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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cuidado ao atravessar a rua!

"Qual é a semana [...] em que não morre alguém debaixo de um bond elétrico? E bond elétrico é revolução?"
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 28 de abril de 1892

Correio e rua Primeiro de Março, Rio de Janeiro, c. 1889 (¹)

Menino, olha o carro! Cuidado ao atravessar a rua...
Outro dia ouvi uma menininha cantando:
"Quando saio a passear,
Um cuidado devo ter:
Ao atravessar a rua
O sinal obedecer!"

É bom que se tenha cuidado, mesmo, nessas ruas brasileiras de trânsito caótico. Mas cuidado também era necessário quando o trânsito, apesar de intenso, não fluía à mesma velocidade.
Em um livrinho destinado à prática escolar da leitura, publicado em 1875, cuja autora era a professora Guilhermina de Azambuja Neves, podia-se ler:
"Nos lugares onde transitam muitos carros ou nas encruzilhadas onde há trilhos de ferro não atravesses de uma calçada para outra sem te certificares primeiro de que não vem algum veículo que te possa pisar." (²)
Nesse tempo, "carros" e "veículos" urbanos, no Brasil, só os de tração animal.
Não tenho dúvidas de que a percepção da velocidade depende do tempo em que se vive. Gente que viajou nas primeiras locomotivas a vapor, capazes de desenvolver apenas uns poucos quilômetros a cada hora, tinha sensação de vertigem devido à velocidade. O mesmo acontece em relação aos acidentes de trânsito - eram numerosos e trágicos no passado, quando carroças, carruagens, seges e coches, todos com tração animal, infestavam as ruas, como o são atualmente, com automóveis que se deslocam por ruas e avenidas, quando em boa ordem, a 60 ou 80 quilômetros por hora. Se o assunto é tragédia, vale recordar que o cientista francês Pierre Curie, que morreu em 19 de abril de 1906, foi, em um dia de tempo chuvoso, atropelado por uma carruagem. Sem mais rodeios, teve a cabeça triturada. Sim, acidentes com carruagens e seus cavalos podiam ser tão fatais quanto um atropelamento por automóvel ou trem.
Quando os primeiros bondes elétricos foram introduzidos no Rio de Janeiro (na época, capital do Brasil), não foram poucos os acidentes, vários deles com óbitos. Machado de Assis, que era, então, colunista do jornal Gazeta de Notícias, comentou alguns desses casos, dentre os quais vão aqui alguns, para que os leitores percebam que os acidentes com bondes elétricos eram creditados à velocidade que desenvolviam, quando comparados aos velhos bondes puxados por burros. 
Em 14 de outubro de 1892 Machado escreveu:
"Custa muito passar adiante, sem dizer alguma coisa das últimas interrupções elétricas; mas se eu não falei da morte do mocinho grego, vendedor de balas, que o bond elétrico mandou para o outro mundo, há duas semanas, não é justo que fale dos terríveis sustos de quinta-feira passada. O pobre moço grego se tivesse nascido antigamente, e entrasse nos jogos olímpicos, escapava ao desastre do largo do Machado. Dado que fosse um dia destruído pelos cavalos, como o jovem Hipólito, teria cantores célebres, em vez de expirar obscuramente no hospital, tão obscuramente que eu próprio, que lhe decorara o nome, já o esqueci."
Diria também, em 23 de outubro do mesmo ano:
"Se os dois anciãos que o bond elétrico atirou para a eternidade esta semana houvessem já feito por si mesmos o que lhes fez o bond, não teriam entestado com o progresso que os eliminou."
Sarcástico, não? Os "desastres", como se usava dizer, nem sempre eram fatais, mas podiam resultar em lesões graves, como se vê neste outro trecho, datado de 13 de novembro de 1892:
"Moderno e antigo a um tempo é o novo desastre produzido pelo bond elétrico, não por ser elétrico, mas por ser bond.
Parece que contundiu, esmagou, fez não sei que lesão a um homem. O cocheiro evadiu-se."
Aparece aí, no final desta última citação, um fato que, mutatis mutandis, não deixa, às vezes, de ocorrer até hoje, quando acontece algum acidente de trânsito. 
À vista de tudo isso, só resta lembrar o conselho da Professora Guilhermina de Azambuja Neves: "...não atravesses de uma calçada para outra sem te certificares primeiro de que não vem algum veículo que te possa pisar." Ou, mais simplesmente: - cuidado ao atravessar a rua, menino!...

