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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Nos terreiros das antigas fazendas de café

Terreiro de uma fazenda de café, Século XIX (¹)

Um bom terreiro, com chão firme, era essencial às antigas fazendas de café, porque era nele que os pequenos frutos vermelhos eram espalhados após a colheita. O príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Brasil em setembro de 1842, relatou, depois de visitar a fazenda Aldeia:
"Assim que o café é colhido pelos negros, as bagas são postas a secar no terreiro, um pátio diante da casa - uma espécie de eira de barro batido -; em seguida levam-nas em grandes caixas para os pilões movidos por água, e por fim para as máquinas de limpar café, por onde passam duas vezes. Só então o café está pronto para ser carregado pelas tropas e transportado." (²)
Pouco além de duas décadas mais tarde, o casal Agassiz, à frente da Expedição Thayer, também esteve no Brasil, deixando registrada esta observação sobre o uso do terreiro na fazenda Fortaleza de Santana:
"[...] os negros dividem em lotes a colheita do dia e a arrumam em pequenos montículos no terreiro. Quando o café está bem seco, e por igual, espalham-no em camadas de pouca altura sobre a extensão toda do terreiro, onde ainda recebe por algum tempo os raios do sol; os grãos são em seguida descascados com auxílio de máquinas muito simples que se usam em todas as fazendas, e a manipulação está concluída." (³) 
É importante assinalar que esses viajantes se referiam ao café cultivado e rusticamente beneficiado nas próprias fazendas, antes da grande expansão cafeeira pelo Oeste Paulista. Devido à demora na modernização das práticas agrícolas e pelas dificuldades quanto ao transporte (⁴), o café brasileiro, destinado à exportação, sofria questionamentos em relação à qualidade e encontrava, por isso, obstáculos para colocação no mercado internacional.   

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 129.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 131.
(4) Notem, leitores, a referência às tropas de muares no relato feito pelo príncipe Adalberto da Prússia.


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Atividade industrial no Brasil por volta de 1870

O panorama das atividades econômicas no Brasil era, por volta de 1870, de predomínio absoluto da agricultura. Esta, por sua vez, dividia-se em monocultura de exportação (com ênfase na produção de café), e policultura para consumo local. Grandes cafeicultores, empenhados em controlar a política econômica do Império, detinham as melhores terras e tratavam de obter todo o favorecimento para os seus interesses. Assim, a produção de alimentos para a população acabava em segundo plano, e, em consequência da falta de estradas e meios convenientes de transporte, nem sempre chegava aos consumidores. Resultado: notava-se a escassez de alimentos frescos até mesmo no Rio de Janeiro.
À vista do que foi dito, os leitores já podem imaginar as dificuldades impostas a quem se aventurava em alguma atividade industrial. Políticos insistiam na "vocação agrícola" do Brasil (¹), e essa ideia era repetida, sem muita reflexão, como se fosse verdade incontestável. Parecendo concordar, mas já discordando, o Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1871 dizia:
"Suposto essencialmente agrícola, o Brasil já começa a entrar no período industrial que por toda a parte sucede à formação dos grandes núcleos de população, de hábitos e costumes avessos aos pesados trabalhos rurais [sic]. (²)
[...]. Convém animar, por meios indiretos (³), esse pendor, preparando-se elementos para a vida industrial, não menos útil e proveitosa que a vida agrícola." (⁴)
A mesma fonte listava, em seguida, os artigos em que a produção industrial da época obtinha algum sucesso:
"A grande indústria manufatureira, limitada na atualidade à fabricação de panos grossos de algodão, tem prosperado em algumas províncias, em cujos mercados sustentam seus produtos, embora de preço mais elevado, vantajosa concorrência com os similares, importados da Europa e dos Estados Unidos.
As fábricas de tecidos estabelecidas nas províncias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Alagoas e outras ainda não fornecem quanto há mister o consumo nacional. [...].
A fabricação de cerveja, tabaco ou rapé, de chapéus, calçados e outros objetos vai também tomando incremento proporcionalmente grande [...]." (⁵)
Não deixa de ser intrigante que fosse possível aos fabricantes de algodão uma "vantajosa concorrência com os similares", admitindo que os preços praticados eram mais altos que os dos tecidos importados, e a produção, insuficiente. Mas, sendo certo que país nenhum se abastece apenas de tecidos rústicos de algodão, cerveja, tabaco, chapéus, calçados e uns poucos artigos não listados pelo Almanaque (sabão e móveis simples, por exemplo), os leitores não terão dificuldade em deduzir que, para suprimento de tudo o mais, recorria-se à importação. Então, se as exportações eram essencialmente de origem agrícola e extrativista, importando-se produtos industrializados, não será preciso algum esforço mental hercúleo para perceber o quanto a balança comercial do Império era prejudicada. Unindo-se a vários outros fatores, as questões econômicas tiveram seu papel no encaminhamento da substituição do governo monárquico pelo republicano em novembro de 1889.

(1) Há quem argumente nesse sentido até hoje. 
(2) A industrialização do Brasil ocorreu, mas por razões muito diferentes dessa. Levem em consideração, leitores, que, em 1871, o grande debate estava relacionado ao fim da escravidão, levantando a pergunta: Quem irá trabalhar na lavoura em lugar dos escravos?
(3) "Meios indiretos" - quais seriam?
(4) HARING, Carlos Guilherme. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1871/ Suplemento. Rio de Janeiro: E & H Laemmert, 1871, p. 60.
(5) Ibid.


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