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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Para que se cultivava mandioca no Século XIX

A técnica básica de cultivo da mandioca (Manihot esculenta) e da preparação, com ela, de farinha, que envolve certa complexidade, estava amplamente disseminada entre indígenas do Brasil, antes que europeus começassem a frequentar a região em fins do Século XV.  Um pouco mais tarde, colonizadores, a partir do contato com a população nativa, passaram a incluir a farinha de mandioca na alimentação, mesmo porque as tentativas de cultivo de trigo não resultaram em safras tão avantajadas que pudessem assegurar a autonomia da terra para se fazer pão e outros alimentos. Desde então, o sincretismo cultural resultou na descoberta de várias aplicações para a mandioca, de modo que, já no Século XIX, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o segundo barão de Paty do Alferes, escreveu: 
"É esta preciosa planta [a mandioca] uma das mais necessárias ao fazendeiro e a todos em geral; sua ótima farinha serve nas nossas mesas como um acessório indispensável e necessário; nas mesas de maior luxo aí aparece o seu pirão, os deliciosos bolos de sua tapioca e os saborosos mingaus e biscoitos de sua goma, que também lustra a cambraia e finíssimos morins de nossas camisas e dos vestidos de nossas damas." (*)
Da cozinha aos serviços de lavanderia: eis aí uma transição interessante quanto ao emprego da farinha de mandioca, que deixa entrever alguma coisa dos costumes relativos ao cuidado da roupa em fazendas do Século XIX, além dos hábitos de vestuário da elite rural. Por outro lado, a farinha de mandioca, enquanto durou a escravidão, foi amplamente empregada na alimentação dos cativos
Talvez nunca saibamos quem foram os primeiros que tiveram a ideia de empregar a planta tão comum na dieta indígena para algo mais que farinha, mas podemos estar certos de que, nesse aspecto, a necessidade de improvisar teve papel significativo, diante da ausência de artigos cujo uso era corrente no Reino.

(*) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 96.


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Como foi anunciada a chegada da família real ao Rio de Janeiro em 1808

Embarque do príncipe D. João para o Brasil, de acordo com Giuseppe Gianni (¹)

A família real portuguesa iniciou a incômoda viagem rumo ao Brasil no final de novembro de 1807. No ano seguinte, depois de uma breve estada na Bahia, a Corte móvel deslocou-se para o Rio de Janeiro, onde chegou no dia 8 de março.
De acordo com Joaquim Manuel de Macedo, uma embarcação foi enviada com antecedência, dando aviso para que fossem tomadas as providências indispensáveis: 
"Era vice-rei do Brasil o Conde dos Arcos, quando, a 14 de janeiro de 1808, entrou no porto do Rio de Janeiro o brigue de guerra Voador, trazendo a notícia da próxima chegada da família real portuguesa. O brigue fizera honra ao nome que lhe tinham dado: voara para dar aquela nova ao vice-rei, ainda a tempo de serem por ele tomadas algumas providências." (²)
Era muita gente que chegava, e, como se sabe, as medidas para prover acomodação decente não foram simpáticas à população do Rio de Janeiro (³). Apesar disso, e apesar das críticas (algo humorísticas) que se costuma fazer ao governo joanino, há que se reconhecer que a permanência da família real no Brasil por alguns anos teve aspectos bastante favoráveis, pela ruptura das velhas estruturas coloniais que, se não impediam por completo, ao menos dificultavam bastante o desenvolvimento do país. O Rio ganhou uma efervescência cultural inteiramente nova, cujos resultados se estenderam para além da Independência. A modernização, ainda que modesta, foi importante por dar ao Brasil, que logo seria nação livre, algumas instituições que, de outro modo, talvez demorassem a existir, incluindo os primeiros cursos superiores, biblioteca, teatro, academia militar, entre outras mais. 

(1) O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 39.
(3) Os até então felizes proprietários de bons imóveis não devem ter achado graça nenhuma em ter de sair de casa.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Nos terreiros das antigas fazendas de café

Terreiro de uma fazenda de café, Século XIX (¹)

Um bom terreiro, com chão firme, era essencial às antigas fazendas de café, porque era nele que os pequenos frutos vermelhos eram espalhados após a colheita. O príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Brasil em setembro de 1842, relatou, depois de visitar a fazenda Aldeia:
"Assim que o café é colhido pelos negros, as bagas são postas a secar no terreiro, um pátio diante da casa - uma espécie de eira de barro batido -; em seguida levam-nas em grandes caixas para os pilões movidos por água, e por fim para as máquinas de limpar café, por onde passam duas vezes. Só então o café está pronto para ser carregado pelas tropas e transportado." (²)
Pouco além de duas décadas mais tarde, o casal Agassiz, à frente da Expedição Thayer, também esteve no Brasil, deixando registrada esta observação sobre o uso do terreiro na fazenda Fortaleza de Santana:
"[...] os negros dividem em lotes a colheita do dia e a arrumam em pequenos montículos no terreiro. Quando o café está bem seco, e por igual, espalham-no em camadas de pouca altura sobre a extensão toda do terreiro, onde ainda recebe por algum tempo os raios do sol; os grãos são em seguida descascados com auxílio de máquinas muito simples que se usam em todas as fazendas, e a manipulação está concluída." (³) 
É importante assinalar que esses viajantes se referiam ao café cultivado e rusticamente beneficiado nas próprias fazendas, antes da grande expansão cafeeira pelo Oeste Paulista. Devido à demora na modernização das práticas agrícolas e pelas dificuldades quanto ao transporte (⁴), o café brasileiro, destinado à exportação, sofria questionamentos em relação à qualidade e encontrava, por isso, obstáculos para colocação no mercado internacional.   

