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quinta-feira, 18 de maio de 2023

Indígenas não deviam trazer arcos quando vinham a São Paulo

Setenta anos se haviam passado desde a fundação, por missionários jesuítas, do pequenino Colégio de São Paulo. A vila de mesmo orago crescera nas imediações, e já era famosa pelas marmeladas, pelas plantações de trigo, pela criação de porcos e pela escravização de indígenas, capturados, sertão adentro, por levas de paulistas que faziam o "descimento do gentio", fosse para trabalho compulsório em suas próprias fazendas, fosse para venda em outras localidades. Para disfarçar o que, de fato, era escravidão, falava-se em "índios administrados", e "serviço dos forros", que, aliás, quase sempre só eram forros no nome. 
Uma ata da Câmara de São Paulo, datada de 27 de janeiro de 1624, mostra, contudo, que os colonizadores nem sempre estavam tão seguros com a presença dos cativos. Dizia ela:
"Aos vinte e sete dias do mês de janeiro do ano presente de mil e seiscentos e vinte e quatro [...] nesta vila de São Paulo [...] se juntaram em câmara os oficiais dela [...] e sendo juntos em câmara puseram em prática as coisas do bem comum da terra e requereu o procurador aos [...] oficiais da câmara [...] que os negros dos brancos e das aldeias não tragam arcos, pelo muito dano que fazem matando as criações dos moradores [...]." (¹)
Os "negros" a que o procurador se referiu eram ditos "dos brancos e das aldeias", subentendendo-se, portanto, a escravização. A menção às aldeias, provavelmente, era relativa àquelas em que indígenas viviam sob a tutela dos jesuítas ou sob as ordens de um oficial conhecido como "capitão dos índios". Mas "negros"? Seriam escravizados de origem africana?
Não, na época quase sempre o termo "negro" era aplicado a quem fosse escravizado, independentemente de sua origem étnica, e isto fica claro quando, na mesma ata, se vê, sob o registro do escrivão, o que é que decidiram os senhores camaristas de São Paulo: "[...] mandaram [...] que nenhum negro do gentio da terra não entrasse nesta vila com arco, para evitar o dito dano [...]." (²) 
Ora, sabe-se que os arcos eram armas que indígenas manejavam com notável habilidade, e talvez galinhas, porcos, cães e vacas fossem alvos fáceis, uma verdadeira tentação para exercício de pontaria. Contudo é lícito conjecturar que a razão para o interdito fosse outra: os colonizadores eram, ainda, pouco numerosos; muitos eram os indígenas, escravizados ou livres. Reunidos dentro da vila e munidos de arcos e de boa quantidade de flechas, poderiam causar muito dano, não só "matando as criações", como dizia a ata, mas contra os próprios moradores. Indígenas, armados e numerosos, seriam, pois, motivo de preocupação, ainda que, nesse tempo, muitos dos colonizadores já se houvessem aparentado com eles

(1) O trecho da ata aqui citado foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão, para não fatigar o cérebro e a paciência dos leitores deste blog.
(2) Ibid.


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terça-feira, 27 de abril de 2021

Tacapes

Indígenas indo à guerra, de acordo com Debret;
o primeiro leva um tacape na mão direita (¹)

"Poti deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ele o cocar e a araçoia, ornatos dos chefes ilustres."
José de Alencar, Iracema

Tacapes, também chamados bordunas, eram armas indígenas muito versáteis, usadas na guerra  e na caça. Bem manejado, o tacape poderia abater, de um só golpe, um inimigo, quer em campo de batalha, quer nas execuções rituais, que muitas vezes precediam a antropofagia. Neste último caso, dava-se ao prisioneiro o direito de uma defesa simulada, ainda que totalmente inofensiva. Podia manejar, quanto quisesse, a arma oferecida, mas seria invariavelmente abatido, com um golpe que lhe esfacelaria o crânio, pelo valente que, a partir de então, poderia contá-lo entre os heróis que vencera. 
Em Guarani, há uma bela passagem em que José de Alencar retrata essa situação, ainda que - romance é romance - dessa vez o prisioneiro tenha saído astutamente vencedor, e escapado:
"Com efeito esse oferecimento que os selvagens faziam ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, imóvel pela tensão da corda, o mais que podia fazer o seu braço era vibrar o tacape no ar, sem poder tocar os seus inimigos.
[...]
O velho Aimoré vacilou; seu braço que vibrava o tacape com uma força hercúlea, caiu inerte; o corpo abateu-se como o ipê da floresta cortado pelo raio."
Querem saber, leitores, em que deu a situação? Leiam a obra toda de Alencar.

Tacapes ou bordunas (²)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Os tacapes vistos nesta foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

terça-feira, 28 de julho de 2020

Procedimento indígena para dar força às flechas

"Às costas cada qual suspende a aljava
Pejada de farpadas leves flechas,
E o arco sobraçando, a maça empunha."

Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios

Indígenas portando armas (²)
Indígenas faziam amplo uso de flechas, tanto para a caça, com a finalidade de obter alimento, como em guerra contra grupos inimigos. Prepará-las cuidadosamente era, portanto, conhecimento essencial à sobrevivência na floresta. De acordo com Francisco Bernardino de Sousa, que escreveu no Século XIX sobre aspectos interessantes da região amazônica, as flechas indígenas poderiam ser classificadas em três grupos:
"Há três espécies de flechas usadas na guerra, diz o sr. Gonçalves Dias, uagike comm, a arpoada, uagike méran, e a outra para caça dos animais menores, uagike bacamnumok." (¹)
Passa, em seguida, a descrever os três tipos:
"A primeira tem a ponta alongada ou elíptica, feita de taquara; tostam-na para ficar mais dura, e raspam-na e aparam para que fique cortante como faca, e a ponta fina como agulha. O animal, ferido dela, sangra muito, porque um dos lados é côncavo. A ponta da flecha arpoada, que tem polegada ou polegada e meia de comprimento, é feita de pau-d'arco ou de airi (³). É fina e muito aguda. Tem oito ou dez arpéus, e se emprega na caça de animais grandes e pequenos e também na guerra: A sua ferida é perigosa por ser de difícil extração. As flechas da terceira espécie são obtusas e matam por contusão: tomam para isso uma vara que tenha três ou mais nós, formando como um botão, de que fazem a extremidade da flecha." (⁴)
Havia, finalmente, um detalhe na técnica, que podia tornar mais fortes as flechas do primeiro tipo:
"Para dar mais força às primeiras, untam-nas com cera, passam-nas ao fogo para que penetre melhor e assim fazem também com os arcos." (⁵)
Estes eram saberes da floresta, acumulados ao longo de gerações e transmitidos sempre oralmente, no contexto de culturas ágrafas, mas nem por isso menos ricas. 

(1) SOUSA, Francisco Bernardino de. Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas. Belém do Pará: Typ. do Futuro, 1873, p. 271.
(2) STADEN, Hans. Wahrhaftige Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschenfresser Leuthen. Marburg: 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Variedade de palmeira.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Op. cit., pp. 271 e 272.
(5) Ibid., p. 272.


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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Como eram os arcos usados por meninos guaranis

