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domingo, 21 de julho de 2013

O papel do cinema na formação de padrões de comportamento durante a República Velha

Bruzundanga, o país imaginário (ou nem tanto) do qual nos conta Lima Barreto, dava a seus presidentes o título de "Mandachuvas". Pois um Mandachuva era, quase sempre, um sujeito roceiro, mais preocupado com suas lavouras que integrado à cultura urbana da capital em que, como chefe de Estado e de Governo, devia viver. Assim é que um Mandachuva típico odiava deveres do ofício, tais como ir a concertos ou assistir a peças de teatro. Para ele, bom mesmo era o gramofone (que podia ouvir em casa) ou, quem sabe, ir ao cinema. Nada de peças cujo sentido não conseguia apreender: "As necessidades artísticas de sua natureza se cifram no gramofone doméstico e nos cinemas urbanos ou do arrabalde em que reside. Faz coleção dos programas destes últimos e, com eles, organiza a sua opulenta biblioteca literária." (¹)
Desnecessário é lembrar que, na crítica mordaz de Lima Barreto, retratava-se nada menos que o Brasil da República Velha. Mas seria inútil qualquer tentativa de ser convincente quanto às virtudes de uma representação teatral - ao vivo, por suposto - em oposição ao que, na época - se chamava de "cena muda". O nascente cinema caiu rapidamente no gosto da população brasileira e, com ele, vieram mudanças significativas no comportamento das pessoas.
Antes do cinema, o auge do luxo era a "última moda em Paris", que chegava ao Brasil com meses de atraso e, portanto, já não era a última de jeito nenhum. Agora, o padrão passava a ser o dos atores e atrizes dos Estados Unidos, e isso não apenas no vestuário, mas também nos penteados, nas maneiras, até nas estudadas expressões fisionômicas que o público adorava imitar. Bastava anunciar que esta ou aquela celebridade das telas usava o perfume X, o sabonete Y, o cigarro Z, este ou aquele cosmético, para que todo mundo que tivesse recursos para tanto, corresse a comprar tais coisas, na esperança de tornar-se mais parecido ou parecida com seu herói ou heroína do cinema. As atrizes apareciam de cabelos curtos? Então os cabeleireiros tinham serviço, não importando o quanto os novos cortes escandalizassem os mais conservadores. Valia a mesma regra para o vestuário ou para qualquer outra coisa que tivesse a mínima possibilidade de tornar alguém semelhante às novas estrelas cinematográficas.
Em vão a crítica censurou a mania de copiar costumes estrangeiros - de resto, isso sempre havia acontecido. Era evidente uma certa disposição para mudanças, o que acabou por refletir-se até na vida política (²). O fato é que, qual uma onda gigantesca, os novos ícones do capitalismo, propostos sutil mas persistentemente nos cinemas (ainda que não só neles), invadiram a vida de gente comum, nas ruas e nos lares, estabelecendo paradigmas substancialmente diversos dos que haviam imperado até então. Para bem e/ou para mau? Eis aí uma coisa que pode dar a você o que pensar, leitor.
Para se ter uma ideia de como as "novidades" eram percebidas nos anos vinte, sob uma perspectiva algo conservadora, veja abaixo dois cartuns de Belmonte, que apareceram na revista paulistana A Cigarra:

Cabelos e roupas curtíssimos, de evidente inspiração nos novos modelos propostos pelo cinema (³)

Cabelos curtos para elas, nem tanto para eles... (⁴)

(1) BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas.
(2) Cabe aqui uma consideração de não pouca importância. Era inevitável que a sociedade, assim predisposta a aceitar ou pelo menos a tolerar  novos padrões de comportamento se tornasse mais questionadora, mais consciente de que direitos civis não deviam ser apenas um enfeite na Constituição e acabasse rumando para novas tendências políticas, que culminaram com a supressão da hegemonia cafeeira, que já durava várias décadas, até porque a grande crise econômica que afetou o mundo no final da década de vinte deu uma contribuição relevante para isso. Não por acaso, os anos vinte foram tempos de grande agitação, com uma sequência de revoltas militares (o "Tenentismo") ou a proposição de novos parâmetros culturais (a Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo). Por outro lado, não se pode esquecer que todas as mencionadas transformações, por razões bastante evidentes, afetavam muito mais os centros urbanos, do que a população do Brasil rural, que ainda predominava.
(3) A CIGARRA, nº 209, Ano 11, 1º de junho de 1923.
(4) Ibid., nº 240, Ano 13, 1º de novembro de 1924.


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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Humor natalino nas primeiras décadas do Século XX - As preferências da juventude

Desde que o mundo é mundo os idosos acham os jovens "modernos demais" e os jovens acham os velhos "ultrapassados". Sim, leitor, há culturas em que, por tradição, os jovens reverenciam os idosos, mas isso é, em grande parte, fruto da coesão (e também da coerção) social. Prova disso é que, mesmo nas sociedades mais conservadoras, vez por outra estoura uma rebelião... Seja como for, o que se verifica com frequência é que a população de mais idade tenta preservar as antigas práticas, enquanto que os mais novos buscam, geralmente, ultrapassar antigos limites, variando apenas a velocidade com esse fenômeno ocorre, e que depende em grande parte do ritmo da mudança histórica.
Nesta postagem veremos dois cartuns que expõem, ainda que secundariamente, a visão que se tinha da juventude urbana, nos anos vinte, o que inclui expectativas quanto às figuras feminina e masculina - tudo muitíssimo diferente do que se vira em décadas anteriores. O objetivo primário era, supõe-se, provocar riso nos leitores.


Ao chegar com seus brinquedos (¹), Papai Noel é surpreendido pela menina que já não quer suas bonecas (²) - arranjou outra, mais conveniente. Contraste, leitor, as figuras masculinas dominantes e patriarcais dos dias do Império, ao garotão reduzido ao papel de "boneca". Contraste também as antigas regras de namoro e casamento, sempre conduzidos pelos pais ou, mais especificamente, pelo pai, levando em conta interesses econômicos e até políticos, com essa menina que escolhe livremente sua "boneca". Não se pode negar que as mudanças são significativas!
Mas vamos adiante. O desenho abaixo foi capa de A Cigarra, em dezembro de 1924 (³):


Expliquemos, antes de mais nada, que a expressão "almofadinha" era usada para designar o homem que se vestia com cuidado, de acordo com a última moda. O que era a última moda em 1924, depreende-se do modelo de sapato (a gíria podia ter, eventualmente, um aspecto pejorativo, indicando exagero e esbanjamento no vestir-se). Agora, observe o "presente" desejado. Cabelo muito curto, roupas justas e também curtas, joias algo extravagantes. Fico pensando em quanto isso tudo devia ser chocante para senhoras de mais idade. As meninas talvez argumentassem que essa era a moda em Paris, o que só contribuía para aumentar a confusão. Afinal, mães e avós também haviam usado a moda parisiense, principalmente sendo elas de alta posição social, e nem por isso haviam andando a constranger os circunstantes.
Não pode haver dúvidas - a Primeira Guerra Mundial varrera as velhas configurações políticas oriundas do século XIX e, no rastro, banira também velhos hábitos e costumes. De boa ou má vontade, a sociedade brasileira estava a adaptar-se às novidades. O planeta era cada vez mais um só, mas (problema de percepção, naturalmente), parecia girar de maneira muito estranha.

(1) Legenda original: "- Não, Papá Noel, este ano não preciso mais das suas bonequinhas... Arranjei agora uma boneca melhor..."
(2) A CIGARRA, 15 de dezembro de 1922.
(3) A CIGARRA, 15 de dezembro de 1924.


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