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 129.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 131.
(4) Notem, leitores, a referência às tropas de muares no relato feito pelo príncipe Adalberto da Prússia.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre a comida que era servida nas hospedarias ao final da Estrada de Ferro D. Pedro II


Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II (¹)

Suponha, leitor, que estejamos no Século XIX; suponha, ainda, que tenha nos passado pela ideia percorrer a Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao fim dos (poucos) quilômetros que compõem o trajeto, estão os viajantes famintos. Eis a ocasião de um grande problema.
No Século XIX as hospedarias ou estalagens - chame como quiser - eram os locais em que se podia fazer uma refeição. Como não havia controle de preços e muito menos de qualidade, a higiene quase sempre passava longe das mesas e a conta, ao final, era absurda. Quanto à comida...
Só se achava o mais trivial, e isso com boa sorte. Há um depoimento da época, escrito por Augusto-Emílio Zaluar, que nos informa adequadamente:
"Um almoço de estalagem compõe-se ordinariamente do seguinte: arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho; e, quando o viajante se trata, acrescenta-se a esta lista uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. O jantar e a ceia são moldados pelo mesmo teor." (²)
Quem viaja atualmente pelo Brasil sabe que pode, na maioria dos aeroportos, achar refeições pelo menos razoáveis. Os preços, no entanto, não sei se por paixão pela História, têm o hábito de recordar os costumes dos Século XIX. Eis aí um tipo de "patrimônio histórico" que eu não acharia nada mau que viesse abaixo!

(1) Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II, de acordo com Sebastien Auguste Sisson. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 3.


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domingo, 23 de março de 2014

Tempestades cada vez mais fortes e mais frequentes

Na data em que escrevo esta postagem (dia 18 de março de 2014), um forte temporal acaba de atingir a cidade de São Paulo, causando grandes estragos, quer por obra das inundações, quer em decorrência de ventos muito fortes.
Ora, meus leitores, não é a primeira vez que trato, aqui em História & Outras Histórias, de grandes tempestades ocorridas no passado. Para os propósitos do assunto de hoje, mencionarei três.
Auguste de Saint-Hilaire relatou, com estas palavras, um temporal notável que presenciou no Rio Grande do Sul, isso em 13 de abril de 1821:
"Horas antes do pôr do sol, o tempo se cobriu de negras e espessas nuvens, seguindo-se um furacão, o mais terrível experimentado em minha vida. Fazia tanta escuridão, que mal dava para ler: de todos os lados o céu era cortado de relâmpagos; as trovoadas se sucediam sem interrupção, o rugido do vento sul sobrepujava ainda o ruído do trovão por sua violência. Encontrava-me então na sala do meu hospedeiro, em companhia do pequeno Diogo. A janela e a porta estavam abertas, tudo quanto se achava sobre a mesa foi levado pelo vento; apressei-me em fechá-las, mas nesse instante, parte do telhado foi arrancado e, apesar da casa ser nova, um pedaço do muro, construído com barro e tijolo, foi derrubado pelo furacão e amontoado inteiramente por cima de algumas de minhas malas. A água caía torrencialmente dentro de casa e os fragmentos de telha voavam ao redor de mim. Já estava ferido na coxa e, temendo mais graves acidentes, fui proteger-me no quarto vizinho; mas o achei descoberto e igualmente inundado como a sala. Entrei num pequeno quarto vizinho, onde encontrei as mulheres da casa, comprimidas umas às outras, e que, tremendo, invocavam fervorosamente proteção aos céus. Ao fim de sete ou oito minutos, a violência do furacão havia diminuído um pouco; voltei à sala, trouxe as malas que estavam mais expostas à chuva, procurando resguardá-las no quarto adjacente." (¹)
Sabe-se, também, que em São Paulo, o ano de 1850 teve um infeliz começo, tudo por obra de um grande temporal que abalou a cidade:
"A 1º de janeiro de 1850 desabou sobre a cidade enorme tromba d'água motivando o arrombamento dos açudes e a inundação do vale do Anhangabaú. Verdadeiro dilúvio, durou seis horas, carregando a ponte do Açu, e arrasou diversas casas causando algumas vítimas." (²)
O terceiro e último evento devastador a que farei referência ocorreu em Resende (RJ), conforme relato de Augusto-Emílio Zaluar, e destruiu por completo o prédio novo que se fizera, então, para a Santa Casa de Misericórdia daquela localidade:
"O edifício atual não tem as dimensões e os cômodos que um estabelecimento desta ordem exige, sobretudo prestando os serviços que esta casa de caridade tem continuamente prestado. O edifício novo que se estava construindo para este fim, quando já se achava coberto com o telheiro, foi o ano passado destruído por um forte temporal que o desmoronou até os alicerces."(³)
Pois bem, como os senhores leitores podem ver, eventos climáticos extremos não são novidade. Mesmo em tempos em que a população era menor e, por consequência, menores eram também as vilas e cidades, os estragos podiam ser grandes. Não é, pois, necessário, que uma tempestade sobrevenha a uma metrópole, para que os danos sejam significativos.
Mas há ainda uma outra consideração que bem cabe aqui. Sim, tempestades sempre aconteceram - mas não com a frequência das da atualidade. O que deveras chama a atenção não é tanto a velocidade dos ventos, o volume das águas, o número de árvores que vêm abaixo e sim o fato de que tais fenômenos estão se tornando corriqueiros - pra falar a verdade, em certas épocas do ano acontecem quase todo dia. Corremos o risco de achar tudo isso "normal", em lugar de nos propormos a uma reflexão mais profunda sobre os rumos deste planeta que habitamos.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 408.
(2) TAUNAY, Affonso de E. História da Cidade de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 281.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro / Paris: Garnier, 1862, p. 40.


