terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Viajantes Estrangeiros no Brasil do Século XIX - O Salto do Tietê (Parte 1)

Ao longo do século XIX diversos viajantes estrangeiros, na condição de artistas e/ou cientistas, percorreram o Brasil, tanto a serviço do governo (em "missões científicas"), como também em empreendimentos particulares. Vários desses viajantes deixaram memórias, algumas delas escritas, outras na forma de desenhos e pinturas, que hoje, por uma série de razões, constituem um valioso material de estudo sobre o Brasil daquela época.  Dentre essas razões podem ser mencionadas:
- Como estrangeiros, esses viajantes lançavam sobre o Brasil um olhar de curiosidade ou até mesmo de estranhamento, refletindo em seus relatos aspectos do quotidiano que, aos autores naturais da terra, chegavam a passar despercebidos ou sequer eram referidos por parecerem demasiado óbvios;
- No século XIX o Brasil era uma nação majoritariamente analfabeta, razão pela qual eram produzidos poucos documentos escritos e, assim, as obras deixadas pelos viajantes estrangeiros ganham em significado, pois acrescem fontes de investigação a um universo consideravelmente restrito;
- Além disso, os viajantes percorreram um Brasil ainda pouco conhecido e pouco devastado e, no caso específico do Estado de São Paulo, antes do espalhar-se das fazendas de café e da industrialização, o que significa que seu testemunho revela aspectos da topografia original, da fauna e da flora que, não fosse assim, talvez permanecessem absolutamente incógnitos.
A lista dos nomes desses viajantes é enorme. Menciono aqui apenas três, pela importância de sua obra - Rugendas, Debret e Hércules Florence - e passo, a seguir, com respeito à obra deste último, a examinar um detalhe de seu relato e de sua produção artística, conforme aparece em Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829 (*). Como desenhista da Expedição Langsdorff, H. Florence esteve junto ao então chamado "Salto de Itu", que assim descreveu e assim retratou:


"Uma légua antes de chegar a Itu, transpõe-se o Tietê numa ponte de madeira. É o salto de Itu. Desde a ponte, o leito do rio se inclina: a água adquire forte correnteza; esbarra de encontro a rochas esparsas; espuma em torno; espadana branca como neve; precipita-se entre dois grandes maciços e forma uma primeira queda de 15 pés de altura mais ou menos. De contínuo se ergue espesso nevoeiro que o vento atira sobre as árvores. Adiante as águas fervem em curso vertiginoso; em borbotões saltam pelas pedras; chocam-se cachões contra cachões; desfazem-se em líquida poeira; rugem nas margens e alternadamente submergem ou descobrem grandes rochas. É a imagem eterna do mar em fúria.
Abaixo uns 800 passos da queda, volta o Tietê à tranquilidade primitiva e corre então mansamente por entre espesso e verdejante mato." (**)
Atualmente, leitor, o lugar é conhecido como "Salto do Tietê", já que pertence ao município de Salto, e não ao de Itu. Diz-se que o volume de água diminuiu bastante desde a construção da barragem, mas você poderá comparar por si mesmo a ilustração de H. Florence com a situação presente, assistindo ao pequeno vídeo abaixo (se você está lendo esta postagem em um leitor de feeds ou por e-mail, clique aqui).



(*) FLORENCE, H. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007

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