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terça-feira, 16 de outubro de 2018

A Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Edifício que serviu como sede da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema
e como residência de seu diretor

Acreditem, leitores: o país que é um dos maiores produtores mundiais de minério de ferro andou às voltas, durante longo tempo, com dificuldades para estabelecer uma fabricação regular de objetos de ferro. Soa ridículo, é certo, mas essa busca pela "idade do ferro" nada tem de pré-histórica ou remotamente histórica. É coisa muito mais recente. 
As tentativas de trabalhar o ferro no interior da Capitania de São Vicente datam dos tempos coloniais, talvez do final do Século XVI. Pedro Taques de Almeida Paes Leme refere na Nobiliarchia Paulistana:
"Cecília Ribeiro foi mulher de Bernardo de Quadro, nobre sevilhano, provedor e administrador das minas de São Paulo e juiz de órfãos, proprietário, senhor do engenho de fundir ferro e aço na Serra de Biraçoyaba [sic] [...]." 
O texto de Pedro Taques é um tanto confuso, de modo que não é fácil estipular com exatidão uma data para esse engenho de fundir ferro e aço; sabe-se, porém, que desde fins do Século XVI a região do morro de Araçoiaba despertava interesse para a mineração, e Afonso Sardinha, dentre vários outros, fez por lá explorações com vistas à descoberta de ouro e outros recursos minerais. Teria sido o mesmo Sardinha o fundador da fundição de ferro, pelo que relata Pedro Taques em outra obra, a História da Capitania de São Vicente:
"Nesta serra de Biraçoiaba [sic] houve um grande engenho de fundir ferro, construído à custa do paulista Afonso Sardinha, cuja manobra teve grande calor pelos anos de 1609 [...], com o decurso dos anos se extinguiu o labor da extração do ouro e da fundição de ferro. [...]." (¹)
No entanto, no Século XVIII uma nova fundição de ferro voltou a funcionar no mesmo local, ainda de acordo com Pedro Taques:
"No presente tempo desde o ano de 1766 existe a extração do ferro na dita serra de Biraçoiaba [sic], cuja fábrica se construiu por expensas de alguns acionistas que se uniram, a quem a real grandeza conferiu a graça de fundir o ferro por tempo de dez anos livre de quintos." (²)
Já no Século XIX, estando a Corte no Brasil, o lugar viu nascer um projeto ambicioso (³), que pretendia desenvolver tecnologia para tornar o país autossuficiente na produção de artefatos de ferro: era a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (⁴). O investimento, para os padrões da época, foi considerável. Diferentes técnicas, sob a supervisão de vários especialistas, foram tentadas, sem que produzissem resultados esplêndidos, e isso por razões as mais diversas, desde incompetência pura e simples até falta de continuidade nos processos que se mostraram promissores, como os ensaiados pelo engenheiro Friedrich Ludwig Wilhelm Varnhagen. Nas décadas seguintes, a Fábrica agonizou entre frustradas tentativas de ressurreição e anos de abandono. 
Apesar disso, era comum que viajantes nacionais e estrangeiros que visitavam a Província de São Paulo tomassem tempo para ir a Ipanema. Daniel P. Kidder, missionário metodista americano, lá esteve na década de quarenta do Século XIX, ocasião em que observou:  "O estabelecimento é um próprio do governo e consiste em seis ou oito prédios onde se faz a redução e fundição de ferro. Existem ainda, uma grande casa onde reside o diretor e diversos outros prédios menores, ocupados pelos operários e suas famílias, das quais, por ocasião de nossa visita, vinte e sete eram alemãs." (⁵) Pôde ver a Fábrica em funcionamento, mas fez constar que "em relatório oficial datado de 1843, perguntava certo ministro, se depois de trinta e quatro anos de experiências, não seria melhor abandonar inteiramente o estabelecimento, pelo menos até que deixasse de constituir fonte de despesas para o erário imperial" (⁶). A questão não era descabida. 
Em 1861, quando Augusto-Emílio Zaluar esteve em Ipanema, a situação era ainda pior:
"Fomos visitar a fábrica de ferro de São João de Ipanema. Fica três léguas distante da cidade de Sorocaba, por um caminho quase todo plano e no centro de agradáveis planícies. Está toda desmontada e quase deserta.
Encontramos por toda parte, em lugar da orquestra animadora do trabalho, o silêncio sepulcral da esterilidade.
E no entanto, como tudo que ainda aí existe é grandioso e belo! Os dois fornos altos, os encanamentos de água por toda a fábrica, obra de muita dificuldade e arte, o forno de porcelana, o hospital, as senzalas, a botica, a cadeia, a excelente casa da diretoria, o depósito, servindo atualmente de escritório, e finalmente a casa das máquinas, onde fomos advertidos, de dia, que andássemos com cuidados por causa das cascavéis que se aninham entre os tijolos quebrados do assoalho, tudo está em abandono, em tristeza e solidão!" (⁷)
Posteriormente, a extensão de uma linha ferroviária deu sobrevida ao empreendimento que estertorava, e não mais que isso. Hoje, a Real Fábrica de Ferro é parte da FLONA Ipanema. A impressão de grandiosidade, descrita por Zaluar, não desapareceu. O lugar é, de fato, belíssimo, um dos mais expressivos conjuntos históricos que alguém verá no Brasil (8). A vista, dos pontos de maior altitude, é de tirar o fôlego. Podem achar pérfida a ideia, leitores, mas se a Fábrica de Ipanema tivesse prosperado e, em consequência, recebido seguidas modernizações, hoje não seria possível, a quem visita essa joia, dar um mergulho no passado.