(1) ______________ Album de Vues du Brésil. Paris: A. Lahure, 1889. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) NEVES, Guilhermina de Azambuja. Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade 2ª ed. Rio de Janeiro: 1875, pp. 115 e 116. O exemplar consultado pertence à BNDigital.


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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Bondes de tração animal e bondes elétricos

"Vede o homem que vai na frente do bond elétrico. Tendo a seu cargo o motor, deixou de ser cocheiro, como os que regem bestas, e chamamos-lhe motorneiro em vez de motoreiro, por razão de eufonia. Há quem diga que o próprio nome de cocheiro não cabe aos outros, mas é ir longe demais, e em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada."
 Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 14 de outubro de 1894

Na década de 90 do Século XIX a capital do Brasil, o Rio de Janeiro, começou a ter seus bondes de tração animal substituídos, gradualmente, por bondes elétricos. Em 16 de outubro de 1892, Machado de Assis escrevia na Gazeta de Notícias:
"Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. Daí o meu silêncio da outra semana. Anteontem, porém, indo pela Praia da Lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. Era o primeiro que estes meus olhos viam andar."
Não tardou, porém, a que acidentes com vítimas fatais levassem a questionamentos sobre o novo sistema de transporte urbano. Muita gente o tinha como perigoso demais. Os burros eram mais lentos e, portanto, mais seguros...
Inúteis as reclamações - os bondes elétricos tiveram vida longa. O próprio Machado de Assis, em 12 de abril de 1896, na mesma Gazeta de Notícias, relataria o caso de uma companhia de bondes que se viu obrigada a indenizar o proprietário de um cavalo que, atingido por um de seus veículos, morreu:
"A Companhia Vila Isabel foi condenada a pagar ao dono de um cavalo, morto por um de seus carros, a soma de sessenta contos de réis. Não é demais, tratando-se de animal de fina raça. Conheço pessoas que não valem tanto; algumas podem dar-se de graça e não raras ainda levariam cem ou duzentos mil réis de quebra."
Deixemos de lado o viés algo pérfido do relato. Machado prossegue suas considerações:
"Nem todos os cocheiros são imprestáveis, grosseiros, desobedientes: nem todos atropelam a gente pedestre; nem todos precipitam o carro antes que uma senhora acabe de descer. Dizem até que há alguns, poucos, que quando bradam, avisando: - Olha à esquerda! olha à direita! moderam naturalmente o galope dos animais, para que os avisados tenham tempo de escapar às carroças ou andaimes que estão no caminho."
Por um bom tempo os dois sistemas, o de tração animal e o elétrico, coexistiram pelas ruas da capital do Brasil. Durante anos discutiu-se, também, quantos passageiros cada banco de um bonde poderia levar. As autoridades determinavam um número, as empresas de bondes teimavam em outro. Annibal Amorim, militar brasileiro que esteve em Montevideo em 1911, observou com desgosto o quanto o sistema de bondes usado no Uruguai era superior ao empregado no Rio de Janeiro:
"Esses veículos são confortáveis e elegantes.
Os nossos correriam envergonhados, se os vissem.
Entra-se neles pela face posterior. As laterais são envidraçadas, abrigando, assim, os passageiros da chuva ou da poeira. Bancos estofados para duas pessoas, e um longo corredor onde transitam o condutor e o fiscal, que, de instante a instante, vem marcar el boleto. Ordem, asseio, rapidez e comodidade. São todos providos de limpa-trilhos.
Os do Rio são incômodos e antiestéticos, com bancos para quatro e cinco pessoas, que se atropelam, que se pisam e que se empurram, abrutalhadamente. Em todo o caso, já é um progresso, em vista dos bondes de tração animal, que, há pouco mais de dois anos, serviam esta grande cidade de província, que é o Rio de Janeiro. Não se vê em Montevideo o que se vê nos bondes da linha de Botafogo: motorneiros à paisana, com chapéu mole à cabeça, uma verdadeira indecência. Nada custara à companhia distribuir bonés aos seus motorneiros, sob desconto." (¹)
As coisas, no entanto, podiam ser ainda piores. É o mesmo Annibal Amorim quem conta, a propósito dos bondes que viu no Recife:
"Uma nota, muito curiosa, acerca dos bondes da Mauriceia: São puxados a burros, e iluminados a luz elétrica! Não rias, leitor amigo, que é a pura verdade. Os estudantes dão-lhes, com muito espírito, o nome de eletroburros. É bem achado." (²)
Vejam os senhores leitores que, em se tratando de transporte coletivo no Brasil, as mudanças têm ocorrido no sentido da substituição, apenas, de um sistema por outro. Saem os demasiado obsoletos, entram outros em seu lugar e, como regra, com muito atraso e insuficientes face à demanda. Ou seja, mesmo havendo mudança nos meios de transporte, os problemas são quase sempre os mesmos. Quantitativa e qualitativamente.

