quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Animais que Aterrorizavam a Imaginação dos Colonizadores do Brasil (Parte 3): Piranhas!

"E rio abaixo, lá ia o fervedouro sanguinolento denunciando o martírio do animal, lançado, como tributo da boiada, aos cardumes vorazes das piranhas.
Os vaqueiros olhavam as águas trágicas onde os peixes borborinhavam e um tangerino moço, condoído do velho boi, suspirou:
- Coitado!"
                                                                                                                              Coelho Neto, Boi de Piranha in Vesperal


Elas nadam gentilmente quando não estão a atacar alguma presa e, para os incautos, a água dos rios e áreas alagadas em que habitam parecem "normais". No entanto, se são poucas, já representam algum perigo. Mas se forem muitas... É melhor nem pensar. São piranhas, peixes de dimensões aparentemente desprezíveis, mas os cardumes existentes em muitos cursos d'água Brasil afora impõem terror hoje, tanto quanto no passado. Muitos autores referiram-se a elas como criaturas assassinas, capazes de consumir um boi ou outro mamífero em pouquíssimo tempo, desde que reunidas em grandes cardumes. Infelizmente para os colonizadores do Brasil, cardumes eram a regra, não a exceção.
Alguns dos melhores relatos vêm, no entanto, de dias posteriores aos da colonização portuguesa. Há, por exemplo, a breve descrição do Padre Ayres de Casal (1817):
"(...) piranhas, que são curtas e largas, com dentes agudíssimos, e fatais a todo o vivente que podem alcançar." (¹)


O melhor informe que conheço, todavia, é de Hércules Florence. Transcrevo-o quase na íntegra, para que meus leitores, que porventura sejam seres urbanos e, por isso, inexperientes nessas questões silvestres, aprendam úteis lições. Diz ele, referindo-se à ocasião em que a Expedição Langsdorff percorria o Brasil Central, em área da bacia do rio Paraguai:
"Começamos a pescar piranhas, peixe abundante no Paraguai e seus tributários. Nos rios que vão ter ao Amazonas os há também, assim como nos de Minas Gerais, mas pululam nos lagos e campos inundados do Paraguai. Não têm mais de oito polegadas de comprido e seis de largo, entretanto é o mais temível de todos os peixes desses rios pela voracidade com que acomete todo e qualquer animal que caia dentro d'água. Têm dentes agudíssimos, na disposição e dimensões (...). (²)
Adverte em seguida:
Ai do imprudente que entrar nu em lugar infestado por aqueles vorazes habitantes; está perdido, sobretudo se tiver no corpo alguma ferida ou sarna. Eles se precipitarão sobre as chagas; farão verter sangue e em poucos instantes o infeliz perderá a vida." (³)
Assustador? Há mais:
"Quando a gente se banha em lugar de poucas piranhas, o perigo é diminuto, mas assim mesmo é preciso ter o cuidado de cobrir com as mãos as partes pudendas, porque por aí é que elas atacam de preferência. (...)" (⁴)
Então, deixando evidente que não estava discorrendo sobre uma fábula, Florence conta dois casos que presenciou e, sendo esse autor bastante confiável, não me parece haver razão para duvidar dele:
"Para dar ideia da multidão e voracidade desses animais, bastar-me-á contar o seguinte caso. Havendo um dos nossos camaradas caçado um macaco e querendo moqueá-lo, pôs-se a limpá-lo e em seguida o mergulhou no rio. Sacou-o porém depressa, com cinco piranhas atracadas à carne e que foram cair na proa da canoa. De cada vez que repetia a imersão, tirava d'água quatro ou cinco peixes, de modo que num instante contamos sessenta, pescados por modo que muito nos divertiu.
Jogou-se ao rio um corpo esfolado de capivara. Foi um espetáculo curioso. As piranhas, num formigar e torvelinho que faziam borbulhar e espadanar as águas, o espicaçaram, ora atirando-o para o ar, ora puxando-o para o fundo.
À medida que o sangue se espalhava, acudiam outras aos milhares, e em breve nada restou daquela presa." (⁵)


(1) AYRES DE CASAL, Manuel Corografia Brasílica, 1ª ed., vol. 2, 1817, p. 187
(2) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 86 e 87
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


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