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domingo, 31 de outubro de 2010

A Política do Café com Leite, conforme não aprendemos na escola

Apesar da vegetação, pode-se
ver a placa que indica o local do
Pacto de Ouro Fino
Para honrar esse dia de eleições presidenciais do segundo turno, resolvi escrever sobre a chamada "política do café com leite". Na escola todo mundo aprende que essa tal política foi resultado de um acordo entre políticos do Estado de São Paulo e de Minas Gerais, para que a presidência da República fosse ocupada, alternadamente, por candidatos dos dois Estados. Esse acordo, obviamente informal - ninguém colocaria uma coisa dessas no papel e mandaria registrar em cartório, cuidando para assegurar a publicação nos principais jornais do País - foi celebrado em 1913, na cidade mineira de Ouro Fino, daí ter ficado conhecido como "Pacto de Ouro Fino". Aprende-se também, quase sempre, que o "café com leite" chegou ao fim porque Washington Luís, o "paulista falsificado" , de acordo com a música de Eduardo Souto, rompeu o acordo feito com os mineiros, ao indicar Júlio Prestes, paulista de Itapetininga, como seu candidato à sucessão.
Acontece, leitor, que se analisarmos a lista de presidentes desde a proclamação da República, em 1889, até 1930, veremos que as coisas não são tão simples quanto parecem, ou pelo menos, não aconteceram exatamente como nos ensinaram. Observe:

Deodoro da Fonseca, alagoano, era militar de carreira;
Floriano Peixoto, também alagoano e militar de carreira;
Prudente de Morais , paulista de Itu, formado na turma de 1863 da Faculdade de Direito de São Paulo;
Campos Sales, paulista de Campinas, também da turma de 1863 da Faculdade de Direito de São Paulo;
Rodrigues Alves, paulista de Guaratinguetá, formou-se em Direito em São Paulo, na turma de 1870;
Afonso Pena, mineiro de Santa Bárbara, formou-se em Direito em São Paulo na turma de 1870;
Nilo Peçanha, nascido em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, concluiu o bacharelado em Direito na Faculdade de Direito do Recife;
Hermes da Fonseca, nascido em São Gabriel, Rio Grande do Sul, era sobrinho do Marechal Deodoro da Fonseca e, como ele, militar de carreira;
Wenceslau Braz, mineiro de Brazópolis, formou-se em Direito em São Paulo na turma de 1890, tendo sido presidente da República de 1914 a 1918, portanto o primeiro do "café com leite";
Rodrigues Alves, como já foi dito era paulista e, eleito presidente, morreu antes de assumir novamente a presidência;
Delfim Moreira, mineiro de Cristina, bacharelou-se em Direito em São Paulo na turma de 1890, sendo presidente de 1918 a 1919, já que era vice na chapa de Rodrigues Alves;
Epitácio Pessoa, paraibano de Umbuzeiro, formou-se em Direito em Recife na turma de 1886, sendo presidente de 1919 a 1922 (apoiado pelos políticos mineiros, foi uma rusga no "café com leite");
Artur Bernardes, mineiro de Viçosa, formou-se pela Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais, sendo presidente de 1922 a 1926;
Washington Luís, nascido em Macaé, Rio de Janeiro, era, na política, considerado "paulista", tendo concluído o bacharelado em Direito em São Paulo na turma de  1891. Antes de ocupar a presidência da República foi prefeito da cidade de São Paulo e Governador do Estado de São Paulo. Presidente de 1926 a 1930, foi deposto pelo golpe conhecido como "Revolução de 30".
Júlio Prestes, paulista de Itapetininga, formado em Direito em São Paulo na turma de  1906, não chegou a assumir a presidência.

Constatamos que, de Prudente de Morais a Washington Luís, onze pessoas diferentes ocuparam a presidência da República. Dessas onze, dez eram civis e apenas um, o Marechal Hermes da Fonseca, era militar. Quanto ao Estado de origem, excetuando o caso "híbrido" de Washington Luís, verificamos que, dos dez presidentes civis, quatro vieram de Minas Gerais, três de São Paulo (aliás consecutivamente), um do Rio de Janeiro, um do Rio Grande do Sul e um da Paraíba. Porém, se analisarmos apenas o período de vigência do Pacto de Ouro Fino, faremos a espantosa constatação de que os presidentes, foram, por ordem, mineiro, mineiro, paraibano, e mineiro. As exceções, se assim podemos chamar, foram o reeleito Rodrigues Alves, que deveria ter assumido o mandato em 1918, mas que morreu, vítima da gripe espanhola, antes de tomar posse, e o já citado caso de Washington Luís, carioca de Macaé, que, no entanto, reconhecidamente fez sua carreira política em São Paulo, tendo sido prefeito e governador, antes de chegar à presidência da República.
Pergunto: onde está o "café com leite", com a suposta alternância de presidentes mineiros e paulistas? Os três únicos verdadeiramente paulistas que chegaram à presidência durante a República Velha (e não só) foram justamente os três primeiros civis, o que se explica facilmente pela relevância política do PRP (Partido Republicano Paulista), criado em 1873, primeiro e decisivo impulsionador do movimento republicano no País, e pela preponderância econômica que São Paulo exercia na época em decorrência de ser o grande centro produtor e exportador de café, produto do qual, em última instância, dependia a economia brasileira quase exclusivamente.
Casa em que foi celebrado o Pacto de Ouro Fino,
dando origem à chamada "política do café com leite"
O que mais dizer? Se o "café com leite" nunca se consumou, o que haveria, ao menos, em comum, em relação a todos esses presidentes? Primeiro, eram todos do sexo masculino (você notou, leitor?)  e além disso, excetuando-se os militares, eram todos formados em Direito. Verifica-se que, sendo todos advogados de profissão, sete obtiveram o Bacharelado em Direito em São Paulo, dois na Faculdade de Direito de Recife e um na Faculdade Livre de Minas Gerais. Por isso, se há alguma coisa que pode, nesse sentido, ser decisiva, é o fato de que a maioria dos presidentes estudou em São Paulo, na mesma instituição, o que talvez assinale uma tradição de pensamento e ação no campo da política. Os fatos, leitor, demonstram que qualquer outra coisa que nos tenham ensinado não passa de mistificação, e não História. Mas esse é apenas um, dentre muitos outros tópicos, sobre os quais se ensina o que nunca aconteceu.


