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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mesas para gramofone

Se havia uma coisa, nas primeiras décadas do Século XX,  que toda família com algumas posses queria ter, isso era um gramofone. Soava maravilhoso - e não é redundância e nem trocadilho - ter um desses aparelhos que permitiam ouvir música a qualquer hora e quantas vezes se desejasse, sem ser preciso saber tocar ou cantar, ou mesmo sem ter alguém por perto que tivesse esses talentos. 
A sociedade de consumo, como hoje a entendemos, ia em formação e, no dizer de Lima Barreto, até mesmo o Mandachuva da Bruzundanga (¹) tinha afeição pelo gramofone: "Para distrair-se, o esclarecido Mandachuva compra um bom gramofone e instala no palácio um cinema". Em tom saudosista, o mesmo autor acrescentou: "É conveniente lembrar que, nesse mesmo palácio, ao tempo em que a Bruzundanga era um Império, executores famosos no mundo inteiro tinham tocado obras-primas musicais, ao violino e no piano. Houve progresso..." (²). Pode-se lamentar que Lima Barreto não tenha dito quais eram as músicas favoritas do presid..., não, do Mandachuva da Bruzundanga. Seria um gosto tomar conhecimento dessa informação.
Mas, feita a compra do tão desejado gramofone, onde colocá-lo? Este anúncio (³), publicado na revista O ECHO em outubro de 1916, oferecia uma solução:

Anúncio de mesas para gramofone (³) 

Justiça seja feita: a mesma revista, na mesma página em que publicou o anúncio de mesas para gramofone, trouxe outro, de uma empresa que comercializava partituras para piano. Por que, afinal, ouvir e tocar não poderiam coexistir? 

(1) Não do Brasil!...
(2) LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Os Bruzundangas.
(3) O ECHO, Ano XV, nº 4. São Paulo, outubro de 1916. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saúvas

O combate às formigas-cortadeiras no Século XIX e primeiras décadas do Século XX 


"A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira", escreveu José de Alencar (¹) em Ubirajara. Saúvas têm dentes? Tecnicamente, não, mas agem como se cada espécime fosse dotado de uma centena deles. Nas duas postagens anteriores tratei de formigueiros descomunais em São Paulo, isso lá pela segunda década do Século XIX, formigueiros que proliferavam nas ruas e nos quintais (²). Que fique claro: formigas não eram um problema apenas em São Paulo - eram um problema do Brasil, especialmente para a lavoura, e continuaram a desafiar a perseverança dos agricultores décadas além.
Para concluir esse assunto, ao menos por enquanto, faremos, hoje, uma visita a trechos da obra de Lima Barreto (³), crítico impiedoso das calamidades e (des)governos - da Bruzundanga, naturalmente. É por ela que começamos:
"Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à mingua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores." (⁴)
Em Marginália, o mesmo autor afirmou, ao referir-se à Ilha do Governador de tempos passados:
"Vivendo, por assim dizer, isolada do Rio de Janeiro, quase sem comunicações diárias com o centro urbano, abandonada pelos seus grandes proprietários, devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva, estava toda ela entregue a moradores pobres, apanhadores de suas frutas [...], lenhadores e carvoeiros, pescadores e alguns roceiros portugueses, que tenazmente se batiam contra a implacável formiga, fazendo roças de aipins, de batatas-doces, de quiabos, de abóboras, de melancias e até de melões."
Como os lavradores obtinham tanta variedade, a despeito das infernais saúvas? Lima Barreto não explicou, ainda que se encarregasse de maldizer as himenópteras também em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, prova de que não dedicava a elas nenhuma simpatia: 
"Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor-de-vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe. "A modo que é obra de gente", disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho [...] Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Passaram-se dias, os inimigos pareciam derrotados, mas certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... [...] Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam, nada de atropelos, de confusão, de desordem. [...]"
Anúncio publicado no jornal Correio Paulistano em 1918 (⁵)

O Echo, revista paulistana, em edição de 1916 contendo quase uma página dedicada ao assunto do combate às formigas-cortadeiras, trouxe as seguintes observações: "[...] é preciso logo advertir que em qualquer dos casos pouco monta a iniciativa particular - é indispensável a ação combinada do governo estadual, dos municípios e dos fazendeiros. Que aproveita, com efeito, um agricultor limpar os seus terrenos de bichos tão daninhos, se das fazendas vizinhas lhe vêm, de noite, destruir as plantações, e, na quadra dos enxames [...], um sem-número de içás lá vão estabelecer novas colônias?" (⁶)
Na falta da dita ação conjunta, ou na insuficiência dela, empresas da época ofereciam seus serviços a quem desejasse ao menos algum controle sobre as saúvas na agricultura, conforme vocês, leitores, poderão conferir nos dois anúncios aqui incluídos, de 1918 e 1919 - mais de um século, portanto, após a Câmara de São Paulo deliberar sobre formigueiros na cidade, de acordo com o que foi dito nas duas postagens anteriores.