Bonde puxado por burros em Belém do Pará (³)

(1) AMORIM, Annibal. Viagens Pelo Brasil. 
Rio de Janeiro / Paris: Garnier, s.d., p. 316.
(2) Ibid., p. 76.
(3) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 18. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A iluminação pública e residencial quando não havia rede elétrica

"O largo apresentava novo aspecto; as tochas acessas em volta e as luminárias suspensas nas janelas das casas, derramavam sobre as alcatifas cobertas de lantejoulas a claridade das luzes, menos brilhante que a do sol, porém mais suave e fascinante."
                                                                                                   José de Alencar, As Minas de Prata

Candeia usada no Século XIX (³)
Se fôssemos capazes de voltar no tempo, talvez uns duzentos anos, veríamos logo ao anoitecer que tudo ficava realmente escuro. Excetuando-se as pequenas lanternas de mão costumeiramente carregadas quando, corajosamente, alguém andava pelas ruas à noite, poder-se-iam ver poucas luzes, bruxuleando através de frestas de janelas ou gelosias - eram velas em castiçais, pequenas candeias sobre os móveis das casas ou presas às paredes, quem sabe alguma lamparina. Defronte às residências, apenas tochas, colocadas quase sempre somente em dias festivos. O combustível para isso era, naturalmente, economizado, fosse o precioso azeite, quase nunca usado no Brasil (era caro, vinha do Reino), ou o mais comum, óleo de baleia (sim, senhores leitores, era muito usado, e não só no Brasil, o que fez da pesca de baleias, durante muito tempo, um negócio importante no litoral brasileiro, a ponto de ser alvo de monopólio e, segundo Varnhagen, de quase se extinguirem dessas paragens os pobres cetáceos).

Anúncio de lamparina a querosene, publicado em 1905 (⁴)

Anúncio datado de 1915, no qual são oferecidos
vários produtos e instalação
de luz elétrica (⁵)
No Brasil do século XIX algumas cidades receberam a dádiva de uma iluminação pública a gás (¹), que, nas primeiras décadas do século XX, seria gradual e generalizadamente substituída, como todo mundo sabe, por redes elétricas. Fato menos conhecido, no entanto, é o de que as companhias de iluminação a gás forneciam, além da iluminação de rua, também iluminação residencial que, como se pode facilmente imaginar, não era coisa para todos. Dados referentes a 1887 dão conta de que havia, naquele ano, mais de 1300 combustores a gás instalados na cidade de São Paulo para iluminação pública, sendo 1430 as residências servidas por iluminação também a gás. (²)
A introdução das redes de energia elétrica, feita paulatinamente, significou, durante certo tempo, uma convivência entre o gás e a eletricidade como modelos de iluminação, tanto pública quanto residencial, até que um viesse a destronar completamente o outro.

Anúncio de bondes elétricos sem trilhos (⁶)

(1) São Paulo, por exemplo, teve a iluminação pública a gás inaugurada em 1872.
(2) Veja, sobre isso: TAUNAY, Affonso de E. História da Cidade de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 345.
(3) Pertence ao acervo do Museu da Energia de Itu, SP.
(4) ECHO PHONOGRAPHICO, nº 35, janeiro de 1905.
(5) A CIGARRA, 30 de dezembro de 1915.
(6) A CIGARRA, 6 de março de 1914.


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