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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Registrando os sons - Parte 2: O que tocava em um fonógrafo no Brasil do início do Século XX

A edição de janeiro de 1904 da revista Echo Phonographico trazia um anúncio de cilindros para fonógrafo, que incluía, basicamente, "Cantos em Espanhol", "Cantos em Italiano" (principalmente árias operísticas) e "Cantos da célebre soprano alemã Frau E. Reimann" (árias, também). Ou seja, o cardápio era reduzido e essencialmente importado. Entretanto, um ano depois, a mesma revista, na edição de janeiro de 1905, trazia este outro anúncio:


Note-se: "Cantados pelo Bahiano, o melhor cançonetista brasileiro"...  Há aqui, leitores, uma mudança muito significativa em relação aos fonogramas oferecidos no ano anterior. No mesmo anúncio, são listadas nada menos que cento e cinquenta e nove canções, dentre as quais "As Mocinhas Desta Terra", "Canção do Vagabundo", "Mulata Vaidosa", "Matuto do Ceará", "Cabocla", "Vacina Obrigatória", "Casa Branca da Serra", "Enterro da Sogra", "Cabra Decidido", "O Fazendeiro da Capital Federal". É fácil perceber que, rapidamente, as gravações musicais vinham ganhando espaço como entretenimento, e a oferta de fonogramas diversificava-se, para atender a todas as preferências, mesmo porque, a crer neste trecho da edição de fevereiro de 1905 do Echo Phonographico, havia grande procura por fonógrafos:
"Tão desenvolvido [sic] tem sido a procura de fonógrafos nestes últimos meses, que nos princípios de janeiro a Casa Edison dos Srs. Figner Irmãos lutou com sérias dificuldades para atender aos inúmeros pedidos que lhe chegavam de todos os pontos do Brasil.
Há dias recebeu aquele estabelecimento uma grande encomenda de aparelhos e tantos tem vendido que teve de fazer um novo pedido telegraficamente aos Estados Unidos, para que se não esgote o estoque antes de chegar nova remessa."
Sim, leitores, ainda que suponhamos algum exagero com interesse propagandístico, não podemos fugir dos fatos: esses aparelhos tornaram-se uma verdadeira febre, o objeto do desejo por excelência em um momento no qual o Brasil começava a tatear os encantos (e desencantos) do mundo capitalista, acarretando notáveis mudanças nos hábitos da população, à medida que as gravações de uso doméstico afiguravam-se muito melhores aos ouvidos do que suportar os modestos cantores que eventualmente vinham fazer apresentações nos teatrinhos das cidades do interior do Brasil.


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domingo, 3 de outubro de 2010

Fim de festa: Senhores, vamos limpar esta desordem!

Você, leitor, sabe que é ótimo, de vez em quando, reunir os amigos para uma festa. Mas sabe, também, que quando a festa acaba, há um grande trabalho a fazer para "pôr ordem na casa". É a vida!
Agora, pouco depois das 17 horas de domingo, 3 de outubro, as eleições deste ano, ao menos quanto ao primeiro turno, já passaram, e entram discretamente para os domínios da História Contemporânea. Mas, como toda grande festa, deixam seus vestígios, e que vestígios...
Saí para dar uma olhada nas ruas e, como já esperava, há muita sujeira por toda parte: uma infinidade de panfletos tentando convencer eleitores menos convictos, enquanto outros parecem destinados a "ajudar" os descuidados que não prepararam uma lista de seus candidatos. O certo é que a desordem recobre calçadas e ruas.
A propósito, a palavra candidato vem do latim, em referência às togas brancas que os postulantes a cargos públicos usavam e que, na cultura na época, significavam sua plena capacitação para a função pretendida, além de um caráter imaculado, perfeitamente digno da grandeza do Estado romano. É claro que hoje isso já não faz muito sentido. Mas, se é verdade que a legislação eleitoral brasileira anda precisando de alguns ajustes (embora já tenha progredido muito), seria bom incluir nela a obrigação de que os senhores candidatos, após as eleições, providenciem a limpeza das vias públicas. Não, muito melhor seria se essa parafernália eleitoral, que infesta as cidades, nem fosse distribuída, evidenciando o respeito pela decisão dos eleitores na hora do voto, além de dispensar o consumo inútil de tanto papel. Não faria mal a ninguém, iria desonerar a limpeza pública e, diante do povo, demonstraria a seriedade das intenções dos que postulam uma posição como governantes e representantes da nação. Afinal, já houve muito tempo para convencer o eleitorado com propostas realmente inteligentes. Mas, por hora, só resta limpar toda a desordem!


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Tomás Antônio Gonzaga, o ser humano escondido atrás do herói Dirceu

Primeira página da edição de 1799 de
Marília de Dirceu
Tomás Antônio Gonzaga, o famoso autor de Marília de Dirceu, é chamado, muitas vezes, de "Poeta da Inconfidência", embora jamais tenha celebrado favoravelmente o movimento de independência de que, supõe-se, tenha participado, além de não ser, entre os listados como revoltosos, o único que compunha versos. Como magistrado, já havia escrito um Tratado de Direito Natural, mas são os versos árcades de Marília de Dirceu que o tornaram conhecido.
Ora, inconfidente ou não, Gonzaga foi preso entre os rebeldes e levado à prisão no Rio de Janeiro. Lá, pelo que se sabe, continuou a compor versos, nos quais lamentava sua condição de prisioneiro:

Com pesadas cadeias manietado,
Às vozes da razão ensurdecido,
Dos céus, de mim, dos homens esquecido,
Me vi de amor nas trevas sepultado.

Ali aliviava o meu cuidado
Co' dar de quando em quando algum gemido.
Ah! tempo! Que, somente refletido,
Me fazes entre as ditas desgraçado.

Mas não era só. Tentava mostrar que não era um dos conjurados (pelos Autos da Devassa, sabemos que nem mesmo Tiradentes o considerava um!), ao atacar, sempre em versos, a rebelião antilusitana e o alferes que todos incriminavam como cabeça da sedição:

Há em Minas um homem,
Ou por seu nascimento ou seu tesouro,
Que aos outros mover possa
À força de respeito, à força d’ouro?
Os bens de quantos julgas rebelados
Podem manter na guerra,
Por um ano sequer, a cem soldados?

Ama a gente assisada
A honra, a vida, o cabedal tão pouco,
Que ponha uma ação destas
Nas mãos dum pobre, sem respeito e louco?
E quando a comissão lhe confiasse,
Não tinha pobre soma,
Que por paga ou esmola, lhe mandasse!

É notório que o "pobre, sem respeito e louco" só pode ser o Alferes Joaquim José da Silva Xavier. Mas, contrariando talvez a opinião de muitos, não considero Tomás Antônio Gonzaga um traidor da Inconfidência. Qualquer pessoa, metida em escura e imunda prisão, correria o risco de fraquejar ante a possibilidade de uma sentença de morte. Qualquer pessoa de uma certa posição social, tanto em Vila Rica como nas adjacências, podia, na época, ter entrado em contato com defensores das ideias iluministas e, nesse caso, corria o risco de ser incluída entre os acusados da conspiração, e é razoável imaginar que o próprio Gonzaga, ainda que português de nascimento, tenha ocasionalmente entretido conversas a respeito, sem considerar que, de algum modo, acabaria envolvido em um processo que mudaria radicalmente o curso de sua vida. Há que acrescentar que, pelos depoimentos, sabe-se que ele não foi o único a tentar escapar da condenação - ele é lembrado porque deixou seu próprio testemunho, nos versos de Marília de Dirceu. Talvez em breves instantes de esperança, Gonzaga imaginava-se inocentado, a ponto a de escrever:

Chegando este dia,
Os braços daremos:
Então mandaremos
De gosto e ternura
Suspiros aos céus.
Pôr-me-ão no sepulcro
A honrosa inscrição:
“Se teve delito,
Só foi a paixão,
Que a todos faz réus.”

Mas a absolvição não veio. Os inconfidentes foram, todos, sentenciados à morte, mas tiveram a pena comutada, à exceção, é claro, da atribuída a Tiradentes. E o poeta, mais uma vez, pôs em versos a angústia diante da condenação a dez anos de degredo na África, o que equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, pela elevada probabilidade de lá contrair uma doença fatal:

Parto, enfim, e vou sem ver-te,
Que neste fatal instante
Há de ser o teu semblante
Mui funesto aos olhos meus.
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!
E crês, Dirceia, que devem
Ver meus olhos penduradas
Tristes lágrimas salgadas
Correrem dos olhos teus?
Ah! não posso, não, não posso
Dizer-te, meu bem, adeus!

Há uma terceira parte de Marília de Dirceu cuja autoria é bastante controversa. Foi publicada em 1812, portanto após a morte do poeta. Admite-se, de um modo geral, que Tomás Antônio Gonzaga passa ter ao menos rascunhado parte desses versos, dentre os quais encontram-se alguns tidos como muito provavelmente seus:

Leu-se-me enfim a sentença
Pela desgraça firmada;
Adeus, Marília adorada,
Vil desterro vou sofrer.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? irei morrer.

Que vá para longes terras,
Intimarem-me eu ouvi;
E a pena que então senti,
Justos céus! não sei dizer.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? irei morrer.

[...].

Da desgraça lei fatal
Pode de ti separar-me:
Mas nunca d'alma tirar-me
A glória de te querer.
Ausente de ti, Marília,
Hei de amar-te até morrer.

Ah, leitor, tenha Tomás escrito ou não esses versos, é fato que não tornou a ver Marília. Mas também não morreu de amores: já em Moçambique, conheceu Juliana de Sousa Mascarenhas, jovem de elevada posição, com quem se casou em 1793 e teve pelo menos um filho. Veja bem em que deram os versos de amor...
Tomás Antônio Gonzaga nunca tornou ao Brasil, pois continuou a viver no lugar de seu desterro mesmo após a conclusão da pena, onde morreu  provavelmente em 1810, embora o site oficial da Academia Brasileira de Letras, da qual é patrono da Cadeira 37, informe a data de fevereiro de 1807.
Quanto a Marília (Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão), ao termo dos dez anos de degredo de "Dirceu", parece ter ido ao Rio de Janeiro para cuidar de uma viagem a Lisboa, a fim de reencontrar Gonzaga, mas teria, ainda no Rio, recebido a informação de que ele se casara na África, o que a fez retornar a Vila Rica. Está sepultada na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias em Ouro Preto, tendo falecido em fevereiro de 1853. Note-se apenas: morreu solteira.


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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ainda o humor nas eleições da República Velha...

É certo, leitor, que eu me havia proposto a não retornar tão cedo a esse assunto das eleições da República Velha. Mas foi impossível resistir! Eu estava vasculhando antigas publicações, tão calma e pacificamente, numa tarde modorrenta da última semana, quando meus olhos deram com esta preciosidade. Tentei afastar a ideia, mas não consegui,  e aqui transcrevo meu achado:

Minha amigos!

No sesta-fêra eu te escreve minha ultimo karton. Oji eu tenho p'ra vae te conta uma kaso insterizante. Meu compadra Filip me chame esta dias p'ro vir to citade de Belotas, dondo eu te escreveu akóra. Tu non imaxinas que ella quer quanda, eu vem. Mi leva no intetencia e pede p'ra nois se inlistar, eu teve diz minho nome, meus annas e tepois a home lá me deu uma papel que chama títelo qui é uma vote no dia dos enleçons. A home é uma moço muito ponita; ella me convido tome cervexa preto, pon. Despois me pede p'ro dar a vote na Marschall Hermes.