Anúncio publicado na revista A Cigarra em 1919 (⁷)

(1) José Martiniano de Alencar, 1829 - 1877.
(2) Nas deliberações da Câmara de São Paulo, citadas nas duas postagens anteriores, não houve menção à espécie de formigas que infestava ruas e quintais. Este texto trata especificamente das saúvas, uma das espécies cortadeiras, particularmente daninhas à lavoura.
(3) Afonso Henriques de Lima Barreto, 1881 - 1922.
(4) Os Bruzundangas, 1922.
(5) CORREIO PAULISTANO, nº 19873, 1º de novembro de 1918, p. 6.
(6) O ECHO, Ano XV, nº 5, novembro de 1916.
(7) A CIGARRA, Ano VI, nº 125, 1º de dezembro de 1919.


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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Para quem quiser tirar o chapéu

Vez por outra, quando alguém faz algo notável, ouve-se a observação: "É de tirar o chapéu!..."
Mas que chapéu, se ninguém, ou quase ninguém mais usa chapéu, a não ser em raríssimas ocasiões, como cerimônias especiais ou em folias de carnaval? Acabou-se, já se vê, a história de tirar o chapéu, a título de cumprimento.
Era o ano de 1892, e Machado de Assis observou, em sua coluna "A Semana", no jornal carioca Gazeta de Notícias:
"...se a gente fosse a amar todas as pessoas a quem tem obrigação de tirar o chapéu, este mundo era vale de amores, em vez de ser um vale de lágrimas."
Podem rir, senhores leitores; agora, voltemos aos chapéus, que quase ninguém mais usa, ainda que, no passado, fossem coisa não apenas usual, mas indispensável. Portanto, os anúncios de chapéus de todos os tipos, destinados ao público masculino, eram frequentes nas revistas que então circulavam. Vão aqui dois exemplos, o primeiro deles publicado na revista paulistana A Vida Moderna (¹), no ano de 1907, e o segundo, que saiu na também paulistana A Cigarra (²), em agosto de 1915:



É certo que, sendo considerados indispensáveis no trajar masculino, os chapéus deviam receber alguns cuidados para sua perfeita conservação e limpeza, havendo, portanto, quem, para isso, oferecesse o produto ideal, ao menos segundo esta propaganda que apareceu na revista O Echo (³), no ano de 1916:


Ora, não eram apenas os homens que usavam chapéus quotidianamente. Meninos e senhoras respeitáveis também não saíam de casa sem eles, e os anúncios seguintes, impressos em A Cigarra (⁴), são uma lembrança dos costumes então vigentes:



Entretanto, em virtude das normas de etiqueta, aquela história de tirar o chapéu era, em geral, restrita a indivíduos do sexo masculino,  mesmo porque a mão de obra para remover, em público, verdadeiras edificações instaladas nas cabeças das senhoras seria excessiva...
Finalmente, para quem quiser ter uma ideia de quão indispensáveis eram os chapéus, vai aqui uma foto (⁵), datada de 1919, na qual se vê o público em uma partida de futebol. Como notarão os senhores leitores, estava toda a gente - eles e elas - com seus respectivos chapéus, completando a rebuscada indumentária, e isso em pleno verão paulistano. Tentem imaginar a mesma situação quase cem anos depois, em algum dos estádios durante a competição mundial de futebol recentemente encerrada. Sim, leitores, tirar o chapéu, só se for para esta postagem, não é mesmo? (⁶)



(1) Ano II, números 29 e 30, 25 de dezembro de 1907.
(2) 1º de agosto de 1915.
(3) Julho de 1916.
(4) Respectivamente, Ano II, nº 32 de 8 de dezembro de 1915 e Ano I, nº 4 de 6 de maio de 1914.
(5) A CIGARRA, Ano V, nº 106, 15 de fevereiro de 1919.
(6) Vê-se que, ao escrever esta postagem, a blogueira estava de bom humor.


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domingo, 22 de julho de 2012

Anúncios curiosos das primeiras décadas do Século XX - Parte 7

Há neste blog um bom número de postagens que tratam da questão dos esportes e, mais especificamente, do futebol, no Brasil do início do século XX (¹). De fato, as atividades esportivas ganharam muitos adeptos na época, à medida que eram propostas, inclusive, como importante recurso para a educação dos jovens, embora, como sempre, houvesse quem discordasse.
Ora, à parte disso, chutar uma bola tornou-se verdadeira mania. E que mais poderia querer um futebolista inveterado, que ter a sua própria bola para jogar? O anúncio curioso (²) desta postagem trata exatamente disso, ao oferecer à venda a bola tão cobiçada, da melhor qualidade, e outros artigos necessários à prática do futebol.



(1) Veja a série de postagens "Futebol no Brasil no início do Século XX".
(2) O ECHO, Ano VIII, nº 75, maio de 1908. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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