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terça-feira, 26 de março de 2019

Por que o rei dos persas chorou

Xerxes, rei dos persas - foi o que disse Heródoto (¹) - chorou, ao pensar que, em um século, nada restaria da esplêndida máquina de guerra que formara. A choradeira real teria ocorrido antes que começasse a luta contra os gregos, em uma ocasião em que a vaidade do monarca persa resultara na exigência de um combate simulado, para que, em um trono de mármore branco colocado em um promontório, pudesse ver as forças a seu dispor, tanto no mar quanto em terra. Estava presente um tio de Xerxes, que ao perguntar pelo motivo de tal demonstração pública de abalo emocional, obteve esta resposta: "A visão de minha armada fez brotar em mim um sentimento de tristeza pela brevidade da existência humana, ao pensar que desta multidão nem um só homem existirá dentro de cem anos."
Não se enganem, leitores. Xerxes foi um típico monarca de sua época, ambicioso, prepotente e cruel. Embora não saibamos se em todos os detalhes os fatos foram assim, podemos considerar que o relato de Heródoto não é incoerente com a realidade contemporânea. 
Séculos mais tarde, Sêneca, o filósofo estoico do Império Romano (²), faria menção ao episódio do choro de Xerxes - certamente leu Heródoto - ao fazer suas próprias considerações quanto à brevidade da vida (³): "O rei dos persas, que era muito arrogante, espalhou seu exército por tão vasto terreno, a ponto de ser impossível saber a quanto chegava o número de seus soldados, e chorou ao pensar que dentro de cem anos ninguém, dentre tantos jovens, estaria vivo, embora fosse ele quem em breve iria conduzi-los à morte, quer em terra ou no mar, quer em combates ou em retiradas, e se acabrunhava pelo que sucederia um século mais tarde." (⁴)
Lágrimas de crocodilo, as de Xerxes. Chorava pelos que iam morrer, e era ele mesmo quem os mandava tão cedo para a morte. Ao rei persa, caberia apenas o atenuante de que, nesse sentido, não foi o único de sua espécie. Outros como ele continuam a aparecer até hoje.

(1) Histórias, Livro VII.
(2) Nascido na Espanha, foi professor e conselheiro do imperador Nero.
(3) Da brevidade da vida. Sêneca não achava que a vida humana era breve; entendia que não era devidamente aproveitada.
(4) Os trechos citados das obras de Heródoto e Sêneca foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Flechas incendiárias

Não, leitores, elas não foram inventadas por Nero - o uso de flechas incendiárias ocorreu entre as mais diversas culturas, e era bem conhecido entre povos da Antiguidade. Heródoto afirma, no Livro VIII de suas Histórias, que os persas, durante as Guerras Médicas, haviam usado flechas incendiárias quando lutavam contra os atenienses que, protegidos pelas muralhas de sua cidade, resistiam corajosamente. Apenas como curiosidade, os persas finalmente tiveram êxito em forçar a entrada, e, conforme o hábito nas guerras antigas, degolaram todos os defensores que se haviam refugiado no templo de Palas Atena. A cidade foi entregue às chamas. Depois de saqueada, é claro.
Flechas comuns eram dirigidas, habitualmente, contra as formações dos exércitos inimigos. Ajudavam a reduzir o número de combatentes, antes que se travasse a luta corpo a corpo. Foi também Heródoto quem afirmou, no livro VII das Histórias, que, na guerra contra os gregos, as chuvas de flechas provenientes do exército persa, comandado por Xerxes, chegavam a encobrir a luz do sol.
Flechas incendiárias, porém, eram usadas com o objetivo de atear fogo às construções que os inimigos procuravam defender. Eram um recurso extremo, quando parecia impossível forçar a entrada de outro modo, pois um incêndio durante uma batalha dificilmente seria contido antes que tudo, ao redor, acabasse em cinzas. Admissíveis, portanto, quando o projeto era aniquilar o adversário, flechas incendiárias não eram uma ideia inteligente quando se pretendia conquistar uma cidade, conservando-a para o vencedor. 
De acordo com Hans Staden, indígenas do Brasil (*) conheciam o uso de flechas incendiárias, que preparavam do seguinte modo: um chumaço de algodão era untado com cera e, em seguida, amarrado à ponta de uma flecha, à qual se ateava fogo. Arqueiros fortes e bem-treinados atiravam contra as casas de seus inimigos, geralmente cobertas por folhas de alguma palmeira, que logo estavam em chamas. Os colonizadores perceberam a eficácia desse procedimento e, tão pronto conseguiam, pela diplomacia ou pela força, arrolar indígenas entre seus comandados, incluíam as flechas incendiárias entre seus recursos bélicos.

