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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Bondes de tração animal e bondes elétricos

"Vede o homem que vai na frente do bond elétrico. Tendo a seu cargo o motor, deixou de ser cocheiro, como os que regem bestas, e chamamos-lhe motorneiro em vez de motoreiro, por razão de eufonia. Há quem diga que o próprio nome de cocheiro não cabe aos outros, mas é ir longe demais, e em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada."
 Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 14 de outubro de 1894

Na década de 90 do Século XIX a capital do Brasil, o Rio de Janeiro, começou a ter seus bondes de tração animal substituídos, gradualmente, por bondes elétricos. Em 16 de outubro de 1892, Machado de Assis escrevia na Gazeta de Notícias:
"Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar."
Não tardou, porém, a que acidentes com vítimas fatais levassem a questionamentos sobre o novo sistema de transporte urbano. Muita gente o tinha como perigoso demais. Os burros eram mais lentos e, portanto, mais seguros...
Inúteis as reclamações - os bondes elétricos tiveram vida longa. O próprio Machado de Assis, em 12 de abril de 1896, na mesma Gazeta de Notícias, relataria o caso de uma companhia de bondes que se viu obrigada a indenizar o proprietário de um cavalo que, atingido por um de seus veículos, morreu:
"A Companhia Vila Isabel foi condenada a pagar ao dono de um cavalo, morto por um de seus carros, a soma de sessenta contos de réis. Não é demais, tratando-se de animal de fina raça. Conheço pessoas que não valem tanto; algumas podem dar-se de graça e não raras ainda levariam cem ou duzentos mil réis de quebra."
Deixemos de lado o viés algo pérfido do relato. Machado prossegue suas considerações:
"Nem todos os cocheiros são imprestáveis, grosseiros, desobedientes: nem todos atropelam a gente pedestre; nem todos precipitam o carro antes que uma senhora acabe de descer. Dizem até que há alguns, poucos, que quando bradam, avisando: - Olha à esquerda! olha à direita! moderam naturalmente o galope dos animais, para que os avisados tenham tempo de escapar às carroças ou andaimes que estão no caminho."
Por um bom tempo os dois sistemas, o de tração animal e o elétrico, coexistiram pelas ruas da capital do Brasil. Durante anos discutiu-se, também, quantos passageiros cada banco de um bonde poderia levar. As autoridades determinavam um número, as empresas de bondes teimavam em outro. Annibal Amorim, militar brasileiro que esteve em Montevideo em 1911, observou com desgosto o quanto o sistema de bondes usado no Uruguai era superior ao empregado no Rio de Janeiro:
"Esses veículos são confortáveis e elegantes.
Os nossos correriam envergonhados, se os vissem.
Entra-se neles pela face posterior. As laterais são envidraçadas, abrigando, assim, os passageiros da chuva ou da poeira. Bancos estofados para duas pessoas, e um longo corredor onde transitam o condutor e o fiscal, que, de instante a instante, vem marcar el boleto. Ordem, asseio, rapidez e comodidade. São todos providos de limpa-trilhos.
Os do Rio são incômodos e antiestéticos, com bancos para quatro e cinco pessoas, que se atropelam, que se pisam e que se empurram, abrutalhadamente. Em todo o caso, já é um progresso, em vista dos bondes de tração animal, que, há pouco mais de dois anos, serviam esta grande cidade de província, que é o Rio de Janeiro. Não se vê em Montevideo o que se vê nos bondes da linha de Botafogo: motorneiros à paisana, com chapéu mole à cabeça, uma verdadeira indecência. Nada custara à companhia distribuir bonés aos seus motorneiros, sob desconto." (¹)
As coisas, no entanto, podiam ser ainda piores. É o mesmo Annibal Amorim quem conta, a propósito dos bondes que viu no Recife:
"Uma nota, muito curiosa, acerca dos bondes da Mauriceia: São puxados a burros, e iluminados a luz elétrica! Não rias, leitor amigo, que é a pura verdade. Os estudantes dão-lhes, com muito espírito, o nome de eletroburros. É bem achado." (²)
Vejam os senhores leitores que, em se tratando de transporte coletivo no Brasil, as mudanças têm ocorrido no sentido da substituição, apenas, de um sistema por outro. Saem os demasiado obsoletos, entram outros em seu lugar e, como regra, com muito atraso e insuficientes face à demanda. Ou seja, mesmo havendo mudança nos meios de transporte, os problemas são quase sempre os mesmos. Quantitativa e qualitativamente.

