quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Dia de Finados Como Evento Social

"- Talvez fosse ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?
- Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita."
                                                                                                                                          Machado de Assis, Memorial de Aires

Anúncio na revista
A Cigarra, 24 de agosto
de 1915
Por seu caráter de celebração lutuosa (*), o Dia de Finados, 2 de novembro, deveria ser, para quem o tem em alguma conta, data de recolhimento e, em algumas tradições religiosas, tempo para preces, pelos mortos e pelos vivos. Deveria.
Acontece que, à medida que cemitérios públicos se estabeleciam, ter um túmulo bem conservado, de certa pompa, como uma espécie de monumento de família, tornou-se um fator de distinção social (veja postagem anterior). Por isso, era preciso, com a devida antecedência, prover a manutenção do jazigo e, na data apropriada, cercá-lo de flores que, acompanhadas do ostensivo comparecimento da gens ao cemitério, atestasse diante da sociedade o respeito e consideração em que se tinham os mortos, acarretando, naturalmente, uma boa reputação aos vivos... Acrescente-se ainda que os devotos que piedosamente rezavam diante dos túmulos deviam estar dignamente trajados e bem visíveis ao público, e ter-se-á algo da dimensão que uma data como Finados podia assumir, quer em centros maiores, com seus vastos cemitérios, quer em pequenas comunidades, nas quais, talvez com muito maior intensidade, os hábitos e costumes da população fossem bem vigiados, pelos informais mas não menos eficientes olhos da chamada opinião pública. Não estou dizendo que não houvesse ou que não há verdadeiro sentimento de luto e perda por parte dos que iam ou vão visitar os túmulos de seus familiares nos cemitérios - apenas aponto o fato de que essa não é e nem nunca foi a única dimensão. Lembremo-nos, por exemplo, do culto aos lares em Roma!

(*) É assim no Brasil. Há lugares nos quais o Dia dos Mortos é uma data festiva, na qual as pessoas celebram a vida, enquanto a têm.

Fotos do Dia de Finados na revista paulistana A Cigarra, edição de
9 de novembro de 1916

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