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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Onças-pretas

Onça-preta
Famosas pela ferocidade que se lhes atribuiu desde o início da colonização, as onças foram perseguidas porque capturavam animais de criação, porque histórias reais (algumas) e lendas (muitas) faziam delas terríveis predadoras de humanos e por causa da beleza da pele, que se julgava ser apreciada com maior segurança se o animal de origem estivesse morto.
Que dizer, no entanto, das onças-pretas? Félix de Azara, espanhol que esteve na América do Sul encarregado da demarcação dos limites entre o que se pretendia pertencer à Espanha e a Portugal, fez algumas observações interessantes sobre o que chamou de "tigre negro". Explique-se, portanto, que, nesse tempo, as onças-pintadas eram chamadas muitas vezes de "tigres", enquanto as onças-pardas" eram chamadas "leões"... A confusão começou no início da colonização, quando poucos europeus já haviam visto tigres e leões de verdade, mas haviam ouvido falar deles e não foi preciso muito esforço, portanto, para que imaginassem ver feras asiáticas ou africanas na América. Absurda, como seja, a nomenclatura incorreta demorou a desaparecer. Mas voltemos a Azara e ao que disse sobre o animal que aqui nos interessa:
Onça-preta com muuuuuito sono
"Meia légua mais além o aguaceiro nos obrigou a entrar no rancho de um português, onde comemos um assado que o dono nos presenteou, e me informou ter matado nesse lugar um tigre negro. Já havia ouvido dom José Antonio Zabala dizer que tivera a pele de outro tigre igual, e como não tenho ouvido falar de outros, creio que os ditos tigres não são de espécie diferente dos comuns daqui, mas indivíduos a quem a mesma causa que faz outros tigres, animais e homens brancos, converteu-os em negros, isto é, creio que a causa que produz indivíduos albinos [...] ou os negros em alvos é a que dá a cor negra a alguns destes tigres." (¹)
Em essência, Azara estava certo. A onça-preta é uma variação melânica da onça-pintada (Panthera onca), e não uma espécie distinta. Quando observada atentamente, a belíssima pele da onça-preta revela ter manchas, especialmente visíveis quando sobre ela incidem os raios solares (²).  Bebês onças-pretas só vêm à existência se ao menos um dos progenitores também apresentar o melanismo, e, por isso, não são muito comuns. 

(1) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 193. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Basta observar as fotos. A onça-preta está entre os seres vivos mais bonitos que conheço. 


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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Uma anta dentro de casa

Não foram muitos os cientistas e artistas (pintores e/ou desenhistas) que viajaram pela América do Sul nos Séculos XVI, XVII e XVIII, um fato que se explica pela dificuldade e risco que corriam os suficientemente atrevidos que ousavam entrar em terras ainda desconhecidas, para investigar e registrar fauna e flora muito diferentes das que conheciam no respectivo lugar de origem. As compensações, reconheçamos, eram poucas, diante da possibilidade de alguma doença e morte longe de casa, sem falar nos confrontos eventuais com os ameríndios que, cientes já das intenções pouco honestas de muitos colonizadores, nem sempre podiam diferenciar, à primeira vista, um pesquisador de um caçador de escravos (¹).
No Século XIX, contudo, o número de viajantes estrangeiros dispostos a percorrer a América do Sul aumentou bastante. No caso do Brasil, especificamente, deve-se notar que o governo joanino incentivou o trabalho, tanto dos que pesquisavam a natureza, como daqueles que registravam-na com lápis, tinta, e outros materiais. As obras que deixaram são uma fonte preciosa de informações, até porque, ocupados com animais e plantas, muitas vezes tratavam, também, com palavras e imagens, da vida social no Brasil da época. Não obstante, eram alvo da curiosidade popular, causando certa estranheza por sua mania de colecionar borboletas e outros insetos, reunir folhas e flores, além, é claro, de dissecar e empalhar uma variedade de animais. Quase todos eram vistos escrevendo muito, e surpreendiam, por esse hábito, a população local, da qual a maioria não tinha muita intimidade com o alfabeto. 