(*) Observação válida pelo menos para os tupinambás, com quem Hans Staden, mesmo contra a vontade, teve convivência demorada. Feito por eles prisioneiro, somente a muito custo conseguiu escapar de ser o prato principal de um banquete antropofágico.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embarcações que navegavam nas águas do Mediterrâneo na Antiguidade

Birremes, trirremes, quadrirremes, quinquerremes...


Embarcação grega da Antiguidade (¹)

"Não deves jamais colocar todos os teus bens nos navios..."
                                              Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias

As embarcações que cruzavam o Mediterrâneo e adjacências na Antiguidade eram dotadas de velas, mas não era só o vento que as impulsionava - havia também a força dos músculos de muitos remadores - primeiro gente livre e, mais tarde, escravos.
Quando uma embarcação tinha duas filas de remos (os remadores eram dispostos em dois "andares"), recebia o nome de birreme; se tivesse três filas de remadores, era trirreme, se fossem quatro as fileiras, era quadrirreme e, se tivesse cinco, seria então quinquerreme. Estas duas últimas só eram usadas em batalhas navais, e não eram muito numerosas porque suas proporções tornavam as manobras mais difíceis. Ainda assim, eram úteis para impressionar adversários.
Se pensarmos no Mediterrâneo como um gigantesco lago de água salgada, cercado por diferentes povos que falavam uma variedade de línguas e que desenvolveram diversas e notáveis culturas, será fácil entender que o desenvolvimento da navegação e, por conseguinte, das embarcações, não foi obra de um único povo. Um invento aparecia em um lugar, logo era adotado em outro, recebia aperfeiçoamentos que, por sua vez, eram copiados pela vizinhança. Qual era o melhor formato para um navio mercante? E para um navio de guerra? Quantos deviam ser os remos, e de que comprimento? E se dois remadores manipulassem um único remo? Velas quadradas ou redondas? Vê-se que o mundo mediterrânico vivia em efervescência, e a arte náutica se beneficiava disso. Fenícios, cartagineses, gregos, romanos e outros povos da Península Itálica, todos deram sua contribuição, ainda que nem sempre voluntária, conforme veremos.
Atenienses, na batalha naval de Salamina (²), impuseram notável derrota aos persas, provando a eficiência das trirremes gregas contra as desajeitadas, ainda que numerosas, embarcações adversárias. Isso aconteceu depois que Temístocles, segundo conta Heródoto, conseguiu que seus concidadãos acreditassem que uma estranha profecia vinda de Delfos, segundo a qual os gregos venceriam se, para sua defesa, fizessem uma muralha de madeira, era referência ao uso de uma frota que barrasse a passagem dos comandados de Xerxes, rei dos persas.
Mas como é que Atenas tinha prontas tantas trirremes com que enfrentar a poderosa frota persa? Heródoto, em suas Histórias, explica:
"O tesouro de Atenas tinha grande quantidade de dinheiro para uso público, como resultado de terem explorado as minas de Láurion, e os atenienses julgavam que deviam reparti-lo entre si; porém Temístocles convenceu-os a [...] construir duzentos navios de guerra para lutar contra Egina. Embora as embarcações não tenham sido usadas para seu primeiro objetivo, foram a salvação dos gregos, ao fazer de Atenas uma grande força naval."
Ainda segundo Heródoto, não satisfeitos com a frota que já tinham, os cidadãos atenienses fizeram mais navios, converteram embarcações mercantes em vasos de guerra e convocaram a participação de outros gregos que quisessem juntar-se a eles na luta contra Xerxes, convencidos que estavam de que, assim fazendo, obedeciam à determinação de Apolo. Venceram!