A represa Hedberg, datada de 1811, foi a primeira a ser construída no Brasil para fins de
aproveitamento da energia hidráulica

Casa das Armas Brancas

Os altos-fornos da Fábrica de Ferro de São João de Ipanema datam do chamado Período Joanino

Interior de um dos fornos da Fábrica de Ferro de Ipanema

Construído entre 1878 e 1885, sob a supervisão do engenheiro Joaquim de Souza Mursa (daí ser chamado "alto-forno de Mursa"),. este alto-forno, por falta de um equipamento, nunca entrou em operação

Fornos de carvão construídos em 1913, em mais uma tentativa de reativar a
Fábrica de Ferro de Ipanema

(1) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. História da Capitania de São Vicente. Brasília: Senado Federal, 2004, p. 130.
(2) Ibid.
(3) A Fábrica de Ipanema não foi a única tentativa feita no Século XIX no sentido de estabelecer a produção regular de artigos de ferro no Brasil. Apenas para constar, houve outra em Minas Gerais. Seria bom que pruridos regionalistas fossem afastados do estudo deste assunto.
(4) Como quase tudo no Período Joanino, recebeu o nome de "São João" em homenagem ao príncipe regente, mais tarde rei com o nome de D. João VI. Na época, a Fábrica de Ferro pertencia aos limites de Sorocaba. Hoje pertence a Iperó - SP.
(5) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 236.
(6) Ibid., p. 238.
(7) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro / Paris: Garnier, 1862, pp. 272 e 273.
(8) Registro aqui meu agradecimento à administração e funcionários da FLONA Ipanema que me receberam com o máximo da gentileza e atenção. O zelo na conservação do lugar, a ordem e a limpeza que pude observar em tudo, dão mostras da seriedade e competência dos que lá trabalham.


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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Uma figueira com a assinatura de Dom Pedro

Velhas árvores, cuja existência supera a de algumas gerações de humanos, costumam guardar registros interessantes. Não digo isso por causa dos anéis que, não contentes em revelar a idade da árvore a que pertencem, ainda acrescentam muitas outras informações, como é o caso das condições climáticas ao longo de sua existência. É que muita gente gosta de deixar marcas em troncos de árvores - quem é que nunca viu algo assim? Basta uma faca, canivete ou outro objeto cortante, e o pobre vegetal ganha uma cicatriz que já não pode ser apagada. Imaginem, então, leitores, se o rabisco for feito por alguma celebridade. Sorte ou azar, a árvore logo fica famosa. 
Pois foi exatamente sobre uma árvore dessas que escreveu Augusto-Emílio Zaluar em suas memórias de viagem pelo Vale do Paraíba no Século XIX. Tratava-se de uma respeitável figueira, testemunha silenciosa das idas e vindas de tropeiros e suas mulas, além de muitos outros viajantes, alguns deles, anônimos, e outros, conhecidos até demais:
"Este gigante de vegetação, que nasceu de uma estaca de tropeiros, é duplamente digno de veneração. A ramagem que lhe sombreia o tronco colossal pode abrigar uma porção de cavaleiros. A base do tronco tem umas poucas de braças. É um templo de verdura levantado às portas da cidade, apontando em sua imponente majestade um fato importante nas tradições nacionais." (¹)
Zaluar parece fazer suspense... E continua:
"Vê-se aí entalhada a firma de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro I pelo seu próprio punho.
Quando o fundador do Império foi ao Ipiranga proclamar a independência do Brasil (²), passou aqui na tarde de 11 de julho de 1822 [...], e foi por essa ocasião que entalhou a sua inicial no tronco da figueira. A árvore hoje tem crescido a ponto de que as letras P. I., que então ficavam na altura do braço de um cavaleiro, agora têm a elevação de mais de três homens." (³)
Não tenho nenhuma intenção, leitores,  de desfazer a alegria das tradições locais, mas, se era nessa altura que se encontrava o rabisco supostamente entalhado por D. Pedro, será forçoso admitir que, para gravá-lo, o jovem príncipe precisaria ter escalado a árvore, como o fariam os meninos travessos.
Por quê? Ora, leitores, porque, explicando de um modo bem simples, nas árvores o crescimento acontece na ponta do caule (gema apical) ou de seus vários ramos (dependendo da espécie); tudo o mais permanece exatamente à mesma altura. Então, se D. Pedro houvesse entalhado seu nome, digamos, em um ponto do caule da figueira que estivesse a dois metros do chão, durante toda a vida da árvore a marca estaria exatamente à dita altura, jamais alcançando "a elevação de mais de três homens", como afirmou Zaluar. 
Além disso, o autor em questão, parecendo um tanto crédulo, não deve ter atentado para outro fato: em julho de 1822 D. Pedro nunca teria assinado P. I., quer o "I" significasse "primeiro", quer "imperador", porque nessa ocasião ele não era nem uma coisa e nem outra. Era, sim, príncipe regente do Brasil e herdeiro do trono português. Não era pouca coisa, mas a independência, que faria de D. Pedro o primeiro imperador do Brasil, constituía-se, na época da suposta assinatura, em um evento ainda no futuro.

(1) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, pp. 120 e 121.
(2) O episódio que se considera como proclamação da Independência ocorreu quando D. Pedro vinha de Santos para São Paulo, no final da tarde de 7 de setembro de 1822; portanto, o caminho óbvio foi outro. Zaluar talvez quisesse dizer que D. Pedro passara pela famosa árvore quando vinha do Rio de Janeiro.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio. Op. cit., p. 121.


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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Couve-flor para alimentar os porcos

Se você, leitor, fosse um proprietário rural, faria cultivar uma plantação de couves-flores com a finalidade de alimentar porcos? A ideia pode parecer estranha, mas era exatamente o que estava acontecendo em uma fazenda nas imediações de Teresópolis, quando, em 1866, por lá passaram Louis e Elizabeth Cary Agassiz, com outros membros de sua expedição científica:
"Embora seja bem pequena a distância daqui à capital [Rio de Janeiro], o transporte é tão difícil e dispendioso, que o Sr. d'Escragnolle em vez de mandar ao mercado do Rio os produtos de suas plantações, alimenta a couve-flor os porcos de sua fazenda." (¹)
Já se vê que ninguém plantava couve-flor com a intenção de prover comida para porcos, mas que isso acabava acontecendo simplesmente porque não compensava levar a produção para venda no Rio de Janeiro. As estradas eram horríveis e os gêneros agrícolas, expostos ao sol e à chuva e transportados dificultosamente nas costas de mulas, fatalmente chegariam à capital do Império em condições nada satisfatórias e a um preço proibitivo. Não valia mesmo a pena, nem para produtores e nem para consumidores.
Se a situação era essa perto da capital do Império, qual não deveria ser nas Províncias mais distantes!... Alguns anos mais tarde o Visconde de Taunay observaria, em relação aos pequenos produtores rurais de Santa Catarina:
"Causa dó e admiração ver por esses caminhos mal traçados, atirados por sobre o dorso de altaneiros morros, resvalosos e pejados de pedras, ver aqueles alemães, homens e mulheres, uns carregando aos ombros e às costas pesados fardos, outros tangendo cargueiros, a fazerem periódicas viagens para levarem aos consumidores leite, manteiga fresca, queijos, banha e hortaliça com que, às terças e sextas-feiras de cada semana, abastecem a cidade do Desterro.
Quando [...] se desperdiçam somas enormes por erros palmares de administração, não era muito buscar ajudar com pequenas quantias aquela população, que vê frustradas todas as esperanças fagueiras com que se embalava, mas que hoje resignada só pede um caminho suportável para poder dar saída aos produtos de seu constante e penoso lidar." (²)
Seria pedir demais? É de Augusto-Emílio Zaluar esta observação:
"Apenas deixamos o caminho de uma dessas fazendas, um atoleiro, uma ponte desmoronada, uma estiva rota, nos vem advertir que entramos na estrada pública, subvencionada pela nação e fiscalizada pelo governo (³) provincial!" (⁴)
A lista de consequências do caos nas (poucas) estradas existentes no Brasil do Século XIX seria grande. Menciono apenas três:
  • 1. Não era estimulante produzir, porque quem cultivava a terra queria, naturalmente, vender e ter lucro, mas, sem a possibilidade de escoar a produção para os centros urbanos, só restava mesmo dar couve-flor aos porcos;
  • 2. O abastecimento das cidades ficava prejudicado (no Rio de Janeiro, grande parte do que havia no mercado só podia chegar à cidade através do porto);
  • 3. A população urbana tinha sério prejuízo, já que, em decorrência do abastecimento deficiente (em quantidade e qualidade), os preços dos alimentos eram quase sempre elevados.
Vê-se, portanto, que a deficiência na infraestrutura viária era um dos grandes problemas do Brasil no Século XIX. 
Só do Século XIX? Os leitores sabem que não.

