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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Praga de gafanhotos em São Paulo no ano de 1918

Ano de 1918: enquanto a pandemia de influenza, conhecida como gripe espanhola,  fazia vítimas e espalhava o medo entre a população, os agricultores em várias regiões rurais do Estado de São Paulo lutavam contra uma praga de gafanhotos que causava dano considerável às plantações. Vê-se nisso uma estranha e mesmo desconcertante coincidência. Embora a região da América do Sul atingida por nuvens de gafanhotos em 2020 não seja o Estado de São Paulo, a pandemia de Covid-19 deixa marcas em quase todo lugar. Com maior ou menor grau de ceticismo, somos tentados a perguntar: Por quê? 
Na edição de 1º de novembro de 1918 do jornal Correio Paulistano, quase toda dedicada aos acontecimentos relacionados à gripe espanhola em São Paulo, apareceu esta nota, na página 4:
"É enorme a invasão de gafanhotos ora verificada no Estado, tendo sido assoladas pelo mal todas as zonas, com maior ou menor intensidade, excetuando-se a servida pela Estrada de Ferro Central do Brasil e litoral.
A Diretoria de Agricultura tem empenhado os seus esforços no sentido de debelar o mal. Para esse fim distribuiu pelas zonas limítrofes do Paraná todo o material de que dispunha, destacando, antes mesmo do começo da invasão, inspetores para ministrar instruções [...]. 
Continuando a invasão a progredir com rapidez vertiginosa, a Secretaria da Agricultura aumentou o pessoal encarregado de dar instruções para o combate ao flagelo. Neste mister, embora difícil, continuam a ser individualmente atendidos os 30.000 lavradores do Estado de São Paulo, distribuindo-se instruções impressas às municipalidades, a fim de fazer chegar a cada fazenda o conhecimento do modo de agir contra tão devastador inimigo." (*)
Infelizmente o jornal não informava que procedimentos estavam sendo adotados no combate à praga, mas sabe-se que era usual que trabalhadores e residentes nas propriedades rurais se reunissem e, portando objetos de metal e madeira, fizessem tanto barulho quanto possível, para afugentar os insetos. Essa prática não tinha, por suposto, a capacidade de eliminar os gafanhotos, apenas sugeria a eles que mudassem de endereço e fossem causar danos em outro lugar. 

(*) CORREIO PAULISTANO, nº 19.873, 1º de novembro de 1918, p. 4.


quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Nuvens de gafanhotos na América do Sul

"sin autem resistis et non vis dimittere eum ecce ego inducam cras lucustam in fines tuos quae operiat superfieciem terrae nec quicquam eius appareat sed comedatur quod residuum fuit grandini conrodet enim omnia ligna quae germinant in agris"
Exodus X, 4 - 5

As recentes nuvens de gafanhotos na América do Sul fizeram muita gente pensar nas famosas "pragas do Egito". Que mais faltaria para coroar o acervo de catástrofes de 2020? Falou-se nos exércitos de insetos que encobriam a luz do Sol como consequência do desequilíbrio ambiental que assola este sofrido planeta. Ora, meus leitores, vou mostrar a vocês que, em se tratando de bandos de incontáveis ortópteros destruidores, não há novidade alguma nesta parte do Continente Americano e, portanto, não se pode atribuir o aparecimento de nuvens de gafanhotos na atualidade exclusivamente à relação inadequada entre a humanidade e o meio ambiente. Pragas dessa natureza já devastavam a América do Sul há quase quinhentos anos, pelo menos. Não temos relatos escritos que comprovem o fenômeno anteriormente à colonização; não há, contudo, razão para duvidar que ameríndios já o enfrentassem. 
Ulrich Schmidel (¹), um mercenário alemão que veio à América do Sul no Século XVI com Pedro de Mendoza e esteve na Argentina e no Paraguai, registrou a praga em várias localidades e afirmou que gafanhotos, devorando as plantações, chegavam a deixar indígenas sem quase nada para comer (²) - péssimo para Schmidel e seus companheiros, habituados a ir de aldeia em aldeia pilhando o fruto do trabalho da população nativa. 
Mais tarde, Félix de Azara, que esteve na América Espanhola entre 1789 e 1801 (³), tendo maior conhecimento de ciências naturais e, por conseguinte, maior interesse pelo assunto, depois de descrever a aparência dos gafanhotos em suas várias fases de desenvolvimento, explicou como se comportavam as "nuvens" que podiam ser vistas principalmente no Paraguai: "[...] elas cobrem às vezes extensões consideráveis de terreno, a tal ponto que andei duas léguas marchando continuamente sobre esses insetos. Não cessam de devorar tudo, até que se sentem bastante fortes para subir nas árvores e matas que cobrem inteiramente [...]. Enfim, quando estes gafanhotos acham alguma noite favorável [...], sobretudo clara pela luz da Lua, partem, sem que se saiba para onde vão [...]" (⁴).
Observador cuidadoso, Azara ainda registrou um detalhe pitoresco, fruto da rivalidade entre moradores de Buenos Aires, na Argentina, e colonizadores do Paraguai: "Esta praga é rara em Buenos Aires; os habitantes dessa cidade zombam dos [moradores] do Paraguai, dizendo-lhes que se eles são incomodados com tanta frequência pelo gafanhoto, é castigo por sua má conduta para com um de seus bispos. [...]" (⁵).
Não, meus leitores, o desmatamento, os incêndios florestais, o uso inadequado do solo, ruins como são, não inventaram o fenômeno das nuvens da gafanhotos na América do Sul. Notem que elas já existiam muito antes que esses transtornos ambientais atingissem grandes dimensões, mas podem, talvez, ter-se agravado com uma ajudinha da humanidade, de quem se espera, agora, bom senso no manejo do problema.

(1) A primeira edição de seus escritos foi publicada na Alemanha em 1567. Seguiu-se aqui a edição de 1599.
(2) Cf. SCHMIDEL, Ulrich. Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart. Nürnberg: Levinus Hulsius, 1599 p. 78.
(3) Foi enviado pelo governo espanhol para trabalhar na demarcação de limites entre terras pertencentes à Espanha e Portugal.
(4) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 115. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid.