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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Como se vestiam os homens que iam à Corte durante o Governo Joanino

Para que alguém se apresentasse diante do príncipe regente, depois rei Dom João VI, era preciso que se vestisse decentemente, dentro dos padrões da moda da época. Mas como era isso?
Joaquim Manuel de Macedo, em Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, explicou:
"Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço, fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia (¹), levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda." (²) 
O detalhe curioso é que esta moda um tanto ridícula - pelos padrões atuais, mas não daquela época - somente foi abandonada, ainda de acordo com Macedo, por volta do tempo em que ocorreu a antecipação da maioridade do segundo imperador do Brasil:
"[...] O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia." (³)
Calças como representantes da democracia? Ora, reconheçamos, que exagero! Mas houve quem, a despeito da nova moda, perseverasse na antiga:
"Se aceitarem a ideia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela." (⁴) 
O tal homem tinha o direito de usar a roupa que quisesse. Mas é de se admitir que, provavelmente, ao vê-lo, parecesse aos circunstantes que estavam fazendo uma viagem no tempo.

(1) Exagero no rigor ao vestir-se.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 44.
(3) Ibid.
(4) Ibid.


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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Quem costurava as roupas de dona Leopoldina

Desembarque da princesa Leopoldina no Rio de Janeiro (¹)

Durante muito tempo, ou melhor, desde o início da colonização até que viesse ao Brasil a família real portuguesa, as roupas femininas foram, como regra, costuradas em casa da interessada em usá-las, pela própria dona ou por alguma escrava que, por ter o ofício de costureira, era considerada muito valiosa. Havia alfaiates que, além de trajes masculinos, também faziam roupas simples para mulheres, porém, como fornecedores desses artigos, eram exceção.
Mas veio 1808, veio a família real, vieram as mudanças daí decorrentes, vieram as costureiras francesas, as lojas de comerciantes franceses de artigos para vestuário feminino - tecidos, rendas, fitas, e uma infinidade de outras coisas, sempre anunciadas como última moda em Paris. Daí resultaram esquisitices que, adequadas ao inverno europeu, eram, no mínimo, ridículas sob o sol da capital do Império. "Calculem e façam ideia do que custa a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...", exclamou Joaquim Manuel de Macedo, acrescentando: "[...] em cada corte de seda, em cada toalete, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!..." (²)
Mas, falando das costureiras e modistas, cada uma era tanto mais famosa quanto fosse de maior prestígio a sua clientela. Qual não seria, então, a fama daquela que costurava para dona Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil? Voltemos a Macedo:
"Mlle. Josephine foi a modista da primeira imperatriz do Brasil, e, portanto, de todas as senhoras da corte, e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar frequentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predileção cortava cara e desapiedadamente." (³)
Estejam certos, leitores, de que, se vivemos em outros tempos, não deixou de haver alguma correspondência, embora os hábitos e sonhos de consumo sejam outros. Não é verdade que quem presta serviço a alguma celebridade, seja lá para o que for, logo ganha fama e tem uma quantidade enorme de imitadores? Em sua essência, a humanidade continua exatamente a mesma.

(1) Cf. DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(3) Ibid.


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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Chapéus, guarda-chuvas e barbatanas para coletes

Um comerciante estabelecido em São Paulo fez publicar este anúncio no jornal Aurora Paulistana em junho de 1852 (para não enlouquecer os leitores, vai aqui transcrito na ortografia atual):
"MARMOTANT VICTOR [...] Tem a honra de participar ao respeitável público desta cidade, como aos de fora, que ele acaba de receber um grande sortimento de chapéus de palha de Itália, de homens e de meninos, enfeitados, assim como chapéus de pelo franceses. O mesmo costuma ter sempre um grande sortimento de guarda-chuvas de seda, de 5$ até 14$000; tem também de senhora de 3#000 até 10$000; conserta com brevidade todas as qualidades de chapéus por preço muito razoável; também tem barbatana para coletes de senhora." (¹)
Chapéu, meus leitores, era acessório indispensável para homens e meninos, e, com menos discrição, também para mulheres, principalmente em ocasiões de maior cerimônia. Já os guarda-chuvas não eram só para chuva: entravam em uso sempre que o sol forte se tornava inconveniente. Pode chamar a atenção o fato de que eram feitos de seda, mas isso é facilmente explicável porque a maioria dos materiais hoje usados era ainda inexistente.
Surge, no entanto, a pergunta: para que as barbatanas? Lembrem-se, leitores, dos infames espartilhos, que, a pretexto de elegância e perfeita silhueta, torturavam as mulheres e despovoavam os mares. É que as ditas barbatanas vinham, como regra, de alguma baleia, que fora arpoada, sangrada, assassinada, carneada e desossada. A vaidade tinha sua parcela de culpa nesse péssimo negócio.