Azara e a tentativa de domesticar as antas


Em fins do Século XVIII um enviado da Espanha chegou à América do Sul para liderar a Comissão de Limites que, juntamente com representantes de Portugal, deveria fazer a demarcação de fronteiras. Ora, esse espanhol, mesmo não sendo por formação um cientista, deixou registros significativos, em razão das viagens e pesquisas que realizou entre 1789 e 1801, principalmente na Argentina e no Paraguai. Seu nome? Félix de Azara. Como parte da fauna por ele estudada nesses países é compartilhada com o Brasil, seus trabalhos também são significativos para este lado da fronteira. Deve-se notar, contudo, que foi pensando em leitores europeus que Azara escreveu, tanto para oferecer informação confiável como para corrigir erros grosseiros sobre a fauna e a flora do Novo Mundo que corriam até nos círculos intelectuais de seu tempo, embora seus próprios escritos não estivessem livres de equívocos. Tanto quanto lhe era possível, procurava observar as coisas por si mesmo, e então escrever, evitando fiar-se apenas de relatos, e nisso consiste uma de suas maiores virtudes.
Falando do filhote da anta (Tapirus terrestris), animal que no Brasil todo mundo conhece, afirmou: "Capturado jovem, se domestica desde o primeiro dia: anda por toda a casa quase sem sair, até depois de adulto [...], e quando se deseja retirá-lo de um lugar contra sua vontade, é quase preciso arrastá-lo." (²) 
Teria Félix de Azara hospedado alguma anta ou filhote de anta? Iria até esse ponto sua curiosidade científica? Nos anos que permaneceu na América do Sul enfrentou, em suas muitas viagens, dificuldades ocasionais em encontrar moradia ou hospedagem adequada, e não é impossível que, observando como viviam os ameríndios, tenha, algumas vezes, concordado em compartilhar a residência com alguns dos animais que desejava estudar. 

Anta adulta

(1) Isso quando uma coisa e outra não se encontravam na mesma pessoa.
(2) AZARA, Félix de. Apuntamientos Para la Historia Natural de los Quadrúpedos del Paraguay y Rio de La Plata, Vol. 1. Madrid: Imprenta de la Viuda de Ibarra, 1849, p. 1.  O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Caçando moscas

Se um sujeito é um tanto desocupado ou desatento, diz-se que anda "caçando moscas". Vou provar a vocês, leitores, que nem todo caçador de moscas - literalmente - tem falta do que fazer, voluntariamente ou não.
Foi no Século XVIII, quando Félix de Azara (¹), mandado pela Coroa espanhola à América para trabalhos de demarcação de fronteiras, resolveu fazer uma viagem entre Buenos Aires e Asunción. Ia a cavalo, sempre que possível, em pelota ou canoa, quando necessário. À altura de Corrientes, tomou conhecimento da existência de um senhor que contava já noventa e três anos. Contar, aqui, não é acaso, e nem força de expressão, conforme vocês, leitores, já vão descobrir.
O que haveria de especial com o tal homem? Bem, em idade avançada, era de todo independente, preparando a própria comida, além de ir, por si mesmo, buscar água e lenha. Não é por isso, contudo, que está hoje sendo apresentado aqui. Sobre ele, disse Félix de Azara: "[...] Se entretém com três livrinhos religiosos, em engordar galinhas, que, quando quer, abate com arco e bodoque, e em matar moscas e contá-las. No ano passado matou [...] nove mil setecentas e quarenta e nove." (²)
É provável que tão estrita contabilidade consumisse parte do tempo de nosso ancião. Ainda por relato de Azara, sabe-se que seus netos moravam nas proximidades. 

(1) Félix de Azara empenhou-se ativamente no estudo da natureza dos lugares da América por onde passou, e deixou escritos que são importantes para o conhecimento das condições da época.
(2) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 47. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Método cruel de caça às onças usado na América do Sul

Onças, fossem pardas ou pintadas, despertaram a curiosidade dos primeiros exploradores europeus que chegaram à América do Sul (¹). Como muitos deles nunca tinham visto leões e tigres de verdade, acharam que a onça-parda (Puma concolor) era leão, e a pintada (Panthera onca), tigre. Estavam errados, é claro, mas isso não muda o fato de que tiveram medo delas. Lindas e ferozes, as onças eventualmente atacavam pessoas e animais domésticos. Não demorou até que fossem impiedosamente caçadas, de um modo diferente do método empregado por indígenas.
Há uma descrição interessante da caça às onças feita por Félix de Azara, espanhol que viajou pela América do Sul no Século XVIII. Segundo ele, era desta maneira extremamente cruel que estancieiros, aborrecidos com ataques de onças ao gado na Argentina e no Paraguai, abatiam as felinas:
"O modo de caçá-las é perseguindo-as com dois homens montados em bons cavalos. Ao encontrar árvore ou macega a onça se senta, e um dos cavaleiros investe contra ela para que fuja [...], enquanto o outro atira o laço [e, estando presa], corre em disparada, até que veja que [a onça] já está morta, e [se não], o outro prende-a também com o laço, puxando, um de cada lado, até matá-la." (²)
É razoável supor que método semelhante de caça fosse, ao menos ocasionalmente, empregado também no Brasil. Justifica-se essa hipótese por uma gravura de Debret, na qual uma onça, presa por laços, parece ser puxada por vários cavalos. Vejam abaixo, leitores, e tirem suas conclusões.

