Mostrando postagens com marcador Esparta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Esparta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Filósofos na Antiguidade

Por que, na Antiguidade, atenienses tinham tanto interesse em vários campos do conhecimento, enquanto espartanos não se importavam com nada disso? Estrabão (¹), em sua Geografia, avaliou a questão desta maneira: 
"Foi o hábito [dos estudos] que fez dos atenienses filósofos, enquanto espartanos não o foram, e nem mesmo os tebanos, que viviam tão perto de Atenas. Pela mesma razão, não é por natureza que babilônios e egípcios são filósofos, e sim por hábito e prática [de investigar, estudar]. O mesmo pode ser dito de cavalos, bois e outros seres vivos, cujas qualidades são resultado, não simplesmente do lugar em que vivem, mas do adestramento. [...]" (²)
Quando Estrabão falava em "filósofo", não dava à palavra necessariamente o mesmo significado que hoje recebe. Ele pensava em alguém que buscava o conhecimento em todas as suas formas, que se interessava pelas ciências, pelas artes, incluindo a música, que, enfim, era amigo das letras. O campo de conhecimento que interessava ao filósofo da Antiguidade era imenso. Nesse sentido, atenienses e babilônios, citados por Estrabão, eram filósofos, mas se ocupavam de coisas distintas. Enquanto os homens de Atenas se interessavam pela política, pela ética, pela matemática e outros campos afins, os da Babilônia, que também eram ótimos matemáticos, perscrutavam o céu, sendo, ao seu modo, astrônomos, mas também astrólogos, um campo que hoje ninguém, sensatamente, poderia chamar de científico.
É curiosa a comparação de que o hábito do estudo se desenvolveria nos humanos por adestramento, de modo análogo ao treino ministrado aos animais para que fossem úteis no trabalho. Está aí uma questão que poderia muito bem resultar em debate acalorado. E se a esse treino ou adestramento chamássemos educação?
Eu diria ainda (talvez contrariando um pouco o que disse Estrabão), que, para ser reconhecido como filósofo na Antiguidade, era preciso estar no lugar certo, no tempo certo. Não é possível calcular quanta ciência se perdeu, porque algum filósofo ou filósofa (no sentido antigo) estava sozinho (ou sozinha) com seus pensamentos, olhando as estrelas enquanto cuidava de um rebanho ou lutando para manter o fogo aceso ao preparar alimento, ou simplesmente porque estereótipos de gênero impediam que cerca de metade da humanidade expressasse raciocínios e ideias próprias.

(1) c. 63 a.C. - 24 d.C.
(2) ESTRABÃO, Geografia. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A educação das meninas espartanas

A educação das meninas espartanas era assunto de Estado, tanto quanto a dos meninos. Não se esperava, como regra geral, que aprendessem o manejo das armas para a ida aos campos de batalha; contudo, deviam realizar exercícios físicos que fizessem delas mulheres saudáveis, capazes de gerar filhos adequados às exigências militares de sua cidade-Estado.
Se podemos crer no que Plutarco escreveu em Vitae parallelae, Licurgo, o legislador de Esparta, determinou que as meninas "ao contrário do que sucedia em outros lugares, não permanecessem desocupadas em casa, mas deviam exercitar o corpo em corrida, luta, lançamento do dardo e no tiro com arco. Desse modo, seriam tão fortes quanto os rapazes, e seriam aptas a resistir às dificuldades que sobreviessem. [...] Licurgo pensava que as jovens habituadas a esses exercícios [...] seriam posteriormente mais fortes e capazes para resistir às dores do parto" (¹). Portanto, sem mais rodeios, a educação das meninas tinha por objetivo garantir a contínua produção de novos soldados para Esparta.
Não menos curioso é que Licurgo, rompendo com a tradição grega que ordenava às mulheres que cobrissem a cabeça quando em público, teria determinado que as jovens e mulheres espartanas não deveriam fazê-lo. Voltemos a Plutarco: "[Licurgo] fez com que as jovens espartanas, à semelhança dos rapazes, se habituassem a estar com a cabeça descoberta nos lugares públicos [...], com toda a honestidade e respeito, diante da presença dos anciãos e cidadãos de renome. [...] O costume de terem [as meninas] a cabeça descoberta não era fruto de leviandade, mas, [...] com essa prática, estavam sempre limpas e eram tão fortes quanto os rapazes" (²).
Essa educação tinha impacto considerável no comportamento das mulheres espartanas quando adultas. Ainda conforme Plutarco: "Conta-se que Górgona, mulher de Leônidas, ao ter em certa ocasião a companhia de uma estrangeira, foi por ela questionada quanto aos costumes que vigoravam em Esparta, dizendo que, ao que parecia, as mulheres da Lacônia tinham autoridade sobre os maridos. A isso a espartana teria respondido: Não se espante. É que somente nós trazemos homens ao mundo" (³). Como negar, então, que meninas e mulheres de Esparta tinham uma condição muito diferente daquela que podia ser encontrada no restante da Grécia Antiga?

(1) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História e Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Por que espartanos não usavam tochas para iluminar o caminho à noite

