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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Método cruel de caça às onças usado na América do Sul

Onças, fossem pardas ou pintadas, despertaram a curiosidade dos primeiros exploradores europeus que chegaram à América do Sul (¹). Como muitos deles nunca tinham visto leões e tigres de verdade, acharam que a onça-parda (Puma concolor) era leão, e a pintada (Panthera onca), tigre. Estavam errados, é claro, mas isso não muda o fato de que tiveram medo delas. Lindas e ferozes, as onças eventualmente atacavam pessoas e animais domésticos. Não demorou até que fossem impiedosamente caçadas, de um modo diferente do método empregado por indígenas.
Há uma descrição interessante da caça às onças feita por Félix de Azara, espanhol que viajou pela América do Sul no Século XVIII. Segundo ele, era desta maneira extremamente cruel que estancieiros, aborrecidos com ataques de onças ao gado na Argentina e no Paraguai, abatiam as felinas:
"O modo de caçá-las é perseguindo-as com dois homens montados em bons cavalos. Ao encontrar árvore ou macega a onça se senta, e um dos cavaleiros investe contra ela para que fuja [...], enquanto o outro atira o laço [e, estando presa], corre em disparada, até que veja que [a onça] já está morta, e [se não], o outro prende-a também com o laço, puxando, um de cada lado, até matá-la." (²)
É razoável supor que método semelhante de caça fosse, ao menos ocasionalmente, empregado também no Brasil. Justifica-se essa hipótese por uma gravura de Debret, na qual uma onça, presa por laços, parece ser puxada por vários cavalos. Vejam abaixo, leitores, e tirem suas conclusões.

Caça à onça, conforme Debret (³)

De acordo com Debret (⁴), nos campos do atual Estado do Paraná onças eram caçadas a laço e, quando capturadas, abatidas por um caçador pedestre.

(1) Podem ser encontradas também em outras áreas do Continente Americano.
(2) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 25. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Cf. DEBRET, J. B. Op. cit., p. 134.


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Matador de onças


Percorrendo o Brasil Central pouco depois da Independência, o Brigadeiro Cunha Matos (¹) chegou à moradia de um matador de onças. É isso mesmo! O sujeito não apenas matava onças, mas, além disso, ainda conservava as cabeças das felinas como troféus, segundo relatou o militar luso-brasileiro:
"[...] Cheguei ao sítio denominado Fazendinha, pertencente a Adão José da Silva, homem pardo, estropiado pelas onças de que foi o mais famoso matador da Província, e cujos troféus (as cabeças) conserva espetadas em estacas junto à choupana em que habita." (²)
"Estropiado pelas onças" - quem imaginaria outra coisa? Pois vai aqui uma de suas histórias de caçador, à qual o próprio Cunha Matos achava difícil dar crédito, mesmo afirmando que o narrador parecia digno de confiança. Vamos ao caso.
Foi-se o caçador um dia à procura de uns queixadas, encontrou-os, mas ao invés de conseguir abatê-los, foi por eles perseguido, a ponto de ter de subir em uma árvore para se proteger. Os queixadas, porém, não lhe davam trégua, fazendo, embaixo da árvore, o enorme barulho que lhes é característico quando estão em grandes bandos. Então... Segue a narrativa de Cunha Matos:
"[...] Sentiu cair-lhe sobre a cabeça [do caçador] uma coisa líquida como água, e olhando para cima viu uma grande onça acuada, assentada sobre outros braços da mesma árvore. A fortuna permitiu que os porcos depois de inúteis esforços se retirassem, e ele Adão descendo da árvore, matou à espingarda a onça a que estivera tão chegado." (³)
É, como eu disse, leitores, uma história de caçador.

(1) Militar português, aderiu à Independência do Brasil e ocupou cargos importantes no Império.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 181.
(3) Ibid.


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domingo, 16 de março de 2014

Como os índios caçavam onças

Onças eram animais temidos pelos índios e pelos colonizadores mais corajosos. Não obstante, eram caçadas pelos colonos (por causa da pele, em tempos nos quais questões ecológicas não estavam na ordem do dia, ou, com frequência, porque eram vistas como ameaça ao gado) e pelos índios, que as capturavam também pela carne. Estes últimos tinham, a propósito, um método singular para abatê-las, sem que fosse necessário um confronto muito perigoso - do ponto de vista dos humanos, é certo.
É Gabriel Soares (¹) quem conta:
Caça à onça, de acordo com Rugendas (³)
"Armam os índios a estas alimárias em mundéus, que é uma tapagem de pau-a-pique, muito alta e forte, com uma só porta, onde lhe armam com uma árvore alta e grande levantada do chão, onde lhe põem um cachorro ou outra alimária presa, e indo para a tomar cai esta árvore que está deitada sobre esta alimária, onde dá grandes bramidos, ao que os índios acodem e a matam a flechadas, e comem-lhe a carne, que é muito dura e não tem nenhum sebo."
Fica subentendido, creio, que o próprio Gabriel Soares já deveria ter saboreado carne de onça, do contrário não teria muita autoridade para dizê-la dura e sem gordura. Acrescentaria ele mesmo, depois, referindo-se à caça especificamente da suçuarana (Puma concolor), que é também conhecida como onça-parda:
"Para os índios matarem estas alimárias esperam-nas em cima das árvores, donde as flecham, e lhes comem a carne." (²)

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 245.
(2) Ibid., p. 246.
(3) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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