domingo, 25 de agosto de 2013

Causas do Atraso da Agricultura Brasileira no Século XIX - Parte 3

Refletindo Sobre o Prejuízo Gerado Pela Escravidão

Escravos trabalhando em plantação,
de acordo com gravura de Rugendas (***)

A escravidão era brutal, era desumana, mas considerações desta ordem dificilmente levariam os senhores de escravos a desistirem de seus "direitos de propriedade". Tornava-se necessário convencê-los de que o escravismo era prejudicial aos seus interesses econômicos, o que vinha a ser uma árdua tarefa. A maioria dos grandes latifundiários brasileiros, ao menos durante a primeira metade do Século XIX, estava longe de ter a instrução necessária para compreender o raciocínio que poderia induzi-los à revolução nas práticas agrícolas de que a lavoura brasileira tanto necessitava.
Como argumentar de forma simples o suficiente para fazê-los entender que a escravidão, em última análise, dava prejuízo?
Uma tentativa nesse sentido apareceu na primeira edição do jornal O Agricultor Brasileiro, datada de novembro de 1853. Dizia:
"Suponha-se que desde o ano de 1822 tem morrido em cada província do Império cinco escravos por dia, e que cada um deles não tem custado mais de 500 mil réis, e veremos que cada uma tem perdido
por dia ....................................... 2 contos e 500 mil réis
por ano ...................................... 912 contos e 500 mil réis
Portanto as dezoito províncias do Império têm perdido anualmente a quantia de 16.425 contos de réis, quantia esta que, calculada desde a época da nossa emancipação política, isto é, em trinta e um anos, se eleva à soma espantosa de 509.175 contos de réis, equivalente a um milhão e dezoito mil, trezentos e cinquenta escravos." (*)
Assim posta, a questão talvez fizesse pensar, não é mesmo? Mas havia mais:
"Se esta quantia houvesse sido empregada de outro modo, ao juro de 6% a.a., produziria atualmente a renda anual de 30.550 contos e 500 mil réis." (**)
Os leitores talvez se perguntem se o argumento deu, logo, algum resultado prático. Ora, basta lembrar, neste sentido, que a escravidão, como se sabe, perdurou no Brasil até 1888.

 
(*) O Agricultor Brasileiro, Ano I, nº 1, p. 6.
O Agricultor Brasileiro era um jornal voltado para a discussão de questões relacionadas à lavoura, como pretexto para divulgar máquinas e equipamentos agrícolas vendidos pela Casa Nathaniel Sands & C., instalada no Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, nº 20, que editava a publicação.
(**) Idem.
(***) O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para facilitar a visualização.


Para ler mais sobre este assunto, acesse:

Um comentário:

  1. A mensagem demorou para ser entendida. Mas esse jornalista entendeu o caminho: não falar à razão filosófica, tampouco ao coração, não usar argumentos humanistas, antes falar ao bolso do agricultor...
    As mentalidades custam a mudar.
    Um abraço desde Portugal
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    ResponderExcluir

Democraticamente, comentários e debates construtivos serão bem-recebidos. Participe!
Devido à natureza dos assuntos tratados neste blog, todos os comentários passarão, necessariamente, por moderação, antes que sejam publicados. Comentários de caráter preconceituoso, racista, sexista, etc. não serão aceitos. Entretanto, a discussão inteligente de ideias será sempre estimulada.