A educação ministrada às crianças indígenas era essencialmente prática, conforme observaram aqueles que tiveram oportunidade de conviver com ameríndios nos primeiros tempos da colonização. Assim, desde cedo os pequenos eram estimulados a adquirir os saberes que garantiam a subsistência de sua comunidade e, nesse cenário, a imitação do que faziam homens e mulheres adultos era importante. Visto que a divisão sexual do trabalho era a regra, às meninas ensinava-se o preparo de alimentos, confecção de redes, cestaria, arte cerâmica e, se o grupo desenvolvia alguma atividade agrícola, deviam aprender também o cultivo de vegetais, já que eram geralmente as mulheres que faziam a maior parte desse trabalho. Aos meninos, por sua vez, estimulavam-se as virtudes guerreiras, incluindo a fabricação de armas e canoas, essenciais, essas últimas, para um deslocamento veloz em caso de guerra. Portanto, todo menino indígena deveria, tão logo tivesse idade para isso, aprender a empunhar um arco com destreza.
Entre os guaranis do Paraguai (que Félix de Azara pôde observar quando exercia o cargo de comandante da Comissão de Limites Espanhola entre 1789 e 1801), meninos que não tinham idade suficiente para a aprendizagem do uso de flechas exercitavam-se com um arco pequeno, dotado de uma rede, tendo bolas de argila endurecidas como projéteis, e isso para lástima entre os pássaros, conforme se lê em Viajes por la América del Sur:
"Os meninos, que se divertem com a caça de pássaros e pequenos animais, empregam outra espécie de arco (¹), mais fraco, de madeira mais flexível e elástica, mais fino e com cerca de três pés de comprimento. Eles ajustam as cordas, que se mantêm separadas paralelamente a menos de uma polegada de distância por meio de pequenas forquilhas de pau, através das quais passam as cordas. Pela metade de ditas cordas formam uma rede com fios, que serve para que se coloquem bolas de argila cozidas no fogo, do tamanho de uma noz, que fazem para essa finalidade." (²)
Não se pode negar o quanto o procedimento era engenhoso. Sigamos com a descrição de Azara, agora explicando como eram usadas as bolas de argila:
"Eles levam consigo uma bolsa cheia de ditas bolas; quando querem atirar, tomam quatro ou cinco com a mão esquerda, tendo o arco na mão direita, põem as bolas, umas depois das outras, na rede, e, em seguida, arqueando quanto podem, disparam juntos todas as bolas contra os pássaros que voam à distância de quarenta passos, e matam muitos (³), mas não fazem uso deste arco para atirar flechas nem para combater, ainda que uma de ditas bolas possa quebrar uma perna a 30 passos. [...]" (⁴)
Sem nenhuma cerimônia, Azara ainda ousou acrescentar esta observação horripilante: "Se os meninos da Europa aprendessem este exercício, não haveria tantos pardais." (⁵)

(1) Azara compara o arco usado pelos meninos àquele empregado por adultos.
(2) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Quem esperaria outra coisa?
(4) AZARA, Félix de. Op. cit. pp. 195 e 196.
(5) Ibid., p. 196.


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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Como guaranis usavam o arco para lançar flechas

Félix de Azara, que liderou a Comissão de Limites Espanhola no Paraguai entre 1789 e 1801, teve oportunidade de observar o modo como os guaranis disparavam flechas. Ao informar que o arco por eles empregado tinha uso duplo, descreveu-o como "um bastão resistente, pouco flexível, liso, grosso no centro como uma mão fechada, mas diminuindo gradualmente em direção às extremidades, que são muito pontiagudas, de modo que podem servir de lança" (¹). Para encaixe das flechas que se pretendia lançar, cada arco era, por suposto, dotado de uma corda.
Europeus que estiveram no Continente Americano nos primeiros tempos da colonização notaram que indígenas se revelavam, como regra geral, extremamente habilidosos quando atiravam flechas. Essa capacidade não vinha do acaso: treinavam desde a infância, daí resultando, também, a força extraordinária que demonstravam para vergar um arco. Contudo, os guaranis tinham, de acordo com Azara, uma técnica específica, diferente da utilizada por vários outros povos indígenas: "Para atirar [...] encaixam um pouco na terra uma das extremidades do arco e, apoiando-o com o pé, dobram-no tanto quanto possível, e é sabido como estes selvagens [sic] sabem apontar e atirar." (²)
Embora a capacidade de lançar flechas com precisão fosse muito útil em caso de guerra, atirar bem era fator de sobrevivência, porquanto muitos ameríndios - não apenas os guaranis - faziam uso de arcos e flechas para a caça. Alguns povos usavam essas armas também para a pesca. Um bom arqueiro podia, assim, prover alimento para si mesmo e para seu grupo. Era daí que lhes vinha parte do sustento quotidiano.

(1) AZARA, Félix de Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
(2) Ibid.  Os trechos citados de Viajes por la América del Sur, de Félix de Azara, foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Método usado por missionários jesuítas para acabar com uma guerra entre indígenas

Sabe aquela história de que "quando um não quer, dois não brigam"? Bem, nem sempre é verdade, mas os jesuítas que tentavam catequizar indígenas que viviam no interior da América do Sul descobriram que, não sendo possível impedir completamente que as guerras entre tribos rivais acontecessem, havia pelo menos um modo de evitar que os combates durassem muito tempo. Como?
A coisa era até simples. Os dois grupos de combatentes começavam a luta atirando flechas contra o lado oposto. Como muitas delas não atingiam ninguém, a prática corrente era recolher as flechas, que eram mandadas de volta. Desse modo, o confronto podia ir longe e, não raramente, tinha resultados devastadores.
Observando a dinâmica desse tipo de guerra, os missionários tiveram a ideia de recolher as flechas que vinham dos "inimigos", sem, contudo, mandá-las de volta. Esgotadas as flechas, só havia uma coisa a fazer: cair fora, até porque, agora, todas as flechas disponíveis estavam do outro lado, nas mãos dos padres. 
Esse procedimento era particularmente útil quando jesuítas percebiam que um grupo que catequizavam estava em vias de ser atacado justamente por ter recebido os missionários. Ao que parece, o expediente dava bom resultado apenas quando o combate era travado em pé de igualdade, ou seja, entre dois grupos de indígenas usando somente armas tradicionais, sem acesso a armas de fogo, trazidas por europeus.
Até aqui, leitores, vimos como é que o plano funcionava, teoricamente. Passaremos a tratar, agora, de uma situação real em que foi aplicado, desta vez em um confronto entre indígenas e espanhóis.
Aconteceu em terras do Paraguai, no Século XVII, quando o padre Antonio Ruiz de Montoya e outro missionário acompanhavam um grupo de espanhóis para a guerra contra indígenas que haviam rejeitado a catequese (!!!). Sendo muito numerosos, os indígenas levavam a melhor, enquanto espanhóis, religiosos e índios catequizados tentavam a defesa no interior de uma frágil paliçada. Foi nessa situação periclitante que Montoya sugeriu a aplicação do expediente de reter as flechas. Os espanhóis, porém, não concordaram com a ideia. Vamos à narrativa de Montoya:
Flechas confeccionadas
por indígenas (³)
"Tratamos, meu companheiro e eu, de pôr fim a essa guerra, ordenando a nossos índios amigos que não atirassem flechas, limitando-se a recolher as do inimigo, que, ao se ver desarmado, deixaria livre a passagem para que voltássemos, uma vez que os espanhóis já não tinham outra pretensão. Demos parte a eles de nosso intento que, mal considerando, rejeitaram, alegando que, ao atirarmos nossas flechas, impedíamos que os inimigos se aproximassem do forte, raciocínio sem fundamento, porque isso eles [espanhóis] eram capazes de fazer melhor com suas escopetas." (¹)
Mas, a despeito da oposição, o perseverante jesuíta não estava disposto a ceder. Tendo reunido os indígenas que tinha de sua parte, recomendou expressamente que não atirassem mais nenhuma flecha para fora da paliçada:
"Travou-se logo uma batalha renhida; os espanhóis lutavam pela vida [...], e nós retiramos os índios para a praça de armas, que os inimigos cobriram imediatamente de flechas que se cravaram no solo, as quais os nossos foram recolhendo. Fizeram o mesmo segunda e terceira vez, e sem que os nossos atirassem uma só flecha, cessaram as flautas, os tambores e a gritaria do inimigo, confuso por se ver desarmado. Os espanhóis, estranhando esse acontecimento, ignoravam a causa, até que sabendo o motivo e vendo que os inimigos, em massa, se despediam para voltar às suas terras, demos graças ao Autor de tudo." (²)
Só há uma conclusão possível, leitores: o método funcionava!

(1) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639.
(2) Ibid.
As citações de Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) São da etnia kayapó e pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF). Na atualidade, flechas como essas têm uso relacionado à caça e à pesca.


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terça-feira, 4 de julho de 2017

Preparativos dos indígenas quando iam à guerra

A preparação de muitos povos indígenas, quando se tratava de fazer guerra ofensiva, envolvia várias etapas.
Era necessário ter, por suposto, uma grande quantidade de armas: arcos (que os homens aprendiam a manejar desde a infância), muitas flechas, tacapes e lanças de madeira, dentre outras. 
Mas não era só. De acordo com Yves d'Évreux (¹), que afirmou ter investigado o assunto acuradamente, toda a tribo era envolvida nos aprestos, havendo muito cuidado em preparar alimentos suficientes para que nenhum guerreiro deixasse, por falta de sustento, de combater no máximo de sua capacidade:
"[...] As mulheres e suas filhas preparam a farinha de munição, e em abundância, por saberem, naturalmente, que [...] a fome é a coisa mais perigosa num exército [...]." (²)
Explicando, de passagem, que "farinha de munição" era um tipo de farinha de mandioca, já vamos constatando que, enquanto isso, os homens estavam, também, em grande atividade. É que, para muitos grupos indígenas, o deslocamento até o território inimigo era feito por mar ou por rios, sendo, portanto, indispensável a confecção de canoas grandes e resistentes - aqueles soberbos exemplares cavados no tronco de uma única árvore, que podiam levar, cada um, vinte ou trinta combatentes:
"[...] Empregam-se os homens em fazer canoas ou consertar as que já possuem próprias para esse fim, porque é necessário que sejam compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões [...]." (³)

Indígenas em uma canoa (⁴)

Finalmente, era preciso cuidar de um aspecto que, para nós, talvez pareça supérfluo, mas que, entre os indígenas, era visto como essencial:
"[...] Preparam suas penas, tanto para a cabeça, braços e rins, como para as armas." (⁵)
No contexto cultural dos povos indígenas, a ornamentação de armas e homens com penas de aves podia ter vários significados, além, é claro, do aspecto puramente estético. Manter uma tradição era um dos motivos, de acordo com o padre d'Évreux:
"Quis saber por intermédio do meu intérprete por que traziam sobre os rins [...] penas de ema: responderam-me que seus pais lhes deixaram este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando ela se sente mais forte ataca atrevidamente o seu perseguidor, e quando mais fraca abre suas asas, despede o voo e arremessa com os pés areia e pedras sobre seus inimigos; assim devemos fazer, acrescentavam eles. [...]." (⁶)
Outra razão que se tem aventado para esse colorido costume de usar penas de araras, emas, papagaios e outras aves (⁷) seria de caráter ritual, à medida que qualidades e virtudes tidas como desejáveis nessas criaturas seriam, magicamente, compartilhadas pelos guerreiros, em sua condição de representantes, guardiões e herdeiros das façanhas bélicas empreendidas pelos antepassados. Juntemos a isso o orgulho pessoal de cada indígena que queria, no combate, aparecer do modo mais favorável ao realizar suas proezas, e um intenso desejo de intimidar o adversário, e já teremos, leitores, um panorama do que ocorria nas semanas de preparo que antecediam as lutas entre grupos, cuja inimizade, não raro, era cultivada desde tempos remotos.

Indígenas atacando uma aldeia (⁸)

(1) Capuchinho francês que esteve no Brasil entre 1613 e 1614.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 20.
(3) Ibid., p. 21.
(4) D'ORBIGNY, Alcide. Voyage Pittoresque dans les Deux Amériques. Paris: Furne et Cie., 1841.
(5) D'ÉVREUX, Yves. Op. cit., p. 21.
(6) Ibid., p. 22.
(7) Além de outros materiais de origem animal.
(8) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Flechas incendiárias

Não, leitores, elas não foram inventadas por Nero - o uso de flechas incendiárias ocorreu entre as mais diversas culturas, e era bem conhecido entre povos da Antiguidade. Heródoto afirma, no Livro VIII de suas Histórias, que os persas, durante as Guerras Médicas, haviam usado flechas incendiárias quando lutavam contra os atenienses que, protegidos pelas muralhas de sua cidade, resistiam corajosamente. Apenas como curiosidade, os persas finalmente tiveram êxito em forçar a entrada, e, conforme o hábito nas guerras antigas, degolaram todos os defensores que se haviam refugiado no templo de Palas Atena. A cidade foi entregue às chamas. Depois de saqueada, é claro.
Flechas comuns eram dirigidas, habitualmente, contra as formações dos exércitos inimigos. Ajudavam a reduzir o número de combatentes, antes que se travasse a luta corpo a corpo. Foi também Heródoto quem afirmou, no livro VII das Histórias, que, na guerra contra os gregos, as chuvas de flechas provenientes do exército persa, comandado por Xerxes, chegavam a encobrir a luz do sol.
Flechas incendiárias, porém, eram usadas com o objetivo de atear fogo às construções que os inimigos procuravam defender. Eram um recurso extremo, quando parecia impossível forçar a entrada de outro modo, pois um incêndio durante uma batalha dificilmente seria contido antes que tudo, ao redor, acabasse em cinzas. Admissíveis, portanto, quando o projeto era aniquilar o adversário, flechas incendiárias não eram uma ideia inteligente quando se pretendia conquistar uma cidade, conservando-a para o vencedor. 
De acordo com Hans Staden, indígenas do Brasil (*) conheciam o uso de flechas incendiárias, que preparavam do seguinte modo: um chumaço de algodão era untado com cera e, em seguida, amarrado à ponta de uma flecha, à qual se ateava fogo. Arqueiros fortes e bem-treinados atiravam contra as casas de seus inimigos, geralmente cobertas por folhas de alguma palmeira, que logo estavam em chamas. Os colonizadores perceberam a eficácia desse procedimento e, tão pronto conseguiam, pela diplomacia ou pela força, arrolar indígenas entre seus comandados, incluíam as flechas incendiárias entre seus recursos bélicos.

(*) Observação válida pelo menos para os tupinambás, com quem Hans Staden, mesmo contra a vontade, teve convivência demorada. Feito por eles prisioneiro, somente a muito custo conseguiu escapar de ser o prato principal de um banquete antropofágico.


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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Armas indígenas

As armas mais comuns dos povos indígenas - arcos, flechas, lanças de madeira, tacapes, pequenos machados de pedra - são bem conhecidas e, de fato, podiam ser encontradas, à época da chegada dos colonizadores europeus, entre a maioria dos nativos habitantes do litoral.
No entanto, cada grupo indígena tinha suas particularidades e técnicas específicas para a confecção de armas, fosse na escolha do material, no método de preparo ou mesmo na decoração que identificava a tribo.
Os goitacás arriscavam a pele à busca de tubarões. Motivo? Obter dentes, que usavam como ponta para flechas, segundo escreveu Gabriel Soares, na segunda metade do Século XVI:
"Costumavam estes bárbaros, por não terem outro remédio, andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau muito agudo na mão, e em remetendo o tubarão a eles, lhe davam com o pau, que lhe metiam pela garganta com tanta força que o afogavam e matavam, e o traziam a terra, não para o comerem, para o que se não punham em tamanho perigo, senão para lhe tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas." (¹)
Já os ubirajaras, ainda de acordo com Gabriel Soares, usavam uma arma que lhes era específica, bem diversa das de outros povos:
"A peleja dos ubirajaras é a mais notável do mundo [...], porque a fazem com uns paus tostados muito agudos, de comprimento de três palmos, pouco mais ou menos cada um, e são agudos de ambas as pontas, com os quais atiram a seus contrários como com punhais; e são tão certos com eles que não erram tiro, com o que têm grande chegada, e desta maneira matam também a caça, que [...] não lhes escapa, os quais com estas armas se defendem de seus contrários tão valorosamente como seus vizinhos com arcos e flechas [...]. (²)
Para dar acabamento ao trabalho, muitos índios usavam um recurso semelhante, no efeito, a uma lixa, mas obtido de um vegetal muito comum no litoral brasileiro, a embaúba:
"Embaúba é uma árvore comprida e delgada, que faz uma copa em cima de pouca rama; a folha é como de figueira, mas tão áspera que os índios cepilham com elas os seus arcos e hastes de dardos, com o que se põe a madeira melhor que com a pele de lixa." (³)

Índios bororenos indo à guerra, de acordo com Debret (⁴)

Estas descrições, como já disse, são do Século XVI. Como elas, há muitas outras. Boas imagens, porém, só as há do Século XIX, quando muitas tribos que originalmente habitavam o litoral já haviam desaparecido. Assim, o que se conhece é apenas uma parte do rico patrimônio original de técnicas, tanto para confecção de armas como de outros artefatos indígenas de uso diário.

Índios puris lutando (⁵)

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 78.
(2) Ibid., p. 348.
(3) Ibid., pp. 196 e 197.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. 
Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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