesto aos olhos meus.
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
E crês, Dirceia, que devem
Ver meus olhos penduradas
Tristes lágrimas salgadas
Correrem dos olhos teus?
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!

Há uma terceira parte de Marília de Dirceu cuja autoria é bastante controversa. Foi publicada em 1812, portanto após a morte do poeta. Admite-se, de um modo geral, que Tomás Antônio Gonzaga passa ter ao menos rascunhado parte desses versos, dentre os quais encontram-se alguns tidos como muito provavelmente seus:

Leu-se-me enfim a sentença
Pela desgraça firmada;
Adeus, Marília adorada,
Vil desterro vou sofrer.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? irei morrer.

Que vá para longes terras,
Intimarem-me eu ouvi;
E a pena que então senti,
Justos céus! não sei dizer.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? irei morrer.

[...].

Da desgraça lei fatal
Pode de ti separar-me:
Mas nunca d'alma tirar-me
A glória de te querer.
Ausente de ti, Marília,
Hei de amar-te até morrer.

Ah, leitor, tenha Tomás escrito ou não esses versos, é fato que não tornou a ver Marília. Mas também não morreu de amores: já em Moçambique, conheceu Juliana de Sousa Mascarenhas, jovem de elevada posição, com quem se casou em 1793 e teve pelo menos um filho. Veja bem em que deram os versos de amor...
Tomás Antônio Gonzaga nunca tornou ao Brasil, pois continuou a viver no lugar de seu desterro mesmo após a conclusão da pena, onde morreu  provavelmente em 1810, embora o site oficial da Academia Brasileira de Letras, da qual é patrono da Cadeira 37, informe a data de fevereiro de 1807.
Quanto a Marília (Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão), ao termo dos dez anos de degredo de "Dirceu", parece ter ido ao Rio de Janeiro para cuidar de uma viagem a Lisboa, a fim de reencontrar Gonzaga, mas teria, ainda no Rio, recebido a informação de que ele se casara na África, o que a fez retornar a Vila Rica. Está sepultada na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias em Ouro Preto, tendo falecido em fevereiro de 1853. Note-se apenas: morreu solteira.


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