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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Prudente de Morais

Prudente José de Morais Barros, ou simplesmente Prudente de Morais, se for preferida a forma abreviada como ficou conhecido, foi presidente do Brasil entre 1894 e 1898. Terceiro a ocupar esse posto, foi, contudo, o primeiro civil, já que seus antecessores, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, eram militares. 
Outro detalhe interessante sobre Prudente de Morais é que foi o primeiro presidente eleito por voto direto, malgrado as condições em que se faziam as eleições na época. Sobre sua eleição, especificamente, Machado de Assis escreveu na edição de 10 de novembro de 1894 do jornal carioca Gazeta de Notícias:
"As urnas deram cerca de trezentos mil votos ao Sr. Dr. Prudente de Morais, muitas centenas a alguns nomes de significação republicana ou monárquica, algumas dezenas a outros, seguindo-se uma multidão de nomes sabidos ou pouco sabidos, que apenas puderam contar um voto." (*)
Não estranhem leitores, o reduzido número de votos que coube ao presidente eleito: o voto deixara de ser censitário, como no Império, mas ainda era preciso ser alfabetizado e comprovar residência fixa para ser eleitor. Apenas os homens votavam, e isso reduzia drasticamente o número de brasileiros habilitados a expressar sua vontade em dia de eleição, embora essa expressão, por si mesma, já estivesse demasiadamente comprometida pelo modo como as eleições se realizavam. Para que se fizessem eleições verdadeiramente democráticas, não bastava, como se sabe, estabelecer decretos ou cantar, a plenos pulmões, o hino da República: "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós..."
Prudente de Morais, nascido em Itu - SP em 1841, faleceu no dia 3 de dezembro de 1902 em Piracicaba - SP, onde foi sepultado. As fotos abaixo mostram o túmulo erguido em sua homenagem. 




(*) GAZETA DE NOTÍCIAS, A Semana, 18 de novembro de 1894.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mesas para gramofone

Se havia uma coisa, nas primeiras décadas do Século XX,  que toda família com algumas posses queria ter, isso era um gramofone. Soava maravilhoso - e não é redundância e nem trocadilho - ter um desses aparelhos que permitiam ouvir música a qualquer hora e quantas vezes se desejasse, sem ser preciso saber tocar ou cantar, ou mesmo sem ter alguém por perto que tivesse esses talentos. 
A sociedade de consumo, como hoje a entendemos, ia em formação e, no dizer de Lima Barreto, até mesmo o Mandachuva da Bruzundanga (¹) tinha afeição pelo gramofone: "Para distrair-se, o esclarecido Mandachuva compra um bom gramofone e instala no palácio um cinema". Em tom saudosista, o mesmo autor acrescentou: "É conveniente lembrar que, nesse mesmo palácio, ao tempo em que a Bruzundanga era um Império, executores famosos no mundo inteiro tinham tocado obras-primas musicais, ao violino e no piano. Houve progresso..." (²). Pode-se lamentar que Lima Barreto não tenha dito quais eram as músicas favoritas do presid..., não, do Mandachuva da Bruzundanga. Seria um gosto tomar conhecimento dessa informação.
Mas, feita a compra do tão desejado gramofone, onde colocá-lo? Este anúncio (³), publicado na revista O ECHO em outubro de 1916, oferecia uma solução:

Anúncio de mesas para gramofone (³) 

Justiça seja feita: a mesma revista, na mesma página em que publicou o anúncio de mesas para gramofone, trouxe outro, de uma empresa que comercializava partituras para piano. Por que, afinal, ouvir e tocar não poderiam coexistir? 

(1) Não do Brasil!...
(2) LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Os Bruzundangas.
(3) O ECHO, Ano XV, nº 4. São Paulo, outubro de 1916. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saúvas

O combate às formigas-cortadeiras no Século XIX e primeiras décadas do Século XX 


"A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira", escreveu José de Alencar (¹) em Ubirajara. Saúvas têm dentes? Tecnicamente, não, mas agem como se cada espécime fosse dotado de uma centena deles. Nas duas postagens anteriores tratei de formigueiros descomunais em São Paulo, isso lá pela segunda década do Século XIX, formigueiros que proliferavam nas ruas e nos quintais (²). Que fique claro: formigas não eram um problema apenas em São Paulo - eram um problema do Brasil, especialmente para a lavoura, e continuaram a desafiar a perseverança dos agricultores décadas além.
Para concluir esse assunto, ao menos por enquanto, faremos, hoje, uma visita a trechos da obra de Lima Barreto (³), crítico impiedoso das calamidades e (des)governos - da Bruzundanga, naturalmente. É por ela que começamos:
"Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à mingua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores." (⁴)
Em Marginália, o mesmo autor afirmou, ao referir-se à Ilha do Governador de tempos passados:
"Vivendo, por assim dizer, isolada do Rio de Janeiro, quase sem comunicações diárias com o centro urbano, abandonada pelos seus grandes proprietários, devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva, estava toda ela entregue a moradores pobres, apanhadores de suas frutas [...], lenhadores e carvoeiros, pescadores e alguns roceiros portugueses, que tenazmente se batiam contra a implacável formiga, fazendo roças de aipins, de batatas-doces, de quiabos, de abóboras, de melancias e até de melões."
Como os lavradores obtinham tanta variedade, a despeito das infernais saúvas? Lima Barreto não explicou, ainda que se encarregasse de maldizer as himenópteras também em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, prova de que não dedicava a elas nenhuma simpatia: 
"Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor-de-vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe. "A modo que é obra de gente", disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho [...] Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Passaram-se dias, os inimigos pareciam derrotados, mas certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... [...] Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam, nada de atropelos, de confusão, de desordem. [...]"
Anúncio publicado no jornal Correio Paulistano em 1918 (⁵)

O Echo, revista paulistana, em edição de 1916 contendo quase uma página dedicada ao assunto do combate às formigas-cortadeiras, trouxe as seguintes observações: "[...] é preciso logo advertir que em qualquer dos casos pouco monta a iniciativa particular - é indispensável a ação combinada do governo estadual, dos municípios e dos fazendeiros. Que aproveita, com efeito, um agricultor limpar os seus terrenos de bichos tão daninhos, se das fazendas vizinhas lhe vêm, de noite, destruir as plantações, e, na quadra dos enxames [...], um sem-número de içás lá vão estabelecer novas colônias?" (⁶)
Na falta da dita ação conjunta, ou na insuficiência dela, empresas da época ofereciam seus serviços a quem desejasse ao menos algum controle sobre as saúvas na agricultura, conforme vocês, leitores, poderão conferir nos dois anúncios aqui incluídos, de 1918 e 1919 - mais de um século, portanto, após a Câmara de São Paulo deliberar sobre formigueiros na cidade, de acordo com o que foi dito nas duas postagens anteriores.

Anúncio publicado na revista A Cigarra em 1919 (⁷)

(1) José Martiniano de Alencar, 1829 - 1877.
(2) Nas deliberações da Câmara de São Paulo, citadas nas duas postagens anteriores, não houve menção à espécie de formigas que infestava ruas e quintais. Este texto trata especificamente das saúvas, uma das espécies cortadeiras, particularmente daninhas à lavoura.
(3) Afonso Henriques de Lima Barreto, 1881 - 1922.
(4) Os Bruzundangas, 1922.
(5) CORREIO PAULISTANO, nº 19873, 1º de novembro de 1918, p. 6.
(6) O ECHO, Ano XV, nº 5, novembro de 1916.
(7) A CIGARRA, Ano VI, nº 125, 1º de dezembro de 1919.


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Vestuário delas, há quase um século

Diversão para vocês que leem este blog: estas imagens, publicadas em três edições da revista paulistana A Cigarra, permitem saber como andava a moda, em se tratando de vestuário feminino, há quase cem anos.

1. A legenda desta foto de 1918 dizia:
"Senhoras e senhoritas torcendo no Prado da Mooca, à saída de um páreo das últimas corridas ali realizadas pelo Jockey Club Paulistano." (¹)


2.
No Século XIX, a maioria das pessoas no Brasil achava que esportes não eram para mulheres. Já em 1923, estas jovens tenistas do Estado de Mato Grosso provavam que a mentalidade, aos poucos, iam mudando (para felicidade geral da nação, se é que podemos aplicar a fala de D. Pedro a assunto bem diferente daquele do "Dia do Fico"). A foto foi assim descrita na legenda:
"Fotografia tirada especialmente para "A Cigarra" da bela e valorosa agremiação Sport Club Feminino Corumbá (Mato Grosso)." (²)


3.
Finalmente, modelos de vestidos, publicados em 1930. Explicação para os dois primeiros:
"Singelo vestido de crepe da China, estampado. A saia "godet" comunica-lhe uma discreta amplitude.
Elegante modelo de "jersey" de lã verde-pálido. A blusa se abotoa de lado. As mangas têm "godets" incrustrados."
(³)
Já o terceiro modelo, trazia a seguinte descrição:
"Em "marrocain" celeste, completamente cruzado e fechado por botões de cristal, se nos apresenta este gracioso vestidinho." (³)


Entendam, meus leitores, que os três vestidos são de um tempo em que os tecidos sintéticos ainda não estavam amplamente disponíveis. O que, porém, justificaria um animal morto como
acessório no segundo modelo?

(1) A CIGARRA, Ano IV, nº 84, 30 de janeiro de 1918.
(2) A CIGARRA, Ano X, nº 200, 15 de janeiro de 1923.
(3) A CIGARRA, Ano XVI, nº 364, primeira quinzena de janeiro de 1930. Todas as imagens desta postagem foram editadas para facilitar a visualização neste blog. 


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quinta-feira, 30 de junho de 2022

O Tenentismo e a Revolta do Forte de Copacabana

Simplificando bastante, é possível dizer que "tenentismo" é o nome dado a um conjunto de movimentos ocorridos na República Velha, em oposição ao modo como ocorriam as eleições (¹) e como o Brasil era governado, sob influência das oligarquias estaduais. Tem esse nome porque foi liderado, em grande parte, por jovens oficiais militares. 
O marco inicial do tenentismo, que se distingue de outras oposições da época devido à opção pela luta armada contra o governo, foi a chamada "revolta do Forte de Copacabana", ocorrida entre os dias 5 e 6 de julho de 1922, no Rio de Janeiro, que era, então, a capital da República. Embora completamente derrotado, esse levante trouxe à tona, para o país, questões que, de um modo geral, não eram ainda muito discutidas, e que a maioria da população, pouco instruída para a participação política, não ousava debater às claras. 
É questionável quantos foram, de fato, os integrantes dessa rebelião (²), mas não é no número que reside seu significado. Heróis? Ou apenas insubordinados, sem respeito pela hierarquia que sustenta a carreira militar? Depende do ponto de vista - seu, leitor, inclusive, que, como ser pensante, pode decidir o que julgar correto. 

Jazigo do tenente Newton Prado, um dos "18 do Forte"


As fotos abaixo mostram o túmulo e monumento (³) em homenagem ao tenente Newton Prado, um dos que morreram em decorrência da Revolta do Forte de Copacabana, e um dos chamados "18 do Forte". Está em uma praça da cidade de Leme - SP.





(1) As queixas eram justificadas. Havia mesmo fraudes escandalosas.
(2) A expressão "os 18 do Forte" foi cunhada e popularizada pela imprensa da época.
(3) Sim, as duas palavras têm, em sua origem, o mesmo significado. 


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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O futebol dos marinheiros em 1906

O futebol tem passado por ser, em seus primeiros anos de prática no Brasil, um esporte principalmente de estrangeiros (quase sempre de origem britânica, que estavam no País para trabalhar), de alguns imigrantes e de jovens estudantes, gente de certa posição social. Como se sabe, toda regra que se preza tem exceção. Vai aqui uma, com um jogo de futebol disputado em 1906 entre praças da Marinha. As fotos apareceram na revista carioca O Malho em 22 de setembro daquele ano (*):

Foto 1


A legenda original dizia:
"Na ilha das Cobras, Rio de Janeiro: Jogo de foot-ball pelas adestradas praças do batalhão de infantaria de marinha, sob o comando do capitão de fragata Marques da Rocha, a cujos esforços se devem os grandes melhoramentos nas instalações e disciplina a essa luzida parte das forças de mar."

Foto 2


Também de acordo com a legenda publicada em O Malho:
"Foot-ball militar - As praças do corpo de infantaria de marinha, que fizeram a partida de foot-ball no quartel da Ilha das Cobras, despertando grande entusiasmo entre os convidados que assistiram à festa comemorativa ali realizada."
Observem, leitores, que o quinto marinheiro sentado, da esquerda para a direita, segura a bola de futebol usada no jogo.

A publicidade dada ao evento mostra que jogos de futebol dessa natureza eram, ainda, uma novidade. Aqueles dentre os leitores que tiverem conhecimento dos fatores que conduziram à chamada Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, não terão dificuldade em perceber que os rapazes que jogaram essa partida há mais de um século não vinham, provavelmente, da elite dominante, ao contrário do que ocorria em relação a uma parcela considerável da oficialidade da Marinha nesse tempo. Contudo, à medida que o futebol se popularizou no Brasil, alguns dos maiores atletas da modalidade, cujas proezas se mostraram capazes de arrastar multidões aos estádios, passaram a vir das camadas sociais inferiores. Neste caso, o esporte se revelou um caminho de ascensão.

(*) O MALHO, Ano V, nº 210, 22 de setembro de 1906. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Greves de trabalhadores durante a República Velha

A República Velha foi marcada por um crescente movimento de trabalhadores. Embora 1917 seja rotulado como o ano da "Greve Geral" (não tão exageradamente geral assim), outras datas também merecem destaque pela intensidade das manifestações, que, sendo novidade no Brasil, geravam, em cadeia, a paralisação de várias atividades. Este aviso, publicado no ano de 1923 na revista paulistana A Cigarra, exemplifica a questão:
""A Cigarra" e a greve dos gráficos - A greve que se manifestou nas oficinas gráficas de São Paulo, determinando a sua paralisação coletiva, impediu-nos de publicar "A Cigarra" correspondente à segunda quinzena de fevereiro na devida data e levou-nos a reunir na presente edição, dupla, os números 202 e 203.
Já havíamos providenciado para imprimir a nossa revista no Rio de Janeiro, único lugar onde pudemos encontrar oficinas capazes em atividade, pois todos os estabelecimentos de São Paulo se fecharam, mas o serviço se restabeleceu nesta capital, ainda com tempo de aqui se fazer a impressão." (¹)


Sem entrar em detalhes quanto às reivindicações trabalhistas da época, pode-se dizer que algumas razões, de caráter geral, são importantes para entender o que acontecia:
  • Más condições de trabalho, porque, saído há pouco do escravismo, o país enfrentava problemas com empregadores que tinham dificuldade em lidar com o trabalho livre;
  • Governantes também tinham, não raro, ideias "herdadas" do escravismo;
  • Vinda de imigrantes que traziam consigo vivências de reivindicação de direitos trabalhistas, adquiridas quando ainda residiam na Europa;
  • Formação gradual no Brasil de uma camada numericamente expressiva de trabalhadores urbanos, cada vez mais conscientes de sua força para lutar por direitos;
  • Do cenário internacional, as notícias de manifestações de trabalhadores, greves e mesmo de investidas revolucionárias iam chegando pouco a pouco, dando ânimo aos que, no Brasil, participavam das lutas trabalhistas;
  • f) Finalmente, não se pode dizer que a República Velha foi um tempo muito pacífico: o cenário nacional, com a ocorrência de numerosas rebeliões (²), era propício para a difusão de movimentos de trabalhadores, reagindo às condições de vida opressivas, a que, com frequência, eram submetidos.


A legenda original da foto acima, publicada em 26 de julho de 1917, relativamente à chamada Greve Geral daquele ano, dizia: "Bandos de grevistas, na maioria mulheres operárias em várias fábricas desta capital, dirigindo-se ao largo do Palácio a fim de conferenciar com o sr. secretário da Justiça e Segurança Pública, a quem pediram providências contra o despropositado aumento dos gêneros de primeira necessidade." (³) 

(1) A CIGARRA, Ano X, nº 202 e 203, 15 de fevereiro e 1º de março de 1923.
(2) Revolta da Vacina, Revolta da Chibata e rebeliões tenentistas, só para citar algumas.
(3) A CIGARRA, Ano IV, n° 71, 26 de julho de 1917.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Problemas relacionados aos transportes no Brasil

Acabo de ler em um site de notícias que, em uma cidade importante do interior de São Paulo, vários ônibus foram vistos circulando com superlotação, impossibilitados de manter as portas fechadas, a tal ponto que, em pelo menos um caso, havia até passageiro pendurado do lado de fora. Aparentemente sem se importar com a possibilidade de um grave acidente, o motorista seguia com o veículo em movimento. 
A insuficiência e/ou deficiência (¹) dos serviços de transportes não é, no Brasil, duvidoso privilégio de uma única cidade. Casos como este a que me referi são, infelizmente, muito comuns. E não é de hoje. Vejam, leitores, este cartoon publicado na revista carioca O Malho, edição de 5 de maio de 1923 (²): 


A legenda diz:
""A diretoria da E. F. Central pediu auxílio à polícia para evitar pingentes nos seus carros." (dos jornais)
- Desça, cidadão. Você não pode viajar pendurado.
- Eu sou senhor do meu nariz. O que é que a Estrada tem com a minha vida?
- Não tem nada, mas você não pode derrubar os postes ou destruir a boca dos túneis com a cabeça.""
É verdade que nem todos os "pingentes" dos trens da Central viajavam do lado de fora por falta de espaço dentro dos carros. Mas, leitores, deixando de lado essa questão, parece haver certo humor na legenda, sugerindo que, afinal, o fator prioritário não era a integridade física dos passageiros.
Uma explicação para a deficiência nos transportes, ainda que não a única, é que o Brasil foi, por séculos, um país essencialmente rural, com poucas cidades expressivas, e que, por uma série de razões, começou a apresentar crescimento urbano acentuado a partir das primeiras décadas do Século XX. Nesse cenário, tanto a infraestrutura quanto os serviços logo se tornaram insuficientes, ou seja, não acompanharam a demanda. O problema é que o problema persiste (³), e será cada vez maior, se não houver uma mudança radical na abordagem adotada para o setor de transportes, que não pode ter em vista apenas medidas paliativas. As "soluções" de sempre já não solucionam coisa alguma.

(1) Refiro-me aos aspectos quantitativo e qualitativo do problema, respectivamente.
(2) O MALHO, Ano XXII, nº 10177. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) É claro que a repetição foi intencional.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Vias públicas parecidas com a superfície da Lua

A conservação de estradas, ruas e avenidas durante a República Velha


A conservação de vias públicas no Brasil é uma grande dificuldade desde tempos imemoriais. Podem rir, leitores: usei uma expressão velhusca para expressar um problema tão antigo quanto. 
Como sabem, nos tempos em que as tropas de muares faziam o transporte de cargas, a situação das poucas estradas era calamitosa, e as pobres mulas é que sofriam as consequências mais pesadas (sem nenhum trocadilho). Sobre esse assunto há várias postagens aqui no blog História & Outras Histórias.
O advento das ferrovias melhorou as condições de transporte, mas elas não alcançavam todo o País. As estradas, ditas "de rodagem" - sim, já que por elas rodavam carroças, carroções, carros de bois, raríssimas carruagens - não perderam sua importância, até porque também iam por elas não poucos pedestres, bem como as tropas de muares, que estavam ainda longe do desaparecimento. 
De acordo com o que escreveu Adolpho Augusto Pinto em História da Viação Pública de São Paulo, na virada do Século XIX para o Século XX eram estas, entre outras, as obrigações de quem arrematava a concessão para o serviço de manutenção das estradas de rodagem no Estado de São Paulo: 
"a) Prevenir a formação de atoleiros, consolidar o terreno por meio de camadas de cascalho, pedras quebradas ou areia;
b) Fazer desaparecer as depressões [...] que o trânsito e as águas tiverem produzido [...];
c) Manter [...] desobstruídos os bueiros, as valetas e os vãos das pontes e pontilhões;
d) Abaular o leito da estrada nas várzeas, estabelecer esgotos necessários para que as águas não atravessem a estrada fora dos lugares para esse fim destinados;
e) Conservar os taludes das cavas [...];
f) Remover do leito da estrada quaisquer obstáculos ao trânsito [...];
g) Fazer as roçadas que forem necessárias para que as margens da estrada se achem sempre descortinadas [...];
h) Reparar com prontidão quaisquer estragos ocasionados pelas chuvas;
i) Fazer os reparos que se tornarem necessários no soalho e guarda-corpo das pontes e pontilhões [...];
j) Enterrar os animais que forem encontrados mortos na estrada ou em suas imediações;
k) Alcatroar [...] todas as peças visíveis das pontes e pontilhões [...]." (¹)
A lista é longa, leitores, mas muito instrutiva, já que, pelos itens de manutenção mencionados, podemos, com um pouco de imaginação, visualizar como eram as estradas há pouco mais de cem anos: sem calçamento, muito afetadas pelas chuvas, com frequentes obstáculos ao trânsito e, não raro, com o agradável aroma decorrente de animais mortos que ficavam pelo caminho. Deviam, com tantos buracos, lembrar um pouco a superfície da Lua, como a vemos com o uso de um pequeno telescópio.
É claro que estradas assim não estavam aptas a receber o tráfego de automóveis, e foi exatamente a aparição deles que motivou alguma modernização. A polêmica envolvendo as obras de Washington Luís, primeiro como governador de São Paulo e depois como presidente da República, demonstra que, em tempos da República Velha, as viagens, para a maioria da população, eram ainda eventos incomuns, de modo que pouca gente percebia a necessidade de investir na modernização das vias de transporte.
Ora, se a situação das estradas de rodagem não estava para elogios, as vias urbanas só resultavam em sorrisos quando eram alvo de algum humorista. Nem mesmo as ruas da capital do Brasil (²) escapavam à existência de crateras notáveis. Se acham que estou exagerando, vejam só estes cartoons que apareceram na publicação carioca O Malho em 1923:


A legenda diz:
"- Eu gosto de uma cidade assim, parece um queijo.
- Um queijo?!
- Sim. Um queijo cheio de buracos..." (³)


Já aqui, diante de um veículo repleto de pneus sobressalentes, a legenda informa: 
"É o último modelo. São feitos especialmente para a cidade do Rio de Janeiro." (⁴)

(1) PINTO, Adolpho Augusto. História da Viação Pública de São Paulo. São Paulo: Typographia e Papelaria de Vanorden & Cia., 1903, pp. 267 e 268.
(2) Rio de Janeiro, na época de que trata esta postagem.
(3) O MALHO, 28 de abril de 1923. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Ibid., 9 de junho de 1923.  O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Como o Brasil foi afetado pela pandemia de gripe espanhola (1918 - 1919)

Propaganda de medicamentos para alívio dos sintomas da gripe: "...as manifestações perigosas
da gripe (...) são verdadeiros espectros, que ameaçam a todos os povos agora mais que nunca..."
(¹)

A pandemia de gripe que varreu o mundo entre 1918 e 1919 é chamada "espanhola", mas, ao que se sabe, não começou na Espanha, havendo certa polêmica sobre a origem dos primeiros casos. De qualquer modo, soldados da Entente, em abril de 1918, foram as primeiras vítimas militares em território europeu (a Espanha, na Primeira Guerra Mundial, era não beligerante). A gripe vinha juntar-se, portanto, aos já numerosos flagelos ocasionados pela guerra, com o agravante de que, aliada à alta taxa de mortalidade, a pandemia parecia ter preferência por gente jovem e cheia de saúde, o que não a impedia de afetar, também, os de mais idade.
O fim da Primeira Guerra Mundial favoreceu a propagação da doença, já que os soldados que voltavam para casa acabaram levando a gripe para muitos lugares diferentes. É verdade que, nesse tempo, os transportes intercontinentais eram feitos apenas em navios, o que, por um lado, retardava a chegada de enfermos, mas, por outro, a convivência em embarcações apinhadas favorecia a contaminação. Mesmo com a adoção de medidas de controle, pessoas aparentemente saudáveis desembarcavam e, em terra, manifestavam os sintomas da temida doença.
Levantamentos estatísticos têm demonstrado que uma primeira fase de transmissão, ocorrida entre abril e agosto de 1918, foi de pouca gravidade, mas, a partir de setembro, a mortalidade disparou, indo essa fase gravíssima até fins de janeiro de 1919. A gripe espanhola ainda faria vítimas nos meses seguintes, porém menos intensamente. 
É evidente que o Brasil não estava, na época, preparado para lidar com uma pandemia, sendo necessário admitir que, além de tentativas de educar a população quanto a hábitos de higiene que dificultassem a propagação da gripe, não havia muito mais a fazer. A capacidade de atenção hospitalar era reduzida, e o isolamento dos doentes, mesmo necessário, em certos casos favorecia o abandono, com o medo desempenhando, em tal cenário, um papel nada desprezível. 

Escoteiros de São Paulo auxiliando a população durante a pandemia de gripe.
A legenda original dizia: "Os escoteiros saindo da Repartição do Telégrafo Nacional,
no serviço de entrega de despachos durante a epidemia."
(²)

Escoteiros de São Paulo saindo de uma farmácia para fazer a entrega de medicamentos.
Legenda original: "Os bravos escoteiros em serviço de entrega de medicamentos, durante a
epidemia de gripe, nesta capital."
(³)

Embora seja difícil saber quantas pessoas morreram por causa da gripe em terras brasileiras, uma vez que as condições sanitárias deficientes não possibilitavam um controle estrito, há uma estimativa de que o número de óbitos tenha chegado perto de trezentos mil - para uns poucos meses, quando as condições de transporte e comunicações não eram ainda muito favoráveis, foi mesmo um absurdo. Detalhe: entre os mortos, estava o presidente eleito da República, Conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves, falecido em janeiro de 1919, e que não chegou a ser empossado no cargo (⁴)

Sepultamento (em Guaratinguetá) do presidente eleito Rodrigues Alves,
que faleceu em consequência da gripe em janeiro de 1919 (⁵)

(1) A CIGARRA, Ano VI, nº 109, 1º de abril de 1919.
(2) A CIGARRA, Ano V, nº 103, 24 de dezembro de 1918. 
(3) Ibid.
(4) Já fora presidente da República entre 1902 e 1906.
(5) A CIGARRA, Ano V, nº 105, 1º de fevereiro de 1919.


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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Do medo da varíola à Revolta da Vacina

Na pequena São Paulo do Período Colonial a doença mais temida era, provavelmente, a varíola. Matava, e quando não o fazia, deixava o(a) sobrevivente com a fisionomia deformada.
São frequentíssimas as mortes que, na Nobiliarchia Paulistana, Pedro Taques de Almeida Paes Leme atribui a "bexigas":
"D. Maria de Araújo da Ascensão [...] faleceu de bexigas com avançada idade..."; "Desde 1727 em que principiou a perceber o real erário o dízimo dos quintos do ouro das ditas minas de Goiases até o 1º de janeiro de 1738, em que acabou a vida de enfermidade de bexigas em São Paulo o capitão Bartolomeu Paes de Abreu..."; "Ângelo de Góes Cardoso, que faleceu de bexigas indo para Coimbra..."; "Catarina da Silva d'Horta, que faleceu de bexigas em 1769..."; "Dona Maria, que tendo bexigas em tenros anos, perdeu os olhos a efeitos do veneno desta maligna enfermidade...".
Creio, leitores, que, para nosso propósito, já é mais do que suficiente.
A vacinação antivariólica foi introduzida no Brasil em fins do Século XVIII, ao que parece pelo Barão de Langsdorff (¹), e a pedido do então príncipe-regente D. João, mais tarde D. João VI. Desde então, era possível imunizar a população, e muitos o faziam, tendo o cuidado de vacinar inclusive os escravos - se não por caridade cristã, ao menos para "preservar o patrimônio".
Outro ponto significativo é que já se falou e/ou escreveu bastante contra a postura do governo brasileiro, particularmente do então diretor de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, durante a chamada Revolta da Vacina, em novembro de 1904. Nesse sentido, alegam alguns que a vacina era uma novidade e, portanto, desconhecida da população, que não sendo devidamente informada pelo governo, manifestou-se contrária a tamanho autoritarismo.
Ora, sendo a vacinação contra a varíola conhecida e usada no Brasil desde os últimos anos do Século XVIII, a defesa dessa ideia não parece ter muito fundamento. Que a população tinha medo da vacina é fato, assim como havia quem não quisesse, por excesso de recato, que as senhoras da família fossem vacinadas. Também é verdade que havia um número muito grande de imigrantes, recém-chegados ao Brasil, que talvez não tivessem grande intimidade com procedimentos médicos. Aliás, é justamente entre a população imigrante, levando em conta suas origens, que podem ser procuradas algumas das causas autênticas para a revolta de 1904.
Motivos para revolta? Havia, por certo (²). Não estava, entre eles, porém, o ser a vacina uma novidade no Brasil.

A vacinação era, em 1904, assunto corrente nas revistas humorísticas (³)

(1) O mesmo que liderou a Expedição que recebeu seu nome.
(2) Pode-se supor, racionalmente, que ninguém sairia quebrando a iluminação pública, virando bondes ou construindo barricadas à custa do calçamento das ruas sem alguma justificativa plausível. Entre a população de imigrantes que não queria ser vacinada podia ser vista uma ou outra bandeira anarquista, remetendo, portanto, a questões políticas e trabalhistas que haviam atravessado o Atlântico em companhia dos trabalhadores que procuravam um novo país para viver. Outras linhas ideológicas também estavam presentes.
(3) O ESFOLADO, Ano 1, nº 1, 16 de setembro de 1905.  O original pertence à BNDigital; a  imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Duas aranhas na literatura brasileira

Não sei quantas aranhas aparecem na literatura brasileira; tampouco sei se as há personagens importantes ou insignificantes. Só sei que conheço duas. Vamos a elas.
Vem a primeira de ninguém menos que Machado de Assis, em Quincas Borba:
"Que sabe a aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre."
Ouve? Talvez por preguiça de mover-se a outro lugar; talvez goste. Como saber se Machado tinha razão?
Já a segunda aranha (que também, por suposto, nada devia saber de Mozart, nem de músico algum...), aparece em Os Bruzundangas, de Lima Barreto. Ora, na Bruzundanga, país fictício com notáveis semelhanças com um outro bem real, uma aranha deu-se à veleidade de fazer teia no gabinete de um ministro de Estado - pretexto para o autor discorrer sobre a enorme importância de um secretário de ministro de Estado:
"Creio que as aranhas, tanto as daqui como as da Bruzundanga, não têm em grande conta o cargo de Ministro de Estado. É de lastimar que insetos [sic] de tanto talento desconheçam a importância de tão sublimado bímano; entretanto, não está nos poderes humanos obrigá-las a respeitar o que respeitamos, senão devíamos fazê-lo, para que tais aracnídeos não procedessem como um deles procedeu irreverentemente com um ministro da Bruzundanga."
Sim, sim, sim, aranhas são classificadas entre os aracnídeos, não entre os insetos, embora tanto aracnídeos como insetos sejam artrópodes. Uma vez salvo o patrimônio lineano, é hora de abrir passagem a Lima Barreto para que venha nos contar o tal incidente:
"Caso foi que uma aranha comum, totalmente despida de qualquer notoriedade entre as aranhas, completamente sem destaque entre as suas iguais, teve o desaforo de pôr-se a tecer a sua teia no próprio teto do gabinete de um ministro da Bruzundanga e bem por cima de sua majestosa cadeira.
Houve, quando o trabalho ia adiantado, não sei que espécie de cataclismo, próprio ao universo das aranhas; e, tão forte foi ele, que um bom pedaço de labor do engenhoso articulado veio a cair em cima da sobrecasaca da poderosa autoridade da República da Bruzundanga.
Apesar do seu imenso poder e da sua forte visão de seguro guia de povos, o grave ministro não deu conta do desrespeito - involuntário, é verdade, mas desrespeito - de que acabava de ser objeto, por parte de uma miserável aranha, hedionda e minúscula.
Mas, não dando pelo fato, tratou de tomar o coupé para ir ao despacho coletivo, levando tão estranha condecoração nas costas, quando o secretário, chapéu na mão, todo mesuroso, pedindo licença, tirou a prova da indignidade do bichinho das vestes do seu amo. E ele já entrava no carro!...
[...] Ah!, Os secretários de ministro! Como são úteis!"
Lima Barreto escreveu nos tempos da República Velha, nos tempos em que a Capital (do Brasil, não da Bruzundanga) estava junto ao mar, nos tempos em que ministro de Estado tomava "coupé para ir ao despacho coletivo". Na Bruzundanga, é claro!
Como veem, senhores leitores, eram mesmo outros tempos.
Quase onipresentes, no entanto, as aranhas continuam a ouvir Mozart (talvez com menos frequência, infelizmente) e, cem anos mais tarde, talvez ainda sejam bastante atrevidas parar irem tecer suas moradias em lugares insólitos.


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domingo, 9 de fevereiro de 2014

A "hora da creolina"

Sino usado para anunciar a
"Hora da Creolina" em Manaus - AM
Fiquei sabendo desta história há algumas semanas, em Manaus - AM. Lá pelos começos do Século XX, a administração da cidade fechou um acordo com um fornecedor de carne verde (entenda-se, carne fresca), que tinha a obrigação de assegurar um certo padrão de suprimento.
Pois bem, no Mercado Público (atualmente Mercado Municipal), onde a dita carne era vendida, havia um sino com a finalidade de anunciar a "hora da creolina": ao encerrar-se a venda da carne verde, nos dias em que existia esse comércio, tocava-se o sino, anunciando que, a partir daquele momento, as vendas estavam suspensas, para que as mesas onde se cortava a carne fossem devidamente higienizadas. Com creolina, claro.


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domingo, 21 de julho de 2013

O papel do cinema na formação de padrões de comportamento durante a República Velha

Bruzundanga, o país imaginário (ou nem tanto) do qual nos conta Lima Barreto, dava a seus presidentes o título de "Mandachuvas". Pois um Mandachuva era, quase sempre, um sujeito roceiro, mais preocupado com suas lavouras que integrado à cultura urbana da capital em que, como chefe de Estado e de Governo, devia viver. Assim é que um Mandachuva típico odiava deveres do ofício, tais como ir a concertos ou assistir a peças de teatro. Para ele, bom mesmo era o gramofone (que podia ouvir em casa) ou, quem sabe, ir ao cinema. Nada de peças cujo sentido não conseguia apreender: "As necessidades artísticas de sua natureza se cifram no gramofone doméstico e nos cinemas urbanos ou do arrabalde em que reside. Faz coleção dos programas destes últimos e, com eles, organiza a sua opulenta biblioteca literária." (¹)
Desnecessário é lembrar que, na crítica mordaz de Lima Barreto, retratava-se nada menos que o Brasil da República Velha. Mas seria inútil qualquer tentativa de ser convincente quanto às virtudes de uma representação teatral - ao vivo, por suposto - em oposição ao que, na época - se chamava de "cena muda". O nascente cinema caiu rapidamente no gosto da população brasileira e, com ele, vieram mudanças significativas no comportamento das pessoas.
Antes do cinema, o auge do luxo era a "última moda em Paris", que chegava ao Brasil com meses de atraso e, portanto, já não era a última de jeito nenhum. Agora, o padrão passava a ser o dos atores e atrizes dos Estados Unidos, e isso não apenas no vestuário, mas também nos penteados, nas maneiras, até nas estudadas expressões fisionômicas que o público adorava imitar. Bastava anunciar que esta ou aquela celebridade das telas usava o perfume X, o sabonete Y, o cigarro Z, este ou aquele cosmético, para que todo mundo que tivesse recursos para tanto, corresse a comprar tais coisas, na esperança de tornar-se mais parecido ou parecida com seu herói ou heroína do cinema. As atrizes apareciam de cabelos curtos? Então os cabeleireiros tinham serviço, não importando o quanto os novos cortes escandalizassem os mais conservadores. Valia a mesma regra para o vestuário ou para qualquer outra coisa que tivesse a mínima possibilidade de tornar alguém semelhante às novas estrelas cinematográficas.
Em vão a crítica censurou a mania de copiar costumes estrangeiros - de resto, isso sempre havia acontecido. Era evidente uma certa disposição para mudanças, o que acabou por refletir-se até na vida política (²). O fato é que, qual uma onda gigantesca, os novos ícones do capitalismo, propostos sutil mas persistentemente nos cinemas (ainda que não só neles), invadiram a vida de gente comum, nas ruas e nos lares, estabelecendo paradigmas substancialmente diversos dos que haviam imperado até então. Para bem e/ou para mau? Eis aí uma coisa que pode dar a você o que pensar, leitor.
Para se ter uma ideia de como as "novidades" eram percebidas nos anos vinte, sob uma perspectiva algo conservadora, veja abaixo dois cartuns de Belmonte, que apareceram na revista paulistana A Cigarra:

Cabelos e roupas curtíssimos, de evidente inspiração nos novos modelos propostos pelo cinema (³)

Cabelos curtos para elas, nem tanto para eles... (⁴)

(1) BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas.
(2) Cabe aqui uma consideração de não pouca importância. Era inevitável que a sociedade, assim predisposta a aceitar ou pelo menos a tolerar  novos padrões de comportamento se tornasse mais questionadora, mais consciente de que direitos civis não deviam ser apenas um enfeite na Constituição e acabasse rumando para novas tendências políticas, que culminaram com a supressão da hegemonia cafeeira, que já durava várias décadas, até porque a grande crise econômica que afetou o mundo no final da década de vinte deu uma contribuição relevante para isso. Não por acaso, os anos vinte foram tempos de grande agitação, com uma sequência de revoltas militares (o "Tenentismo") ou a proposição de novos parâmetros culturais (a Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo). Por outro lado, não se pode esquecer que todas as mencionadas transformações, por razões bastante evidentes, afetavam muito mais os centros urbanos, do que a população do Brasil rural, que ainda predominava.
(3) A CIGARRA, nº 209, Ano 11, 1º de junho de 1923.
(4) Ibid., nº 240, Ano 13, 1º de novembro de 1924.


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quarta-feira, 10 de julho de 2013

A moda em calçados, um século atrás

Este anúncio procura vender a ideia de que a menina está feliz por ter
um par de sapatos como o que é retratado, muito diferente daquele que as
meninas da mesma idade tendem a usar atualmente. (¹)

Olhe para seus pés, leitor. O que está calçando? (se é que está calçando alguma coisa...) Pode ser um par de chinelos, talvez uns tênis. Talvez sua prioridade seja o conforto, ou pode ser a elegância - ou ainda uma tentativa de conciliar tudo isso, com preço satisfatório e uma certa durabilidade. Não seria pedir demais?
Anúncio de calçados publicado em 1915 (²)
Curioso é notar que, há um século, mais ou menos, as pessoas esperavam as mesmas coisas de seus calçados, mas o modo como isso se materializava era, digamos, um tanto diferente daquilo que hoje consideramos aceitável. Para verificar como era a moda em calçados, veja alguns anúncios que apareceram em publicações da segunda década do Século XX, e compare com o que se vê, atualmente, nas vitrines das lojas de sapatos. Pode ser que sejamos obrigados a concluir que, moda vai, moda vem, os sapatos de hoje guardam alguma semelhança com os do passado, ao menos no que se refere aos artigos ditos "sociais", principalmente em se tratando de calçados masculinos. Nossos calçados esportivos, por outro lado, seriam impensáveis pelos anos 1915 ou 1916. Os "sapatos de tênis" eram usados só para esporte, mesmo, nunca para passeio, e tinham um aspecto muito diferente daquele que a tecnologia e o design contemporâneo agregaram aos tênis que usamos para correr, jogar e em muitas outras atividades quotidianas.
Além disso, certo ou errado, os sapatos das crianças eram, em geral, um tanto diferentes dos usados pelos adultos, quando a tendência atual é imitar, nos calçados infantis, muito da moda de "gente grande". Tudo correspondia, portanto, a uma época em que meninos usavam calças curtas, e deixar de fazê-lo, para usar as "verdadeiras calças de homem" constituía-se em um pequeno ritual de passagem pelo qual todo guri esperava, ansiosamente.

Anúncio de calçados para mulheres, publicado em 1915 (³)

(1) A CIGARRA, Ano VI, nº 126, 15 de dezembro de 1919.
(2) A CIGARRA, Ano II, nº 33, 30 de dezembro de 1915.
(3) Ibid. Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.


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