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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Machadinhas de cobre em troca de contas coloridas

Escambo, todo mundo sabe, é o nome tradicionalmente dado às trocas de mercadorias entre europeus e indígenas da América, ocorridas no princípio da Colonização. À procura de madeiras nobres, especiarias e metais preciosos, comerciantes ofereciam aos indígenas tesouras, facas e outras ferramentas, contas coloridas, ou seja, coisas de baixo custo, ainda que o valor de um objeto não esteja relacionado apenas ao preço, mas à raridade e estima que lhe são dadas. Economicamente, os europeus levavam grande vantagem, mas seria tolice negar que nativos do Continente Americano logo tenham desenvolvido interesse por esse tipo de comércio. Em alguns casos, contudo, as trocas resultaram em situações engraçadas. Vou falar de uma delas.
Corria o ano de 1518. Um grupo de soldados e aventureiros espanhóis, desesperados por encontrar ouro, navegava nas proximidades do México, quando entrou em contato com alguns indígenas e começou a resgatar com eles. "Resgatar" significava fazer trocas ou escambo, e "resgates" eram as mercadorias de pouco valor que ofereciam aos ameríndios. Conta Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol que era parte do grupo:
"[...] todos os índios daquela província tinham por costume trazer umas machadinhas de cobre polido, à semelhança de armas, que tinham cabos de madeira muito pintados, e nós acreditamos que eram ouro baixo, e começamos a resgatar com eles; digo que em três dias conseguimos mais de seiscentas delas, e estávamos muito contentes, crendo que eram de ouro baixo, e os índios muito mais com suas contas. Tudo, porém, em vão, porque as machadinhas eram de cobre (¹), e as contas, quase nada. Um marinheiro havia resgatado às escondidas sete machadinhas e estava muito alegre por elas, e parece que outro marinheiro foi dizê-lo ao capitão, que lhe ordenou entregá-las, mas nós pedimos por ele, e ficou com as machadinhas, crendo que eram de ouro." (²)
Quem poderia calcular o entusiasmo dos espanhóis, diante de um "achado" que, supunham, iria torná-los ricos de um dia para outro? Que sorte, a deles...
Navegaram de volta a Santiago de Cuba, onde estava o governador Diego Velazquez, a quem deviam prestar contas de suas viagens, descobertas e façanhas. Como leais súditos do rei da Espanha, apresentaram as machadinhas brilhantes para que o ouro fosse quintado (³). Foi aí que fizeram uma importante - e triste - descoberta. É ainda Bernal Díaz quem relata:
"[...] trouxeram as seiscentas machadinhas (⁴) que pareciam de ouro, e quando as trouxeram para quintar estavam tão mofadas, como cobre que eram, e ali houve muito que rir e dizer da burla e do resgate." (⁵)
Para quem queria ouro, era mesmo muito pouco.

(1) Ou, pelo menos, Bernal Díaz supunha que fossem desse material.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Vejam, leitores, que a cobrança dos Reais Quintos não era exigência apenas dos monarcas portugueses.
(4) Não é impossível haver exagero no número de machadinhas que trouxeram.
(5) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Gente que não trabalhava para não perder a nobreza

Acontecia no Brasil Colonial, acontecia na América Espanhola: todo mundo que se dizia nobre, por ser, de fato, ou por se achar assim, fugia desesperadamente do trabalho, para não perder a (suposta) nobreza. A coisa era tão absurda, que havia quem preferisse passar fome, às escondidas, a assumir uma ocupação manual. As aparências valiam mais. 
Talvez os leitores considerem isso uma insanidade. Alguns testemunhos da época serão suficientes, espero, para convencê-los de quão autêntica era essa horrorosa situação. 
Primeiro, no Brasil, e, mais especificamente, em São Luís - MA. São palavras do padre Antônio Vieira, em carta dirigida ao provincial jesuíta, com data de 22 de maio de 1653: "Na portaria [do Colégio Jesuíta] não damos a esmola ordinária, porque não há nesta cidade pobres que peçam de porta em porta." (¹) Excelente, não? Vejam o que vem a seguir:
"[...] Para socorrermos no que pudéssemos às pobrezas ocultas, e lhes buscarmos algumas esmolas, pedimos ao pároco nos desse uma lista das pessoas necessitadas, mas não teve efeito esta diligência, porque mais fácil é padecerem a pobreza que confessá-la.
Contudo nos confessionários, à volta de outras fraquezas, se manifestam também estas, e por esta via socorremos algumas necessidades, em que tanto se acudiu aos corpos como às almas." (²)
Não se imagine que enxergar o trabalho como um aviltamento da dignidade dos homens livres foi fenômeno restrito aos tempos coloniais. Vejam o que disse um autor abolicionista, Frederico L. César Burlamaqui, em obra publicada durante o Período Regencial, em que ressaltou o papel do escravismo em levar a sociedade a olhar para o trabalho como uma humilhação:
"Entre nós um homem cessa de trabalhar logo que consegue comprar um ou dois escravos. Não somente os trabalhos são desprezados pelas classes abastadas, como mesmo o mais simples artista só exerce o seu ofício pelas mãos de seus escravos, se os possui. Não se pense que isto só tem lugar a respeito da raça livre [sic], nascida no país; tal é o contágio e a força do exemplo, que um europeu [...], fosse ele um malfeitor ou exercesse no seu país a mais ignóbil profissão, logo que possui escravos, crê imediatamente que trabalhando por suas mãos, vilipendia a sua nobreza, e teme o desprezo." (³)
Não há tempo para estarrecimento. Passemos à América espanhola.
O padre Antonio Ruiz de Montoya, fervoroso defensor dos povos indígenas, observou, em relação aos colonizadores qualificados em ofícios mecânicos que viviam no Paraguai no Século XVII:
"[...] Há oficiais de todos os ofícios mecânicos e deles usam, mas ninguém se diz oficial, por terem aprendido a profissão para usarem-na em casa, e, mesmo que um sapateiro faça sapatos publicamente, não quer ser considerado sapateiro, alegando que por inteligência própria alcançou essa habilidade, querendo com tal metafísica [sic], de um lado socorrer à necessidade, e, por outro, conservar a nobreza que herdou de seus antepassados, que toda foi gente nobre." (⁴)
Vejam, meus leitores, que Montoya tinha senso de humor. Vamos em frente, com o que disse Félix de Azara, espanhol que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, liderando uma comissão enviada para demarcar limites entre terras pertencentes a Portugal e à Espanha: 
"[...] o espírito cavalheiresco, que desdenha e mesmo despreza toda espécie de trabalho, a falta de instrução, a nulidade dos governadores e a inacreditável imperfeição dos instrumentos contribuem para tornar quase impossível toda espécie de melhora." (⁵)
Depois, o mesmo Azara ainda observaria, a respeito dos filhos de espanhóis que nasciam na América:
"Apenas são nascidos ditos espanhóis, são entregues a amas de leite [...], que cuidam deles ordinariamente até a idade de seis ou mais anos. Durante todo este tempo, o menino nada pode ver que mereça ser imitado. Agregue-se a isto um mau princípio recebido [...] com maior força que na Espanha, isto é, que a nobreza e a generosidade consistem em destruir e não em produzir alguma coisa; a repugnância ao trabalho, que é mais forte na América que em qualquer outro lugar, é maior nos meninos na situação mencionada. Convencidos de tais princípios [...], mesmo os filhos de um simples marinheiro desdenham toda espécie de trabalho e creem que se rebaixam em seguir a profissão de seus pais [...], e muitos não gostam do comércio, que consideram demasiado penoso. [...]" (⁶)
O escravismo colonial, e mesmo o posterior (no caso do Brasil), favoreceu o desprezo pelo trabalho. Isso é um fato. Suas consequências - um pouco de observação bastará - persistem, em parte, até hoje.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 329.
(2)  Ibid.
(3) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César. Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica. Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 24.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 91.
(6) Ibid., p. 275. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 5 de novembro de 2019

A comunicação entre navios durante viagens no Século XVI

Entre as ordens dadas por Pedro Sarmiento de Gamboa em 1579, para a viagem pelo Estreito de Magalhães que liderou, havia estas:
"[...] sigam sempre o farol, de noite, e a a bandeira, de dia, da Capitana (¹). E, sendo conveniente que a Capitana, em que vou, mude para rota ou caminho diferente daquele que até ali houver seguido, dará aviso com dois faróis para aquela parte onde se mudará o caminho, movendo-os para que melhor se conheça e siga o dito caminho;
[...] se ocorrer em alguma necessidade que seja preciso socorro, se dará um tiro de canhão, e se for necessidade de socorro de pessoas, se darão dois, porque o mesmo fica entendido que farei eu, em meu navio, para que me socorra, se for preciso." (²)
Era muito importante que essas convenções fossem escrupulosamente obedecidas, porque:
  • Não havia, na época, modo mais eficiente de comunicação;
  • Em caso de algum acidente em um navio, outros poderiam prestar socorro;
  • A segurança dos que viajavam dependia do agrupamento de navios, para facilitar a defesa em caso de um ataque de piratas e corsários, o que não era nada incomum nesse tempo.
A imensa esquadra comandada por Pedro Sarmiento era composta por apenas dois navios "de verdade", em não muito bom estado, aos quais se juntaram pequenas embarcações feitas pelos próprios navegantes. Um dos navios desertou, e Sarmiento e os que com ele estavam completaram sozinhos a viagem que, depois de transposto o Estreito de Magalhães, conduziu-os à costa da África, aos arquipélagos de Cabo Verde e Açores e, finalmente, à Espanha. Não houve sinalização, portanto, que impedisse a nau comandada por Juan de Villalobos de "desaparecer". Sabe-se, todavia, que a técnica de sinalizar, dia e noite, respectivamente, com bandeiras e faróis, era usual, nessa época, para navios que viajavam em comboio. Em meio às ondas do oceano, as embarcações de madeira talvez parecessem tão frágeis como cascas de ovos, sendo necessária toda a ajuda mútua possível, no empreendimento de conduzir os corajosos navegadores até o destino que almejavam.

(1) As duas embarcações principais da expedição de Pedro Sarmiento foram denominadas "Capitana", na qual ele próprio ia, e "Almiranta", comandada por Juan de Villalobos.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 38. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.



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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Assim como no Brasil Colonial, havia falta de dinheiro amoedado no Paraguai

Não só no Brasil é que dinheiro amoedado era escasso nos tempos coloniais. Também no Paraguai havia falta de moeda. Falando da cidade de Asunción, na qual se supunha haver dez mulheres para cada homem, o padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário jesuíta,  afirmou: 
"[...] não tem minas de prata nem de ouro, nem circula dinheiro algum. O comprar e o vender se fazem pela troca de uma coisa por outra. Há, contudo, um gênero inventado de pesos ocos, porque assim são chamados frequentemente os pesos pelos quais se avaliam as coisas; e assim, por um patacão (¹) de oito reais de prata, dão três pesos ocos em frutos da terra, que é muito fértil." (²) 
É fácil perceber que, ao declarar inexistentes as minas de ouro e prata, Montoya justificava, por consequência, a falta de dinheiro amoedado em Asunción. Ora, meus leitores, se o Brasil, com um vasto litoral que facilitava o comércio com a Metrópole, fazia do açúcar e de outras mercadorias sua moeda, que dizer, então, do Paraguai, região colonial espanhola situada no interior da América do Sul? 

(1) Moeda antiga recunhada.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. A edição original foi impressa na Espanha em 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 2 de abril de 2019

Deveres das mulheres paiaguás

Entre a maioria dos povos indígenas da América do Sul predominava aquilo que tecnicamente recebe o nome de divisão sexual do trabalho, ou seja, havia tarefas destinadas a homens e a mulheres, em exclusividade (ainda que, eventualmente, ocorresse alguma exceção). Caça e pesca, por exemplo, eram, como regra, ocupações masculinas, enquanto que trabalhos em cerâmica e preparação de alimentos cabiam às mulheres. 
Se podemos crer no que escreveu Félix de Azara, que é, quase sempre, bastante confiável, os paiaguás podem ser também listados entre os que dividiam as obrigações quotidianas desse modo. Para refrescar a memória dos leitores, recordo que os monçoeiros paulistas que iam ao sertão no Século XVIII faziam referência aos paiaguás como "o gentio canoeiro", e tiveram, com eles, confrontos memoráveis (¹). Mas, como o assunto aqui está ligado aos deveres de homens e mulheres desse grupo indígena, passemos ao que escreveu Azara:
"É dever das mulheres fazer esteiras, construir e organizar as cabanas, confeccionar as mantas e as panelas e pratos de barro. Estes pratos estão cobertos por desenhos, porém não são devidamente cozidos. Elas [as mulheres] devem cozinhar os legumes e às vezes o pescado, embora apenas esporadicamente, porque os maridos é que vão buscar lenha e preparar a carne e o pescado." (²)
Parece evidente que reservar aos homens a caça e a pesca era um modo de mantê-los ativos e fisicamente aptos para a guerra. Como negar, entretanto, que a quantidade de tarefas atribuídas às mulheres era muito maior que a destinada a indivíduos do sexo masculino? O relato de Félix de Azara trazia, ainda, esta informação: "Eles [os paiaguás] comem de tudo, mas as mulheres jamais provam carne, porque dizem que lhes seria prejudicial" (³). Azara não explicou o motivo.

(1) Os monçoeiros do Século XVIII davam aos paiaguás o nome de "gentio canoeiro", em razão da enorme habilidade desses índios na natação e em manobrar canoas; os guaicurus, por sua vez, eram chamados "gentio cavaleiro". Paiaguás e guaicurus eram, sem dúvida, os indígenas mais temidos pelos que participavam das monções cuiabanas.
(2)  AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 218.
(3) Ibid. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 5 de julho de 2018

A música era usada nas reduções indígenas como estímulo à aceitação da catequese

Assim como acontecia nas missões estabelecidas na América Portuguesa, a catequese de indígenas em áreas de presença espanhola foi bastante facilitada mediante o emprego da música. Havendo nas reduções algum religioso hábil no ensino da arte do canto, não tardava a haver um coro de meninos, capaz de participar dos ofícios religiosos. Em alguns casos, pela presença de um padre com conhecimentos de luteria, foi possível ensinar aos indígenas a construção de instrumentos musicais, cuja sonoridade enriquecia as festas destinadas a quebrar a rotina usualmente imposta aos ameríndios que concordavam em viver sob a tutela da Companhia de Jesus em uma redução
Além disso, o emprego de música na catequese oferecia a vantagem de funcionar como propaganda para atrair indígenas que hesitavam em abandonar seu estilo de vida tradicional - foi o que disse o padre Antonio Ruiz de Montoya (¹) no Século XVII:
"[Os índios] são muito aficionados à música, que os padres ensinam aos filhos dos caciques, assim como a ler e escrever; oficiam as missas com aparato de música de dois ou três coros; esmeram-se em tocar instrumentos [...], que são uma grande ajuda em fazer brotar nos gentios o desejo de admitir-nos em suas terras, para que seus filhos também sejam ensinados." (²)

(1) Nascido em Lima, filho de um espanhol, foi admitido na Companhia de Jesus em 1606. Dedicou a vida à catequese e defesa dos ameríndios contra a escravização imposta pelos chamados "conquistadores" da América.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 31 de maio de 2018

A pobreza dos missionários que catequizavam indígenas em reduções na América do Sul

Para muitos missionários que se dedicavam à catequese de indígenas nos Séculos XVI e XVII, a vinda à América do Sul era uma viagem sem volta. Longe ficavam família, amigos, possibilidade de uma carreira de sucesso. À frente, o desconhecido. Para uns poucos, vida longa e a satisfação de ver o crescimento de uma obra que julgavam correta e mesmo indispensável (¹). Para a maioria, a pobreza extrema, os confrontos com indígenas e colonizadores, as doenças tropicais e, provavelmente, a morte precoce. Valia o mesmo para missionários nascidos na América.
Não havia a expectativa da chegada regular de suprimentos, até porque as viagens, nesse tempo, eram difíceis. Portanto, para o sustento diário, era preciso contar com o trabalho das próprias mãos e com a ajuda dos índios catecúmenos. Qualquer coisa diferente disso era vista como excepcional. Combatendo a escravização de indígenas, os missionários eram considerados por colonizadores como um entrave aos seus projetos de enriquecimento rápido, de modo que, entre a gente de origem europeia que se estabelecia na América, apenas os mais devotos estavam dispostos a cooperar com o sustento dos padres para a manutenção de reduções. 
Se quisermos saber como viviam os missionários nas reduções do Guayrá, devemos ir aos documentos deixados pelos próprios padres. A título de exemplo, veremos aqui o relato feito pelo jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (²), por ocasião de uma visita aos padres José Cataldino e Simon Masseta na Redução de Nossa Senhora de Loreto (³):
"Cheguei à redução de Nossa Senhora de Loreto desejando ver aqueles dois homens notáveis, o padre José e o padre Simon. Encontrei-os pobríssimos, mas ricos de alegria. Por causa dos remendos, não era possível distinguir o tecido principal de suas roupas. Os sapatos, que haviam trazido do Paraguai, estavam remendados com pedaços de pano que cortavam da borda das sotainas." (⁴)
Isto quanto ao vestuário. Quanto à alimentação:
"O principal sustento eram batatas, bananas, raízes de mandioca [...]. A necessidade nos obrigou a semear com nossas mãos o trigo necessário às hóstias." (⁵)
A vida na América do Sul, nesses tempos, não era, portanto, muito parecida com tirar férias no paraíso. Se podemos crer no testemunho de Montoya, outro jesuíta, o padre Martin Urtazun, também missionário, veio a morrer, algum tempo depois, em consequência de severa desnutrição. Era já o Século XVII. No centênio precedente, entre os colonizadores que acompanharam D. Pedro de Mendoza na fundação de Buenos Aires, muitos morreram de fome. Os jesuítas talvez morressem com os olhos na eternidade. Para os "conquistadores" da América, porém, os reveses da vida colonial eram uma amarga decepção.

(1) Aqui, leitores, analisamos os fatos de que temos conhecimento através de documentos históricos. Não é intenção deste blog estabelecer juízo de valor em relação à catequese de indígenas.
(2) Montoya, filho de um espanhol de Sevilha, nasceu em Lima em 1582 e foi admitido na Companhia de Jesus em 1606. Passou a maior parte da vida envolvido na catequese e defesa dos indígenas contra a escravização perpetrada tanto por colonizadores espanhóis do Paraguai como por bandeirantes de São Paulo.
(3) Reputada por alguns como a mais antiga redução estabelecida no Guayrá; outros entendem que a primeira foi a de Santo Inácio.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639.
(5) Ibid. Os trechos citados de Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Tudo pelo ouro da América

A comparação da América ao "Paraíso" ou "Jardim do Éden" é recorrente nos relatos dos primeiros exploradores e colonizadores europeus que chegaram ao Continente. Em muito pouco tempo, porém, o paraíso seria transformado em inferno, à medida que gente desesperada por ouro e dotada de total ausência dos mais elementares sentimentos de humanidade percorresse, primeiro as ilhas, depois a "terra firme", em uma autêntica marcha de destruição. Frei Bartolomé de Las Casas (¹), dominicano que gastou a vida em defesa dos povos indígenas, assim explicou o comportamento brutal dos chamados "conquistadores da América":
"A causa por que cristãos têm matado e destruído tantas e tão infinito número de almas [os indígenas] é somente por ter como fim último o ouro, e o encher-se de riquezas em pouco tempo, e subir a estados muito altos e desproporcionais às suas pessoas, convém saber, pela cobiça insaciável e ambição que têm [...]." (²)
Segundo Las Casas, os ataques aos índios eram feitos à noite, e, quando os conquistadores espanhóis estavam a cerca de meia légua de uma povoação, para formalmente assumir um verniz de "catequese", proclamavam:
"Caciques e índios desta terra firme de tal povoado, vos fazermos saber que há um Deus, e um papa e um rei de Castela, que é senhor destas terras: vinde logo prestar obediência, etc., e em caso contrário, sabei que vos faremos guerra, mataremos, cativaremos, etc." (³)
Para completar o trabalho, vinha, sem qualquer vestígio de piedade, o ataque à população nativa, que sem saber do que se passava, ainda dormia:
"De madrugada, enquanto os inocentes [indígenas] dormiam com suas mulheres e filhos, atacavam a povoação, pondo fogo às casas que geralmente eram de palha, sendo queimados vivos os meninos, as mulheres e muitos outros, antes que acordassem; matavam a quem queriam e aos que capturavam vivos torturavam até a morte para que contassem de outras povoações em que havia ouro ou dissessem onde estava mais ouro, além do que haviam encontrado; e os que restavam marcavam a ferro como escravos. Em seguida, tendo apagado o fogo, iam buscar o ouro que havia nas casas." (⁴)
Podem imaginar os leitores quanta catequese se fazia por esse método. É óbvio que tudo não passava de uma encenação demasiado infame, que precedia invariavelmente mais um episódio de rematada crueldade, cujo único fim era arrancar o ouro que fosse possível encontrar entre a população nativa. Há quem diga que a tal "proclamação", ordenada pelos reis de Espanha, servia para acalmar consciências. Ora, talvez fosse essa a ideia quanto aos monarcas distantes, mas que dizer dos indivíduos que a ferro e fogo arrasaram civilizações inteiras em poucas décadas? Que "consciências" eram essas?
Surpreendam-se, leitores: a matança era feita sob o pretexto de que havia índios demais, sendo a colonização impossível se a população não diminuísse! 
Não faltou quem acusasse Las Casas de exagero, tanto em seus dias como nos séculos posteriores. Mas os próprios relatos feitos por alguns dos conquistadores, as cartas escritas por descobridores, nas quais diziam o que haviam encontrado, e a enorme diferença entre o que então se via na América e aquilo que hoje se vê, são evidências de que o zeloso dominicano que se empenhava por defender os povos indígenas não estava mentindo, até porque, se estivesse, teriam os conquistadores, na época, sobeja oportunidade de demonstrar a própria inocência, coisa que jamais fizeram.
Las Casas, dentro de uma perspectiva compatível com sua posição de clérigo, ainda afirmaria:
"Estas são pois as obras dos espanhóis que vão às Índias [América], que verdadeiramente muitas e infinitas vezes por cobiça que têm de ouro têm vendido e vendem hoje, neste dia, e negam e renegam a Jesus Cristo." (⁵)
Mas era quase inútil escrever ou falar. O volume de ouro enviado à Europa, para particulares ou para o tesouro real, explicava, silenciosamente, o pouco interesse em reprimir tanta maldade.

(1) A primeira edição da Brevísima Relación de la Destrucción de las Índias foi publicada em 1552; havia sido escrita dez anos antes, com a finalidade de apresentar ao monarca espanhol os absurdos perpetrados pelos conquistadores. 
As citações da obra que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) LAS CASAS, Bartolomé de. Brevísima Relación de la Destrucción de las Índias. Philadelphia: Juan F. Hurtel, 1821, p. 18.
(3) Ibid., p. 41.
(4) Ibid., pp. 41 e 42.
(5) Ibid., p. 87.


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