Devido à quase completa escuridão que caracterizava a maior parte das cidades antigas desde que o sol se punha, quem precisava sair de casa à noite devia levar uma tocha para iluminar o caminho, tarefa que, com frequência, era delegada a um escravo. Um pouco de luz não só evitava ferir os pés com alguma pedra ou tropeçar em um buraco, como desestimulava algum encontro desagradável. Esses problemas, como se sabe, não são recentes.
Espartanos, porém, não usavam tochas à noite. Para entender o caso é preciso saber que, pelas leis atribuídas a Licurgo, ninguém, em Esparta, tinha permissão para cear em casa. Quem o fazia era visto como um perturbador da ordem social imposta a todos os cidadãos, que determinava refeições públicas bastante frugais. O quotidiano de Esparta era uma contínua preparação para a guerra. Tendo já anoitecido, encerrava-se a refeição coletiva e cada um podia voltar ao lugar em que residia. Mas, para isso, também havia uma restrição que se dizia ter vindo de Licurgo, segundo explicou Plutarco (¹): "[...] não era permitido que no caminho para casa [depois da ceia] e nem em outras ocasiões à noite, [espartanos] iluminassem as ruas com tochas, para que, a despeito de qualquer perigo que encontrassem pela frente, se habituassem a andar sem medo no escuro (²)." 
Ataques de surpresa, à noite, eram comuns em guerras da Antiguidade. Soldados que tivessem medo da escuridão tornar-se-iam, portanto, um problema para qualquer exército. Não seria razoável para Esparta, militarista como era, que se perdesse a oportunidade de exercitar continuamente os sentidos daqueles de quem se esperava que, nos campos de batalha, superassem a todos os demais guerreiros.

(1) Nascido em Queroneia em c. 45 d.C.
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Espartanos teriam provocado a "desaparição" de muitos hilotas

Narrado por Tucídides no Livro IV de sua História da Guerra do Peloponeso, há um episódio que bem pode ser rotulado como verdadeira síntese da perfídia: espartanos, que viviam com medo de uma revolta dos hilotas, a quem dominavam brutalmente, mas de quem dependiam para todo o trabalho na lavoura, base de sua economia, resolveram convocar, dentre eles, todos os indivíduos que se julgavam dignos de respeito porque, indo à guerra com seus senhores esparciatas, haviam se notabilizado pela coragem e pelos bons serviços prestados a Esparta. Subentendia-se que, em virtude desses méritos, os hilotas que comparecessem receberiam, como prêmio, a liberdade. Sim, os que vieram, uns dois mil homens, ao todo, depois de coroados, foram em procissão aos templos da cidade, exatamente como homens livres fariam. Mas não... A ideia era simplesmente testar quem tinha consciência do próprio valor, calculando-se que gente assim seria perfeita para a liderança de uma rebelião. Os supostos libertos desapareceram e nunca mais foram vistos. 
Como julgar esta história? Intriga, apenas? Ou horrorosa verdade?
De um lado, foi contada por Tucídides, que, mesmo buscando ser imparcial, era ateniense. De outro, não é difícil admitir que tenha mesmo acontecido, se apenas considerarmos que, sendo capazes de lançar os próprios filhos recém-nascidos em um abismo, caso tivessem algum defeito, não seria demais para os espartanos matar, às ocultas, os servos hilotas, se entendessem que, sendo bons demais como soldados, poderiam liderar um motim de sua gente para que, depois de aniquilados os esparciatas opressores, pudessem, afinal, desfrutar completa liberdade. 
Não há provas de que isso tenha mesmo ocorrido. Não há, igualmente, comprovação de que não tenha acontecido. É inegável, todavia, que combina muito bem com o que se sabe sobre Esparta e o modo como era governada. Decidam vocês, meus leitores, se, nesse ponto, desejam crer ou não em Tucídides.


Veja também:

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Por que espartanos não deviam visitar outros lugares

Geralmente se considera que viajar para conhecer lugares novos e outras culturas é um modo excelente de se obter instrução. Gregos da Antiguidade foram notáveis pelo gosto que tinham por viagens. Não os espartanos, porém, e por razão que se atribuía a uma ordem dada pelo legislador Licurgo, conforme Plutarco (¹) explicou em Vitae parallelae:
"Licurgo não admitia que espartanos viajassem livremente de um lugar a outro. Pensava que se andassem por outros lugares, acabariam deixando de lado os costumes sóbrios que haviam aprendido e tomariam conhecimento das futilidades, hábitos e formas distintas de governo entre outros povos. Assim acabariam se tornando corruptos e, finalmente, ensinando essas coisas a outros espartanos, poriam a perder sua cidade." (²)
É fácil concluir que uma regra assim tinha como objetivo impedir o contato, por exemplo, com cidades sob regimes menos rígidos - democracias, por exemplo. Há, inclusive, quem atribua a Guerra do Peloponeso, ao menos em parte, a um confronto ideológico entre cidades sob regime democrático e outras dominadas por oligarquias.
A proibição, contudo, ia mais longe. Não só os espartanos livres, inclusive homens adultos (esparciatas) estavam proibidos de fazer turismo perto ou longe, como fazia-se todo o possível para que estrangeiros não pusessem os pés em Esparta, não fosse o caso de algum espírito novidadeiro fazer perguntas demais, repetir a conversa aqui e acolá e, indo a coisa adiante, suscitar uma rebelião. Oficialmente, no entanto, ainda conforme Plutarco, o motivo era outro: estrangeiros não deviam ser admitidos em Esparta porque poderiam trazer doenças.
O lado intrigante disso tudo, se as palavras de Plutarco forem dignas de crédito, é que o próprio Licurgo havia sido um peregrino incansável pela região mediterrânica, antes de retornar a Esparta para ditar-lhe as leis. Com o propósito de conhecer como eram governadas as diferentes localidades, viajara muito, fizera observações, tomara nota daquilo que parecia interessante e só então iniciara as reformas que instituíram a legislação que é conhecida sob seu nome. Viajar fora útil, até indispensável para ele. Para gente comum, achou melhor proibir.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 9 de junho de 2022

