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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um assassinato brutal no Rio de Janeiro no Século XVI

A data oficial de fundação da cidade do Rio de Janeiro é 1º de março de 1565, no contexto da luta pela expulsão de franceses que tentavam fincar pé na área. Em 1535 não havia lá, ao que se sabe, nenhuma povoação permanente de colonizadores europeus, ainda que a terra fosse reconhecida como propriedade da Coroa portuguesa (¹). A despeito disso, há registro de um incidente sangrento ocorrido na região, quando, por duas semanas, em 1534 ou 1535 (²), ali esteve uma armada espanhola que ia ao Rio da Prata. O fato é conhecido pelo relato de Ulrich Schmidel, um alemão que viajava nessa armada, e que, muitos anos depois, de volta à Europa, publicou um livro que tinha por título Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart (³). Disse ele:
"Navegamos dessa para outra ilha [sic] chamada Rio Ienea (⁴) [...], que pertence ao rei de Portugal [...], onde ficamos cerca de quatorze dias. Foi lá que dom Pedro de Mendoza (⁵), nosso capitão-general, determinou que Juan de Osorio [...] nos comandasse como seu substituto, porque ele [Pedro de Mendoza] estava doente e sem poder mover-se. Não demorou para que Juan de Osorio fizesse inimigos e fosse falsamente acusado de promover um levante contra Pedro de Mendoza. Por esse motivo, dom Pedro de Mendoza mandou que outros quatro capitães [...] matassem o dito Juan de Osorio a punhaladas [...], e que o apresentassem como traidor. Fez também passar bando, ordenando que ninguém se atrevesse a ter compaixão de Osorio, para não incorrer em idêntico castigo." (⁶)
É fato que os comandantes de armadas que viajavam no Século XVI levavam permissão para agir como juízes absolutos, porque esse era um modo de assegurar a disciplina entre marinheiros e soldados, que, de outro modo, seriam, talvez, incontroláveis. Contudo, não houve, ao que parece, nenhum processo formal contra Juan de Osorio, bastando a acusação de que tramara uma revolta para que fosse morto. Não havendo processo, não houve também uma execução formal, e sim um assassinato. Mesmo o conciso Schmidel, que raramente punha sentimentos  no papel, que narrou friamente o canibalismo praticado por colonizadores (que isso fizeram para não morrer de fome), concluiu sua narrativa do incidente dizendo: "Isto foi uma injustiça que se cometeu [contra Osorio], como bem sabe Deus todo-poderoso [...], porque ele era um homem correto e bom soldado, capaz de manter ordem e disciplina entre gente de guerra." (⁶) 

(1) Há bastante tempo ocorrem debates quanto à origem do nome "Rio de Janeiro", bem como quanto à data em que essa denominação foi atribuída. À parte disso, a região tinha feitorias desde as primeiras décadas do Século XVI, ainda que uma povoação formalmente estabelecida não existisse quando a frota espanhola em que Schmidel viajava passou por lá. Outro fator importante a recordar é que esse mercenário alemão somente escreveu e publicou suas memórias muito tempo depois do fato aqui referido.
(2) Há divergências quanto à data. Embora Schmidel diga 1534, há quem pense que, levando em conta o calendário que adotava, a data deveria ser 1535 ou 1536.
(3) A primeira edição é de 1567. 
(4) A edição de 1599 traz Rio Ienea ou Rio Iamero (Rio de Janeiro).
(5) Os nomes de Pedro de Mendoza e Juan de Osorio aparecem aqui como de fato eram, e não na estropiada grafia de Schmidel, que escrevia conforme os nomes pareciam soar em sua língua materna.
(6) SCHMIDEL, Ulrich. Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Assim como no Brasil Colonial, havia falta de dinheiro amoedado no Paraguai

Não só no Brasil é que dinheiro amoedado era escasso nos tempos coloniais. Também no Paraguai havia falta de moeda. Falando da cidade de Asunción, na qual se supunha haver dez mulheres para cada homem, o padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário jesuíta,  afirmou: 
"[...] não tem minas de prata nem de ouro, nem circula dinheiro algum. O comprar e o vender se fazem pela troca de uma coisa por outra. Há, contudo, um gênero inventado de pesos ocos, porque assim são chamados frequentemente os pesos pelos quais se avaliam as coisas; e assim, por um patacão (¹) de oito reais de prata, dão três pesos ocos em frutos da terra, que é muito fértil." (²) 
É fácil perceber que, ao declarar inexistentes as minas de ouro e prata, Montoya justificava, por consequência, a falta de dinheiro amoedado em Asunción. Ora, meus leitores, se o Brasil, com um vasto litoral que facilitava o comércio com a Metrópole, fazia do açúcar e de outras mercadorias sua moeda, que dizer, então, do Paraguai, região colonial espanhola situada no interior da América do Sul? 

(1) Moeda antiga recunhada.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. A edição original foi impressa na Espanha em 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 18 de junho de 2019

A ilha do índio que fugiu

Pedro Sarmiento de Gamboa foi escolhido para comandar uma expedição que, saindo do Peru, devia percorrer o Estreito de Magalhães, para mapear a região e procurar locais favoráveis ao estabelecimento de povoações colonizadoras. A razão para isso é que se supunha, com sobejas razões, que o extremo sul do Continente, apesar de ser área de navegação dificílima, andava a receber a visita de corsários - aliás, de um corsário em particular, o famoso Francis Drake. Julgava-se, portanto, que era necessário efetivar o controle espanhol da região. Essa expedição de Sarmiento aconteceu entre os anos de 1579 e 1580.
Nas instruções dadas pelo vice-rei antes da partida, havia uma em que se dizia, expressamente, que fizessem o possível para conseguir, com bons modos, índios que servissem de "línguas", ou seja, de intérpretes: "E achando algumas povoações de índios, depois de havê-los tratado com carinho e dado das coisas que levais de tesouras, pentes, facas, anzóis, botões coloridos, espelhos, guizos, contas de vidro e outras coisas das que se dão a eles (¹), procurareis levar alguns índios para línguas às partes onde fordes [...], aos quais fareis todo o bom tratamento [...]." (²)
É possível que, além de ter intérpretes para a viagem, o que já é surpreendente, por ser improvável que encontrassem naquela distante região indígenas que, além de sua língua materna, falassem espanhol, os espanhóis também quisessem trazer alguns ameríndios ao convívio colonial, para que, ao tempo em que se estabelecessem colônias nos arredores do Estreito, fossem com os povoadores e facilitassem o contato com a população nativa. Pergunto: como seria possível conseguir, apenas com a prática de boas maneiras, que alguém deixasse sua família, seu grupo tribal, e fosse, contra a vontade, viajar e viver entre desconhecidos? Contraditório, não? Na formalidade dos documentos é preciso ver além daquilo que se diz. 
De acordo com o relatório feito durante a expedição, Pedro Sarmiento procurou, em todo o tempo e nos menores detalhes, ser o mais obediente cumpridor das instruções do vice-rei. Foi com seus homens em dois navios, costeando a América do Sul, e, com o uso de outra pequena embarcação, às vezes descia em terra para ver o que havia. Assim, logo encontrou indígenas, com os quais procurou fazer contato, e, tendo sucesso, convenceu-os a ir ao lugar em que havia deixado o que trazia, embora desconfiasse, sempre, da possibilidade de um ataque dos nativos. Sua intenção, porém, era, tão pronto quanto possível, capturar um "língua": "Ao chegar ao alojamento, Sarmiento pôs, por segurança, duas sentinelas; procurou tomar algum [dos indígenas] para língua, e com toda a diligência conseguiu tomar um deles, e em seguida Pedro Sarmiento o abraçou, [...], vestiu e o meteram no batel, e nos embarcamos todos [...]." (³)
Missão cumprida? Nada disso: "[...] No quarto da alva o índio que havíamos tomado fugiu daquele que o vigiava; mandando buscá-lo [...] pela beira do mar, o guarda de quem ele havia fugido encontrou-o, e, ao agarrá-lo por uma camisa que vestia, deixou-a em suas mãos, lançou-se ao mar e se foi. [...]" (⁴) Quem, em plena razão, esperaria outra coisa?
No relatório da viagem, o escrivão acrescentou: "Chamamos a este lugar "a ilha do índio [que] fugiu". (⁵)" Aos muito curiosos, informo que, posteriormente, Sarmiento e sua gente capturaram outros índios, com o mesmo propósito de obter intérpretes, e não se fez qualquer menção de que houvessem conseguido escapulir.

(1) Eram as práticas correntes de escambo, não só na chamada América Espanhola, como no Brasil.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viaje al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 16. Todos os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid., p. 111.
(4) Ibid., pp. 116 e 117.
(5) Ibid., p. 117.


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terça-feira, 4 de junho de 2019

A boleadeira usada por alguns povos indígenas da América do Sul

Usada tanto como arma em combate como para caçar, a boleadeira era já conhecida de indígenas da América do Sul antes da chegada de colonizadores. Mais tarde, depois da introdução do gado de origem europeia, passou a ser usada também na captura desses animais, e a própria confecção da arma veio a incluir, sincreticamente, o emprego de materiais somente disponíveis a partir da colonização, que vocês, leitores, não terão dificuldade em identificar nesta explicação dada pelo espanhol Félix de Azara (¹), ao dizer que havia constatado o uso de boleadeiras de dois tipos (²):
"Estas [boleadeiras] são de duas classes: a primeira se compõe de três pedras redondas do tamanho de um punho, forradas de couro de vaca ou de cavalo e atadas a um centro comum com cordas de couro de uma polegada de espessura e comprimento de três pés. Eles (³) seguram na mão a menor das três bolas e, fazendo as outras girarem com velocidade por cima da cabeça, lançam as três a uma distância de até cem passos; estas bolas se enredam e cruzam de tal modo nas pernas, pescoço ou corpo de um animal ou homem, que é impossível escapar." (⁴)
Perceberam a referência ao emprego de couro de vaca ou de cavalo? Tal coisa somente seria possível a partir da introdução de bovinos e equinos na América do Sul por colonizadores europeus. O outro tipo de boleadeira descrito por Azara, como ele próprio observou, era chamado de "bola perdida":
"A outra classe de bola se reduz a uma só pedra, que eles (⁵) chamam de bola perdida: ela tem o mesmo tamanho das outras, mas quando é feita de cobre ou chumbo (⁶), como acontece muitas vezes, ela é muito menor. É forrada de couro e atada a uma corda do mesmo material com cerca de três pés de comprimento. Para usá-la, seguram a ponta da corda e fazem a bola girar como uma funda, que disparam oportunamente, dando um terrível golpe a cinquenta passos, e mesmo a maior distância, pois eles fazem o lançamento a cavalo, correndo a toda velocidade." (⁷)
É quase desnecessário observar que o emprego de bolas de metal, bem como o lançamento a cavalo são mostras evidentes da aquisição de elementos da cultura e tecnologia dos colonizadores. Para que ninguém incorresse no erro de julgar que boleadeiras eram armas quase inofensivas, Azara acrescentou uma amostra prática do estrago que podiam fazer:
"No tempo da conquista, com esta arma eles [os índios pampas] mataram em uma batalha a Dom Diego de Mendoza, irmão do fundador de Buenos Aires, e outros nove dentre os principais capitães que estavam a cavalo, além de muitos outros espanhóis. Embrulhando bolas perdidas em palha acesa, conseguiram queimar muitas casas de Buenos Aires, e até alguns barcos." (⁸)
Os tempos conflituosos da colonização passaram. As boleadeiras, contudo, permaneceram, usadas na caça por gaúchos, quer de origem indígena ou europeia, durante os dias de cuidado do gado nos campos do sul do Continente.

(1) Félix de Azara foi enviado à América do Sul como comandante da Comissão de Limites Espanhola, cargo que desempenhou entre 1789 e 1801.  
(2) Azara menciona boleadeiras com uma e com três bolas, mas imagens antigas mostram o emprego, também, de boleadeiras com duas bolas.
(3) Referia-se aos índios pampas.
(4) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 188. Todos os trechos desta obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Nova referência aos índios pampas.
(6) Outra evidência do contato com a tecnologia dos colonizadores.
(7) AZARA, Félix de. Op. cit., p. 188.
(8) Ibid.


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terça-feira, 5 de março de 2019

Império das formigas

Formigas da América do sul e seus hábitos curiosos


A formiga era "o rei do Brasil" nos tempos coloniais, como bem sabem os leitores deste blog. Digo, porém, que, a seu modo, as muitas espécies de formigas eram bem mais que um reino: constituíam verdadeiro império, e, insolentes, faziam questão de ignorar restrições de fronteira, fato tanto mais grave porque, nesse tempo, portugueses e espanhóis querelavam por traçar limites no que deveria ser possessão de seus respectivos monarcas. 
Não vai aqui nenhuma troça indevida: posso comprovar o que acabo de dizer com as palavras de Félix de Azara, que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, na posição de comandante da Comissão de Limites enviada pela Espanha para, ao lado de representantes de Portugal, demarcar as terras que deveriam pertencer a uma e outra monarquia. Tarefa ingrata, essa...
Sem mais delongas, vamos às formigas de Azara (¹). Tratando de uma espécie a que denominou araraá, que, como a maioria das formigas, era apaixonada por doces (²), escreveu: "Há casas em que é impossível conservar açúcar ou melado [de cana]. Para preservar ditos objetos, se veem obrigados a pô-los sobre uma mesa cujos pés estão dentro de cântaros cheios de água." (³) 
Prossigamos, que Azara era bom contador de histórias. Outra espécie, chamada por ele tahy-ré, existente no Paraguai, era capaz de façanhas ainda mais portentosas: "A espécie chamada tahy-ré, que quer dizer formiga fedorenta, porque quando esmagada cheira muito mal, não tem habitação conhecida e não se sabe qual seja seu alimento habitual, porque só é vista quando sai. No Paraguai [...] ela costuma sair quase sempre à noite, dois dias antes de alguma mudança climática significativa, e se espalha, cobrindo o chão, as paredes e o teto dos quartos, por grandes que sejam. Consomem em um instante as aranhas, grilos, besouros e quantos insetos encontram, não deixando baú, canto ou fenda que não visitem. Se essas formigas encontram uma ratazana, esta se põe a correr como louca e, se não consegue sair do quarto (⁴), logo é coberta pelas formigas, que [...] a devoram. Afirma-se que essas formigas fazem a mesma coisa com as cobras. O fato é que elas obrigam até os homens a abandonar cama e quarto, correndo em camisa para fora. [...]" (⁵). Podem imaginar a cena, leitores?
Como já demos a Azara a oportunidade de falar das formigas; vamos, então aos formigueiros, ou pelo menos, a um formigueiro, mas não a um qualquer: "Uma mula que me pertencia", disse ele, "passando por um destes formigueiros que, devido a chuvas abundantes, havia amolecido, afundou, de modo que a vinte passos de distância não se via dela mais que a cabeça, embora estivesse em pé. Tal é a profundidade do túnel formado por esses formigueiros". (⁶)
É hora de concluir, assegurando, de passagem, que Azara era um homem sério, não dado a incluir lorotas em seus escritos. Qual seria a altura da pobre mula? Espero que nenhum dos leitores tenha pesadelos com formigas!

(1) Ainda que não fosse naturalista, Félix de Azara procurou observar tudo o que podia quanto aos seres vivos da América do Sul; seus escritos, embora não isentos de erros e mesmo de alguns preconceitos, têm a virtude impagável de ter, como autor, uma testemunha ocular. 
(2) Algum leitor ousa contestar?
(3) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 101. Todos os trechos aqui citados desta obra foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Parece que algumas residências coloniais tinham uma população que ia além dos seres humanos.
(5) AZARA, Félix de. Op. cit. p. 102.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Como guaranis usavam o arco para lançar flechas

Félix de Azara, que liderou a Comissão de Limites Espanhola no Paraguai entre 1789 e 1801, teve oportunidade de observar o modo como os guaranis disparavam flechas. Ao informar que o arco por eles empregado tinha uso duplo, descreveu-o como "um bastão resistente, pouco flexível, liso, grosso no centro como uma mão fechada, mas diminuindo gradualmente em direção às extremidades, que são muito pontiagudas, de modo que podem servir de lança" (¹). Para encaixe das flechas que se pretendia lançar, cada arco era, por suposto, dotado de uma corda.
Europeus que estiveram no Continente Americano nos primeiros tempos da colonização notaram que indígenas se revelavam, como regra geral, extremamente habilidosos quando atiravam flechas. Essa capacidade não vinha do acaso: treinavam desde a infância, daí resultando, também, a força extraordinária que demonstravam para vergar um arco. Contudo, os guaranis tinham, de acordo com Azara, uma técnica específica, diferente da utilizada por vários outros povos indígenas: "Para atirar [...] encaixam um pouco na terra uma das extremidades do arco e, apoiando-o com o pé, dobram-no tanto quanto possível, e é sabido como estes selvagens [sic] sabem apontar e atirar." (²)
Embora a capacidade de lançar flechas com precisão fosse muito útil em caso de guerra, atirar bem era fator de sobrevivência, porquanto muitos ameríndios - não apenas os guaranis - faziam uso de arcos e flechas para a caça. Alguns povos usavam essas armas também para a pesca. Um bom arqueiro podia, assim, prover alimento para si mesmo e para seu grupo. Era daí que lhes vinha parte do sustento quotidiano.

(1) AZARA, Félix de Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
(2) Ibid.  Os trechos citados de Viajes por la América del Sur, de Félix de Azara, foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como o látex era usado para iluminação nos tempos coloniais

A exploração do látex, extraído da Hevea brasiliensis (seringueira, se preferirem) da região amazônica, proporcionou, em fins do Século XIX e início do Século XX, um período de prosperidade para o norte do Brasil que é, frequentemente, chamado surto ou ciclo da borracha (¹). 
A Hevea brasiliensis não é, contudo, a única árvore fornecedora de látex (²). Das explorações conduzidas por Félix de Azara (³) no Século XVIII ficaram registros que demonstram a importância do látex extraído em áreas de colonização espanhola na América do Sul:
"O mangaysy é uma árvore [...] cuja resina é bastante conhecida no mundo todo com o nome de goma elástica. [...] Neste país (⁴) só a vi ser empregada para fazer bolas com que os meninos brincam e para iluminação à noite no deserto (⁵)." (⁶)
É pouco provável que Azara falasse da Hevea brasiliensis, que, como já disse, é nativa da região amazônica, mas, havendo outras árvores que produzem látex, ainda que de qualidade inferior, não surpreende que crianças logo encontrassem aplicação para tão útil recurso natural. Como, porém, seria o látex usado na iluminação? Voltemos a Azara:
"[...] faz-se desta resina uma bola que é posta na água; observando-se o lado que flutua, apertam-na para fazer uma espécie de mecha à qual se põe fogo e, acesa, é colocada na água, onde queima a noite toda, até que se consome inteiramente." (⁷)
Distantes da Europa, colonizadores precisavam improvisar (muitas vezes) e investigar, entre a população nativa, materiais que suprissem a falta dos recursos a que estavam acostumados. O uso do látex para iluminação parece, assim, ser um exemplo interessante a comprovar tal fato (⁸). 

(1) Há divergências quanto à nomenclatura.
(2) Embora o látex dela extraído seja considerado da mais alta qualidade.
(3) Viveu entre 1742 e 1821. Ao liderar a Comissão Demarcadora de Limites da Espanha entre 1789 e 1801, teve a oportunidade de fazer inúmeras observações quanto às condições geográficas no Paraguai, Argentina e Uruguai, bem como sobre a fauna e a flora dessa região.
(4) Referia-se ao território atual do Paraguai.
(5) Deserto, aqui, significa uma área desabitada.
(6) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, pp. 80 e 81.
(7) Ibid., p. 81. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) Não foi o único meio de iluminação obtido mediante o uso de recursos naturais conhecidos pela população indígena da América do Sul.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Uma história de arrepiar os cabelos: prática de canibalismo por colonizadores da América do Sul

Seria possível que os autodenominados "conquistadores da América", na ânsia pela sobrevivência e enriquecimento rápido, abandonassem completamente as regras de conduta que haviam aprendido em sua terra de origem? Não poucos episódios sugerem uma resposta afirmativa. Hoje veremos um deles.
Colonizadores que vinham ao Continente Americano no Século XVI precisavam enfrentar um problema terrível: não havia, assim que desembarcavam, nenhum hotel de classe turística à espera deles, nem algum lauto banquete que recompensasse a dificultosa travessia do Atlântico. Era preciso estabelecer um acampamento, pelo menos até que casas, mesmo simples, fossem construídas. E, necessidade imediata, era indispensável encontrar alguma coisa que servisse como alimento. Com sorte, haveria caça e pesca à disposição, e, para quem soubesse cultivar a amizade dos ameríndios, talvez a possibilidade de conseguir vegetais por meio de escambo. Mas, em regiões inóspitas, nada disso poderia ser obtido, e mesmo a pilhagem de suprimentos em poder dos indígenas não resolveria a maior das dificuldades: a fome.
Retrato de Ulrich Schmidel, de acordo com
a edição de 1599 de Warhaftige Historien
einer wunderbaren Schiffart
Foi, meus leitores, exatamente essa a situação defrontada pela expedição que partiu da Espanha em 1534, com destino à América do Sul, sob o comando de Pedro de Mendoza, a quem se deve a fundação de Buenos Aires (¹). Em extrema penúria, os "conquistadores" perderam toda a referência quanto ao que seria ou não adequado para alimentação - é o que se conclui do depoimento de Ulrich Schmidel, um soldado alemão que também viera na esquadra de Pedro de Mendoza, e que, depois de vinte anos no Continente Americano, retornou à Alemanha e escreveu um livro (²), no qual registrou:
"Era tão grande a pobreza e fome que não ficaram ratos, ratazanas, cobras e outros bichos que não fossem comidos, e até os sapatos e objetos de couro foram consumidos. Aconteceu que três espanhóis sorrateiramente roubaram e comeram um cavalo; foram descobertos, aprisionados e, sob tortura, confessaram o que haviam feito; condenados a enforcamento, foram executados. Na mesma noite, outros três espanhóis foram até as forcas, cortaram as coxas e outras partes do corpo dos enforcados e levaram-nas ao alojamento com a intenção de comê-las, tal era a fome. Assim também um espanhol, para saciar a fome, devorou seu irmão que havia morrido na cidade de Buenos Aires." (³) 
Quem lê uma coisa dessas fica logo pensando que Schmidel devia estar mentindo ou, no melhor dos casos, exagerando. No entanto, vários contemporâneos seus deixaram relatos semelhantes. É o caso, por exemplo, do que se encontra em uma carta datada de 1556, cujo autor, Francisco de Villalta, expôs os mesmos fatos, apenas com a diferença de que os enforcados e canibalizados seriam dois, e não três, como disse Schmidel. Portanto, ao que parece, essa história de arrepiar os cabelos aconteceu mesmo.

(1) Neste caso, a primeira fundação; há alguma controvérsia quanto à data.
(2) A primeira edição alemã data de 1567.
(3) SCHMIDEL, Ulrich. Warhaftige Historien einer wunderbaren Schiffart. Nürnberg: Levinus Hulsius, 1599, pp. 10 e 11. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.