Dama usando espartilho (²)

(1) AURORA PAULISTANA, Ano I, nº 54, 22 de junho de 1852.
(2) BARRY, William. The Corset and the Crinoline. London: Ward, Lock, and Tyler, 1868, pp. 197 e 200. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Casacas sob o sol da capital do Império

"Será útil que a civilização acabe com esse uso de andar de jaqueta diante dos contemporâneos e aparecer de casaca à posteridade."
Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 12 de junho de 1864

Qualquer um que leia obras escritas por romancistas brasileiros do Século XIX pode, sem muito esforço, descobrir que na capital do Império, gente "de respeito", como se dizia, andava vestida de modo muito impróprio - impróprio para o clima do Rio de Janeiro, mas apropriado, sim, segundo as regras de etiqueta da época. Corram os olhos, leitores, sobre os exemplos seguintes, e já verão o que era a moda masculina sob o sol carioca:

"Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho."
Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha

"Alice [...] trocou algumas palavras em segredo com o pai, e tirando-lhe do bolso da casaca uma caixinha oval de tartaruga aproximou-se de Mário, que estava de pé apoiado no recosto da cadeira de D. Francisca."
José de Alencar, O Tronco do Ipê

"Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares, mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras e comer estes jantares."
José de Alencar, Sonhos d'Ouro

"Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo."
Machado de Assis, O Alienista

"Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado."
Machado de Assis, Quincas Borba

Então, o que acham? O problema é que usar casaca não era simplesmente uma opção. Daniel P. Kidder, missionário metodista que esteve no Brasil entre 1837 e 1840, descreveu muito bem as exigências quanto ao vestuário de quem pretendia pôr os pés em lugares de maior cerimônia:
"Presume-se que todo indivíduo de respeito se vista bem e com propriedade. Daí o fato de se não poder entrar nas repartições públicas, no Museu ou na Biblioteca Nacional, sem ser "de casaca". O paletó-saco constitui a birra principal das regras de etiqueta, no Brasil, e, conquanto se adapte melhor ao clima que qualquer outra roupa e seja geralmente usado em casa, é rigorosamente condenado o seu uso na rua. Assim é que as pessoas respeitáveis devem usar um capote quando saem, ou, se preferirem, um casaco relativamente pesado." (¹)
Lembrando aos leitores da geração Y que não havia ventiladores elétricos e muito menos ar-condicionado no Século XIX, consideremos, agora, o que escreveu o pintor François Biard, ao tratar da mania dos trajes cerimoniosos. Notem, por favor, que Biard, de nacionalidade francesa, esteve no Rio uns vinte anos após Daniel Kidder, e foi muito menos benevolente em suas observações:
"No Brasil todo mundo se veste de preto, não somente para ir às festas, mas, também, durante o dia, muito embora o sol derreta a todos de suor." (²)
Acrescentou, ainda:
"[...] Percorri a cidade [do Rio de Janeiro] [...]. Enverguei, para esse passeio, as roupas leves compradas na Belle Jardinière, mas me senti acanhado ao reparar que todos me olhavam com espanto semelhante ao que manifestávamos (³) antigamente diante de um árabe com seu albornoz ou um grego com sua saia pregueada. Por toda parte o preto predominava. Os caixeiros das lojas, manejando as vassouras, já vestiam, às sete da manhã, elegantes redingotes de casimira. O branco, neste país, onde o preto deveria ser castigo para os galés, era desconhecido." (⁴)
Biard estava errado. Havia, sim, quem usasse branco - os escravos! Vejam, portanto, leitores, que além de imitar o que era moda na Europa, era para se diferenciar dos cativos que a gente de condição livre se submetia à tortura das casacas, mesmo quando o clima e a saúde recomendavam coisa bem diferente.

Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, Século XIX;
em primeiro plano, dois cavalheiros usando casaca e cartola (⁵).

(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 142 e 143.
(2) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 12.
(3) Biard se refere aos franceses.
(4) BIARD, Auguste François. Op. cit., p. 32.
(5) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental. Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Escravas trabalhavam como intérpretes para comerciantes franceses

Na capital do Império do Brasil, a Rua do Ouvidor era um centro de comércio em que as madames podiam encontrar os artigos de moda mais recentes - recentes, é claro, depois de uma longa viagem de navio entre a Europa e o porto do Rio de Janeiro. Era lá, portanto, que muitos comerciantes franceses estabeleciam suas lojas. Porém, como é que esses empreendedores podiam fazer contato com a clientela, tendo em vista o obstáculo da diferença de idioma?
Será bom lembrar, primeiro, que, nesse tempo, as meninas de famílias ricas começavam a receber aulas de francês (¹), um conhecimento que passaria a ser considerado indispensável à boa educação. Por isso, letreiros das lojas e mesmo anúncios em jornais e revistas de moda que circulavam no Império vinham, muitas vezes, escritos em francês - essa mania foi longe, e existiu até em tempos já republicanos. Supõe-se, pois, que pelo menos algumas freguesas eram capazes de falar a língua dos lojistas. 
Por outro lado, C. Schlichthorst, um militar alemão contratado como oficial para o Segundo Batalhão de Granadeiros entre 1824 e 1826, fez um registro muito interessante sobre quem eram as pessoas que, em caso de necessidade, atuavam como intérpretes para os comerciantes franceses que não falavam português (²):
"Os franceses são na generalidade negociantes a retalho ou de modas, o que para eles torna indispensável o uso da língua. Contudo não a aprendem e na Rua do Ouvidor se encontram muitas lojas com negras servindo de intérpretes." (³)
A visão popular de escravos no Brasil é a de homens suando nos canaviais do Nordeste ou nos cafezais de São Paulo - quem imaginaria, então, que escravas pudessem atuar como intérpretes? Mas, se Schlichthorst está correto (e, neste caso, não parece haver razão para suspeita de engano), podemos concluir, sem levar sua observação longe demais, que:
a) Escravas atuavam como intérpretes para comerciantes franceses que não falavam português;
b) Para que pudessem servir como intérpretes, essas escravas deviam falar não somente português, mas também o suficiente de francês - eram, no mínimo, bilíngues;
c) Para um país como o Brasil, no qual grande parte da população era analfabeta, essas escravas, a seu modo, eram bastante instruídas.
Ainda assim, eram escravas. 
Por hoje é só, leitores. Ponto final.

(1) E também de piano, além dos clássicos trabalhos de agulha, etc., etc., etc...
(2) Schlichthorst tinha uma explicação sobre o motivo pelo qual comerciantes franceses que viviam no Rio de Janeiro não aprendiam português, mas deixei de transcrevê-la aqui porque, ao que parece, seria antes um reflexo dos velhos revanchismos nacionalistas da Europa que propriamente uma justificativa.
(3) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 68.


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domingo, 13 de maio de 2012

Moda parisiense, moda americana - uma transformação radical no vestuário feminino

"Adélia, ao contrário, era o tipo, raro então e hoje muito comum, de certos costumes de importação; era a mocinha de maneiras arrebicadas à francesa, cuidando unicamente de modas e do toucador. Nisso a filha de D. Luísa não fizera mais do que apurar a lição e exemplo de sua mãe."
                                                                                                        José de Alencar, O Tronco do Ipê