Combate naval retratado em um vaso grego da Antiguidade (³)

Tito Lívio registrou, em Ab urbe condita libri, que, durante a Primeira Guerra Púnica (⁴), os romanos perceberam que era grande desvantagem não dispor de uma esquadra que fizesse frente aos hábeis marujos cartagineses. Foi então que caiu em poder dos romanos uma embarcação do tipo quinquerreme. Seguimos com Tito Lívio:
"Sobre aquele modelo os cônsules determinaram a construção de uma frota, na qual tanto empenho foi posto que, passados sessenta dias desde que se preparara a madeira, já havia de prontidão uma armada de cento e sessenta velas."
Exagero? Talvez, mas salta os olhos o fato de que a gente de Roma, ainda neófita em questões navais, tivesse a capacidade de, rapidamente, copiar uma nau inimiga. Esse pragmatismo, é bom lembrar, caracterizou a Roma Antiga. Se alguma coisa era útil, devia ser admitida, independente de sua origem.
Ocorre que os romanos, percebendo que era agora possível chegar perto das embarcações adversárias, tiveram a ideia de inventar um maquinismo que permitisse prender os navios inimigos aos seus. Estendia-se logo uma ponte, de tal modo que soldados de Roma, passando por ela, podiam travar combate corpo a corpo com os homens de Cartago. Nesse tipo de luta os romanos levavam, quase sempre, enorme vantagem.
Para concluir, será interessante considerar se os navios que os povos mediterrânicos usavam tão bem em águas "domésticas" seriam igualmente eficazes em outros mares. Poderiam navios como esses fazer longas viagens? Heródoto, por exemplo, falou de uma viagem que marinheiros fenícios teriam empreendido a serviço de um faraó, na qual, tendo partido do Mar Vermelho, retornaram ao Egito pelo Mediterrâneo, depois de costear a África. Não há provas definitivas de que essa viagem tenha mesmo acontecido, mas sabe-se que não era impossível.
Por outro lado, o tipo de embarcações que os romanos usavam com eficiência no Mediterrâneo mostrou-se inadequado quando, comandados por Germânico, tiveram de enfrentar as águas revoltas do Mar do Norte, em meio a uma tempestade. Muitos soldados romanos morreram, enquanto sobreviventes foram arremessados a terras distantes, algumas delas ainda desconhecidas para os habitantes da Península Itálica.
Políbio (⁵), em sua História, explicou: 
"Faz-se muito pouco uso do mar das Colunas de Hércules, porque são muito poucos os que comerciam com povos que vivem nos extremos da África e da Europa, e também porque o mar exterior é desconhecido para nós." (⁶) 
Parece que, ao menos em seus dias, viagens além do Mediterrâneo não eram usuais.

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 142.
(2) Em 480 a.C., durante as chamadas Guerras Médicas.
(3) KNOWLTON, Daniel C. Illustrated Topics for Ancient History. Philadelphia: McKinley Publishing Company, 1913.
(4) As Guerras Púnicas foram guerras entre Roma e Cartago, travadas, com intervalos, entre 264 a.C. e 146 a.C.. Recebem esse nome porque os romanos chamavam punos aos cartagineses. 
(5) Políbio de Megalópolis (c. 203 - 120 a.C.) foi um grego que passou a maior parte da vida entre romanos; escreveu, entre outros assuntos, sobre as Guerras Púnicas.
(6) As citações de Hesíodo, Heródoto, Tito Lívio e Políbio que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 20 de julho de 2016

A importância atribuída aos sonhos pelos povos da Antiguidade

Quase todas as culturas da Antiguidade davam grande importância aos sonhos, entendendo que, através deles, era possível obter algum tipo de previsão do futuro, em virtude da interferência dos deuses. Como os tempos freudianos ainda estavam distantes, não espanta que monarcas que eram aclamados como divindades ou seus representantes, acabassem achando que seus sonhos eram assunto de Estado. Querem alguns exemplos, leitores?
Heródoto conta que Ciro, o Grande (¹), teve um sonho, certa noite, em que via um jovem de vinte anos, cujos ombros eram dotados de duas asas (²); com uma delas cobria a Europa e, com a outra, a Ásia. Reconheceu que o rapaz que via era Dario, filho de Histapes, e imaginou que estaria armando um golpe para destroná-lo. Pensou em liquidar o garotão, mas, ainda segundo Heródoto, o sonho prefigurava a morte de Ciro (³), e não uma conspiração. O detalhe curioso é que, no futuro, o jovem Dario finalmente seria rei, sendo conhecido como Dario I. 
Mais Heródoto e mais persas: Xerxes, rei dos persas, sonhou com um homem alto e belo que lhe ordenava fazer guerra aos gregos. A despeito do sonho, resolveu dizer a seus conselheiros que desistia da guerra. Na noite seguinte, novo sonho, com a mesma personagem, que lhe fez uma severa ameaça: "Você será castigado, caso não faça a guerra, e tão rápido como veio a ser um grande rei, será desprezado e humilhado." (⁴)
Para piorar a situação, um conselheiro de nome Artabano teve um sonho parecido. O resultado disso tudo, como os leitores sabem, é que os persas foram à guerra contra as cidades gregas. Ao final, foram derrotados - vejam em que é que deram os sonhos de Xerxes!
Entre os antigos romanos os sonhos eram, também, muito considerados. Vai aqui o caso de um sonho, relatado por Tácito, que ocorreu a Germânico, quando em guerra contra os bárbaros. Viu-se "oferecendo um sacrifício, cujo sangue lhe manchava a toga pretexta que usava, mas que era, em seguida, substituída por outra melhor, oferecida por sua avó Augusta" (⁵). Isso bastou para que Germânico declarasse que os deuses lhe eram favoráveis. Foi à guerra e, depois de várias escaramuças, derrotou os bárbaros, mas, logo em seguida, teve as forças que comandava destroçadas por uma brutal tempestade, ocorrida no Mar do Norte
Iríamos longe se quiséssemos enumerar outros sonhadores de tempos remotos. Tal era a importância que se atribuía aos sonhos, que gregos, persas, babilônios, romanos e muitos outros povos tinham gente especializada em interpretá-los. Malgrado o respeito que devemos ter pelas crenças alheias, não deixa de impressionar o fato de que ainda existe, hoje em dia, gente que tenta decifrar os próprios sonhos com base na "ciência" dos tão bem-sucedidos intérpretes que adulavam os monarcas da Antiguidade. Eram mesmo bons nisso: alguns de seus erros ajudaram a levar reinos e impérios ao colapso.

(1) Não foram poucos os monarcas que, ao longo dos tempos, foram chamados de "Grandes". Os bajuladores constituem uma das estirpes mais numerosas deste planeta.
(2) Se levarmos em conta que divindades da época eram frequentemente representadas com asas, o sonho não deveria ter causado tanta impressão em Ciro, a não ser pelo fato de que a gente de seu tempo achava que, desse modo, podia receber recados dos deuses.
(3) Os leitores percebem, com isso, que Heródoto também achava que os sonhos podiam predizer o futuro.
(4) Heródoto. Histórias, Livro VII.
(5) Tácito, Annales, Livro II. 
As citações das Histórias de Heródoto e dos Annales de Tácito que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O laconismo dos espartanos

"...a diplomacia é a arte de gastar palavras, perder tempo, estragar papel, por meio de discussões inúteis, delongas e circunlocuções desnecessárias e prejudiciais."
                                          Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1865

Esparta tornou-se famosa pelo militarismo, pelo estilo de vida frugal de seus habitantes, pela educação severa ministrada à juventude. Mas também ficou conhecida pelo hábito que os espartanos eram levados a adquirir, desde a infância, de falar apenas o estritamente necessário. Esse costume recebeu o nome de "laconismo". Explica-se: Esparta ficava na Lacônia, que era parte do Peloponeso, que era parte da Antiga Grécia. 
Consta que Xerxes, soberano persa, enviou um embaixador aos espartanos, exigindo deles que lhe entregassem "água e terra", uma expressão que, na prática, equivalia a dizer: "Rendam-se, espartanos! Quero tudo, sem condições ou reservas". 
De acordo com Políbio de Megalópolis, ao invés de discutir com o diplomata (como fariam quase todos os povos, até como estratégia para ganhar tempo), os gregos de Esparta, que nunca foram paradigma de sutileza nas relações com estrangeiros, limitaram-se a jogar o embaixador dentro de um poço e, depois, cobriram-no de terra, dizendo ao sujeito que fosse relatar a Xerxes que já havia conseguido o que lhe mandara exigir.
Laconismo às últimas consequências.


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