Caça à onça, conforme Debret (³)

De acordo com Debret (⁴), nos campos do atual Estado do Paraná onças eram caçadas a laço e, quando capturadas, abatidas por um caçador pedestre.

(1) Podem ser encontradas também em outras áreas do Continente Americano.
(2) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 25. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Cf. DEBRET, J. B. Op. cit., p. 134.


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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Nuvens de gafanhotos na América do Sul

"sin autem resistis et non vis dimittere eum ecce ego inducam cras lucustam in fines tuos quae operiat superfieciem terrae nec quicquam eius appareat sed comedatur quod residuum fuit grandini conrodet enim omnia ligna quae germinant in agris"
Exodus X, 4 - 5

As recentes nuvens de gafanhotos na América do Sul fizeram muita gente pensar nas famosas "pragas do Egito". Que mais faltaria para coroar o acervo de catástrofes de 2020? Falou-se nos exércitos de insetos que encobriam a luz do Sol como consequência do desequilíbrio ambiental que assola este sofrido planeta. Ora, meus leitores, vou mostrar a vocês que, em se tratando de bandos de incontáveis ortópteros destruidores, não há novidade alguma nesta parte do Continente Americano e, portanto, não se pode atribuir o aparecimento de nuvens de gafanhotos na atualidade exclusivamente à relação inadequada entre a humanidade e o meio ambiente. Pragas dessa natureza já devastavam a América do Sul há quase quinhentos anos, pelo menos. Não temos relatos escritos que comprovem o fenômeno anteriormente à colonização; não há, contudo, razão para duvidar que ameríndios já o enfrentassem. 
Ulrich Schmidel (¹), um mercenário alemão que veio à América do Sul no Século XVI com Pedro de Mendoza e esteve na Argentina e no Paraguai, registrou a praga em várias localidades e afirmou que gafanhotos, devorando as plantações, chegavam a deixar indígenas sem quase nada para comer (²) - péssimo para Schmidel e seus companheiros, habituados a ir de aldeia em aldeia pilhando o fruto do trabalho da população nativa. 
Mais tarde, Félix de Azara, que esteve na América Espanhola entre 1789 e 1801 (³), tendo maior conhecimento de ciências naturais e, por conseguinte, maior interesse pelo assunto, depois de descrever a aparência dos gafanhotos em suas várias fases de desenvolvimento, explicou como se comportavam as "nuvens" que podiam ser vistas principalmente no Paraguai: "[...] elas cobrem às vezes extensões consideráveis de terreno, a tal ponto que andei duas léguas marchando continuamente sobre esses insetos. Não cessam de devorar tudo, até que se sentem bastante fortes para subir nas árvores e matas que cobrem inteiramente [...]. Enfim, quando estes gafanhotos acham alguma noite favorável [...], sobretudo clara pela luz da Lua, partem, sem que se saiba para onde vão [...]" (⁴).
Observador cuidadoso, Azara ainda registrou um detalhe pitoresco, fruto da rivalidade entre moradores de Buenos Aires, na Argentina, e colonizadores do Paraguai: "Esta praga é rara em Buenos Aires; os habitantes dessa cidade zombam dos [moradores] do Paraguai, dizendo-lhes que se eles são incomodados com tanta frequência pelo gafanhoto, é castigo por sua má conduta para com um de seus bispos. [...]" (⁵).
Não, meus leitores, o desmatamento, os incêndios florestais, o uso inadequado do solo, ruins como são, não inventaram o fenômeno das nuvens da gafanhotos na América do Sul. Notem que elas já existiam muito antes que esses transtornos ambientais atingissem grandes dimensões, mas podem, talvez, ter-se agravado com uma ajudinha da humanidade, de quem se espera, agora, bom senso no manejo do problema.

