quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Humor nas Eleições da República Velha - Parte 2

"Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n...”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso."
Machado de Assis, A Semana, 7 de agosto de 1892


Leitor, cumpro o que prometo: esta é, pelo menos por enquanto, a última postagem sobre questões eleitorais. E, para isso, vamos examinar mais alguns cartoons de publicações da República Velha.

1. O primeiro desenho é da revista Fon-Fon, do Rio de Janeiro, edição de 18 de junho de 1910, e trata das eleições que, conforme comentei na postagem anterior, envolveram como candidatos Ruy Barbosa (e a chamada "Campanha Civilista") e o Marechal Hermes da Fonseca, sendo este último declarado vencedor. Acontece que a apuração dos votos, de responsabilidade de deputados e senadores, começou a ficar cansativa...


No quadrinho acima, o "Senado" e a "Câmara" aparecem demonstrando preguiça e são interrogados:
"Fon-Fon - Que diabo estão vocês a fazer aí?
Senado e Câmara - Estamos trabalhando... na apuração."
Esteja ciente, meu leitor,  de que na República Velha a apuração podia levar meses. As comunicações eram precárias e o sistema de contagem de votos, absolutamente moroso, posto que inteiramente manual. Não preciso dizer que, com tantos contratempos, era fácil "acertar" algum resultado que, nas urnas, tivesse ousado sair contrário aos interesses da oligarquia dominante.

2. Nesse outro cartoon da Fon-Fon, da edição de 25 de junho de 1910, a referência às fraudes eleitorais é explícita:


Ladeando a urna eleitoral, estão os candidatos Hermes da Fonseca e Ruy Barbosa. A legenda diz: "Se começam a descontar os votos falsos, então é que a República nunca mais apanha um Presidente."

3. Finalmente, uma crítica escancarada às mazelas da vida política nacional, neste cartoon de O Malho, edição de 8 de julho de 1922:
A "Política" e o "Falsário" são retratados como "Almas Gêmeas"; diz a "Política":
"Quem é bom já nasce feito, não é, meu velho? Nós agora mandamos nessa fossa."
Não, leitor, não pode haver dúvidas quanto ao significado expresso nessa frase - era a desmoralização absoluta, diante da opinião pública, do que se fazia em nome da administração nacional. 
Essa publicação precisa ser compreendida diante de seu evidente contexto, o da Revolta do Forte de Copacabana, que ocorrera dias antes, em 5 de julho de 1922. Ainda que timidamente, pelo menos no plano ideológico, o movimento encabeçado pelos "Tenentes" falava em moralizar a vida política do País. Não sabemos se a edição da revista foi impressa antes ou depois do dia 5, mas, de qualquer modo, é notório, através dela, que a situação chegara a ser explosiva. O resto, como se diz, é, literalmente, História. Com "H" maiúsculo.


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