De que se ocupavam os homens espartanos

A atividade econômica mais importante (e quase a única) em Esparta era a agricultura. Mas não pensem, leitores, que esparciatas punham "a mão na massa". Competia aos hilotas o trabalho na terra, segundo Plutarco (¹), autor de uma biografia de Licurgo (²): "Quanto à agricultura, os escravos [dos espartanos] é que se ocupavam de lavrar o solo e fazer as colheitas. A produção equivalente ao que cabia a cada esparciata era posteriormente entre eles distribuída" (³).
Os hilotas, designados como escravos porque estavam sujeitos a trabalho compulsório, não constituíam, porém, mercadoria que se pudesse comprar ou vender. Talvez a designação de servos fosse mais adequada, porque estavam ligados à terra. Eram descendentes de antigos habitantes da Lacônia - de acordo com Tucídides, descendiam dos aqueus, mais precisamente. Sua condição de vida era péssima, e os espartanos não perdiam oportunidade de torná-la ainda mais miserável.
Não se pode, então, evitar uma pergunta: se a economia de Esparta estava fundamentada na agricultura, e se eram os hilotas que cultivavam o solo, o que é que faziam os homens adultos livres, também chamados esparciatas?
A guerra era o sumo propósito da vida de um esparciata. Portanto, de conformidade com Plutarco, "quando não estavam na guerra, [os homens espartanos] usavam o tempo se exercitando. Para cuidar do corpo, corriam e saltavam. Também praticavam a caça e se reuniam para deliberações, mantendo sempre um comportamento sisudo e respeitoso" (⁴). 
A entrada na vida política da cidade-Estado se fazia quando o jovem guerreiro, tendo demonstrado sua capacidade nos combates, completava trinta anos: "Quanto aos jovens, não lhes era permitido vir ao local de deliberações e conversar em público. Nem mesmo podiam comparecer às assembleias de cidadãos com os homens mais velhos, a não ser que já tivessem trinta anos" (⁵).

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Legislador espartano semilendário.
(3) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Por que jovens espartanos gostavam de ir à guerra

Os meninos que nasciam em Esparta eram considerados filhos do Estado, não uma propriedade dos pais ou extensão da família. Eram educados para que, quando adultos, se tornassem os melhores soldados. No dizer de Plutarco, "desde a infância os meninos espartanos eram ensinados a pensar que não haviam vindo ao mundo para satisfação própria. [Haviam nascido] para buscar o que fosse favorável à sua cidade natal" (¹).
Nada havia de meigo ou delicado na educação dos jovens espartanos. Usavam roupas muito simples (quando usavam!), dormiam em lugares péssimos e a comida, ao menos para nossos padrões, era detestável. Verão e inverno, com extremos de calor e frio, deviam ser suportados com a mesma indiferença. Aprendiam, também, a obedecer sem questionar. Não deviam ter medo, se fosse necessário caminhar rumo à morte.
A despeito de tudo isso (ou, talvez, por causa disso), os rapazes de Esparta não continham o entusiasmo quando lhes era ordenado que fossem para a guerra. Por quê? Continuemos com Plutarco: "Permitia-se, enquanto durava a guerra, que os jovens espartanos deixassem um pouco da vida rústica para a qual eram treinados e que praticavam durante o tempo em que, havendo paz, permaneciam em Esparta. [Durante a guerra] era-lhes consentido que deixassem os cabelos crescerem, além da autorização para o uso das armas e de um manto. Por isso, os jovens ficavam muito entusiasmados nas ocasiões em que saíam da cidade para ir à guerra [...], ansiosos pelo enfrentamento de inimigos." (²)
Entendem agora, meus leitores, por que alguns Estados totalitários, inclusive no Século XX, fizeram de Esparta uma inspiração para suas pretensões?

(1) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Ibid. 


Veja também:

quinta-feira, 31 de março de 2022

Como os meninos eram educados em Esparta

Ao contrário de outras cidades gregas, Esparta nunca se destacou por grandes obras arquitetônicas, nem por belas esculturas e tampouco teve, entre seus cidadãos, um grande número de notáveis na literatura. Com a economia fundamentada na agricultura por meio do trabalho compulsório, aos homens livres era atribuída a administração da cidade-Estado e, mais que isso, o preparo contínuo para a guerra. A educação dos meninos espartanos era, portanto, centralizada na formação de guerreiros fortes e disciplinados, que valorizavam as tradições ancestrais a ponto de não questioná-las. Supunham que somente com a perpetuação dos velhos costumes seria possível assegurar a grandeza da cidade.
Uma vez que as crianças nascidas em Esparta eram consideradas pertencentes ao Estado mais que a seus pais, era às autoridades locais, os anciãos, que competia, em última instância, a decisão sobre a educação dos meninos. De acordo com Plutarco (¹), essa prática começou com Licurgo, o legislador semilendário de Esparta, em cuja biografia escreveu: "Educar os meninos era [para Licurgo] a mais importante ocupação [...]" (²).
O procedimento adotado era deixar que, até os sete anos, ficassem os meninos com os pais e, depois disso, passassem a viver em comunidade, para que recebessem uma educação militar: "Até que completassem sete anos os meninos permaneciam com seus pais, para aprender coisas necessárias aos que nasciam livres, assim como os fundamentos de escrita e leitura. Logo que chegavam aos sete anos eram levados diante de Licurgo, que os encaminhava no aprendizado daquilo que parecia mais apropriado às suas tendências naturais. Licurgo os observava individualmente, para que aprendessem aquilo em que mais poderiam se destacar" (³).
Uma leitura desavisada das palavras de Plutarco pode dar a ideia de que a intenção era encaminhar cada menino para uma profissão diferente, de acordo com suas aptidões. Não, não era bem isso. Faziam exercícios físicos extenuantes, desenvolviam o gosto pelas lutas, eram ensinados a suportar castigos sem choro ou lamentações, aprendiam a tolerar o frio e o calor excessivos, a fome e o cansaço, para que na guerra nada lhes parecesse demasiadamente penoso. Procurava-se descobrir quais dentre os futuros cidadãos tinham virtudes de liderança, e quais os que seriam melhores simplesmente obedecendo. Era dada a eles a oportunidade de administrar a justiça no grupo de sua idade, assim como de tomar decisões semelhantes às que deveriam fazer em relação à cidade quando adultos. Era, pois, uma educação vocacional, mas não no sentido que costumamos aplicar ao termo na atualidade. 
Talvez sejamos tentados a julgar essa educação tão severa e precoce. Seria correto impor tal coisa às crianças? Ou consistiria em gravíssimo erro? Plutarco, o biógrafo de Licurgo, parece tê-la aprovado: "Para Esparta havia muito proveito nesses exercícios, porque aos meninos eram vedados os jogos e brincadeiras da infância que de nada valem e até podem ser prejudiciais, em uma idade em que se é capaz de aprender o que quer que seja, conservando esse conhecimento para a vida toda" (⁴). Não se iludam, leitores: a invenção dos jardins da infância, com todas as suas implicações pedagógicas, era coisa que deveria esperar ainda muitos séculos para acontecer.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae.
(3) Ibid.
(4) Ibid. Todos os trechos de Vitae parallalae aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