Quanda vem as enleçons de 1ª de Marzo eu fui deu a vote na Hermes. Eu feiz isto purquê minhas companhiro diz que ella foi visita a Kaiser no Allemanha, assiste parade nossas soltadas. Tampem a nossa rei deu p'ra ella sua retrata munta krande. Tudas diz que ella é muita amigo das nois allemons. Nossas parentescos tampem foi vote na Hermes. Quasi quebra cabeça da meu visinha Peter que vote na Ruy Barbosa. As xentes allemons só quer as Hermes; mais as praseleras barece goste da Ruy. Eu non sabe estes coisas. Mais quanda xente baga cervexa e pede vote Marschall sempre deve fais isto.

Muitas peijas do

                                               FRITZ.

Belotas - Marz - 1910. (*)

Vale observar, de passagem, que essa "Carta Pomerana" revela muito sobre a imagem que se tinha do imigrante no início do século XX, um tema que, aliás, vou abordar neste blog um dia desses. Como não sou pomerana, quero, de toda forma, homenagear meus amigos que o são (pomeranos do Espírito Santo!), Lucimar e companhia...

(*) A LUA, março de 1910.


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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O humor nas eleições da República Velha - Parte 2

"Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n...”. Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso."
Machado de Assis, A Semana, 7 de agosto de 1892

Leitor, cumpro o que prometo: esta é, pelo menos por enquanto, a última postagem sobre questões eleitorais. E, para isso, vamos examinar mais alguns cartoons de publicações da República Velha.

1. O primeiro desenho é da revista Fon-Fon, do Rio de Janeiro, edição de 18 de junho de 1910, e trata das eleições que, conforme comentei na postagem anterior, envolveram como candidatos Ruy Barbosa (e a chamada "Campanha Civilista") e o Marechal Hermes da Fonseca, sendo este último declarado vencedor. Acontece que a apuração dos votos, de responsabilidade de deputados e senadores, começou a ficar cansativa...


No quadrinho acima, o "Senado" e a "Câmara" aparecem demonstrando preguiça e são interrogados:
"Fon-Fon - Que diabo estão vocês a fazer aí?
Senado e Câmara - Estamos trabalhando... na apuração."
Esteja ciente, meu leitor,  de que na República Velha a apuração podia levar meses. As comunicações eram precárias e o sistema de contagem de votos, absolutamente moroso, posto que inteiramente manual. Não preciso dizer que, com tantos contratempos, era fácil "acertar" algum resultado que, nas urnas, tivesse ousado sair contrário aos interesses da oligarquia dominante.

2. Nesse outro cartoon da Fon-Fon, da edição de 25 de junho de 1910, a referência às fraudes eleitorais é explícita:


Ladeando a urna eleitoral, estão os candidatos Hermes da Fonseca e Ruy Barbosa. A legenda diz: "Se começam a descontar os votos falsos, então é que a República nunca mais apanha um Presidente."

3. Finalmente, uma crítica escancarada às mazelas da vida política nacional, neste cartoon de O Malho, edição de 8 de julho de 1922:
A "Política" e o "Falsário" são retratados como "Almas Gêmeas"; diz a "Política":
"Quem é bom já nasce feito, não é, meu velho? Nós agora mandamos nessa fossa."
Não, leitor, não pode haver dúvidas quanto ao significado expresso nessa frase - era a desmoralização absoluta, diante da opinião pública, do que se fazia em nome da administração nacional. 
Essa publicação precisa ser compreendida diante de seu evidente contexto, o da Revolta do Forte de Copacabana, que ocorrera dias antes, em 5 de julho de 1922. Ainda que timidamente, pelo menos no plano ideológico, o movimento encabeçado pelos "Tenentes" falava em moralizar a vida política do País. Não sabemos se a edição da revista foi impressa antes ou depois do dia 5, mas, de qualquer modo, é notório, através dela, que a situação chegara a ser explosiva. O resto, como se diz, é, literalmente, História. Com "H" maiúsculo.


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terça-feira, 21 de setembro de 2010

O humor nas eleições da República Velha - Parte 1

"Ninguém ignora que nas batalhas como a de hoje costuma roncar o pau. Esta arma, força é dizê-lo, anda um tanto desusada, mas é tão útil, tão sugestiva, que dificilmente será abolida neste final do século e nos primeiros anos do outro. Não é épica nem mística, está longe de competir com a lança de Aquiles, ou com a espada do arcanjo. Mas a arma é como o estilo, a melhor é a que se adapta ao assunto. Que viria fazer a lança de Aquiles entre um capanga sem letras e um leitor sem convicção? Menos, muito menos que o vulgar cacete. A pena, “o bico de pena”, segundo a expressão clássica, traz vantagens relativas, não tira sangue de ninguém; não faz vítimas, faz atas, faz pleitos. O vencido perde o lugar, mas não perde as costelas. É preciso forte vocação política para preferir o contrário."
Machado de Assis, A Semana, 15 de julho de 1894


Hoje, leitor, teremos poucas palavras e, talvez, algum riso. É que vamos visitar desenhos humorísticos de publicações que, durante a República Velha, satirizavam as eleições, donde se conclui que, em relação aos pleitos do Império, a mudança de Regime não significou nenhuma grande transformação.

1. Neste cartoon da revista paulistana A Lua, de março de 1910, a personagem Zé Pagante (é possível que hoje disséssemos "Zé Contribuinte") protesta:
"Sucedem-se os quatriênios, mas o meu minguante não muda."
Entenda-se: as eleições, em última análise, eram mais do interesse dos poderosos, enquanto que, mandato após mandato, a vida dos pobres continuava a mesma.