Bonde puxado por burros em Belém do Pará (³)

(1) AMORIM, Annibal. Viagens Pelo Brasil. 
Rio de Janeiro / Paris: Garnier, s.d., p. 316.
(2) Ibid., p. 76.
(3) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 18. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ônibus puxados por burros

Carruagens, seges, coches e outros veículos de tração animal podiam transportar poucas pessoas. Cidades grandes precisavam, mesmo no Século XIX, de algum tipo de transporte coletivo. O Rio de Janeiro, por exemplo, capital do Império do Brasil, teve um sistema de ônibus puxados por burros.
Como era isso?
Temos um bom relato, deixado pelo pastor e missionário metodista Daniel P. Kidder, americano que residiu em território brasileiro entre 1837 e 1840. Seu testemunho chega a ser surpreendente e, como se verá, apresenta algum contraste com a realidade do transporte coletivo urbano no Brasil de hoje:
"Mais ou menos por essa época uma companhia de ônibus iniciou o serviço de transporte coletivo por meio de carros, entre a Praça da Constituição - ponto central da cidade - e os bairros das Laranjeiras e Botafogo, de um lado, e, de outro, São Cristóvão e o Engenho Velho. Nenhum outro serviço semelhante havia sido até então inaugurado em qualquer outra cidade do país. Os belos carros construídos especialmente para esse fim eram tirados por quatro mulas e apresentavam aspecto quase tão interessante como os que correm pela Broadway." (¹)
Depois de assinalar que um ponto desfavorável é que o número de veículos era pequeno para a quantidade de passageiros em potencial (que novidade!), Kidder afirma que a população tinha, dentro dos ônibus, uma conduta excelente:
"As pessoas habituadas ao ar indiferente dos passageiros de semelhantes carruagens, em Nova Iorque, surpreender-se-iam ao ver a amabilidade e a polidez com que, no Rio, se tratavam nos ônibus pessoas inteiramente estranhas." (²)
Estão surpresos, senhores leitores?!!!
Vindo dos Estados Unidos onde, naqueles dias, também havia trabalho escravo, Daniel Kidder ainda afirmaria:
"Outra coisa surpreendente é que a ninguém se nega ingresso por causa da cor." (³)
Cabe aqui uma explicação. Nenhum negro livre era impedido de usar os ônibus, mas escravos não podiam fazê-lo, havendo apenas exceção para amas que acompanhavam as respectivas senhoras. Não era a cor da pele, portanto, o fator de discriminação, e sim a condição social.

(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. 
Brasília: Senado Federal, 2001, p. 142.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


Veja também:

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Coches, tílburis, carruagens

Transporte urbano com tração animal


Câmara dos Senadores, tendo, nas imediações, veículos de tração animal (¹)

O Paço Imperial, construído no Rio de Janeiro no Século XVIII, para servir,  inicialmente, como residência do Governador (vice-rei), era dotado de duas cocheiras, segundo descrição de Joaquim Manuel de Macedo:
"A face do norte apresentava [...] um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril." (²)
Não se espantem os leitores: cocheiras eram absolutamente necessárias. Animais que serviam ao transporte de humanos e de carga precisavam de moradia.
Muita gente andava a cavalo; em áreas urbanas, porém, a maioria das pessoas preferia os "carros", que podiam ser coches, seges, troles, tílburis, e assim por diante.
Como a maioria de nós, gente do século XXI, não tem a menor intimidade com o uso desses veículos, vai aqui um pequeno dicionário para alguns deles, sem nenhuma pretensão a rigor técnico, apenas para dar uma ideia:

Sege - tinha só um par de rodas e um assento. Cortinas ocultavam o(s) passageiro(s).
Coche - semelhante à sege, mas geralmente com quatro rodas.
Carruagem - Montada sobre molas, para reduzir o impacto ao passar por buracos e outras irregularidades do terreno (não pouco frequentes).
Carroça - com duas ou quatro rodas, servia para o transporte de carga. Era puxada por cavalos, burros ou mulas.
Trole - era uma carruagem bem simples, que se usava para o transporte de passageiros, principalmente no interior do Brasil.
Tílburi - Tinha um só par de rodas, com um único animal de tração.

Um fiacre, desenho de Thomas Ender (³)

A literatura brasileira do Século XIX contém numerosas referências a meios de transporte com tração animal, mesmo porque eles eram parte da vida quotidiana de quase todo mundo. Em Dom Casmurro, por exemplo, a personagem que dá título à obra relata o apreço que tinha, na infância, por passear na sege de propriedade do pai. Bentinho contará por si mesmo:
"Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um óculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.
- Senta, Bentinho!
- Deixa espiar, mamãe!
E em pé, quando era mais pequeno, metia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a rédea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incômodo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava e eu também."
É bom lembrar que a maioria das pessoas, nas cidades, fazia uso de "carros de aluguel", num sistema semelhante aos modernos táxis, mas havia quem tivesse seu próprio meio de transporte. A propósito, quem tinha, por exemplo, um coche particular, devia ter, também, um escravo ou empregado para a função de cocheiro ou condutor. Nos carros de aluguel o cocheiro era, em geral, assalariado para a função. É também de Machado de Assis esse trechinho de Quincas Borba que nos permite entrever o fato de que cocheiros podiam, afinal, ser pessoas que apreciavam informações em primeira mão, o que obrigava casais apaixonados à guarda de um comportamento, digamos, discreto:
"Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que há de haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente falava à vontade, e iria ao fim da Terra."

Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender (⁴)

(1) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental. Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 36.
(3) Fiacre, desenho de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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