(1) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 447.
(2) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Paisagens Brasileiras. Brasília: Ed. Senado Federal, 2009, p. 91.
(3) Neste caso, especificamente, a referência era ao governo da Província do Rio de Janeiro, e não ao da Corte - quando escreveu, o autor estava em Barra Mansa.
(4) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, pp. 11 e 12.


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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As fazendas de café do Vale do Paraíba e os feudos medievais

Ao descrever as fazendas de café que visitou entre 1860 e 1861, Augusto-Emílio Zaluar fez uma observação muito interessante, que sugere algumas considerações:
"Os grandes proprietários de terrenos, deixando de frequentar os povoados, e reconcentrando-se em suas fazendas, que são os verdadeiros castelos feudais do nosso tempo, fazem convergir aí toda a vida, que reflui das povoações para essas moradas ostentosas onde muitas vezes o luxo e a riqueza disputam a primazia à magnificência dos palácios da capital." (¹)
Zaluar não estava propondo nenhuma interpretação político-econômica das fazendas de café do Vale do Paraíba como um tipo de feudalismo no Brasil. O feudalismo, antes de mais nada, caracterizou-se pela descentralização política, coisa que de modo algum ocorria no Brasil - a centralização era até exagerada e havia um governo constitucional em que a figura do imperador não era irrelevante. O que Augusto-Emílio Zaluar notou em suas viagens é que, em alguns aspectos, o estilo de vida nas fazendas é que recordava um pouco o feudalismo. 
Sim, leitores, pode até ser redundância, mas não custa lembrar que a vida dos fazendeiros e suas famílias era essencialmente rural, exceto por alguma rara viagem à Corte ou pelas idas à povoação mais próxima para festas religiosas importantes. As escassas visitas entre fazendeiros e suas famílias, em ocasiões especiais, davam motivo a grandes celebrações. Além disso, dentro da fazenda a autoridade era, salvo alguma exceção, concentrada na figura do fazendeiro cafeicultor, que, em muitos casos, era detentor de um título nobiliárquico do Império (era o "barão fulano", "visconde sicrano", etc.). A vida diária era pautada por um conservadorismo extremo e o próprio Zaluar notou que, em algumas fazendas, as mulheres ainda viviam reclusas e só apareciam em público cobertas por mantilhas. Observem os leitores que isso sucedia quando o Século XIX já passara da metade. 
É também verdade que muitas fazendas produziam quase tudo o que nelas se consumia, com exclusão de sal ou de algum artigo de luxo. O desenvolvimento das técnicas agrícolas não era prioridade, o que se constituiu, aliás, em um dos fatores para o declínio da agricultura cafeeira no Vale do Paraíba. 
Por outro lado, nenhum fazendeiro tinha exército próprio, não estava autorizado a cobrar pedágio e não doava terras para estabelecer uma relação de suserania e vassalagem (²). Acrescente-se ainda que a maior parte do trabalho nas fazendas do Império do Brasil, no Vale do Paraíba ou fora dede, era feito por mão de obra escrava, enquanto que no feudalismo vigorava a servidão, o que significava, na prática, que os trabalhadores, cuja condição era compulsória e hereditária, não podiam, apesar disso, ser comprados e/ou vendidos. Servos não eram mercadoria. Escravos, sim. 
Muito diferente foi a situação nascida a partir da expansão da lavoura cafeeira no Oeste Paulista: houve desenvolvimento da urbanização e dos transportes (³), fazendeiros tinham belas casas nas cidades, viajavam com certa frequência à Europa, adotavam um estilo de vida compatível com seu status social e faziam questão de que os filhos, ao menos os do sexo masculino, estudassem. 
Haveria alguma semelhança entre a lavoura cafeeira do Vale do Paraíba e a do Oeste Paulista? Sim, leitores havia: em ambos os casos a produção era voltada aos interesses do mercado externo (muito diferente, portanto, do que acontecia nos feudos medievais). A cotação internacional do café era determinante para a prosperidade ou a bancarrota dos fazendeiros. Interessava também a quem administrava a economia do País, que mantinha a tradição de dependência das exportações de um só produto. Na segunda metade do Século XIX a pauta de exportações do Brasil era bastante diversificada, mas, em termos de quantidade, o café era mais importante que todos os demais itens, daí resultando um elevado grau de dependência, cuja ruptura, vista por muitos como necessária, parecia, no entanto, quase impossível. 