2. Outro de A Lua, também de março de 1910:
"Coronel Piedade: - Eu não tinha avisado? Agora, quem não cavou um posto... cavasse... Fui o Moisés da Nova Cruzada. Vocês não me ouviram..."
Tem-se aqui uma referência às eleições de 1910, em que concorreram à Presidência Rui Barbosa e o Marechal Hermes da Fonseca (este último acabou vencendo). Foi, desde o início da República até aquela data, a eleição mais disputada. Deve-se observar que, no desenho, o Coronel Piedade tem as características fisionômicas de Hermes da Fonseca. Quanto à questão de "cavar um posto", sabemos bem o que é...
 
3. Finalmente, este interessante desenho que apareceu na revista carioca Fon-Fon, em 16 de julho de 1910:


A imagem é a de um comício político (que, na época, costumava atrair muito público), no qual o candidato a deputado, em um discurso inflamado, ressalta:
"- Concidadãos. Os interesses da pátria terão em mim  um defensor intransigente. Eleito deputado, honrado com a distinção do voto dos meus correligionários, o meu primeiro cuidado, cidadãos, o meu primeiro cuidado será... partir imediatamente para a Europa."
Cabem duas observações:
a) A ideia, neste caso, era alfinetar os parlamentares brasileiros que, em meio às apurações dos votos das eleições de 1910, tiraram férias e foram, muitos deles, para a Europa;
b) Não é novidade o hábito de fazer promessas de campanha - o que o cartoon ridiculariza é a expectativa de grandes promessas, frustrada pelo "partir imediatamente para a Europa". 
Na próxima postagem teremos mais alguns cartoons sobre as eleições na República Velha, quando, provavelmente, concluiremos este assunto!


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domingo, 19 de setembro de 2010

As eleições, as leis e a vida política no Brasil Imperial: Os acadêmicos de Direito protestam contra a corrupção

Se você leu minha postagem anterior, deve ter-se perguntado se, neste bendito País, não haveria leis que proibissem tantos desmandos. Sim, leitor, havia. O Código Criminal do Império estipulava claramente como crimes todas as peripécias que descrevi. Quer ver?

DOS CRIMES CONTRA O LIVRE GOZO E EXERCÍCIO DOS DIREITOS POLÍTICOS DOS CIDADÃOS
Art. 100. Impedir ou obstar de qualquer maneira que votem nas eleições primárias ou secundárias os cidadãos ativos e os eleitores que estiverem nas circunstâncias de poder e de dever votar.
[...].
Art. 101. Solicitar, usando de promessas de recompensas ou de ameaças de algum mal, para que as eleições para Senadores, Deputados, Eleitores, Membros dos Conselhos Gerais ou das Câmaras Municipais, Juízes de Paz e quaisquer outros empregados eletivos, recaiam ou deixem de recair em determinadas pessoas, ou para esse fim comprar ou vender votos.
[...].
Art. 102. Falsificar em qualquer eleição as listas dos votos dos cidadãos ou eleitores, lendo nomes diversos dos que nelas estiverem, ou acrescentando ou diminuindo nomes ou letras; falsificar as atas de qualquer eleição. (¹)

As penas variavam de intensidade, mas incluíam prisão, trabalhos forçados e multa. Nota-se, portanto, que não era por falta de leis que as eleições eram habitualmente fraudadas. A questão era outra, o que passo a explicar.
Nos antigos regimes absolutistas, o clientelismo funcionava como indispensável ferramenta do poder - tornava poderosa e respeitada, mediante a concessão de favores, toda uma hierarquia nobiliárquica que culminava na figura do próprio rei. Em suma, se alguém obtinha algo junto às autoridades, não era por ter direitos como cidadão, era por graça de sua majestade e da nobreza, que muito naturalmente faziam uso desse sistema altamente viciado para assegurar a dominação sobre o "povo".
Pois bem, o Brasil, enquanto nação independente, nasceu já monarquia constitucional, e não deveria, se adotarmos uma lógica simplista, apresentar tal sistema de favores. Mas a prática evidenciou outra coisa, ou seja, os séculos de colonização haviam impregnado a população do recém-nascido Império com as marcas do clientelismo, fazendo com que o conceito de cidadania fosse ainda um ideal muito distante para a maioria das pessoas, daí aceitar-se, quase sempre sem questionamento, que os poderosos, política e economicamente, impusessem sua vontade nas eleições, ou, dizendo melhor, fizessem das eleições o instrumento para legitimar sua dominação. E, assim, a despeito da severidade das leis, a quase absoluta certeza da impunidade desmoralizava, desde a base, o sistema político, gerando sequelas que nós, no século XXI, podemos, infelizmente, ainda presenciar.
Havia, é inegável, vozes de protesto, insuficientes, todavia, para mudar os (maus) costumes já bastante arraigados. Para concluir, transcrevo um pequeno trecho que serve para demonstrar que, a despeito do feroz esquema de corrupção, havia quem discordasse - neste caso específico, um grupo de jovens acadêmicos de Direito de São Paulo, no ano de 1860:
"Sim, quando o povo descrê dos seus representantes, porque neles vê um proceder tão incoerente e mesmo tão imoral; quando não há crenças, nem fé, nem patriotismo nos homens públicos, à mocidade cumpre protestar e acordar o País que dorme sobre um abismo.
Triste do país, onde a par da descrença, cresce a corrupção!...
Se alguns jovens saídos das Academias renegam as suas crenças para acompanhar a política imoral que domina o País, outros as conservarão puras e terão bastante dignidade e pundonor para preferirem viver pobres honrados, a galgarem as escadas do poder, prostituindo-se a cada passo e deixando em cada degrau uma mancha indelével de sua vergonhosa passagem; desacreditando assim aos olhos do povo o ideal do governo representativo." (²)
No passado, como hoje, era difícil que, uma vez encetada a carreira profissional, alguém pudesse preservar em sua pureza os ideais da juventude. Teriam esses rapazes de cento e cinquenta anos atrás conseguido manter a integridade política a que se propunham? Não sabemos, mas o fato de se preocuparem com os rumos do País, quanto tantos outros não se importavam, já era um indicativo da seriedade de suas intenções.