Veja também:

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Bebês espartanos

Mais que filhos de seus pais biológicos, os bebês que nasciam em Esparta eram considerados filhos da cidade-Estado. Essa premissa é fundamental para que se compreenda a história horripilante que virá a seguir. Pode também ser levada em conta para que se veja, sem margem a dúvidas, que ideias de eugenia ou "aperfeiçoamento da raça" não nasceram em cérebros do Século XIX, com aplicação em larga escala no Século XX - são muitíssimo mais antigas.
Quando um bebê nascia em Esparta, disse Plutarco (¹), "não se dava nem ao pai e nem à mãe autorização para criá-lo a seu gosto, sendo antes levado pelo pai ao lugar de reunião do Conselho, onde se assentavam os mais idosos [...]" (²). Lá acontecia uma inspeção rigorosa, cujo objetivo era verificar se a criaturinha recém-chegada ao mundo tinha, sob o ponto de vista das leis de Esparta, algum defeito que a incapacitasse para a carreira das armas. Ora, se o bebê era bonito e robusto, bem estava. Mas, se era considerado fraco e doentio, sua vidinha seria bem curta:
"Quando se lhes apresentava [ao Conselho de Anciãos] um bebê feio, franzino ou com alguma deformação dos membros, levavam-no imediatamente ao lugar [...] em que devia ser jogado, que se localizava junto ao monte Taigeto, que era alto e repleto de asperezas, como se fora um rochedo partido. Esse costume, que poderia parecer cruel, era praticado porque, se percebiam que desde o nascimento faltava [aos bebês] as características naturais que os fariam semelhantes aos seus concidadãos [...], não seriam úteis nem a si mesmos e nem à cidade. Para que não se tivesse trabalho em criar algum que depois causasse dano ou infortúnio à cidade, [os espartanos] achavam correto que, logo após o nascimento, fossem mortos os que tivessem defeitos, em lugar de consentir que crescessem e, com o passar do tempo, viessem a ser ainda maiores suas incapacidades." (³)
Será que estou ouvindo um silêncio lacônico? 
O menino que passava pela inspeção dos anciãos e era aprovado voltava para casa nos braços do pai, era banhado em vinho (um costume espartano) e criado pela família até que tivesse sete anos. Nesse ponto, a cidade-Estado assumia a sua educação, para fazer dele um guerreiro temido em toda a Grécia. 

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Dez fatos interessantes sobre a Guerra do Peloponeso

A chamada "Guerra do Peloponeso", entre 431 e 404 a.C., opôs, é verdade, as cidades-Estado de Atenas - finalmente derrotada - e Esparta. Mas foi muito mais que isso. Aqui estão alguns fatos interessantes sobre esse longo confronto:

1. A causa da guerra seria simplesmente inveja. Essa era a opinião de Tucídides, autor de História da Guerra do Peloponeso, que era ateniense e lutou no conflito, sendo, portanto, dono de um ponto de vista que não pode ser considerado exatamente imparcial: tendo liderado a Grécia na guerra contra os persas, Atenas se tornara senhora de uma poderosa frota e construíra um império, que Esparta e outras cidades invejavam.

2. Não só espartanos e atenienses se envolveram na guerra. Ao longo do conflito, fenícios, persas e habitantes do sul da Itália participaram das ações. Os gregos, que com unhas e dentes haviam defendido sua liberdade diante do ataque do Império Persa, chegaram a negociar com os persas para obter ajuda na manutenção das tropas mobilizadas.

3. Nas forças espartanas, não só esparciatas entraram na luta: hilotas e ex-hilotas, que haviam sido libertados, participaram maciçamente em muitos combates.

4. A guerra, que se pretendia rápida, foi se arrastando, ano após ano. Consultar oráculos era uma prática constante entre os gregos, e alguns teriam previsto que duraria três vezes nove anos.

5. A prática de alianças ofensivas e defensivas entre cidades conduziu um número crescente de participantes aos campos de batalha, porque quando uma localidade era atacada, suas aliadas corriam a socorrê-la, já que tinham interesses em comum.

6. Gregos eram apaixonados por ouvir grandes oradores, que tiveram muita importância durante a guerra, por sua capacidade de convencer os cidadãos reunidos em assembleia quanto à validade de seus pontos de vista.
  
7. Devastar as terras cultivadas por cidades inimigas foi uma prática usual durante toda a guerra; o saque de tudo o que podia ter utilidade foi também muito frequente. Nem é preciso dizer que esses procedimentos contribuíram muitíssimo para enfraquecer a Grécia diante de seus vizinhos.

8. Fogueiras, à noite, eram usadas para sinalização e envio de mensagens entre vários corpos de exército que se achavam espalhados em diferentes localidades.

9. No início da guerra, Atenas era temida por sua força naval. Ao longo dos anos de conflito, seus oponentes aprenderam a construir embarcações melhores e adquiriram habilidade em combates no mar, de modo que chegaram a suplantar as forças atenienses até nesse meio.
.
10. A guerra foi algumas vezes interrompida por períodos de trégua formal. As alianças entre cidades, bem como suas consequências, foram importantes para a ruptura da paz e o reinício das hostilidades.


