sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Copistas de Música

Já pensaram, leitores, em quantos anos da vida dos grandes compositores foram gastos em escrever música à mão sobre papel pautado? Gostassem os mestres ou não, era parte de seu ofício, ainda que alguns tivessem uma caligrafia horrorosa. Outros eram exemplos de perfeição (*). 
Assim que uma nova peça musical era concluída, o compositor, como regra, entregava a partitura aos copistas, que se encarregavam de fazer tantas cópias quantas fossem necessárias aos músicos encarregados da execução. Essas cópias, naturalmente, eram também feitas à mão. Que trabalho!
É verdade que alguns copistas eram estudantes de música que tinham, assim, a oportunidade de ganhar algum dinheiro, mas havia copistas profissionais. E, para quem tem a curiosidade de saber se tudo isso valia também para o Brasil, basta ver este anúncio que apareceu na página 521 da edição de 1854 do Almanaque Laemmert (**):


Quem encomendava cópias? Compositores, executantes profissionais, estudantes e, por suposto, músicos amadores, que precisavam de partituras para os saraus domésticos, tão comuns como prática de sociabilidade entre a elite da capital do Império do Brasil. É óbvio que há séculos havia música impressa, mas, no caso do Brasil, nem sempre era fácil obter a peça desejada, pela dependência de importações. Mais trabalho para os copistas, portanto. Hoje isso seria qualificado como pirataria.
A era digital mudou tudo. Ficou mais fácil escrever música e copiar partituras, que são agora perfeitamente legíveis, podem ser prontamente impressas e estão menos sujeitas a imperfeições, já que pequenos erros de quem digita são logo "denunciados" pelo software em uso. É pouco provável que alguém ainda lamente a desaparição do ofício de copista de música.

(*) Basta, quanto a esse aspecto, comparar partituras autógrafas de Mozart e de Beethoven.
(**) LAEMMERT, Eduardo Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854
Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854, p. 521

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