(1) CORDEIRO, Carlos A. Código Criminal do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Typ. de Quirino e Irmão, 1861, pp. 58-61.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As eleições no Brasil Imperial: Valia (quase) tudo para vencer

"Saíram para a luta eleitoral. No meio do caminho, o Romualdo teve uma reminiscência de Bonaparte, e disse ao amigo: “Fernandes, é o sol de Austerlitz!”
Pobre Romualdo, era o sol de Waterloo.
— Ladroeira! bradou o Fernandes. Houve ladroeira de votos! Eu vi o miolo de algumas cédulas.
— Mas por que não reclamaste na ocasião? disse Romualdo.
— Supus que era da nossa gente, confessou o Fernandes mudando de tom."
Machado de Assis, O Programa

Na postagem anterior expliquei como funcionava o sistema eleitoral no Brasil Império. Agora tratarei das implicações práticas de tal sistema.
Surge logo a questão: como controlar o que ocorria nas eleições em cada paróquia, em um país enorme, no qual, àquela época, os meios de comunicação e transporte eram quase inexistentes? A resposta é simples: o controle era muito difícil, de modo que, geralmente, imperava o mais forte, mais poderoso, mais astuto, donde se depreende que a lisura, em geral, passava longe das urnas. Alguns breves documentos podem iluminar a compreensão do leitor.
O jornal Aurora Paulistana, na edição de 13 de novembro de 1852, trouxe o seguinte relato:
"O Martins teve o desembaraço de mandar na véspera da eleição agarrar em um alferes M. J. levá-lo para sua casa, conduzi-lo no dia seguinte na sege, fazendo-o sentar ao pé de si na igreja, encarando com olhar ameaçador a todos que a ele se aproximavam, e finalmente só o deixou depois que o pobre homem corrido de vexame lançou na urna a cédula favorita.
O mesmo Martins sabendo na antevéspera que alguns votantes do Cubatão não vinham exercer o seu direito, lá se apresentou com o seu ajudante de campo Ignácio, e ali disseminou o terror, e ameaçou a esses pobres homens, alguns dos quais vieram votar com a oposição contra sua vontade."
Ainda na mesma edição apareceu esta outra notícia, obviamente em tom jocoso, mas que sugere com nitidez o clima reinante nas eleições:
"Somos neste momento informados que partiu ontem à tarde para a Freguesia do Ó o Sr. Dr. Pinto Júnior e que aí chegando, de combinação com o Sr. Prudêncio da Cunha Brito se puseram a induzir a quanto votante encontravam a ir para uma casinhola, onde ainda se acham como presos incomunicáveis, e alguns contra sua vontade.
Faz muito bem, ilustre Dr., desta vez é certa a entrada na chapa para a próxima deputação geral. Tais serviços não podem ser desprezados. Os Srs. Broterinho e Martim por certo não têm mais direito.
Pedimos ao governo alguma providência a respeito, pois ainda é tempo."
Pode-se argumentar que o Aurora Paulistana era jornal partidário (às voltas com a dor de cotovelo de um mau desempenho nas urnas), mas fica evidente que, em alguns casos, as eleições que espantavam a modorra das cidades e povoações podiam ser, de fato, motivo de pavor, e não o exercício legítimo de um direito.
É certo que, em alguns momentos, as autoridades intervinham, como neste caso em que o Imperador decidiu anular eleições claramente viciadas, mas há que reconhecer nisso a exceção e não a regra:
"Tendo-se conformado Sua Majestade o Imperador por Sua imediata Resolução de 27 do mês último, com o Parecer da Seção dos Negócios do Império do Conselho de Estado, exarado em Consulta de 19 do mesmo mês, sobre as irregularidades de que foram arguidas algumas das eleições a que se procedeu nas diferentes Paróquias do Município da Corte para Vereadores e Juízes de Paz no dia 7 de setembro do ano findo: Há por bem mandar declarar nulas as que foram feitas nas Paróquias de Santo Antônio dos Pobres, e de São João Batista da Lagoa pelos seguintes motivos:
Quanto à primeira das referidas Paróquias, constando das respectivas Atas, sem explicação satisfatória, que na urna foi encontrado maior número de cédulas para Vereadores do que para Juiz de Paz, e que o número das apuradas tanto para uns como para outros não coincide com os das que se declara terem sido recebidas e contadas, revela isto preterição de preceitos os mais importantes da Lei [...].
Pelo que respeita à Paróquia de São João Batista da Lagoa acha-se provado que foram introduzidas na urna cédulas em número superior ao dos Cidadãos que votaram [...]."
Ministério dos Negócios do Império em 2 de janeiro de 1857. (*)
Observe-se, no entanto, que as eleições haviam ocorrido em 7 de setembro de 1856; a anulação foi procedida somente em 2 de janeiro do ano seguinte. Portanto, a morosidade era, claramente, uma aliada poderosa da fraude. São tratados aqui incidentes ocorridos no próprio Município da Corte. Como lidar com o que podia acontecer em algum ponto extremo do País?
Pois bem, este foi um rápido, ainda que significativo olhar, sobre as falcatruas usuais nas eleições há cerca de 150 anos. Os mais jovens dentre os que leem esta postagem devem estar surpresos, diante de tanta corrupção...
Desculpem-me, meus leitores, se os decepciono, mas não creio que fique bem usar emoticons em um blog tão sério.

(*) Collecção das Decisões do Governo do Império do Brasil, tomo XX. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1857, pp. 2 e 3.


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