Veja também:

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Licurgo não deixou leis escritas

Dentre as grandes conquistas da Antiguidade, a existência de leis escritas tem muita importância. Por mais estranhas que nos pareçam algumas regras estipuladas no Código de Hamurabi, na Lei de Moisés ou na Lei das Doze Tábuas, elas eram garantia contra muitas arbitrariedades, ainda que soem demasiado severas à nossa sensibilidade de ocidentais do Século XXI.
Esparta, contudo, não tinha leis escritas. Mas não foi Licurgo seu legislador? Afirmava-se que sim, que ditara leis rígidas e que, numa estratégia para impedir que seus regulamentos fossem abandonados, cometera suicídio. De acordo com Plutarco, "Licurgo não permitiu que se escrevessem as leis que estabeleceu na reforma feita em Esparta [...], [proibindo] que se escrevessem em tábuas de metal ou outro material qualquer, mas que fossem escritas e esculpidas na alma dos homens" (¹).
Percebem nisso, leitores, uma das razões para o questionamento da própria existência de Licurgo? (²) Espartanos, não obstante, conservadores como eram, seguiam rigorosamente as leis a ele atribuídas, ainda que com algumas inevitáveis modificações no correr do tempo. Não deixa de ser digno de nota que, à medida que as leis antigas foram sendo abandonadas, a corrupção se insinuou entre a aristocracia e Esparta perdeu muito de sua força.

(1) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Não é prova irrefutável, porém, de que não tenha existido.


Veja também:

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Como espartanos sepultavam os mortos

Esparta foi, na Antiguidade, uma cidade-Estado em que havia regras estritas para quase todos os aspectos da vida. Consequentemente, a morte e os rituais que a cercavam estavam, também, submetidos às leis atribuídas a Licurgo
Além da mortalidade corriqueira entre os antigos - muitas crianças morriam com pouco tempo de vida, a mortalidade materna era igualmente alta, eram desconhecidas as causas da maioria das doenças e não havia tratamentos eficazes para elas - espartanos, treinados para a guerra e tendo nela a razão de ser da existência, deviam saber que, em um combate, a possibilidade de defrontar a morte era significativamente maior do que ficando em casa e cuidando calmamente da lavoura. Para esparciatas, contudo, essa não era uma opção. As regras relativas aos mortos deviam, pois, em tudo combinar com o estilo de vida dos vivos.

1. Em Esparta era permitido sepultar os mortos dentro da cidade


De acordo com Plutarco (¹), "afugentando as superstições, Licurgo permitiu que aqueles que desejassem poderiam sepultar os mortos dentro da cidade, sendo também admitida a construção de túmulos e monumentos junto aos templos [dos deuses]" (²). Essa disposição atendia a um propósito triplo:
    • A proximidade dos túmulos serviria para lembrar aos jovens as virtudes dos antepassados que deveriam ser imitadas;
    • Seria afastado o temor de alguma contaminação por tocar os mortos, tão prejudicial na guerra;
    • Os jovens perderiam o medo da própria morte, igualmente prejudicial durante os combates que deveriam enfrentar.


2. Era proibido enterrar os mortos com quaisquer objetos


Em muitos lugares da Grécia era tradição colocar uma moeda na boca ou entre os dedos de um morto, para que tivesse com que pagar o transporte até o submundo, ou mundo dos mortos. Segundo Plutarco, ao proibir essa prática entre os espartanos, Licurgo "pretendia afastar a superstição de colocar joias e outros objetos valiosos com os mortos, aos quais não fariam bem algum, mas apenas dano aos vivos" (³).

3. Era permitido colocar uma coroa de folhas de oliveira no corpo a ser sepultado


O ritual praticado em um sepultamento era muito simples: "Os corpos deviam ser envolvidos em um tecido de cor púrpura e coroados com folhas de oliveira. Em seguida, eram enterrados sem outras cerimônias. Não era permitido que se escrevesse sequer o nome do morto na sepultura, a não ser no caso de homens e mulheres [...] que houvessem morrido na guerra" (⁴). Havia, portanto, certo estímulo à morte em combate, visto que era desse modo que alguém se faria lembrado de forma mais nítida por seus concidadãos.

4. A demonstração pública de tristeza por um morto não podia ir além de onze dias


Em conformidade com o que Plutarco escreveu na biografia de Licurgo, "apenas onze dias de choro e lamentação [por um morto] eram permitidos; no duodécimo dia se faziam sacrifícios em honra de Deméter, e desde então, deviam cessar todas as demonstrações públicas de tristeza [...]" (⁵).

Por séculos as leis atribuídas a Licurgo foram estritamente obedecidas em Esparta e, ao que parece, os esparciatas tinham delas muito orgulho. Seriam felizes com elas? Bem, é difícil dizer, mas é fato que, finalmente, foram abandonadas. Talvez isso signifique alguma coisa.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.
(4) Ibid. 
(5) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A reforma agrária de Licurgo

Se Plutarco estiver correto, Licurgo foi responsável por uma reforma agrária em Esparta. Percebendo que havia grande desigualdade entre seus concidadãos, o legislador teria decidido que as terras cultiváveis deviam ser redistribuídas, para assegurar que a ninguém faltasse o sustento.
Mesmo enfrentando oposição - quem esperaria outra coisa? - Licurgo decidiu que cada um teria uma extensão de terra que permitisse a própria manutenção e da família, nem mais e nem menos. Indo adiante, redistribuiu, também, o espaço urbano. Não foi pequena a tarefa.
Tempos depois, de acordo com Plutarco, por ocasião da ceifa do trigo, Licurgo teria dito: "Toda a Lacônia está linda, assemelhando-se à terra de muitos irmãos, repartida entre eles em partes iguais." (*)
Ainda que a liderança atribuída a Licurgo não possa ser definitivamente classificada como fato real ou como lenda, seria esse um exemplo acabado de justiça social? Nem tanto, meus leitores. Apenas os esparciatas foram incluídos no projeto de reforma agrária. Periecos, mesmo livres, mas sem direitos políticos, ficaram fora do jogo da igualdade, e, quanto aos hilotas, nem é preciso dizer: oprimidos e explorados, eram vigiados continuamente para que trabalhassem nas terras, sempre sob a suspeita de que poderiam estar tramando uma revolta.

(*) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Esparta e Atenas

Antigamente era comum, como recurso didático nas escolas, que certas questões fossem propostas para debate durante as aulas. Como muitos alunos se destinavam à carreira das leis, a capacidade argumentativa era incentivada. Hoje proponho a vocês, leitores, uma questão desse tipo: Atenas ou Esparta, qual das duas cidades gregas da Antiguidade foi maior?
É claro que não há nenhuma resposta óbvia. Tucídides, que era ateniense e viveu no Século V a.C., logo no começo de sua monumental História da Guerra do Peloponeso chegou a conjecturar que, se em algum tempo no futuro, Esparta e Atenas fossem abandonadas, e delas não restasse nada além de ruínas, um observador que a elas chegasse teria uma visão provavelmente distorcida quanto à sua importância em pleno apogeu (¹).
Esparta, construída à moda das antigas povoações gregas contemporâneas à Guerra de Troia (segundo Tucídides!), com templos e edifícios públicos pouco suntuosos, pareceria, talvez, uma cidade inexpressiva. No entanto, ela foi extremamente poderosa, ocupou grande parte do território do Peloponeso e, se considerado o controle que exercia sobre os vizinhos, pode-se afirmar, sem temor de erro, que dominou toda a região. 
Quanto a Atenas, um visitante do futuro (repito, são ideias de Tucídides) imaginaria ter sido muito maior e mais poderosa do que de fato foi, tal a imponência de seus edifícios. Acham que Tucídides se enganou, leitores? 
Caio Salústio Crispo, em uma passagem de Catilinae coniuratio, afirmou: "As façanhas dos atenienses foram grandes, segundo avalio, verdadeiramente magníficas, mas não ao ponto que geralmente se supõe; como tiveram escritores geniais, os atenienses têm suas ações celebradas em todo o mundo (²)." Os espartanos, por seu turno, "ao contrário dos atenienses, não dedicavam toda a afeição ao cultivo das letras, somente estudavam o suficiente para que não fossem considerados ignorantes e para que tivessem capacidade de administrar os assuntos do governo civil e da guerra" (³), disse Plutarco, ao traçar a biografia de Licurgo
A que conclusão chegam vocês, leitores? À parte dos grandes edifícios, dos monumentos, das vitórias nos campos de batalha, não lhes parece que a cultura do espírito já é, por si mesma, um indício de grandeza? Quem ousaria desprezar a influência exercida, até nossos dias, pelos pensadores atenienses ou que em Atenas desenvolveram uma linha filosófica? Escrever, e escrever bem,  falar com clareza e capacidade de persuasão, não são coisas insignificantes (⁴), principalmente dentro de uma democracia. Lamento por quem pensa o contrário.

(1) Cf. TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso, Livro I, § 10. 
(2) SALÚSTIO. Catilinae coniuratio. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Para bem e para mal.


Veja também:

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Atletas gregos da Antiguidade não usavam uniformes esportivos

Em época de grandes competições, fabricantes de material esportivo fazem todo o esforço para que atletas de renome usem uniformes com sua marca. Supondo que esses competidores obtenham sucesso, provavelmente seus fãs irão imitá-los, usando roupas semelhantes. Se isso é identificação com uma imagem vitoriosa ou apenas magro substituto para um desempenho atlético não tão notável, não vem ao caso. Os empresários do setor sabem que patrocinar campeões é um bom negócio.
Não era assim na Grécia Antiga, não só porque as grandes empresas do ramo esportivo ainda teriam de esperar milênios para vir à existência, como porque atletas gregos não usavam uniformes.  Melhor dizendo, não usavam roupa alguma durante as competições. Qual a razão para essa falta de compostura (¹)?
Pugilista da Antiguidade (³)
De acordo com Tucídides, ateniense do Século V a.C. que não só presenciou como lutou na Guerra do Peloponeso, os donos da ideia de competir com os mesmos trajes com que haviam nascido foram os espartanos, que tinham o costume de passar óleo no corpo antes de treinar ou disputar uma prova. Contudo, ainda conforme Tucídides, espartanos somente haviam começado a competir nus há pouco tempo, porque o costume anterior, vigente em tempos antigos, era que, nos jogos olímpicos, atletas usassem ao menos alguma roupa ao redor da cintura (²).
É provável que espartanos e, a partir deles, outros atletas, passassem óleo no corpo antes das lutas, para evitar que oponentes tivessem facilidade em agarrá-los. Também se tem dito que o ideal estético grego, revelado em muitas esculturas que sobreviveram até nossos dias, mostra que a perfeição física era um atributo muito valorizado e, portanto, não haveria razão para ocultar, sob roupas, o corpo dos que competiam nos jogos. Vale notar, também, que nem mesmo nos locais de treino era comum que atletas usassem algum tipo de vestuário.
Quanto aos espartanos, pela educação que recebiam desde a infância, com o objetivo de torná-los excelentes soldados sob quaisquer circunstâncias, estavam acostumados a usar pouca roupa, mesmo no dia a dia. Foi o que disse Plutarco, ao traçar a biografia de Licurgo (⁴):
"Depois da idade de doze anos, [os meninos espartanos] vestiam-se apenas com uma túnica simples que devia durar um ano, e jamais usavam roupas dispendiosas. Seu corpo era bronzeado e endurecido pela exposição ao ar, ao frio, ao calor e às tarefas penosas que deviam realizar. Não eram estimulados a hábitos refinados, não se banhavam com frequência e não se perfumavam [...], embora para o banho tivessem datas definidas a cada ano [...]." (⁵)
Diante disso, meus leitores, não será injusto pensar que suportar o aroma resultante da presença dos atletas espartanos nas competições já era uma proeza homérica. Que surpresa haveria em que tantas vezes saíssem vencedores?