(1) A primeira edição de seus escritos foi publicada na Alemanha em 1567. Seguiu-se aqui a edição de 1599.
(2) Cf. SCHMIDEL, Ulrich. Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart. Nürnberg: Levinus Hulsius, 1599 p. 78.
(3) Foi enviado pelo governo espanhol para trabalhar na demarcação de limites entre terras pertencentes à Espanha e Portugal.
(4) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 115. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Gente que não trabalhava para não perder a nobreza

Acontecia no Brasil Colonial, acontecia na América Espanhola: todo mundo que se dizia nobre, por ser, de fato, ou por se achar assim, fugia desesperadamente do trabalho, para não perder a (suposta) nobreza. A coisa era tão absurda, que havia quem preferisse passar fome, às escondidas, a assumir uma ocupação manual. As aparências valiam mais. 
Talvez os leitores considerem isso uma insanidade. Alguns testemunhos da época serão suficientes, espero, para convencê-los de quão autêntica era essa horrorosa situação. 
Primeiro, no Brasil, e, mais especificamente, em São Luís - MA. São palavras do padre Antônio Vieira, em carta dirigida ao provincial jesuíta, com data de 22 de maio de 1653: "Na portaria [do Colégio Jesuíta] não damos a esmola ordinária, porque não há nesta cidade pobres que peçam de porta em porta." (¹) Excelente, não? Vejam o que vem a seguir:
"[...] Para socorrermos no que pudéssemos às pobrezas ocultas, e lhes buscarmos algumas esmolas, pedimos ao pároco nos desse uma lista das pessoas necessitadas, mas não teve efeito esta diligência, porque mais fácil é padecerem a pobreza que confessá-la.
Contudo nos confessionários, à volta de outras fraquezas, se manifestam também estas, e por esta via socorremos algumas necessidades, em que tanto se acudiu aos corpos como às almas." (²)
Não se imagine que enxergar o trabalho como um aviltamento da dignidade dos homens livres foi fenômeno restrito aos tempos coloniais. Vejam o que disse um autor abolicionista, Frederico L. César Burlamaqui, em obra publicada durante o Período Regencial, em que ressaltou o papel do escravismo em levar a sociedade a olhar para o trabalho como uma humilhação:
"Entre nós um homem cessa de trabalhar logo que consegue comprar um ou dois escravos. Não somente os trabalhos são desprezados pelas classes abastadas, como mesmo o mais simples artista só exerce o seu ofício pelas mãos de seus escravos, se os possui. Não se pense que isto só tem lugar a respeito da raça livre [sic], nascida no país; tal é o contágio e a força do exemplo, que um europeu [...], fosse ele um malfeitor ou exercesse no seu país a mais ignóbil profissão, logo que possui escravos, crê imediatamente que trabalhando por suas mãos, vilipendia a sua nobreza, e teme o desprezo." (³)
Não há tempo para estarrecimento. Passemos à América espanhola.
O padre Antonio Ruiz de Montoya, fervoroso defensor dos povos indígenas, observou, em relação aos colonizadores qualificados em ofícios mecânicos que viviam no Paraguai no Século XVII:
"[...] Há oficiais de todos os ofícios mecânicos e deles usam, mas ninguém se diz oficial, por terem aprendido a profissão para usarem-na em casa, e, mesmo que um sapateiro faça sapatos publicamente, não quer ser considerado sapateiro, alegando que por inteligência própria alcançou essa habilidade, querendo com tal metafísica [sic], de um lado socorrer à necessidade, e, por outro, conservar a nobreza que herdou de seus antepassados, que toda foi gente nobre." (⁴)
Vejam, meus leitores, que Montoya tinha senso de humor. Vamos em frente, com o que disse Félix de Azara, espanhol que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, liderando uma comissão enviada para demarcar limites entre terras pertencentes a Portugal e à Espanha: 
"[...] o espírito cavalheiresco, que desdenha e mesmo despreza toda espécie de trabalho, a falta de instrução, a nulidade dos governadores e a inacreditável imperfeição dos instrumentos contribuem para tornar quase impossível toda espécie de melhora." (⁵)
Depois, o mesmo Azara ainda observaria, a respeito dos filhos de espanhóis que nasciam na América:
"Apenas são nascidos ditos espanhóis, são entregues a amas de leite [...], que cuidam deles ordinariamente até a idade de seis ou mais anos. Durante todo este tempo, o menino nada pode ver que mereça ser imitado. Agregue-se a isto um mau princípio recebido [...] com maior força que na Espanha, isto é, que a nobreza e a generosidade consistem em destruir e não em produzir alguma coisa; a repugnância ao trabalho, que é mais forte na América que em qualquer outro lugar, é maior nos meninos na situação mencionada. Convencidos de tais princípios [...], mesmo os filhos de um simples marinheiro desdenham toda espécie de trabalho e creem que se rebaixam em seguir a profissão de seus pais [...], e muitos não gostam do comércio, que consideram demasiado penoso. [...]" (⁶)
O escravismo colonial, e mesmo o posterior (no caso do Brasil), favoreceu o desprezo pelo trabalho. Isso é um fato. Suas consequências - um pouco de observação bastará - persistem, em parte, até hoje.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 329.
(2)  Ibid.
(3) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César. Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica. Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 24.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 91.
(6) Ibid., p. 275. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 4 de junho de 2019

A boleadeira usada por alguns povos indígenas da América do Sul

Usada tanto como arma em combate como para caçar, a boleadeira era já conhecida de indígenas da América do Sul antes da chegada de colonizadores. Mais tarde, depois da introdução do gado de origem europeia, passou a ser usada também na captura desses animais, e a própria confecção da arma veio a incluir, sincreticamente, o emprego de materiais somente disponíveis a partir da colonização, que vocês, leitores, não terão dificuldade em identificar nesta explicação dada pelo espanhol Félix de Azara (¹), ao dizer que havia constatado o uso de boleadeiras de dois tipos (²):
"Estas [boleadeiras] são de duas classes: a primeira se compõe de três pedras redondas do tamanho de um punho, forradas de couro de vaca ou de cavalo e atadas a um centro comum com cordas de couro de uma polegada de espessura e comprimento de três pés. Eles (³) seguram na mão a menor das três bolas e, fazendo as outras girarem com velocidade por cima da cabeça, lançam as três a uma distância de até cem passos; estas bolas se enredam e cruzam de tal modo nas pernas, pescoço ou corpo de um animal ou homem, que é impossível escapar." (⁴)
Perceberam a referência ao emprego de couro de vaca ou de cavalo? Tal coisa somente seria possível a partir da introdução de bovinos e equinos na América do Sul por colonizadores europeus. O outro tipo de boleadeira descrito por Azara, como ele próprio observou, era chamado de "bola perdida":
"A outra classe de bola se reduz a uma só pedra, que eles (⁵) chamam de bola perdida: ela tem o mesmo tamanho das outras, mas quando é feita de cobre ou chumbo (⁶), como acontece muitas vezes, ela é muito menor. É forrada de couro e atada a uma corda do mesmo material com cerca de três pés de comprimento. Para usá-la, seguram a ponta da corda e fazem a bola girar como uma funda, que disparam oportunamente, dando um terrível golpe a cinquenta passos, e mesmo a maior distância, pois eles fazem o lançamento a cavalo, correndo a toda velocidade." (⁷)
É quase desnecessário observar que o emprego de bolas de metal, bem como o lançamento a cavalo são mostras evidentes da aquisição de elementos da cultura e tecnologia dos colonizadores. Para que ninguém incorresse no erro de julgar que boleadeiras eram armas quase inofensivas, Azara acrescentou uma amostra prática do estrago que podiam fazer:
"No tempo da conquista, com esta arma eles [os índios pampas] mataram em uma batalha a Dom Diego de Mendoza, irmão do fundador de Buenos Aires, e outros nove dentre os principais capitães que estavam a cavalo, além de muitos outros espanhóis. Embrulhando bolas perdidas em palha acesa, conseguiram queimar muitas casas de Buenos Aires, e até alguns barcos." (⁸)
Os tempos conflituosos da colonização passaram. As boleadeiras, contudo, permaneceram, usadas na caça por gaúchos, quer de origem indígena ou europeia, durante os dias de cuidado do gado nos campos do sul do Continente.

(1) Félix de Azara foi enviado à América do Sul como comandante da Comissão de Limites Espanhola, cargo que desempenhou entre 1789 e 1801.  
(2) Azara menciona boleadeiras com uma e com três bolas, mas imagens antigas mostram o emprego, também, de boleadeiras com duas bolas.
(3) Referia-se aos índios pampas.
(4) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 188. Todos os trechos desta obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Nova referência aos índios pampas.
(6) Outra evidência do contato com a tecnologia dos colonizadores.
(7) AZARA, Félix de. Op. cit., p. 188.
(8) Ibid.


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terça-feira, 2 de abril de 2019

Deveres das mulheres paiaguás

Entre a maioria dos povos indígenas da América do Sul predominava aquilo que tecnicamente recebe o nome de divisão sexual do trabalho, ou seja, havia tarefas destinadas a homens e a mulheres, em exclusividade (ainda que, eventualmente, ocorresse alguma exceção). Caça e pesca, por exemplo, eram, como regra, ocupações masculinas, enquanto que trabalhos em cerâmica e preparação de alimentos cabiam às mulheres. 
Se podemos crer no que escreveu Félix de Azara, que é, quase sempre, bastante confiável, os paiaguás podem ser também listados entre os que dividiam as obrigações quotidianas desse modo. Para refrescar a memória dos leitores, recordo que os monçoeiros paulistas que iam ao sertão no Século XVIII faziam referência aos paiaguás como "o gentio canoeiro", e tiveram, com eles, confrontos memoráveis (¹). Mas, como o assunto aqui está ligado aos deveres de homens e mulheres desse grupo indígena, passemos ao que escreveu Azara:
"É dever das mulheres fazer esteiras, construir e organizar as cabanas, confeccionar as mantas e as panelas e pratos de barro. Estes pratos estão cobertos por desenhos, porém não são devidamente cozidos. Elas [as mulheres] devem cozinhar os legumes e às vezes o pescado, embora apenas esporadicamente, porque os maridos é que vão buscar lenha e preparar a carne e o pescado." (²)
Parece evidente que reservar aos homens a caça e a pesca era um modo de mantê-los ativos e fisicamente aptos para a guerra. Como negar, entretanto, que a quantidade de tarefas atribuídas às mulheres era muito maior que a destinada a indivíduos do sexo masculino? O relato de Félix de Azara trazia, ainda, esta informação: "Eles [os paiaguás] comem de tudo, mas as mulheres jamais provam carne, porque dizem que lhes seria prejudicial" (³). Azara não explicou o motivo.

(1) Os monçoeiros do Século XVIII davam aos paiaguás o nome de "gentio canoeiro", em razão da enorme habilidade desses índios na natação e em manobrar canoas; os guaicurus, por sua vez, eram chamados "gentio cavaleiro". Paiaguás e guaicurus eram, sem dúvida, os indígenas mais temidos pelos que participavam das monções cuiabanas.
(2)  AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 218.
(3) Ibid. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 5 de março de 2019

Império das formigas

Formigas da América do sul e seus hábitos curiosos


A formiga era "o rei do Brasil" nos tempos coloniais, como bem sabem os leitores deste blog. Digo, porém, que, a seu modo, as muitas espécies de formigas eram bem mais que um reino: constituíam verdadeiro império, e, insolentes, faziam questão de ignorar restrições de fronteira, fato tanto mais grave porque, nesse tempo, portugueses e espanhóis querelavam por traçar limites no que deveria ser possessão de seus respectivos monarcas. 
Não vai aqui nenhuma troça indevida: posso comprovar o que acabo de dizer com as palavras de Félix de Azara, que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, na posição de comandante da Comissão de Limites enviada pela Espanha para, ao lado de representantes de Portugal, demarcar as terras que deveriam pertencer a uma e outra monarquia. Tarefa ingrata, essa...
Sem mais delongas, vamos às formigas de Azara (¹). Tratando de uma espécie a que denominou araraá, que, como a maioria das formigas, era apaixonada por doces (²), escreveu: "Há casas em que é impossível conservar açúcar ou melado [de cana]. Para preservar ditos objetos, se veem obrigados a pô-los sobre uma mesa cujos pés estão dentro de cântaros cheios de água." (³) 
Prossigamos, que Azara era bom contador de histórias. Outra espécie, chamada por ele tahy-ré, existente no Paraguai, era capaz de façanhas ainda mais portentosas: "A espécie chamada tahy-ré, que quer dizer formiga fedorenta, porque quando esmagada cheira muito mal, não tem habitação conhecida e não se sabe qual seja seu alimento habitual, porque só é vista quando sai. No Paraguai [...] ela costuma sair quase sempre à noite, dois dias antes de alguma mudança climática significativa, e se espalha, cobrindo o chão, as paredes e o teto dos quartos, por grandes que sejam. Consomem em um instante as aranhas, grilos, besouros e quantos insetos encontram, não deixando baú, canto ou fenda que não visitem. Se essas formigas encontram uma ratazana, esta se põe a correr como louca e, se não consegue sair do quarto (⁴), logo é coberta pelas formigas, que [...] a devoram. Afirma-se que essas formigas fazem a mesma coisa com as cobras. O fato é que elas obrigam até os homens a abandonar cama e quarto, correndo em camisa para fora. [...]" (⁵). Podem imaginar a cena, leitores?
Como já demos a Azara a oportunidade de falar das formigas; vamos, então aos formigueiros, ou pelo menos, a um formigueiro, mas não a um qualquer: "Uma mula que me pertencia", disse ele, "passando por um destes formigueiros que, devido a chuvas abundantes, havia amolecido, afundou, de modo que a vinte passos de distância não se via dela mais que a cabeça, embora estivesse em pé. Tal é a profundidade do túnel formado por esses formigueiros". (⁶)
É hora de concluir, assegurando, de passagem, que Azara era um homem sério, não dado a incluir lorotas em seus escritos. Qual seria a altura da pobre mula? Espero que nenhum dos leitores tenha pesadelos com formigas!

(1) Ainda que não fosse naturalista, Félix de Azara procurou observar tudo o que podia quanto aos seres vivos da América do Sul; seus escritos, embora não isentos de erros e mesmo de alguns preconceitos, têm a virtude impagável de ter, como autor, uma testemunha ocular. 
(2) Algum leitor ousa contestar?
(3) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 101. Todos os trechos aqui citados desta obra foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Parece que algumas residências coloniais tinham uma população que ia além dos seres humanos.
(5) AZARA, Félix de. Op. cit. p. 102.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Como eram os arcos usados por meninos guaranis

A educação ministrada às crianças indígenas era essencialmente prática, conforme observaram aqueles que tiveram oportunidade de conviver com ameríndios nos primeiros tempos da colonização. Assim, desde cedo os pequenos eram estimulados a adquirir os saberes que garantiam a subsistência de sua comunidade e, nesse cenário, a imitação do que faziam homens e mulheres adultos era importante. Visto que a divisão sexual do trabalho era a regra, às meninas ensinava-se o preparo de alimentos, confecção de redes, cestaria, arte cerâmica e, se o grupo desenvolvia alguma atividade agrícola, deviam aprender também o cultivo de vegetais, já que eram geralmente as mulheres que faziam a maior parte desse trabalho. Aos meninos, por sua vez, estimulavam-se as virtudes guerreiras, incluindo a fabricação de armas e canoas, essenciais, essas últimas, para um deslocamento veloz em caso de guerra. Portanto, todo menino indígena deveria, tão logo tivesse idade para isso, aprender a empunhar um arco com destreza.
Entre os guaranis do Paraguai (que Félix de Azara pôde observar quando exercia o cargo de comandante da Comissão de Limites Espanhola entre 1789 e 1801), meninos que não tinham idade suficiente para a aprendizagem do uso de flechas exercitavam-se com um arco pequeno, dotado de uma rede, tendo bolas de argila endurecidas como projéteis, e isso para lástima entre os pássaros, conforme se lê em Viajes por la América del Sur:
"Os meninos, que se divertem com a caça de pássaros e pequenos animais, empregam outra espécie de arco (¹), mais fraco, de madeira mais flexível e elástica, mais fino e com cerca de três pés de comprimento. Eles ajustam as cordas, que se mantêm separadas paralelamente a menos de uma polegada de distância por meio de pequenas forquilhas de pau, através das quais passam as cordas. Pela metade de ditas cordas formam uma rede com fios, que serve para que se coloquem bolas de argila cozidas no fogo, do tamanho de uma noz, que fazem para essa finalidade." (²)
Não se pode negar o quanto o procedimento era engenhoso. Sigamos com a descrição de Azara, agora explicando como eram usadas as bolas de argila:
"Eles levam consigo uma bolsa cheia de ditas bolas; quando querem atirar, tomam quatro ou cinco com a mão esquerda, tendo o arco na mão direita, põem as bolas, umas depois das outras, na rede, e, em seguida, arqueando quanto podem, disparam juntos todas as bolas contra os pássaros que voam à distância de quarenta passos, e matam muitos (³), mas não fazem uso deste arco para atirar flechas nem para combater, ainda que uma de ditas bolas possa quebrar uma perna a 30 passos. [...]" (⁴)
Sem nenhuma cerimônia, Azara ainda ousou acrescentar esta observação horripilante: "Se os meninos da Europa aprendessem este exercício, não haveria tantos pardais." (⁵)

(1) Azara compara o arco usado pelos meninos àquele empregado por adultos.
(2) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Quem esperaria outra coisa?
(4) AZARA, Félix de. Op. cit. pp. 195 e 196.
(5) Ibid., p. 196.


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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Como guaranis usavam o arco para lançar flechas

Félix de Azara, que liderou a Comissão de Limites Espanhola no Paraguai entre 1789 e 1801, teve oportunidade de observar o modo como os guaranis disparavam flechas. Ao informar que o arco por eles empregado tinha uso duplo, descreveu-o como "um bastão resistente, pouco flexível, liso, grosso no centro como uma mão fechada, mas diminuindo gradualmente em direção às extremidades, que são muito pontiagudas, de modo que podem servir de lança" (¹). Para encaixe das flechas que se pretendia lançar, cada arco era, por suposto, dotado de uma corda.
Europeus que estiveram no Continente Americano nos primeiros tempos da colonização notaram que indígenas se revelavam, como regra geral, extremamente habilidosos quando atiravam flechas. Essa capacidade não vinha do acaso: treinavam desde a infância, daí resultando, também, a força extraordinária que demonstravam para vergar um arco. Contudo, os guaranis tinham, de acordo com Azara, uma técnica específica, diferente da utilizada por vários outros povos indígenas: "Para atirar [...] encaixam um pouco na terra uma das extremidades do arco e, apoiando-o com o pé, dobram-no tanto quanto possível, e é sabido como estes selvagens [sic] sabem apontar e atirar." (²)
Embora a capacidade de lançar flechas com precisão fosse muito útil em caso de guerra, atirar bem era fator de sobrevivência, porquanto muitos ameríndios - não apenas os guaranis - faziam uso de arcos e flechas para a caça. Alguns povos usavam essas armas também para a pesca. Um bom arqueiro podia, assim, prover alimento para si mesmo e para seu grupo. Era daí que lhes vinha parte do sustento quotidiano.

(1) AZARA, Félix de Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
(2) Ibid.  Os trechos citados de Viajes por la América del Sur, de Félix de Azara, foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como o látex era usado para iluminação nos tempos coloniais

A exploração do látex, extraído da Hevea brasiliensis (seringueira, se preferirem) da região amazônica, proporcionou, em fins do Século XIX e início do Século XX, um período de prosperidade para o norte do Brasil que é, frequentemente, chamado surto ou ciclo da borracha (¹). 
A Hevea brasiliensis não é, contudo, a única árvore fornecedora de látex (²). Das explorações conduzidas por Félix de Azara (³) no Século XVIII ficaram registros que demonstram a importância do látex extraído em áreas de colonização espanhola na América do Sul:
"O mangaysy é uma árvore [...] cuja resina é bastante conhecida no mundo todo com o nome de goma elástica. [...] Neste país (⁴) só a vi ser empregada para fazer bolas com que os meninos brincam e para iluminação à noite no deserto (⁵)." (⁶)
É pouco provável que Azara falasse da Hevea brasiliensis, que, como já disse, é nativa da região amazônica, mas, havendo outras árvores que produzem látex, ainda que de qualidade inferior, não surpreende que crianças logo encontrassem aplicação para tão útil recurso natural. Como, porém, seria o látex usado na iluminação? Voltemos a Azara:
"[...] faz-se desta resina uma bola que é posta na água; observando-se o lado que flutua, apertam-na para fazer uma espécie de mecha à qual se põe fogo e, acesa, é colocada na água, onde queima a noite toda, até que se consome inteiramente." (⁷)
Distantes da Europa, colonizadores precisavam improvisar (muitas vezes) e investigar, entre a população nativa, materiais que suprissem a falta dos recursos a que estavam acostumados. O uso do látex para iluminação parece, assim, ser um exemplo interessante a comprovar tal fato (⁸). 

(1) Há divergências quanto à nomenclatura.
(2) Embora o látex dela extraído seja considerado da mais alta qualidade.
(3) Viveu entre 1742 e 1821. Ao liderar a Comissão Demarcadora de Limites da Espanha entre 1789 e 1801, teve a oportunidade de fazer inúmeras observações quanto às condições geográficas no Paraguai, Argentina e Uruguai, bem como sobre a fauna e a flora dessa região.
(4) Referia-se ao território atual do Paraguai.
(5) Deserto, aqui, significa uma área desabitada.
(6) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, pp. 80 e 81.
(7) Ibid., p. 81. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) Não foi o único meio de iluminação obtido mediante o uso de recursos naturais conhecidos pela população indígena da América do Sul.