(1) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 55.
(2) Mais tarde, nos primeiros tempos da República, com a suposta universalidade do voto para indivíduos do sexo masculino, muitos fazendeiros que admitiam trabalhadores livres vivendo como agregados em suas terras não hesitavam em fazê-los votar nos candidatos de sua preferência, mas seria pouco razoável comparar práticas de manipulação eleitoral com as relações de suserania e vassalagem que estabeleciam a obrigação de assistência recíproca em caso de guerra.
(3) Para as condições da época, a expansão da malha ferroviária foi notável. 


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quarta-feira, 11 de março de 2015

Casa da Câmara e Cadeia

Casa da Câmara e Cadeia em Pirenópolis - GO,
atualmente Museu do Divino
Nos tempos coloniais, sendo escassa a população e igualmente parcos os recursos, muitas povoações distinguidas com o direito a uma Casa da Câmara, na qual deliberavam os vereadores, agregavam a seu edifício uma outra função, o de Cadeia Pública. 
Explicando melhor: erguia-se um prédio em dois pisos, sendo o primeiro destinado à Cadeia Pública e o segundo, à Casa da Câmara. Esse arranjo, ainda que não fosse obrigatório, era muito comum e prevaleceu Século XIX adentro, mesmo em dias do Império. A cadeia, eventualmente, era relegada ao subsolo. Pior para os presos, claro. De qualquer modo as duas coisas costumavam andar juntas, sendo útil lembrar que Saint-Adolphe, referindo-se a Paraty, observou que era dotada de "uma casa da câmara no primeiro andar, com a cadeia por baixo." (¹)
O costume, seja por tradição ou comodismo, era difícil de desarraigar, e foi somente com o crescimento econômico de algumas áreas que despontou um certo gosto pela construção de prédios públicos mais suntuosos, que pudessem, em um instante, revelar ao observador a riqueza de um dado lugar. Ainda assim, há um relato interessante, relativo aos anos de 1860-61, de um edifício público que, não contente em ser Casa da Câmara e Cadeia, agregava a si outras funções, e isso na já próspera Província de São Paulo. Foi Augusto E. Zaluar quem contou, referindo-se a Piracicaba:
"[...] Uma mesma casa, mal construída e arruinada, em frente da Matriz, reúne a câmara municipal [...], funciona o júri, dão as devidas autoridades suas audiências, e trabalha a escola pública de primeiras letras do sexo masculino! Note-se, porém, que isto é no pavimento superior, pois o térreo se distribui em uma prisão para homens, outra para mulheres e uma espécie de saguão com tarimba para a guarda." (²)
Cabem, aqui, algumas considerações. A primeira delas, e o próprio Zaluar apontou o fato, é que o tal uso múltiplo de um prédio público era um despropósito pela insalubridade. Outra constatação óbvia é que a cadeia pública de modo algum primava pela segurança. Acrescente-se a isso que o costume de acumular funções a um só edifício público não era nenhuma raridade no Brasil da época. 
Por último, informou Augusto E. Zaluar que o maior dano recaía sobre a escola. Por quê? Ora, porque a cada vez que devia entrar em funcionamento o tribunal do júri, a escola tinha as aulas suspensas. Péssimo para o ensino, é certo, mas é provável que os pequenos estudantes não morressem de tristeza por essas férias forçadas.

(1) SAINT-ADOLPHE, J. O. R. Milliet de. Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império do Brasil vol. 2. Paris: J. P. Aillaud, 1845, p. 243.
(2) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 246.


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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uso de mantilha no Vale do Paraíba na segunda metade do Século XIX

Nos tempos coloniais era costume, em muitos lugares do Brasil, que as mulheres consideradas "honestas" apenas saíssem em público se estivessem quase completamente cobertas por mantilhas ou biocos. A tradição, provavelmente vinda de Espanha e com origem mourisca, perdurou, e, já no começo do Século XIX, Saint-Hilaire, naturalista francês, observou com horror que, em vários lugares, era ainda assim que as mulheres se apresentavam, principalmente quando iam às igrejas.
Velhos costumes têm, no entanto, dificuldade em sair de cena.
No início da década de sessenta do Século XIX o tal costume ainda tinha lugar em áreas do Vale do Paraíba, que era, na época, região econômica importante por sua produção de café. Augusto-Emílio Zaluar observou-o em Lorena e Taubaté, na Província de São Paulo.
Sobre a conduta para com as visitas, notou em Lorena que "...as senhoras raramente aparecem na sala, onde os homens somente recebem as visitas e conversam para entreter o tempo. Esses costumes ir-se-ão perdendo pouco a pouco (¹), como já vão desaparecendo as mantilhas (²), que apenas figuram hoje para ocultar as rugas de alguma matrona sexagenária, ou são usadas pela gente das classes menos abastadas." (³)
Escreveu depois sobre Taubaté:
"Em Taubaté ainda se usa muito de mantilhas, não só na classe baixa como entre algumas senhoras mais distintas.
Este gênero de trajo e o aspecto sombrio da cidade concorrem para dar à povoação um certo cunho de vetustez, que faz lembrar algumas cidades espanholas e os costumes severos dos séculos anteriores." (⁴)
No caso de Taubaté, ao contrário do que observara em Lorena, o uso de mantilha não se restringia às idosas e às mulheres de baixo estrato social.
Não é preciso dizer que mantilhas e biocos perderam sua utilidade há muito tempo. Apenas fica a questão: As razões que impunham seu uso desapareceram ou ainda passeiam por aí, sob outros disfarces?

(1) Nisso, estava certíssimo.
(2) Desapareceram, mas muito tarde.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 109.
(4) Ibid., p. 158.


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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre a comida que era servida nas hospedarias ao final da Estrada de Ferro D. Pedro II


Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II (¹)

Suponha, leitor, que estejamos no Século XIX; suponha, ainda, que tenha nos passado pela ideia percorrer a Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao fim dos (poucos) quilômetros que compõem o trajeto, estão os viajantes famintos. Eis a ocasião de um grande problema.
No Século XIX as hospedarias ou estalagens - chame como quiser - eram os locais em que se podia fazer uma refeição. Como não havia controle de preços e muito menos de qualidade, a higiene quase sempre passava longe das mesas e a conta, ao final, era absurda. Quanto à comida...
Só se achava o mais trivial, e isso com boa sorte. Há um depoimento da época, escrito por Augusto-Emílio Zaluar, que nos informa adequadamente:
"Um almoço de estalagem compõe-se ordinariamente do seguinte: arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho; e, quando o viajante se trata, acrescenta-se a esta lista uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. O jantar e a ceia são moldados pelo mesmo teor." (²)
Quem viaja atualmente pelo Brasil sabe que pode, na maioria dos aeroportos, achar refeições pelo menos razoáveis. Os preços, no entanto, não sei se por paixão pela História, têm o hábito de recordar os costumes dos Século XIX. Eis aí um tipo de "patrimônio histórico" que eu não acharia nada mau que viesse abaixo!

(1) Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II, de acordo com Sebastien Auguste Sisson. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 3.


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