(1) Falta de compostura para nossos critérios de ocidentais do Século XXI.
(2) Cf. TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso, Livro I, § 6.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 85.
(4) Legislador espartano semilendário.
(5) PLUTARCO. Vitae parallelaeO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Infanticídios na Roma Antiga

Um indicativo do grau de civilização de um povo é o modo como trata aqueles, dentre a população, que são mais frágeis ou têm alguma deficiência, de modo a prestar-lhes a assistência necessária, oferecendo oportunidades de educação e desenvolvimento pessoal. Mas saibam, leitores, que nem sempre foi assim. 
Façamos um breve passeio pela Antiguidade greco-romana, mas antes, preparem os nervos. Em Esparta, todos sabem, um bebê, tão logo nascia, era apresentado pelo pai à Gerúsia (¹). Se fosse julgado saudável, ficava com os pais, que deveriam cuidar dele até que tivesse sete anos.  A partir dessa idade, toda criança era entregue aos cuidados do Estado, que lhe ministrava uma educação verdadeiramente espartana (e não vai aqui qualquer redundância). Contudo, se o bebê fosse frágil ou apresentasse alguma deficiência, deveria ser imediatamente jogado no abismo de Taigeto. 
Busto de menino romano desconhecido (⁴)
Isso assusta? Passemos a Roma. A Lei das Doze Tábuas (²) era peremptória: "Um bebê severamente deformado deve ser morto de imediato". Notem, meus leitores, que, neste caso, não havia crime em tirar a vida de uma criança - conservar vivo um bebê reputado pouco saudável é que seria desobediência à lei romana. E, se isso parece coisa de tempos incultos, vamos ao Século I, quando Sêneca, filósofo estoico e um dos sujeitos mais instruídos de seu tempo (³), escreveu, justificando o proceder de seus concidadãos: "Matamos cães raivosos e touros que não conseguimos domar, degolamos ovelhas doentes para que sua enfermidade não se espalhe por todo o rebanho, asfixiamos recém-nascidos deformados e afogamos crianças fracas e defeituosas, não por ira, mas racionalmente, para apartar o que pode trazer doença àquilo que é saudável" (⁵). Percebam, leitores, que, nesta passagem, Sêneca teve ainda o cuidado (não intencional) de revelar, para o futuro, a informação relativa aos métodos de infanticídio que eram usuais em seus dias. Tudo racionalmente, como ele mesmo frisou.
É de congelar o sangue. Pergunto, apenas, como é que cronologicamente tão perto de nós, ideias semelhantes ainda encontraram terreno fértil para germinar. Digo isso, porém, sem a mínima convicção de que ideologias análogas tenham desaparecido por completo.

(1) Um conselho composto pelos dois reis e por vinte e oito anciãos cujo mandato era vitalício.
(2) Foram escritas em 450 a.C.; antes disso, as leis de Roma eram conservadas em segredo pelos pontífices (!!!), resultando, portanto, em inúmeros abusos dos patrícios contra os plebeus. As leis originais se perderam, de modo que apenas se sabe delas aquilo que foi citado em obras literárias da Antiguidade.
(3) Nunca é demais lembrar que foi professor de Nero.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 235. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) De ira. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 10 de maio de 2018

Quanto durava a gestação de um bebê espartano

Não inventei esta história, foi Heródoto (¹) quem a contou. Havia um espartano de nome Demarato, filho de Aríston, diarca entre os lacedemônios. Morto o pai, surgiu na cidade uma disputa quanto à verdadeira paternidade de Demarato. A razão para a dúvida era esta: na ocasião em que Aríston, estando em reunião com os éforos, recebera a notícia de que sua terceira mulher acabara de trazer ao mundo um menino, fizera com os dedos algumas contas e, espantado, afirmara: "Por Zeus, esse menino não pode ser meu filho!..."
Ora, o jovem Demarato, angustiado com a fofoca de que era alvo, foi ter uma conversa séria com a mãe, exigindo dela toda a verdade quanto ao seu nascimento (²). Veio, portanto, esta claríssima explicação:
"Os que dizem que és ilegítimo se apoiam na afirmação de teu pai diante de vários homens, de que não podias ser seu filho, pois ainda não se haviam passado dez meses; ele, porém, disse isso porque desconhecia o que de fato acontece, porque algumas mulheres dão à luz depois de nove, outras depois de sete meses, nem sempre esperando que se completem dez, e eu mesma te trouxe ao mundo com sete meses. Aríston [teu pai], pouco depois, percebeu seu desconhecimento do assunto." (³)
A plateia tem licença para rir! E não venham dizer que Heródoto talvez estivesse aproveitando a ocasião para zombar dos espartanos. Vejam, agora, o que escreveu Plínio (⁴), que é considerado o grande enciclopedista da Antiguidade e um dos maiores gênios do mundo romano:
"Os animais têm tempo certo para gerar e parir filhotes, mas os humanos geram filhos o ano todo, e a gestação é variável, excedendo em alguns casos os seis meses, ou sete, ou quase onze [...]." (⁵)
Poderíamos, leitores, lembrar que a aquisição de conhecimentos na Antiguidade era fruto da observação (quase sempre), mas sem a sistematização de um método verdadeiramente científico, ao menos para nossos padrões. Também seria possível alegar a segregação das mulheres da época como justificativa para o desconhecimento masculino quanto àquilo que a elas se relacionava, mas isso não explica satisfatoriamente por que as próprias mulheres achariam normal que uma gestação durasse dez ou onze meses. Finalmente, esses erros, que hoje soam grotescos, não devem ser atribuídos a pequenas variações existentes entre calendários. O saber era e é dinâmico. Abandonar erros do passado, mesmo quando provenientes de fontes respeitáveis, foi essencial para que a humanidade progredisse. Como se sabe, nada disso se fez sem despertar severa oposição.