No ano de 1852 apareceu no Rio de Janeiro, editado pela Typographia Laemmert, o Novo Correio de Modas, uma publicação voltada para o público feminino e que, ao contrário do que poderia sugerir o título, não tratava apenas das últimas novidades em assuntos de vestuário, embora fosse esse o tema central - seu alcance era mais ambicioso, incluindo, como se anunciava, também "novelas, poesias, viagens, recordações históricas, anedotas e charadas".
Cento e sessenta anos depois, olhamos para essa revista e, comparando-a às atuais publicações do ramo, não podemos deixar de constatar o quanto as coisas mudaram. Exemplifiquemos.
Com o fim de garantir a estreia em grande estilo, o primeiro número trazia uma sugestão da última moda em Paris, conforme a ilustração que pode ser vista logo abaixo:
A moda parisiense, de acordo com o
primeiro número do Novo Correio de Modas,
1852. (¹)
E, deixando que fale o próprio Correio, vamos à explicação do que se trata:
"A nossa primeira estampa representa dois figurinos de senhora, qual deles o mais bonito. De Paris os recebemos, e aqui os entregamos às nossas amáveis leitoras, para que aproveitem o que julgarem mais distingué, a fim de formar o belo composto de seus elegantes toillettes."
Segue-se ainda esta ponderação:
"As modas são como a primavera; sempre que aparecem trazem uma flor nova, que se ama colher, unir ao seio e aspirar com alegria; embora tenha de em curto tempo murchar e fenecer. Não importa, é o destino das mais belas coisas deste mundo durar pouco. [....]."
Tentem os leitores imaginar o que seria uma nota dessas em alguma das revistas de moda atualmente nas bancas!
Fica, porém, entendido, que, pelo menos para as madames da alta sociedade, com recursos suficientes para gastar com "a última moda de Paris", vestir-se bem devia ser mais ou menos como se apresentam as duas personagens da ilustração, o que não caracteriza, por si, nenhuma novidade. Era esse o padrão, salvo poucas variações, em todo o mundo ocidental.
Inovações, porém, estavam a caminho... Inovações, apenas? Não, uma verdadeira revolução no vestuário feminino. E podemos ter uma ideia exata disso pelo que noticiou o número dois do Novo Correio das Modas. A despeito de ser o trecho um tanto longo, vale a pena transcrevê-lo aqui, pois meus leitores, cientes do conceito de processo histórico, não deixarão de compreender o que esta novidade veio a significar, em um prazo de pouco mais de sessenta ou setenta anos, principalmente após a Primeira Guerra Mundial. Vamos então à notícia, na qual se percebe, por parte do redator, talvez um tom algo jocoso:
"Há pouco tempo celebrou-se em Nova York uma reunião singularíssima composta exclusivamente de indivíduos do sexo feminino. A assembleia era presidida pela senhora Gove Nichols, servindo de secretaria Sara Townsend. Depois do discurso da presidente explicando o fim daquela reunião, leram-se e aprovaram-se as seguintes resoluções:

Considerando que a maneira atual de vestir as mulheres é contrária ao que demanda a saúde, a conveniência, a comodidade, o asseio e a elegância;
Considerando que a maneira atual de vestir é de origem estrangeira, e oferece graves inconvenientes a nossas compatriotas, com obrigações indignas de uma sociedade livre;
Esta assembleia resolve:
- Que se recomende e adote um traje que nos ponha a coberto do incômodo e opressão do que atualmente vestimos; que não coarcte a nossa liberdade de ação tão necessária como útil para nossa saúde e comodidade, que nos emancipe de modas e caprichos estrangeiros, e que nos releve da obrigação que até agora nos tem imposto de varrer as ruas da cidade com as saias dos vestidos.
- Que a assembleia se declare com direito de escolher o traje que esteja mais em harmonia com a decência e elegância, sem desprezar a saúde e a comodidade.
- Que se invoque em favor do novo traje, que reúne elegância à conveniência, o apoio da moda, desse ídolo que até agora nos tem feito escravas das suas extravagâncias.
- Que se exortem nossas irmãs a declarar de fato e pela palavra a sua emancipação da moda atual, odiosa e degradante, e a que adotem o trajar que mais convenha à saúde e à comodidade, e que melhor faça realçar a verdadeira formosura.
- Que se declare que o trajar que recomendamos não é nem turco, nem persa, senão americano, resultado do nosso engenho e uma prova da nossa soberana independência!"

Ora, dirão meus leitores, e que nova moda era essa, afinal, revestida de tamanha importância ao ponto de ser guindada ao posto de questão de honra nacional, soberania e independência?
A publicação que mencionamos esclarece:
"Algumas das senhoras que faziam parte da assembleia trajavam já segundo os novos princípios revolucionários, isto é, calças largas, jaquetinhas e chapéus de abas grandes!..."
Como se vê, nada que estivesse relacionado à última moda parisiense, daí o espanto que beira o escárnio por parte da editoria do Novo Correio de Modas, que ainda acrescenta:
"Resta saber se as nossas belas fluminenses estão dispostas a seguir o exemplo das suas irmãs da América do Norte!"
Interessante esta questão levantada. O fato é que, beneficiados por vivermos mais de século e meio depois desses acontecimentos, já temos a resposta. Por assim dizer, sabemos muito bem de que lado pendeu a balança. Mutatis mutandis, naturalmente.

(1) Os originais dos números 1 e 2 do Novo Correio de Modas pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para facilitar a visualização.


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