(1) Século V a.C.
(2) Além do tempo de gestação, a própria concepção de Demarato estaria cercada de mistérios. Perguntem a Heródoto...
(3) Heródoto, Histórias
(4) 23 - 79 d.C.
(5) Naturalis Historia, Livro VII.
Os trechos citados de Histórias de Heródoto e de Naturalis Historia de Plínio foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Nem todo atleta grego era candidato a herói

Tentativa de reconstituição de como seria uma arena para treinamento de atletas
e competições em Esparta (¹)

Para os atletas que competiam em Olímpia, ou mesmo nos outros jogos que eram celebrados na Grécia, o importante era vencer. Embora os gregos acreditassem que a cada certame os deuses se intrometiam para que a vitória fosse de seus favoritos, nem por isso os competidores deixavam de treinar com afinco e, durante as provas, havia até quem se dispusesse a morrer na luta, de preferência a sair derrotado.
Isso não quer dizer que a totalidade dos atletas gregos era composta de candidatos a heróis. Havia, também, gente que sonhava com a fama, mas cujos triunfos não iam muito além da imaginação. Sabemos que era assim por uma comparação feita por Políbio de Megalópolis em sua História, na qual é oferecida ao leitor a possibilidade de entrever o fato de que, mesmo sob o suposto olhar dos deuses, havia competidores que não estavam decididos a dar o sangue pela vitória:
"Não tem esta reflexão outro propósito senão mostrar que há aqueles que, à semelhança dos maus atletas no estádio, param de correr e abandonam seu objetivo quando próximos à chegada, enquanto outros, em idêntica situação, obtêm vantagem frente aos demais competidores." (²)
No esporte como na vida, na Antiguidade ou no Século XXI. Concordam, leitores?

(1) HALL, Jennie. Life in Ancient Greece. London: George G. Harrap & Company, 1913. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) O trecho citado da História de Políbio é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

sexta-feira, 4 de março de 2016

Licurgo e as leis de Esparta

Os antigos espartanos diziam que Licurgo era seu legislador, ou seja, o homem que havia criado as severas leis sob as quais Esparta era governada. Militarismo, domínio absoluto por parte da elite que detinha a propriedade da terra, educação rígida da juventude e repressão aos hilotas - com alguma licença, poderíamos dizer que lá vigorava um regime totalitário à moda da Antiguidade. E, se acreditássemos pura e simplesmente na tradição, tudo isso era responsabilidade de Licurgo.
O problema é que não se conhece grande coisa sobre essa ilustre personagem, e há até quem duvide de sua existência (o que não deveria surpreender, já que mesmo Homero é, nesse sentido, questionado por não poucos especialistas). Não se conhecem documentos escritos pelo próprio Licurgo, e toda a informação de que se dispõe é fruto da tradição registrada por autores que viveram muito depois da época em que se supõe que ele possa ter existido.
Entre os historiadores antigos que falaram sobre o legislador espartano está Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos no segundo século antes de Cristo. Pois bem, de acordo com Políbio, Licurgo era um hábil usuário das crenças religiosas populares, já que buscava sempre referendar suas decisões e ideias como sendo originárias do oráculo de Delfos. Esperto, ele, não?
Deixando de lado as questões - quando, onde e se - sobre Licurgo, e assumindo que os espartanos eram muito obedientes (por bem ou por mal) às suas leis, devemos entender que o uso político das ideias religiosas em voga só era possível porque as pessoas de fato acreditavam nelas, e isso não se restringia aos pouco refinados membros da elite de Esparta. Foi também Políbio quem registrou a informação de que Cipião (conhecido como "Africano", militar romano, cuja existência está muito bem documentada), exatamente antes de atacar Cartagena, durante as Guerras Púnicas, serviu-se da religiosidade de seus comandados para incitá-los a atos de bravura. Em discurso a eles dirigido, prometeu que daria coroas de ouro àqueles que fossem os primeiros a escalar a muralha da cidade, além de outros prêmios que os generais costumavam oferecer; mas, para garantir a coragem das tropas, afirmou que, em sonhos, o deus Netuno lhe aparecera, assegurando seu favor aos romanos durante o combate. Coisas da Antiguidade, logo se vê.


Veja também:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O laconismo dos espartanos

"...a diplomacia é a arte de gastar palavras, perder tempo, estragar papel, por meio de discussões inúteis, delongas e circunlocuções desnecessárias e prejudiciais."
                                          Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1865

Esparta tornou-se famosa pelo militarismo, pelo estilo de vida frugal de seus habitantes, pela educação severa ministrada à juventude. Mas também ficou conhecida pelo hábito que os espartanos eram levados a adquirir, desde a infância, de falar apenas o estritamente necessário. Esse costume recebeu o nome de "laconismo". Explica-se: Esparta ficava na Lacônia, que era parte do Peloponeso, que era parte da Antiga Grécia. 
Consta que Xerxes, soberano persa, enviou um embaixador aos espartanos, exigindo deles que lhe entregassem "água e terra", uma expressão que, na prática, equivalia a dizer: "Rendam-se, espartanos! Quero tudo, sem condições ou reservas". 
De acordo com Políbio de Megalópolis, ao invés de discutir com o diplomata (como fariam quase todos os povos, até como estratégia para ganhar tempo), os gregos de Esparta, que nunca foram paradigma de sutileza nas relações com estrangeiros, limitaram-se a jogar o embaixador dentro de um poço e, depois, cobriram-no de terra, dizendo ao sujeito que fosse relatar a Xerxes que já havia conseguido o que lhe mandara exigir.
Laconismo às últimas consequências.


Veja também: